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O Filho do Chefe

E lá estava ele, sentado, mais uma vez, vendo o que se passava em trinta e dois sistemas ao mesmo tempo.

Vigiar tudo aquilo era um trabalho estafante e sinceramente ele não tinha lá muita paciência para isso. Tantas coisas acontecendo e nenhuma digna de nota. Pelo menos o novo sistema integrado funcionava que era uma maravilha. Do tamanho de um sistema solar médio, eles haviam conseguido um grau de miniaturização e armazenagem de dados capaz de suportar quase um milhão de anos e muito antes disso um novo sistema teria sido criado. Os dados estatísticos e a imagens eram processados. Todos os tipos de comunicações, analisadas e todas as mudanças, registradas. Os programas eram seres vivos, já que possuíam inteligência e capacidade de aprendizado e evolução. Parece que é uma tendência universal, os softwares avançam mais rápido do que os hardwares. E claro, a segurança. Não que houvesse muitas tentativas de invasão, só aquele pessoal do contra, que de tempos em tempos tentavam algo novo, mas esses tinham muito que fazer em campo (para o azar dele). Não que não houvesse problemas, afinal todos sabiam que era impossível aquele sistema todo e nenhum jogo rodando, mas isso tinha diminuído bem. Pena que tiraram justamente os seus jogos da memória central.

Quando sua mãe passou, ele já se preparou, desde muito já sabia que ela pegava no seu pé pelos menores problemas. Fora que ela vivia querendo que ele saísse de casa para resolver todo e qualquer problema. Infelizmente há uns tempos ela tem tocado sempre no mesmo assunto.

- Meu filho, - ela começou naquela voz maternal e doce que indicava problemas. - Você não tinha ficado de voltar lá?

Sua mãe, como sempre, enxutíssima. Era só ter algum probleminha que ela pedia para o marido, seu pai, que ele providenciava tudo. Ela já foi uma pessoa bem mais humilde, mas hoje só pensa em se vestir na moda e ir as compras. Mas parece que tem uma memória prodigiosa para lembrar de cada detalhe de cada coisa que ele falou.

Por isso mesmo, antes de responder, ele se forçou o seu melhor sorriso, virou-se disse:

- Ah, mãe, eu tenho muito que vigiar aqui do que voltar em todos os lugares que já passei. O novo software tem me deixado muito ocupado, os dados vêm em uma velocidade tão grande que eu mal dou conta do recado. Por isso desculpe, pois estou muito ocupado.

Pronto, assim deveria bastar. Simples, direto e polido. Virando-se, continuou cumprir seu serviço. Com isso, acreditava, não precisaria pensar naquilo. Ele gostava, era bom trabalhar em casa, ele podia ficar ali, sossegado fazendo o que fosse preciso na hora em que quisesse. Muitos dos outros reclamavam que ele tinha esse tipo de moleza pois era filho do chefe. Ele sabia quem dizia essas maldades, A. Gabriel (ele exigia o "A." antes do nome) sempre foi muito invejoso com o sucesso dele. Por causa disso ele tinha que trabalhar mais para provar que mereceu essa chance. Quer dizer, trabalhar mais às vezes...

Aparentemente sua mãe estava realmente interessada no assunto. Sentando-se ao seu lado pois a mão na sua perna e falou.

- Mas meu querido, eu andei observando. Eu ainda tenho acesso ao visual de lá, sabia? - Por que ela sempre se metia no seu trabalho? - Eles precisam novamente de uma ajudinha sua. Você sabe como seu pai é intempestivo. A idéia de solução dele para um formigueiro no quintal anda na base de um dilúvio! Além do mais, da última vez você quase conseguiu...

- Quase, mãe? - Ela era sempre tão otimista. - Depois de tudo o que fiz lá, além de não dar NADA certo, papai quase fez um quebra geral! Lembra? Foi um sufoco!

- Mas seu pai não fez nada. Esse é o importante. Ele está cada dia mais controlado e paciente. - Ela suspirou. - Lembro que na época em que eu o conheci ele era todo nervoso, quase bruto, mas eu percebi aquele lado sensível nele quando ficou bem claro que ficava tímido com as mulheres. Acredita que ele teve que pedir para alguém vir nos apresentar? Que gracinha!

E assumiu um ar sonhador, como se lembrando do passado.

- Sei... sei... - Ele já conhecia essa história de cor. - Mas então, mãe, vai aonde?

Se existia um modo de desviar a conversa daquele lugar ele ia tentar. Infelizmente parece que sua mãe estava determinada.

- Hoje eu vou lá. Quero dizer, preciso passar no salão antes, mas vou. Por que você e seu pai não me escutam. O pior é que eu imaginei que você, justo você, meu filho, entendesse o que se passa dentro do coração de tua mãe e fosse me ajudar.

Era tudo aquilo que ele não queria. Sua mãe era bem mais jovem que seu pai. Mas às vezes ela parecia uma senhora reclamona. Deveria ser o sangue. Como todas as mães judias, ela sabia fazer um drama materno como ninguém. Até hoje ele se lembra o caos que foi quando ele resolveu que seria budista. Sentia até arrepios só de pensar nisso.

Agora, o problema atual consistia em explicar para sua mãe que não queria ir. Mas nunca poderia contar a verdade. Ela certamente o obrigaria a ir trabalhar fora de casa com um milhão de lamentações. Ele sabia que não era tão inteligente quanto seu pai, mas tinha noção que tinha uma sabedoria considerável, infelizmente as mulheres são um mistério divino. Mesmo seu pai tinha problemas quando o assunto usava saias.

Se bem que, se o clima continuasse assim, era melhor ir trabalhar fora de casa. Não há santo que agüente quando sua mãe começa e nesses dias estava demais. Mas ele estava decidido a não trabalhar em um cubículo, mesmo que para isso tivesse que agüentar sua mãe mais um pouco.

- Mamãe, - ele esperava que o seu lado meloso funcionasse. - Mas É CLARO que quero ajudar. Mas você tem que ver que se eu tirar uma folga para ir lá, os outros vão falar. Vão começar a dizer que tenho mais liberdades por ser filho do chefe e que bem que eles avisaram que o "filho do homi" ia ter regalias. E você não quer ver o nosso nome em baixa, certo?

Ela suspirou, levantando-se começou a andar pela sala. Seu filho estava certo, ela mesma já havia escutado os comentários das outras. Sempre procurando defeitos em seu filho lindo. Ela se lembra muito bem quando uma de suas amigas do salão soltou "Que sorte você tem, não é Maria? Seu filho trabalhando com o seu marido. Ouvi que ele tem uma vida fácil lá."

Vida fácil! Ah! Como se administrar de tudo fosse simples. Trabalho era o que mais existia naquela casa. Olha seu marido. Não descansava havia uma eternidade! Seu esposo deveria tirar férias... Férias! Como foi esquecer!

- É isso! - Sentou-se do lado do filho. - Férias! Há quanto tempo você não tira férias? Você poderia descer comigo e poderíamos avaliar tudo por lá. Como teu pai deixou isso a teu encargo a gente poderia arrumar o que fosse preciso e voltar a tempo de curtir as férias!

Droga. Ela teve uma boa idéia. Ele nunca ia contar para a mãe o que aconteceu. Ia ser vergonhoso. Ele, e justo ele em uma saia justa que não tinha mais tamanho!

Pense homem! Pense! Deve existir uma boa desculpa em algum lugar desse intelecto vasto! Seu tempo está acabando e ela está te olhando. O que adianta um cargo de tanta responsabilidade se ele nem mesmo consegue uma desculpa para não voltar lá.

- Bem, mãe, eu pensei exatamente nisso. Infelizmente vou precisar passar um relatório e se demorar muito você sabe que vão falar. - A desculpa começou a sair. Mentir ele não ia, mas nada impedia de aumentar um pouco a verdade. - E se falarem lá na administração você sabe, papai vai chegar em casa soltando fogo pelas ventas e aí você já sabe. Mais trabalho para mim...

Mas coração de mãe não se engana. Olhando no fundo dos olhos de seu filho ela perguntou.

- O que você aprontou? - Agora ela se posicionou bem de frente para ele. Com olhos nos olhos, não tinha como mentir. - Conte para sua mãe. O que houve?

Pronto! Conseguiu novamente! Enrolou-se todo e agora ou contava a verdade ou magoava sua mãe. Dessa vez preferiu as conseqüências da segunda opção.

- Que é mãe?!? Eu não vejo necessidade para isso, OK? - Ficou de pé num pulo. - Eu já sou bem grandinho e tenho muitas responsabilidades. Eu decido quando devo ir a algum lugar ou não. Afinal esse é meu trabalho.

Infelizmente aconteceu o que ele mais temia. Com os olhos marejados ela se ergueu. Mantendo sua pose de "vou manter minha dignidade e chorar lá fora" ela caminhou até a porta. Mas, antes de sair comentou.

- Você me decepciona, filho. - E, como se lembrasse de algo. - Pelo menos vai me dar às coordenadas? Faz tanto tempo que não vou lá que elas não estão mais no transportador...

- Não! - Saiu mais brusco do que ele tinha em mente. - Esse é um trabalho meu, mamãe. Entend...

BLAM!

Com um olhar triste ela se retirou fechando a porta com força e resmungando algo como "lembre-se que a Terra é nosso planeta natal...". Ele sabia que depois teria que escutar.

Mal saiu e a voz, aquela voz poderosa, se fez ouvir dentro da casa.

- Você chateou sua mãe, meu filho.

Ele suspirou bem fundo, não era seu dia.

- Pai... Você sabe, eu tenho que manter um nome e um dia posso vir a assumir tudo isso e...

- Não minta para mim! Você perdeu, não foi?

- Uhn? - Ele foi pego de surpresa. Como ele fazia isso? - Eu perdi o que, pai?

- As coordenadas. Você não usou mais e perdeu, não foi?

- Bem... - Para ele não tinha como mentir. - Droga.. perdi! Perdi as ditas coordenadas! Como eu ia imaginar que iria precisar delas novamente! Eu devo ter colocado em algum lugar na minha mesa e o vento deve ter levado ou sei lá!

O suspiro audível de seu pai, indicava que ele entendia.

- Entendo. - Depois de uma curta pausa comentou. - Filho, o que acha de vir trabalhar aqui na central? Vagou uma sala grande, com uma vista que você ia adorar.

Sala grande? A proposta parecia tentadora. Sua mãe já estava a muito no seu pé e parecia que ela tinha gostado de dar pitaco em seu serviço.

- Fora que tem entrada privada. Ou seja, nenhuma cobrança de horário.

O golpe final! Ele não tinha como recusar. Só precisava saber de mais uma coisa.

- Uhn... eu vou poder manter meu cabelo comprido e minhas roupas normais?

Pausa.

Isso não era bom. No que tanto ele pensava?

- Tudo bem, só quero que saiba que a sala é um andar abaixo do meu. Ou seja, você vai ter que olhar pra cima para falar de mim como todos.

A proposta era tentadora. Ele não gostava dessa história de olhar para cima, mas, para trabalhar em paz..

- Aceito.

A voz já parecia mais aliviada.

- Ótimo, Jesus. Apareça aqui amanha então. Tenho certeza que Gabriel vai se morder de inveja da sua sala.

Ele ia perguntar como ele sabia sobre Gabriel, mas desistiu. Afinal todos sabem que Ele sabe tudo. Com o expediente terminado, ele foi se trocar, afinal hoje era dia de balada e ele iria encontrar Pedro e Paulo nos portões do paraíso as oito em ponto.

- Entrada particular... E lá se foi o filho do chefe cantarolando.
Aaraon Thomas
Enviado por Aaraon Thomas em 15/11/2006
Reeditado em 15/11/2006
Código do texto: T291682
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Sobre o autor
Aaraon Thomas
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Aaraon Thomas