Oceano Gasoso - parte 3

A cápsula pairava no topo da troposfera de Vênus, sustentada pelo balão de oxigênio e nitrogênio. Àquela pressão e temperatura de pouco mais de 50 quilômetros da superfície infernal a mistura gasosa tão familiar era mais leve que a atmosfera à volta, formada de dióxido de carbono e entre 3 e 4 porcento de nitrogênio. Com pressão exterior de cerca de 1 Bar e temperatura por volta de 25 graus, seria bastante agradável ficar ao ar livre não fosse a estranha composição do ar alienígena. A neblina de ácido sulfúrico que preenchia tudo em volta também não ajudaria muito, bem como os ventos de velocidade média de 200 km/h.

Ah, os ventos!!! Era esta então a função dos foguetes da cápsula! eles não eram direcionados para baixo,como o esperado, mas nas laterais. O computador de bordo calculava incansável as direções necessárias dos jatos, em busca de um equilíbrio dinâmico que tentasse deixar a cápsula mais ou menos estática naquela posição, se opondo à ventania de fora que tentava arrastar tudo com ela. Naquele ponto da viagem, era interessante que eles tentassem permanecer o máximo possível "parados" naquele lugar.

O céu era de um laranja bem forte àquela altitude. A neblina perene de ácido sulfúrico adicionava a ela um tom mais amarelado. Acima no céu via-se as nuvem bem amareladas do planeta, a neblina atual mais condensada devido à redução da temperatura. Como todo bom venusiano sabia, logo elas atingiriam uma condensação crítica que a faria começar a cair em forma de chuva de ácido. Chuva esta que, diferentemente da Terra, nunca tocaria a superfície: elas evaporariam rápido com a alta temperatura do inferno lá embaixo, iniciando novamente o ciclo do ácido sulfúrico naquele planeta.

O dirigível se aproximava da cápsula 42. A precisão do ponto de queda de cada cápsula era impressionante, sendo possível calcular uma trajetória otimizada passando por todas elas para abrigar os passageiros na nova etapa daquela viagem. E era bonito de se ver aquela enorme estrutura prateada se aproximando, verdadeiro transatlântico atmosférico! Transatlântico? Mas... me desculpe, não estamos no Atlântico. A propósito, os transatlânticos continuam se chamando "transatlânticos" quando navegam o Oceano Pacífico? As dúvidas foram todas sanadas quando se distinguiu escrito ao lado do dirigível aqueles caracteres garrafais: "TRANSVENERA-17".

- Ah, aí vem nossa carona para "A Ilha"! - disse o capitão. - Quer dizer, nossa não, que eu vou ficar e levar esta belezinha de volta pra estação. Senhoras, senhores... e senhoritas, bem vindos a Vênus!

Os nove passageiros não desgrudavam os olhos das escotilhas laterais, querendo ver aquele gigante de nanometal que se aproximava. Sim, nanometais, porque metais comuns seriam pesados demais para manter a flutuação que desejavam para a enorme estrutura. Força e rigidez dos metais que era exigida ali, sem o inconveniente do peso enorme. Num planeta com gravidade bem próxima da terrestre esta leveza era muito importante!

A cápsula parecia um grãozinho de mostarda comparada ao enorme dirigível que parecia pairar sereno ao seu lado. Como era possível tanta estabilidade em meio a ventos de 200 km/h? Mágica proporcionada pelos precisos computadores de bordo que simulavam e compensavam com perfeição a turbulência atmosférica. Um tubo sanfonado partiu da lateral do dirigível em direção a uma porta circular do lado da cápsula. Ficariam presas com precisão, hermeticamente isolada do ambiente exterior. O vilão aqui não era nem a pressão alta ou baixa demais, nem a temperatura de fora. Ambas eram, como disse antes, familiares e confortáveis. Mas não seria agradável atravessar uma atmosfera irrespirável de dióxido de carbono permeada com uma neblina concentrada de vapores de ácido sulfúrico, não concordam comigo?

Abriram-se simultâneas as portas da cápsula e do dirigível, assim que os sensores dentro do túnel constataram não haver contaminação da atmosfera de fora dentro da passagem. A moça ruiva olhou bem para o rapaz que a acompanhara, e que parecia não querer lhe soltar a mão. Indiano? Sim, parecia que era. Ela sempre gostou mesmo de indianos. Seria ótimo ter amigos complanetários** naquele mundo estrangeiro para os dois. Se isto poderia ser mais que amizade? Como saber? Só o tempo diria.

- Primeiro as damas! - disse o indiano, tentando esconder seu medo sob o pretexto de "cavalheirismo".

Quando a ruiva chegou na beirada da passagem, nem ficou assim tão surpresa com o que viu olhando para baixo... e também para os lados:

- Ah, adivinha só! Como não tinha previsto isto? É transparente também...

Dominando a vertigem de estar pisando o "nada" alaranjado debaixo de seus pés, pela primeira vez ela percebeu que o rapaz soltava suas mãos.

- Ei! Não vai me acompanhar nessa enrascada não? Está com medo?

Ele estava sim! Morrendo de medo! Apesar de não precisar percorrer nem 10 metros até o dirigível dentro daquele túnel transparente, aquele era o pior pesadelo para quem, como ele, sofria de acrofobia. Por quê ninguém avisou que teria de passar por isso? Teria desistido imediatamente da viagem!

- Se segure em mim e venha!

Os olhos verdes da moça lhe arrancaram coragem de onde ele nem imaginava que possuía. Os demais passageiros já haviam feito aquela viagem muitas vezes, mas foram bem compreensivos com os novatos. Quem não teve a mesma paciência foi um representante do dirigível, que esperava na porta oposta:

- O casalzinho aí, pretendem atravessar hoje ainda? Não se esqueçam que nosso dia aqui dura 243 dias terrestres, hein!!

- Estão nervosos! Segura na minha cintura e vamos logo... como é seu nome mesmo?

- Aruna! - disse o rapaz, tremendo feito vara verde. - E o seu?

- Eu sou a Jane. Mary Jane.

Ambos atravessaram o mais rápido que puderam aqueles metros que separavam a cápsula do dirigível. O representante do dirigível os recebeu com um sorriso.

- Terráqueos?

- Sim! - respondeu Mary Jane. - Nós dois.

- É a primeira viagem a Vênus? Já foram "batizados"?

- Batizados? - Mary e Aruna perguntaram confusos.

- Venham comigo!

----------

Ninguém sabe quem começou aquela tradição. Mas era inevitável: todos os novatos deveriam passar por ela! Analisada bem a fundo, era apenas uma brincadeira. Um rito de passagem. Mas uma viagem a Vênus, um inferno considerado inabitável por todo mundo, não podia passar em branco. Foi só por isso que a ruiva e o indiano concordaram em segurar aquele pedaço de gelo seco nas mãos, proferindo aquelas palavras ridículas.

"Ó majestosa Vênus, deusa suprema do Amor e da Beleza!" - começa um oficial do dirigível a dizer, com uma peruca ridícula na cabeça, de longa cabeleira loura, pisando de uma concha plástica no chão. "Filha de Júpiter com Dione, lhe ofertamos este pedaço de gelo seco sobre as palmas de nossas mãos , e em sua homenagem e em homenagem ao mundo que representas, tomaremos prazeirosos este copo de ácido sulfúrico...".

Aruna e Mary Jane viram sem reclamar aquele copo com o líquido ácido de um gole só, que traziam na mão esquerda. Obviamente não era ácido sulfúrico! Ninguém queria matar os novatos com tal brincadeira tradicional. Era apenas suco de limão, representando o ácido sulfúrico da atmosfera do planeta. Mas tão concentrado, tão azedo, que... seria exagero afirmar que melhor seria se fosse mesmo o ácido sulfúrico original? O fato é que aquele limão era mesmo azedo pra caramba! Especialmente cultivado para tal rito de passagem? Aparentemente sim.

- Parabéns, novatos! - disse a "Vênus" tirando sua peruca de longa cabeleira. - Agora vocês também fazem parte da grande família venusiana.

Os venusianos se denominavam mesmo uns aos outros "venusianos". O termo "venéreo", mais correto etimologicamente, tinha ainda conotações ruins que não convinha recordar. Fazia todo mundo se lembrar das antigas "doenças venéreas", ao invés de "habitantes de Vênus". VENUSIANO, embora não correto do ponto de vista histórico, se tornou mesmo o termo mais comumente utilizado para denominar os habitantes do planeta.

- Venham, deixe-me mostrar o resto do navio!

* continua *

** Ousei criar aqui um neologismo, se me permitem! :-) Assim como na Terra chamamos de "conterrâneo" uma pessoa que vem de nossa "terra" (aqui com sentido de "país"), acredito que no futuro será necessário criar um termo capaz de descrever pessoas nativas do mesmo planeta que o nosso! "Complanetário" me pareceu adequado, apesar de não conseguir aqui enquadrar também os nativos de satélites dos planetas... sugestões? ;-)