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Crime

- Corre!

- O que?

- Corre #%@$#@ ! - Disse Marcos seguido de uma série de palavrões impublicáveis.

Ana nem precisou pensar novamente, já estava de pé e correndo.

- Ei, Marquinhos, o que diabos está havendo?

- Ciborgues!

Ela nem perguntou mais. Ciborgues. E todos que viviam nas ruas de São Paulo naquele ano de 2099 sabiam que Ciborgues eram os policiais.

Os tiros não tardaram a começar. As agulhas se quebravam do lado deles enquanto os homens da lei os perseguiam virtualmente incansáveis. Seus implantes de adrenalina faziam com que correr quilômetros fosse uma brincadeira enquanto os aperfeiçoamentos genéticos aos quais foram submetidos os fazia muscularmente superiores a qualquer um. Óbvio que eles nunca poderiam entrar nas olimpíadas, metade do que eles usavam eram proibido, mas saltos maiores do que 5 metros já eram realidade e aqueles ali pareciam bem acima da média.

A única coisa que Marcos e Ana tinham a mais que aqueles dois que os perseguia era cérebro. A corporação podia modificá-los, enchê-los de aperfeiçoamentos e drogá-los em troca de lealdade, mas isso tinha um preço e vinha em forma de miolos. E nenhum policial de rua tinha muito miolo não.

A vantagem de São Paulo de 2097 era que tudo funcionava 24h e a desvantagem é que tudo funcionava 24h. Não existia um momento de paz na cidade que, mais do que nunca, nunca dormia.

A agilidade dos dois, a muitos anos nas ruas, fazia com que desviar das pessoas fosse relativamente simples, enquanto os ciborgues da polícia tinham que se movimentar mais vagarosamente apesar de alguns transeuntes serem jogados para o lado (e virtualmente voarem alguns metros antes de aterrisarem, mas quem ia reclamar?).

Marcos e Ana sabiam que deveriam correr. Cometeram um crime que só era menor do que matar alguém. E o pior, não tiveram como evitar. Assim eles corriam para o único ponto possível. Para o único lugar onde a cidade sempre desperta não olhava e para onde os indesejados iam. O centro.

Desde o atentado de 2013 aquela área passou a ser menosprezada e o centro, lenta e inexoravelmente, se mudou para o que era a zona leste.

Entretanto era uma corrida louca, e o centro estava distante. Eles estavam com muita fome e só tinham se arriscado pois a alternativa era a morte por inanição.

Eles sabiam que tinham uma chance contra os ciborgues, não eram burros, muito pelo contrário, tinham freqüentado a escola por muitos anos. Uma das vantagens de computadores em qualquer lugar e aulas a distância. Só não fizeram faculdade pois foram descobertos.

Entretanto enquanto correm, pode-se ver melhor os dois.

Marcos, com 20 anos, magro, porém forte, um rosto que, depois de um banho poderia atrair qualquer mulher. E ele sem receio usava seu rosto para conseguir favores e trabalhos ocasionais. Nada que pedisse seu cartão e estragasse tudo. Nunca deixou sua irmã, Ana a quem cuida como o típico irmão superprotetor, como se nota na corrida, já que deixa sempre a irmã na frente, servindo de escudo contra o tiro dos policiais.

Ana, por sua vez, não faz por menos, pele morena, chocolate ao leite, como dizia seu irmão. Lábios cheios e cabelo bem curto, espetado, como ditava a moda. Seus olhos cinza claro, seu irmão diz que herdou de sua mãe, que nunca veio a conhecer. Sem dúvida poderia conseguir muito dinheiro com seu corpo, que mesmo magro exibia curvas, um belo par de seios e, mantendo a tradição das brasileiras, ancas fartas e um bumbum perfeito, enfim, um corpo de fazer inveja a muitas mulheres que passam anos reformando seus corpos.

E isso os entregava. Eles eram perfeitos demais. Bonitos demais. Principalmente agora ao ver a área cercada que demarca o início do centro deserto, eles se destacam na multidão. Morar perto do centro era para os menos afortunados e esse, com certeza não poderiam reformar seus corpos e buscarem a perfeição. Marcos e Ana eram filhos de um desastre, eram uns abortos da natureza.

Quando a rua ficou deserta o pior aconteceu, um dos tiros certou o ombro direito de Marcos. Neste momento a dor, a frustração, o medo, a raiva e o amor por sua irmã fizeram com que tudo ocorresse.

- Marcos, não!

Ana fez o apelo tarde demais. Ele já havia virado e correndo em direção aos policiais com a mesma velocidade com que fugia deles e abriu os braços. Estes, agora já estavam brilhando pelo metal que os cobria e acertou os dois policiais, que caíram no chão, imóveis.

- Meu d-deus, Marcos.... - Os belos olhos da menina se encheram de lágrimas.

- Não se atreva a chorar por esse lixo. E Deus não existe, mana. Se existisse ele teria feito com que nascêssemos mortos. - Seu olhar era duro e parecia disposto a não deixar uma gota de lágrima ser derramada pelos policiais que jaziam mortos ali do lado. - Você sabe o que eles fariam conosco, principalmente com você. Não, não permitirei.

- Mas eles não tinham nada a ver.

- Não tinham? - A essa hora ele já gritava. - Como não tinham? Eles iam ser os porcos que se descobrissem o porque do malditos iam de aproveitar de você até encherem as bundas de dinheiro!

Ela ficou muda. Sabia que era verdade. Não gostava de mortes, mas sabia a realidade em que vivia.

- Vamos, mana, já está tarde e em breve chegam os reforços. - Disse o rapaz após limpar os créditos dos mortos. - Precisamos mais disso do que eles. Aqui tem o suficiente para um mês.

E assim eles saíram.

Ana, estava andando abraçada no irmão. A única pessoa que conheceu em toda a sua vida que não estava do lado dela por interesse. O único que a amava por quem ela era. Entretanto ultimamente ele estava ficando paranóico. Seu medo que as descobrissem... Já era a segunda vez que matava seus perseguidores. Era só ser atingido que ele revidava. Não porque ficasse ferido. Ele podia fechar um ferimento com uma placa de metal e manter assim que até que tudo estivesse bem. Ele simplesmente ficava tão enfurecido com a possibilidade dela ser atingida que fazia aquelas coisas horríveis. Se ela pudesse usar seu dom para poderem ter uma vida descente. Mas como explicar?

Caminhando a passos rápidos, eles se afastaram. Sabiam que eram chamados pelas pessoas normais de Refugos. Frutos de uma infestação que já foi controlada e que mudou o mundo para sempre. Sabiam que tinham que se esconder para sempre, fugir até o dia em que fossem em um número tão expressivo que não teriam como ignorá-los ou mesmo matá-los como se já nascessem criminosos. Ele sabia que mais dia menos dia o filho de algum figurão ia nascer como um Refugo e o cara não ia ter outra escolha a não ser começar a pegar leve, tornar os "diferentes" iguais.

A garota olhou para trás. Dois mortos, muitos feridos na perseguição. Não pôde deixar de pensar que eles podiam ser pais de família e terem filhos. Um dos policiais parecia até razoavelmente velho para ter filhos da idade deles.

Neste momento as luzes no céu. Festa por todas as partes. Pessoas riam e se abraçavam.

Então, seu irmão a abraça, fraternal. Já sem ódio e com sua voz usualmente doce diz.

- Feliz ano novo, mana, feliz 2100.

No meio do abraço ele não percebe que sua irmã chorou. Não bem um choro. Uma lágrima furtiva caiu de seu olho e se chocou no chão, não mais uma lágrima e sim um diamante. Inestimável, totalmente verdadeiro. Parte da fortuna que é o corpo de Ana e o que causa, mesmo depois de tanta evolução, uma ganância primordial no coração dos homens.
Aaraon Thomas
Enviado por Aaraon Thomas em 15/11/2006
Reeditado em 15/11/2006
Código do texto: T291683
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Sobre o autor
Aaraon Thomas
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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