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MISTÉRIO NA SERRA

 
   As luzes no céu me assustaram.
   Era noite alta, perto das onze horas.
   Fora viajar até Água Boa, MT, tentando achar um representante para meus produtos, porcelana; então aproveitei e fui até uma aldeia de bugres. (Para quem não sabe, índios.) Pois são eles os melhores fabricantes de certas peças, difíceis de se achar por aí.
   Então eu queria fazer, tipo uma exclusividade dos seus trabalhos artesanais. Tudo acertado, e já levando a mercadoria, não sem antes regatear um bom tempo. (ò gente difícil de negociar).
   Eu me encontrava entre Barra do Garças, e Nova Xavantina, então próximo da serra do Roncador, acho que era esse o nome daquelas serras que circundavam a estrada, eu vi aquelas luzes.
    Primeiro pensei que fosse um relâmpago, mas não tinha sinal de chuva. De repente, mais luzes, bolas de fogo é o que na verdade mais pareciam. Assustei-me, pois teve uma dessas bolas que, (acho, não medi) deveria ter passado a menos de cinqüenta metros do meu carro; brequei o carro, fechei os vidros; o rádio parou de tocar, nem um ruído, nem estática, nada, nada.
   O carro então, sozinho, morreu.
  Os faróis em seguida se apagaram. Entrei em estado de pânico, quase incontrolável. Também, imagine só, eu, sozinho, num mundão daquele, de noite, mato de tudo quanto é lado, e carro por lá era coisa de festa; comecei a lembrar dos casos que os índios contaram das pessoas que as onças comiam e não deixavam nenhum sinal.
   Achei melhor não sair do carro.
   Enquanto isso aquelas luzes bailavam em cima da serra.
   Parecia um balé de vaga-lumes. Digo vaga-lumes devido a distância em que eu estava delas. Uns dois ou Três quilômetros, talvez mais.
   A bola de luz que passou perto de mim deveria ter aproximadamente de três a cinco metros de circunferência.
    Continuei a presenciar aquele estranho balé, ao mesmo tempo que girava, desesperadamente, a chave de ignição de um lado para outro, tentando fazer funcionar a camioneta.
    Então inesperadamente, elas sumiram. como num passe de mágica.
     Fiquei ainda mais assustado.
     Virei a chave com força e o carro respondeu.
     Acendi os faróis e então eu vi uma coisa negra, que reluzia á luz da lua e dos meus faróis, na estrada, cem ou duzentos metros a minha frente.
      Saltei do carro e corri pela estrada o mais rápido que pude.
      Minhas pernas nunca me foram tão úteis.
      Talvez devesse ter ficado lá. Uma porra! Não sou maluco.Sou covarde, mas tô vivo. Pensei.
       
    Acho que percorri uns dez ou doze quilômetros em menos de quinze minutos.Nunca pensei que fosse agüentar. Esses minutos pareciam uma eternidade. Eu sentia meu coração disparar. Meus pulmões pareciam que iam explodir. Minhas pernas estavam pesadas.

    Não me virei um só instante. Parecia que eles estavam atrás de mim. Ouvira tanto falarem deles, na região.
    Caí umas duas ou três vezes, me levantava sem olhar para trás e corria. Corria. Corria.
    Minha cabeça doía, minha vista estava já se escurecendo, já não enxergava quase nada diante de mim, ainda que a luz da lua cheia, na noite iluminava minha corrida desesperada.
    E quando as forças estavam se acabando, avistei uma casa branca na beira da estrada. Me perguntem porque não sai da estrada? Porque lá existem muitos banhados, com jacarés, sucuris, e sabe-se lá o que mais, e as fazendas, que rodeiam as estradas, tem sua sede quase no fim desta, para que quem chegue vislumbre todo o potencial dos fazendeiros. Um jeito de se valorizarem ainda mais, um perante o outro.
      O morador da casa, seu Antonio, me recebeu bem.
      Disse que acordara ao ouvir o barulho das minhas passadas na estrada.
      Contei a ele o ocorrido e ele riu.
      Perguntou-me então se na aldeia eu fumara com o pessoal, ou comera, da comida deles.
      Não entendi direito o que ele queria me disser com isso.
      Explicou-me que os índios usam muitos alucinógenos, ás vezes pela cultura e tradição, outras vezes para matar a fome, consomem frutas que contém certos elementos dessa natureza.
     Lembrei-me do Piquitui, acho que era esse o nome, que um indiozinho me dera, e ensinara a comer. Era uma fruta parecida coma a manga, porém em seu interior havia duas castanhas, o gosto era ótimo, meio adocicado, quase como a laranja, sem suco.
     Quando lhe falei sobre essa fruta, Antonio sorriu e me falou que provavelmente eu tivera uma alucinação causada pela fruta.
      Disse-me para dormir aquela noite ali, e que pela manhã ia comigo até onde eu havia deixado o carro.
Deu-me um copo de leite, puro leite de vaca, sem essas coisas artificiais de hoje em dia. Sentia a gordura e textura do leite nos meus lábios, bem mais grosso, sem água.
      No começo estranhei, não estava acostumado. Antonio e D. Ester, que acordara quando começamos a conversar, sorriam diante da minha situação.
      Logo fomos dormir.
      Dormi como uma pedra.
      Acordei com Antonio me cutucando.
     Estava de chapéu e usava esporas sobre as botas. Encilhou um cavalo para mim e me disse que não se preocupasse, o cavalo em que eu ia montar era manso.

    Eu fiquei meio receoso, afinal fazia uns dez anos que não montava mais. O sol ainda não havia aparecido. No céu ainda se viam umas estrelas. Havia rasgos esbranquiçados no céu, e um colorido meio amarelado, no horizonte. ia ser um belo dia, aquele.
     Avançamos a cavalo.
     Antonio ia calado, não fazia perguntas, nem falava nada. Parecia apressado. avistei a camioneta.
     Estava lá, intacta. Difícil isso em Florianópolis, no Rio então nem se fala. A porta estava aberta, igual a deixara, quando sai, na correria.
     Bati a chave e o motor funcionou.
     Deu um berro de alegria.
     Mostrei ao Antonio aonde o “bicho” estivera na minha frente. Não vimos marca alguma na areia. Areia sim, porque lá as estradas, muitas, ainda não tem asfalto.
    Me despedi do Antonio, agradecendo tudo que fizera por mim. Disse a ele que queria lhe dar uma lembrança.
    Ele disse que não precisava, com a mesma simplicidade com que me acudira na noite anterior. Uma coisa de admirar nesse povo do interior do nosso país, é a sua simplicidade e honestidade. É de tirar o chapéu.
    Insisti e subi na carroceria da F1000.
    Puxei a lona e pedia a ele para subir também. Meio relutante ele subiu. Disse que precisava ir logo pra casa, tirar leite, ainda antes do sol nascer.
     Pegou uma peça muito bonita.
     Eu não tinha visto ninguém colocar aquela peça ali. Era um jarra com um desenho esquisito, parecia um triângulo com um anel em sua volta, cheio de pedrinhas.
     Antonio voltou para sua casa antes do sol aparecer por completo e eu cheguei em Barra do Garças, perto do meio-dia. Ainda viajaria muito mais até chegar em Florianópolis.
    Parei em um restaurante, na saída da cidade, para almoçar.
    Estava ouvindo a televisão, quando vi, na mesa ao lado, sobre uma cadeira, uma manchete que dizia.
    “Eles chegaram. Estão conosco”. Primeira página.
    Peguei o jornal e comecei a lê-lo. Era um jornal local. Tinha uma descrição de um Disco Voador que várias pessoas afirmaram ver e uma dessas pessoas fez um desenho. Era um desenho idêntico ao que estava na jarra que o Antonio levara.
     Aquilo me intrigou. Não sei dizer o porquê. Despertou em mim o espírito de aventura que acho, sempre tive.
     Aluguei um quarto em um hotelzinho, descarreguei minhas peças. Paguei uma semana e voltei para a aldeia.
Não me lembrei de parar na casa do Antonio.
     Estava cansado e queria matar logo minha curiosidade.
     Dois dias depois cheguei em Água Boa.
     Fui bem recebido na aldeia. Lá estava também o pessoal da FUNAI. Uma dentista e um médico faziam uma inspeção nos bugres. Conversando com a Dentista, Dr. Sônia, esta se mostrou preocupada com a situação dos “pobres indígenas”, conforme ela os chamou. Disse que fazia quase três anos, desde a última vez que ali estivera, ela e o médico, este que agora se via aplicando injeções em duas velhas Índias, de tetas a mostra, e sem um dente. Usavam uma saia sobre as pernas, mas na parte superior, não usavam nada.
      Não disse a ninguém o real motivo da minha volta. Eu queria falar com o cacique Iru, e este tinha ido a cidade.
      Fui até onde os mais jovens da tribo retiravam a argila. Era um trabalho todo manual.Retiravam o barro em latas e levavam até, não sei como chamava, era um moinho de barro, se se pode chamar assim. Uma espécie de panela gigante, melhor dizendo, para entender o que digo, uma pipoqueira; onde jogavam o barro, e um animal, um burro, movimentava uma pesada, vamos dizer assim, colher, que ia mexendo e triturando o barro, tentando dar a ele a consistência ideal.
      Dali eles o retiravam para dar forma e depois o levavam a um forno de lenha. Era um forno grande, onde cabia, tranqüilamente, umas quatro pessoas.
      Esse forno tinha algo como dois andares.
      Na parte inferior, quase uma gruta, cavada no solo, jogavam a lenha e na parte superior colocavam a argila, já na forma adequada, para cozer. Secar.
      No final da tarde Iru chegou.
      Fez que não me viu. Ignorou-me.
      Era seu jeito de negociar. Pensara que voltara para comprar mais. Talvez, mas não era o principal motivo meu.
      Á noite eu o procurei na maloca.
      Estava assistindo TV, junto a outros da tribo.
      O chamei a um lado e contei o que me havia acontecido quando ali estivera da outra vez.
     Iru fez cara de sério quando lhe falei de Antonio e D. Ester. Disse-me que ninguém na tribo podia fazer aquele desenho, igual ao que desenhei na terra, que ele rapidamente passou o pé em cima apagando.
      Pediu-me para não mais aparecer na aldeia, a não ser quando convidado. Estranhei sua atitude. Ele sempre fora bem racional.
    Ele ficou até meio furioso, acho eu, porque não entendia suas palavras, que dirigia aos outros que estavam na maloca, mas vi seus rostos e suas expressões, e esses detalhes me diziam que era hora de me mandar.
     Saí dali disposto a ir até a casa de Antonio. Quem sabe ele poderia me falar mais sobre aquilo.
      Dirigi a noite toda e de manhã achei que tinha encontrado a casa de Antonio.
      O local era aquele, eu lembrava perfeitamente bem, porém não havia casa alguma ali.
      Era só mais um pasto de uma das tantas fazendas.
      Entrei no carro e fui até onde havia deixado a camioneta, naquela noite. Mentalmente refiz o calculo da distância que havia percorrido correndo e novamente me deparei em um campo de fazenda.
       Não era possível!
       O que tinha acontecido?
       Ninguém some assim, com casa e tudo em dois dias.
       Dirigi mais um pouco e à frente encontrei um bar, que também era um posto de venda de passagem de ônibus.
       Uma senhora gorda estava por detrás do balcão.
       Ao me aproximar ela veio me atender sorrindo.
       Pedi uma cerveja.
       Tomei um bom gole, e comecei a puxar conversa com ela. Me disse que já vira luzes no campo e que era apenas fogo fátuo, uma espécie de gás do pântano.
      Isso foi a deixa para lhe contar minha historia.
Quando lhe falei de Antonio ela sorriu e me disse que ali não havia casa alguma e que a mais de cinqüenta anos, ninguém morava entre Água Boa e até seu bar. contou-me então que vários viajantes e caminhoneiros, já haviam sido ajudados por este casal, que ninguém conhecia, e que sempre era visto na noite em que as luzes apareciam.
      Até hoje não sei se meu carro pifou, e eles me ajudaram ou se foram eles que provocaram aquilo tudo.
      Recentemente descobri que aquele símbolo, que Iru apagou, simbolizava uma passagem entre a vida e a morte, para os índios.

Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 05/03/2006
Reeditado em 05/03/2006
Código do texto: T119207

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Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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