Expresso Transcroniano - Parte 6

*** A aluna e seu mestre ***

Ela estava mesmo entretida com o novo brinquedo. Embarcara rápido depois daquele intervalo de carga e descarga. Saíra do trem, mas nem um pouco lhe interessava explorar os anos 50. Ficou o tempo todo sentada num banco do lado de fora da estação, brincando com o computador portátil adquirido no começo dos anos 70!

Máquina com processador de 8 bits, 30 MHz de velocidade. Limitação de memória? De forma alguma! Isto já haviam resolvido há tempos com a técnica de paginação. Poderia atingir sem problema algum impensáveis 2 gigabytes de memória, com os registros paginadores mantidos na CPU, 2 GBytes que ela nem fazia idéia de com o quê preencher... Tela gráfica capaz de exibir 256 cores simultâneas, numa memória de 900x700 pixels. Um sintetizador sonoro de 12 bits... Quem precisaria de mais do que isso? Ela era incapaz de imaginar...

Ela deveria ter sido mais cuidadosa! Não era comum ver as pessoas usando seus computadores portáteis nos trens! E ela... bem, digamos que ela não estava vestida adequadamente naquela ocasião! Acomodada em seu assento, mal percebeu o fiscal se aproximando:

- Senhorita??

- Senhora, por favor! Já sou casada!

- Que seja... - continuou o fiscal. - Que equipamento é esse?

Ela pensou, pensou... Como podia ter sido tão burra! Arriscou:

- É para uso pessoal.

O fiscal olhou bem para a moça bonita, de seus 20 ou 25 anos. Depois para suas roupas. Depois para o computador portátil.

- Estas roupas... parecem ser do início do século 19! Não pode ser de uso pessoal! Não acredito que já existiam tais equipamentos em vossa época, senhora...

- Ada!! - ela fez questão de acrescentar! - Condessa de Lovelace!

- Que seja! - o fiscal estava, na verdade, farto de figuras históricas que se achavam merecedoras de tratamentos especiais. Em particular, ele nunca tinha ouvido antes falar de alguma "Ada Lovelace" históricamente conhecida.

Um senhor de uns 60 anos acompanhava de longe a discussão. Também acabara de entrar no vagão.

- Me parece que a senhora esteja... - pensou um pouco antes de ser tão direto, mas enfim concluiu! Era sua função lá! Alguém precisava fazê-lo, por pior que fosse o trabalho! - A senhora estaria contrabandeando tecnologia futura para o passado?

- Francamente, meu senhor! Sabe com quem está falando?? - ele não sabia. Nem faria diferença para ele. Cumpria sua função, e isto fazia de forma irretocável!

- Lamento que eu vá precisar confiscar esta peça futura, senhorita!

- Senhora!

- Desculpe! É que pareces tão jovem e bonita! - o fiscal voltou rápido de seu breve devaneio. - Lamento, senhora! Terei de levar o equipamento!

Ada Lovelace abraçava o computador portátil aos soluços! Não entregaria o equipamento de jeito nenhum! Não sem luta!

- É MEU!!! Não podem me tirar isto!!!

- Senhorita!... senhora! - corrigiu após o deslize. - Não complique minha vida!

- Não me tirem meu bebê!!!

Um senhor grisalho logo surgiu em socorro:

- Por favor, caro fiscal! O que acontece aqui?

- Esta senhorita... senhora... - ele gagejava! - Está tentando embarcar com objetos ilegais! Com tecnologia futura ilegalmente contrabandeada para o passado!

- Por favor, meu senhor! Acusas mesmo este rosto bonito de criminosa?

- É um equipamento digital dos anos 70, que acredito não existir no século 19, de onde ela parece vir! Ela pode estar causando um distúrbio histórico que...

- Eu autorizo o equipamento! - apresenta uma carteira ao fiscal. - Desde já, este computador portátil está sob minhas responsabilidades!

O fiscal confere a autorização inquestionável.

- Sr. Babbage! Estás certo mesmo de que desejas arca com a responsabilidade de...

- O que vês escrito aí, hein? Arco sim! O equipamento é para pesquisa! Pode embarcá-lo como se fosse meu...

O fiscal pensa. Não havia como discutir, a autorização era clara! Mas encontra uma brecha. Não se entregaria tão fácil assim!

- O equipamento passa! Suas informações não...

Ada se levanta sobressaltada.

- Que quer dizer com isso?

- Terei de apagá-lo, senhorita! - o rosto bonito e bem modelado sempre o enganava! - Digo, senhora!

- Apagar?

- Ele armazena informações futuras! Podes levar o equipamento, mas não seus dados! Lamento...

Ela entrega pesarosa o computador portátil ao fiscal. Com alguns cliques, pressionar de teclas... ele o apaga!

- Lamento, senhora! Nada de informações futuras sensíveis propagadas para o passado! Não sabemos a repercursão disto...

- Entendo... entendo... - diz Ada Lovelace com lágrimas nos olhos...

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O fiscal já está distante. Charles Babbage está livre para conversar com a amiga.

- Condessa de Lovelace, minha programadora favorita!!!

- Senhor Babbage! Nem sei como te agradecer!

- O prazer de sua companhia nesta viagem me seria sufciente... - diz, apontando o assento vago ao lado dela.

- Pra mim seria uma honra também!

Acomodado, vendo o equipamento moderno nas mãos da pupila, começa "agressivo", provocando a amiga:

- Vejo que se cansou de meus computadores mecânicos e resolveu se render a essas maquininhas coloridas e barulhentas dos anos 70, né? Não quer mais programar meu engenho analítico...

- De forma alguma, professor! - digita rápido algumas teclas no notebook. - Olha isto que fiz...

No display colorido começam a aparecer rodas numéricas, engrenagens e alavancas de ativação.

- Adaptei a interface da máquina para algo mais agradável...

Lágrimas escorriam dos olhos de Babbage. O que ele via representados na sua frente, na tela multicolorida do computador portátil dos anos 70, eram rodas numéricas, engrenagens de cálculo e alavancas de ativação. A interface de seu engenho analítico, sonho que só agora era capaz de realizar! A simulação numa máquina futura mostrava que funcionaria, o que o incentivava ainda mais!

- Então minha Máquina Analítica funciona! Ou melhor... vai funcionar!

- Certamente, professor! Acha que perderia tempo em programar algo para uma máquina que nunca existiria? Que nunca executaria meu programa?

- Logico que não, minha pequena!

Mas ele ainda estava confuso.

- Sua máquina continua funcionando! Ela não foi apagada?

Ada Lovelace cochicha no ouvido de Charles Babbage, feito menina travessa:

- Ele não apagou de verdade, professor! Escondi o sistema numa partição oculta!

Charles Babbage olhava orgulhoso a pupila.

- O que ele apagou foi só a lixeira da máquina!

Babbage olhou com carinho a primeira programadora de seu computador mecânico. Nunca construído? Ele ouviu isto numa bifurcação histórica alternativa. Mas não nesta! As idéias para computadores programáveis haviam sido semeadas antes pelo próprio Galileu, e depois aperfeiçoadas por Isaac Newton! Aperfeiçoamentos estes de uma outra idéia de autômatos programáveis digitais lançadas antes por Leonardo da Vinci!

- Esta é a minha garota!!!

Vendo o fiscal se aproximando de novo, alerta:

- Esconde isto logo, Ada! Não sei se consigo te livrar de outro flagrante...

Ela coloca logo o computador portátil no fundo de sua mala de roupas.

- Só uma coisa não me sai da cabeça...

- Pergunta, professor!

- A bateria vai finalmente acabar alguma hora, né?

- Comprei várias! Umas cinco!

- Que seja! Uma hora as cinco acabarão... E aí? Não acredito que as pilhas de Volta consigam alimentar este equipamento...

Ada Lovelace levanta com cuidado as bordas de uma bolsa que trazia no colo.

- Painéis solares dobráveis do século 24? Com 100% de eficiência?

- Você já sabe o que são! Seria besteira tentar te explicar de novo como funcionam...

Charles Babbage põe a mão em sua cabeça com carinho. E repete aquela frase:

- Esta é minha garota!!

*** CONTINUA ***