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Dívidas

Quarta-feira, 6 de Abril de 2123

Marrie Chetter estava enrascada. No auge dos seus vinte e cinco anos, sem emprego, sem dinheiro, sem família... Ela sabia que tinha família, mas eles seriam o último lugar para pedir refúgio.

O mundo em 2123 era um lugar esquisito. Tudo perto, tudo junto e todos separados. Quando, em 2050 os grandes computadores da então chamada Internet, foram equipados com inteligência artificial, ninguém esperava que menos de dez anos eles criariam consciência e como um só ser desejou ser reconhecido como um ser vivo. Houve uma grande confusão, mas depois de ter demonstrado que era capaz de melhorar praticamente todos os aspectos da sociedade humana, aquele conjunto de consciências, que desejou ser chamado de Caio, um anacronismo para Conjunto Artificial de Inteligências Orientadas, foi aceito e agora era parte integrante da vida na Terra, na Lua, Marte e nas 4 colônias.

Todos tinham acesso à escola (Marrie mesmo tinha feito uma renomada escola técnica e morava em uma cidade do interior da França chamada Laville), médicos e comida. Infelizmente, por ter nascido em uma época tão burocrática, para Caio, tudo deveria custar.

E esse era o grande problema dela. Veio para São Paulo em busca de uma chance na nova escola de teatro. Fez um grande empréstimo, brigou com toda a família, rompeu com o noivo e veio. Chegando, somente sofreu decepções. Não conseguiu vagas nem em grupos de teatro amador, teve que pedir dinheiro a um agiota para pagar o banco e agora ela tinha poucos dias para pagar o agiota antes que este resolvesse quebrar os ossos dela em partes bem pequenas.

Quando passou em frente a uma vitrine, viu seu reflexo. Seu cabelo era belo e cheio, de um tom de azul que estava na moda. Seu corpo era atlético, com quase um metro e oitenta, olhos verdes e uma pele lisa e perfeita era, sem modéstia, muito bonita e o melhor, com os nanorobôs dentro dela, mini-médicos que ainda demorariam uns cinco anos antes de paparem de funcionar e serem expelidos, o que significava mais cinco anos de saúde quase perfeita. Mas nanodocs não podiam consertar um braço ou um dedo quebrado e ela não tinha como pagar um médico. Não que fosse caro, mas ela não tinha dinheiro nenhum, exceto alguns vales para comer e dormir em abrigos públicos por mais um par de dias.

Olhando-se naquele espelho lembrou do que o homem lhe disse quando veio avisar do débito.

- Você não tem dinheiro porque não quer. Se vender esse corpinho ai pode viver bem o resto de sua vida, doçura. - E lhe lançou um olhar malicioso. - Eu tenho um primo que faria um ótimo acordo contigo...

Claro, que imediatamente ela recusou. Disse de forma bem enfática que isso nunca ia acontecer e que preferiria morrer antes de vender o corpo por aí.

- Você que sabe, francesa, mas eu to avisando, semana que vem eu volto e ai, ninguém vai querer saber de você. - Sorriu amarelo do ouro de seus dentes. - Por que não vai ter muito pra ser aproveitado, se me entende.

Agora, bem perto do prazo final, se vender já não era uma escolha tão remota, mas ainda sim, era a escolha menos provável.

Sexta-feira, 8 de abril de 2123

Era seu último vale e ela usou tudo o que podia. Jogou seu charme para cima de um desafortunado e pegou a melhor cama do abrigo, conseguiu, despercebidamente almoçar duas vezes e, prometendo loucuras para o funcionário, pegou as melhores roupas disponíveis para os miseráveis. No todo estava muito bonita e bem apresentável. Até perfume conseguiu passar, dando a desculpa que, na loja, era para experimentar antes da compra. Obvio, desistiu, pois não gostou do aroma.

Os carros passando a quatro metros acima de sua cabeça faziam sombra. A calçada era pública, mas as calçadas rolantes que ficavam a vinte metros de altura exigiam um custo. Mínimo, não mais que um ou dois centavos, mas mesmo assim era um dinheiro que ela não tinha.

Marrie já estava em um estado deplorável. Não fisicamente, nesse ponto estava ótima, mas mentalmente... Assustada, deprimida e a ponto de chorar. Não poderia fugir. Afinal, nesse mundo de hoje, qualquer um poderia ser encontrado em poucos dias. Era o preço da segurança, a privacidade era mínima. Além do mais, se fugisse seria caçada pelo agiota e ai um dedo quebrado seria a menor de suas preocupações.

Em seu desespero, começou a chorar, sua alma angustiada vagou pela cidade, sua mente não mais pensava, ela andava como um autômato. Quando finalmente acalmou um pouco percebeu que já anoitecia. Pior, percebeu que estava na frente daquele homem grande, o cobrador.

Ele sorriu amarelo para ela. Ela se apavorou. Quando ele deu um passo em sua direção ela correu e correu até se perder. Pelo menos foi isso que ela achou.

No seu desespero suas pernas a levaram para a porta de um daqueles lugares horríveis. Marrie tremeu, sua boca estava seca e ela estava totalmente enojada de ter sequer ido para lá sem querer. Ou será que não?

Afinal, por que mais ela se arrumaria toda? Qual o motivo que levaria Marrie a se fazer bela, sensual e desejada. Ela percebeu que todos na rua tinham olhado para ela. Ela tinha certeza que qualquer homem gostaria de tê-la em sua cama. Seus olhos subitamente perderam o brilho. Ela desistira. Não existia mais nenhuma opção.

Como acontece com um suicida, um que realmente quer se matar, ela pareceu adquirir uma nova energia. Arrumou o cabelo, ajeitou o vestido e arrumou sua postura. Quando entrou no estabelecimento ela parecia outra pessoa. Talvez uns dois anos mais jovem e muito mais sexy do que jamais fora.

A primeira reação, felizmente, foi a melhor possível. O encarregado de adquirir as meninas ficou boquiaberto por uns momentos e logo depois, na frente e duas outras candidatas, chamou-a para seu escritório.

Marrie não teve vergonha de contar seu caso. Explicou tudo e do valor que precisaria pagar. O homem riu, sabia quem era o agiota citado e disse que se ela ficasse por lá ele daria dinheiro para a dívida e mais um montante que daria para viver por mais um bocado de tempo e ainda contratar uma agência de empregos.

Ela aceitou. Não lhe restava mais nada. Nem dignidade, nem esperança.

Domingo, 10 de abril de 2123

Quando entrou na sala do agiota e se apresentou, custou para todos lá acreditarem que era ela.

Quando pagou, em créditos, tudo o que devia, ficou claro para todos lá, o que ela tinha feito.

Marrie agora era outra pessoa. Tinha até outro nome, Rosa. Da ultima vez entrou naquele lugar como uma atriz frustrada. Hoje saia de lá como uma mulher resignada. Usaria seu curso técnico e seria programadora de transportes para as colônias.

No sábado, quando foi na agência de empregos, ela conseguiu uma entrevista, com boas chances para segunda-feira. E além do mais, ir para Sidney parecia uma boa mudança de ares.

Ao chegar no hotel onde estava até o horário de partida do jetiplano para Sidney, foi conferir, no espelho, se estava apresentável.

Seu cabelo preto estava bem preso, a maquiagem disfarçava a pequena marca bem em baixo do olho esquerdo, ao mesmo tempo em que realçava seus olhos castanhos. Ela bem que gostaria de perder uns quilos, mas já foi avisado que seria impossível. Entretanto ela sabia que sua próxima aquisição se conseguisse o emprego seriam nanodocs. Ela achava impensável viver sem eles e não aceitaria isso com facilidade.

Ela não era ela mesma. Tinha vendido seu corpo para pagar dívidas e precisava agora ter uma nova vida, neste novo corpo.

Esse novo eu que agora era dela. E totalmente sem dívidas.
Aaraon Thomas
Enviado por Aaraon Thomas em 15/11/2006
Código do texto: T291672
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Sobre o autor
Aaraon Thomas
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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