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A do Aramassã - Capítulo 1

Impotência é um sentimento gerado pela falta de capacidade de resolver problemas que agem diretamente sobre você, mesmo que você nâo necessariamente signifique algo para eles. Em resumo: impotência é ser atropelado por uma manadas de Zebus, quando se está amarrado, com o pé preso ou coisa que o valha, e os Zebus sequer tomam ciência de que atropelaram alguém.

No caso específico de Morresey, a impotência vinha do fato de que ele estava, neste exato momento, numa banheira do tipo mais convencional, cafona e quase-branca-quase-limbosa que se tem notícias. Aquelas banheiras bem comuns. A banheira estava particularmente muito cheia, o que fazia com que o menor movimento dele derrubasse agua por todos os lados e seus brinquedos boiavam perigosamente próximos ás bordas que eram mais cataratas, uma vez que parado era uma condição difícil naquela situação.

Adilson não sabe dizer nem se lembra de como chegou a aquela condição, nú, numa banheira medíocre de tão comum, com agua mais fria que morna e seus bichinhos e brinquedos perigosamente quase escapando beirada abaixo cada vez que sapateava num chilique agudo causado pela impotência. Sua banheira estava a deriva no espaço. Não no espaço de casa, o que seria aceitavel, principalmente num banheiro, mas até mesmo na sala, caso sua casa fosse um daqueles lofts moderninhos, mas não era nesse espaço que sua banheira estava contida. Era um espaço diferente, escuro, frio e infito, repleto de luzes distantes, como que estrelas (e eram estrelas mesmo, ele tinha percebido no primeiro segundo que chegara). Enquanto sua banheira navegava ironicamente a deriva, ele podia ver algo, muito parecido com um pequeno planeta quadrado vindo em sua direção.

Cabe aqui uma observação: quando se menciona pequeno planeta quadrado, devemos ter em mente que pequeno reference meramente a uma escala planetaria e que, este "pequeno" planeta, do ponto de vista de quem está numa banheira, nú, a deriva pelo espaço, pode soar como um homem no fundo mais fundo dos vales do Grand Canon tentando olhar por sobre a margem da borda de um dos lados. Ou ainda, é algo semelhante a uma formiga que observa a imensa lagarta de um tanque vindo em sua direção, agigantando-se em seu pequeno horizonte, ciente de que jamais, jamais, conseguirá correr até fugir da largura abissal desta lagarta e fugir da morte certa. Como se vê, o sentimento de impotência neste momento fica evidente.

Adilson sabia que, ainda que pudesse como remos, motor ou qualquer sorte de movimento, a menos que se movimentasse a velocidade da luz, ou ainda mais rápido, à velocidade de uma má notícia, jamais escaparia da colisão certa com aquele, já não tão pequeno planeta quadrado, rumo ao qual corria em direção. Só para piorar ainda mais o momento, o mais patético, medíocre e comum, patinho de borracha amarelo, que sem explicação alguma era o favorito de Adilson, acabara de preceptar-se borda abaixo, ou melhor, borda universo a fora, inexoravelmente.

Continua...
Emanuel Campos
Enviado por Emanuel Campos em 20/11/2006
Código do texto: T296767
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Sobre o autor
Emanuel Campos
São Paulo - São Paulo - Brasil, 36 anos
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Emanuel Campos