Oceano Gasoso - parte 9

A atmosfera sibilando em volta do batiscafo, os raios eventuais naquela tempestade venusiana, observados das diminutas escotilhas laterais... Tudo remetia às conhecidas tempestades terrestres, seus medos, os trovões, barulhos, clarões... Eles só não conseguiam conceber era que em Vênus, naquelas altitudes, isto era ETERNO, acontecia sempre. Não era um evento isolado, uma tempestade de verão. Era uma tempestade eterna! Não literalmente eterna, óbvio. Existiu uma época em que ela não existia. Um tempo remoto em que Vênus era bem parecida mesmo com a Terra. Mas faz muito tempo isto!!! Mas em escalas humanas.. sim, era seguro afirmar que tal tempestade era mesmo eterna!

Por mais que fossem desacelerando, ficou óbvio o momento em que encontraram o chão. Uma batida seca repercutindo em todo o ambiente esférico, heroicamente mantido a 30 graus de uma pressão de uma atmosfera terrestre ao nível do mar.

"Vestir" o escafandro era pura força de expressão. Ele não seria realmente vestido, no sentido exato da palavra. Entrariam neles, como entrariam num carro, num veículo de locomoção que, coincidentemente, tinha formato antropomórfico. Pernas e braços mecânicos, no lugar das três rodas esféricas de borracha sintética.

Uma vez lá entrando, se surpreenderam com a imersão imediata! Era tão precisa a simulação que logo nos primeiros segundos ambos sentiram que os exoesqueletos faziam parte de seus corpos desde sempre!

Seria caro demais manter uma grande câmara de descompressão no batiscafo. No caso, descompressão invertida, impedindo a atmosfera externa de entrar. Os escafandros se encaixavam completamente em torno do batiscafo. Os dois ocupantes humanos só precisavam entrar neles, se isolarem... e aproveitarem o passeio! A maior parte do corpo robótico já estava na parte externa. O contato com o interior era mínimo, suficiente para deslizarem para dentro do exoesqueleto robótico.

Foram isolados e o capacete transparente fechado assim que ocuparam suas posições. E lançados com segurança naquele ambiente infernal.

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- Nossa! - reclamou Mary Jane, pelo intercomunicador, logo aos primeiros passos. - É difícil caminhar por aqui, né? Parece que estou andando debaixo dágua!

- Quase isto, Mary Jane! Estamos caminhando em meio a uma atmosfera de fluido supercrítico.

- Como é que é? Você e suas novidades, hein Aruna!!

A pressão na superfície de Vênus era enorme! 90 atmosferas era o suficiente para fazer as moléculas dos gases CO2 e N2 da atmosfera de Vênus se aproximarem o bastante para se tornarem líquidos. Porém, a temperatura também aumentara vertiginosamente! A pressão tentava tornar a atmosfera líquida, mas a temperatura parecia insistir para que o líquido voltasse a se comportar como gás! O resultado desta queda de braços era que na superfície de Vênus tínhamos uma atmosfera em estado esquizofrênico, que não sabia ainda se deveria se comportar como líquido ou como gás. Tínhamos aqui um gás superdenso, com densidade de líquidos leves. Ou um líquido superativo, cujo movimento das moléculas vencia sua própria tensão superficial. Algo que ora se comportava como líquido, ora como gás, sem identidade definida... Assim era a atmosfera próxima da superfície de Vênus!

- Isto aqui é muito bonito! - ouviu Mary Jane, sem entender que beleza via Aruna naquele deserto basáltico infernal.

- Ah, está quente aqui dentro, Aruna! Vamos voltar?

- Liga seu ar condicionado, oras bolas!

- Já te falei que isto me faz mal...

Aruna estava surdo, encantado com a visão de seus sonhos. Quando olhou para Mary Jane (ou melhor, o traje de Mary Jane), não pôde controlar o ataque de riso:

- Hahahaha!!! Mary Jane cabeçuda!! Mary Jane cabeçuda!! - de dentro da cúpula esférica de seu capacete panorâmico, a cabeça do traje de Mary Jane era desproporcionalmente maior que o resto do traje. Ela, encarando-o igualmente, também teve esta impressão.

- Curioso, Aruna! Por que as imagens parecem aumentar vistas daqui de dentro?

Esperou uma resposta do namorado, que não veio. Oras bolas, ele estava estudando arquitetura, não física! Quem se intrometeu, na hora certa, fora a inteligência presente no traje de Aruna.

- Normalmente o mundo visto de dentro de uma bolha esférica seria divergente, de ponta cabeça, e visto menor do que é na realidade. Mas vocês estão aqui numa condição geométrica bem particular, observando as coisas dentro de um ambiente esférico de índice de refringência menor do que aquele do ambiente transparente incrivelmente denso! Para vocês, observar algo do interior de uma esfera de ar cria um deslocamento luminoso comparável ao das lentes convergentes. Ou seja, o que vocês observarem de dentro do capacete transparente vai parecer maior do que é na realidade!

- Essa é boa! Quer dizer que aqui até as lentes se comportam ao contrário? Lentes côncavas são convergentes, e lentes convexas são divergentes?

- Na verdade mesmo na Terra uma lente convexa seria divergente, se fosse feita de um material com menor índice de refringência que a atmosfera ao redor. Aqui em Vênus, sua "lente convexa de ár a uma atmosfera", dentro da qual estão suas cabeça, possui refringência bem inferior que a atmosfera venusiana ao redor, submetido a 90 atmosferas de pressão. Por isso a lente se comporta "ao contrário", como a senhorita diz...

- E agora, Aruna? - ela se divertia. - Parece que você escolheu o traje robótico perfeito mesmo, metido a sabichão igual o ocupante dele, hehe!

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Por mais que tentassem, o isolamento térmico dos escafandros não era tão perfeito assim. Depois de poucos minutos de caminhada, ainda com a refrigeração ligada a temperatura interna já atingia os 35 graus. Como dito antes, os trajes eram seguros, mas de forma nenhuma confortáveis. O casal descobriu isto rápido.

- Estou gotejando de suor aqui dentro, Aruna! Você não?

Ele sempre esteve acostumado a viver em climas mais tropicais. Ainda assim, não poderia disfarçar o desconforto.

Era dia, disto não tinham dúvidas. Mas embora procurassem por um disco solar bem maior no céu do que estavam acostumados, nenhum contorno nítido se mantinha depois de passar pela eterna neblina sulfúrica que recobria toda a atmosfera lá em cima. O planeta era iluminado por uma luz difusa que parecia vir de todos os lados, criando uma intensa claridade sem sombras.

Na altíssima temperatura lá fora, algumas pedras começavam inclusive a incandescer e emitir uma fraca luz própria, como um pedaço de carvão cujo fogo se extinguia. Não eram originárias de vulcões, inexistentes naquela calma planície venusiana. Dependendo do material da rocha, elas incandesciam por estarem mesmo submetidas a altíssimas temperaturas! Relâmpagos surgiam com frequência, geralmente de uma nuvem para outra, e seus trovões ecoavam intensos. Dada a altíssima velocidade do som naquelas condições particulares da atmosfera, o som seguia o raio bem antes do que estavam acostumados, mesmo para os raios mais distantes.

- Que inferno isto aqui, Aruna! Mas parece que você está achando bonito, não está?

- Mary Jane - ele estava radiante. - Vamos correr até uma das âncoras no chão que prendem a cidade?

- Está louco? Vamos ficar longe demais do batiscafo! Não sei quanto a você, mas eu ainda pretendo voltar pra Ilha tropical lá em cima!

- Estou vendo uma das correntes mais internas daqui. Não parece estar a mais de uns... 5 quilômetros.

- Não vou caminhar 5 quilômetros dentro deste forno!

- Então me espera, que eu vou lá ver isto de perto.

Ela pensou mesmo em ficar, e até voltar lá para o batiscafo, cujo interior era um pouquinho mais fresco que dentro do escafandro. Mas um aperto no peito vendo ele se distanciar aumentou sua determinação:

- Me espera, Aruna! - ela berrou, como se isto fizesse alguma diferença na transmissão de voz através do radio. Como se precisasse falar mais alto para que as ondas eletromagnéticas moduladas conseguissem chegar a um receptor mais distante...

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A caminhada se mostrou pior do que imaginavam inicialmente. Não pela distância: os escafandros repetiam fiéis seus comandos sem que gastassem muita energia dos próprios músculos. Poderiam seguramente caminhar centenas de quilômetros dentro dos trajes robóticos sem sentir fadiga. O problema era fazer isto dentro dos escaldantes quase 40 graus dentro do traje! Quem já caminhou debaixo de sol intenso deve saber o quão desgastante é simplesmente ir até a esquina com tal calor!

Ambos usavam um traje branco, que naquela luz ambiente parecia dourado. Normalmente os cosmonautas usam trajes de cores diferentes. Incapazes de verem os rostos dos companheiros dentro dos capacetes, esta era a única forma de diferenciar um do outro. Mas como apenas os dois participavam do passeio, isto era desnecessário: não havia como Mary Jane confundir o traje branco de Aruna com o dela, nem vice-versa.

As imagens tremulavam ao atravessar o fluido supercrítico transparente da atmosfera. Bem semelhante às miragens vistas em dias quentes da terra, rentes ao solo, às vezes confundidas com poças dágua que insistem em se afastar dos viajantes do deserto correndo sedentos em sua direção. Só que lá o efeito era muito mais intenso! Por isso ela atribuiu a uma curiosa ilusão de ótica aquela linha bem escura que parecia se mover contra o fundo branco nas costas do traje de Aruna. Se aproximou mais para descobrir o que era.

- Está vendo a corrente, Mary Jane? Lá na frente, ancorada no solo? E pensar que existem centenas de outras iguais distribuídas em torno da ilha, prendendo ela na mesma posição o tempo inteiro...

Chegando mais preto, descobriu que não era ilusão: algo mesmo se movia nas costas do traje de Aruna.

- Se olhar para cima, dá pra ver que descreve uma curva catenária inclinada, e não uma linha reta como muita gente imagina que...

- Não se mexe, Aruna!

- Como?

- Fica quieto! Tem um bicho nas suas costas!

- Ah, para de brincadeira! Você mesmo disse que vida em Vênus seria algo...

- Cala a boca, Aruna! Vou tirar ela de você.

Mary Jane desprende com cuidado uma criatura de uns 30 centímetros de comprimento, de inúmeras pernas. Sua curiosidade de astrobióloga falou mais alto que seu medo da criatura ser perigosa. Que emoção, o primeiro espécime vivo de vida não-terráquea que ela encontrava depois de tanto estudar e especular sobre o assunto! E num ambiente tão inóspito e inesperado quanto o planeta Vênus. Segura o bicho com a maior delicadeza possível, pois não sabia o quanto a pressão de seus dedos seria amplificada pelo traje robótico.

- O que é? O que é? - virou-se Aruna eufórico.

- Parece uma centopéia, mas... é diferente!

- Em que sentido?

- Tem... três fileiras de perninhas! Estranho...

- Que tem de estranho nisto?

- Sua morfologia se baseia em simetria triangular. Nunca vi isto antes em animais.

- E você tem certeza de que isto é mesmo animal ?

Ela olhou com mais cuidado o exemplar. O movimento do corpo era bem lento, mas em compensação as perninhas ao longo das três fileiras espaçadas igualmente em torno do corpo de secção triangular da criatura se agitavam mais velozes do que se imaginava possível para um ser vivo.

- Mal posso esperar para abrir e ver como ele é por dentro!

- Está doida, Mary Jane? Não vê que ele está vivo?

- É só um inseto, Aruna!

- Inseto? Se nem sabe direito ainda se é mesmo animal, que dirá inseto...

- Então vou levar. E quando ele morrer de morte natural, eu faço a dissecação.

- Aí tudo bem, se for esperar ele primeiro morrer... - mas Aruna fica paralisado ao olhar sobre o capacete de Mary Jane. - Fica parada, Mary Jane! Não se mexe! Tem um bicho na sua cabeça também!

- Outra centopéia de Vênus?

- Não, parece que são três!

- Tira logo, Aruna! Vai esperar para descobrir se são perigosas?

Ele se aproxima com cuidado. A princípio pareciam três dispostas radialmente ao redor do topo do capacete. Percebe então que são na verdade quatro, uma delas em pé, partindo do centro de onde partiam as outras três descendo pelo capacete como tranças alienígenas. É por esta que começa a puxar para cima, apenas para se surpreender ao perceber que estão todas elas... grudadas???

- Este parece diferente! - aproximou o novo espécime de Mary Jane.

- Sim! Deve ser outra espécie! Se esta parte que você segura for a cabeça dele, diria que se trata de um polvo de três tentáculos com um pescoço bem comprido.

Segurando o primeiro espécime na mão esquerda, pega o novo na mão direita e começa a analisar.

- Não parece serem três pernas e um pescoço longo, não vejo diferenças claras de estrutura entre elas. Eu diria que seriam raios de um tetraedro ligando o centro aos quatro vértices.

- E olhe bem cada perna dele, Mary Jane! Todos têm três fileiras de perninhas, iguais ao primeiro.

- Tem razão! Devem ser de espécies bem parecidas. Vou levá-los.

- Não sei se isto é permitido, nunca ouvi falar antes de vida em Vênus. Os nossos robôs permitiriam?

Silêncio absoluto, nenhuma resposta dos trajes.

- Aruna, percebeu que eles não nos impediram quando tentamos pegar as centopeias? Eles não deveriam tentar nos proteger e impedir que fizéssemos estes tipos de besteiras? Seguindo a segunda lei da robótica?

- Isso mesmo! Ei, robô? Por que não me impediu, se eu poderia estar correndo risco pegando numa forma de vida completamente desconhecida?

Nenhum sinal deles.

- Estão dormindo?

Percebendo rápido uma situação de perigo (robôs não costumam demorar, com qualquer resposta idiota que se imagine, a tal apelo humano!), ele insiste:

- Diagnóstico de operação, por favor! Código 12-3-17-98-37! - ele se lembrou do comando de emergência, aquele que só deveria proferir ao perceber que algo de muito errado estava acontecendo com os robôs guias, guardiães dos dois trajes.

"Cérebros eletrônicos inoperantes", rolavam os caracteres projetados na parte interna do capacete de Aruna pelo projetor central. Como acontecia a séculos, ao falharem todos os sistemas mais sofisticados de voz, realidade aumentada, janelas, reconhecedores gestuais, GUIs, etc... o sistema recorria ao console básico! Mensagens alfanuméricas simples esperando por comandos, também alfanuméricos. A forma mais básica de diálogo homem-máquina possível! Aruna proferiu claramente os comandos: "SHOW CURRENT STATUS", recebendo de imediato a mensagem desenhada no visor com raio laser: "Diagnóstico: danos irreversíveis causados por forte fonte eletromagnética desconhecida. Operantes apenas mecanismos de sustentação da vida e replicadores de movimentos"

- Mary Jane... parece que estas centopeias emitem algum sinal que danificou o cérebro de nossos robôs.

- Que quer dizer com isso?

- Que o cérebro de nossos trajes estão mortos. Estamos por nossa própria conta e risco agora...

* continua *