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Arcadianos

Toda a gente sabe que os Arcadianos são os habitantes de Arcadia, um pequeno planeta no terceiro sistema solar da Constelação XYZ123. Também já ninguém se espanta com a compleição física invulgar e o aspecto estranho destes interessantes alienígenas. Confesso no entanto que após conviver com eles por mais de três meses (eles são o objecto de minha tese de doutoramento) o seu aspecto, a sua sociedade e seu modo de vida são algo a que não me acostumei ainda muito bem.

Na verdade, eles são diferentes de nós em quase tudo. A sua sociedade não é patriarcal nem matriarcal. Os casais são compostos por três ou mais elementos e o acto de procriação exige sempre a colaboração de três ou mais espécimes.

Sendo assim, um pequeno arcadiano - pequeno talvez não seja o termo mais apropriado para descrever um bebé que nasce pesando duzentos quilos e mede cerca de dois metros e meio mas... adiante – dizia eu que um pequeno arcadiano poderá ter um pai e duas mães ou uma mãe e dois pais. Uma análise apressada poderia indicar que cada casal tem sempre predominância de um dos sexos.

No entanto se analisarmos as coisas ao longo do tempo nem mesmo isso se revela como verdadeiro. Um organismo arcadiano está em constante modificação de modo que após atingida a idade adulta, de dois em dois anos existe uma transformação que pode ou não originar a mudança de sexo. O fenómeno é bastante esquisito e este relógio cósmico é regido pelo mecanismo de translação das duas luas do planeta em suas respectivas órbitas. As implicações para os casais são bastante interessantes mas com um bocadinho de azar podem levar a inviabilização sexual (temporária).

Como a sociedade Arcadiana é muito liberal, permite a resolução destas situações de várias maneiras: É permitido que o casal cresça desde que não ultrapasse um total de cinco elementos. É permitido também que o casal se desfaça. Neste caso um ou mais elementos saem podendo ou não vir a integrar outro casal. Apesar destas opções, muitos optam no entanto por esperar os próximos dois anos e ver o que a sorte lhes reserva.

São extremamente dotados para a matemática e muito amigos de detalhes. Por brincadeira costumamos até chamar de arcadiano quando alguém é muito picuinhas. Não têm muito sentido de humor. Não que isso signifique que sejam mal humorados ou que sejam um povo pouco amistoso. No entanto o seu espírito detalhista os impede de perceber a maior parte de nossas piadas.

Comem e bebem em isolamento absoluto. Comer ou beber não é para eles um prazer mas apenas uma necessidade física que os embaraça e de que sentem até alguma vergonha. Talvez por isso sua cozinha oficial nunca se tenha desenvolvido e seja constituída por um total de três escolhas diferentes. Sim, isso mesmo. Três pratos. Sempre os mesmos três pratos.

Correm relatos que indicam a publicação de um livro onde vêm apresentados mais de uma centena de invenções culinárias. E há quem diga existirem arcadianos que os cozinham e que os comem sem qualquer embaraço ou vergonha. Os dados que recolhi até ao momento não permitem no entanto aferir a veracidade dessas informações. O que é evidente é que os conhecimentos culinários e os hábitos gastronómicos da maioria são muito escassos limitando-se apenas a esses três pratos oficiais.

Têm uma coisa em comum connosco: Adoram um assistir a um bom desporto e hoje é para mim um dia de grande expectativa. Me contaram como eles adoram corridas de animais. Comprei três bilhetes para a corrida da tarde. Os lugares parecem-me óptimos. Estamos sentados mais ou menos ao centro da bancada principal da grande arena. De aqui conseguimos ver fácilmente todo o percurso dos concorrentes.

Consigo ver ao longe os vários animais alinharem-se ao longo da linha de partida. Eles estão numerados de um a dez. Após o início terão de efectuar três voltas. O meu favorito é o número sete. É um autêntico monte de músculos. Aposto que ao fim da primeira volta já levará uns bons cinquenta ou cem metros de avanço. Por outro lado aquele número cinco, coitado! O dono não devia estar raciocinando bem quando o inscreveu.

A contagem decrescente começa. As bandeiras agitam-se no ar. Todos estão expectantes. Até eu sustenho a respiração e aponto o olhar. Três, dois, um ... partiram.

A luta é intensa. Todos os animais tentam chegar o mais à frente possível. Vale tudo. O meu favorito e o número três levam já alguns metros de avanço. O coitado do cinco vai fazendo o que pode...vai agora imaginem no ... quinto lugar.

A primeira volta termina e tal como eu previa o meu sete, o três e um recém chegado oito levam já quase meia centena de metros de avanço sobre o pelotão. O pobre cinco conseguiu entretanto a muito custo ganhar um lugar e terminará a segunda volta num honroso quarto lugar. Os primeiros três lugares estão no entanto – penso eu – bem decididos. Disputa-se a derradeira volta.

O sete ultrapassa o três. O oito já um pouco cansado deixa-se ficar para trás. O cinco sofre um empurrão e tem uma queda. Coitado! Cai agora para o oitavo lugar. No entanto levanta-se, não desanima. Chama a si todas as forças, sobe um e outro lugares. É agora um magnífico sexto.

O entusiasmo é enorme. Os três primeiros já cortam a meta. O meu sete é primeiro entre os primeiros. Pouco depois chega o pelotão. O desgraçado cinco consegue apesar de tudo manter a sexta posição.

Todos estão radiantes. Desmultiplicam-se em comentários. Ouve-se então uma voz clara e forte

– Senhores e senhoras, pedimos o favor de aguardarem um pouco em
   vossos lugares. Dentro de momentos o Júri dará o seu veredicto.

Veredicto? Mas... qual a necessidade de veredicto? Estamos numa corrida e não num tribunal penso. No entanto nem uma expressão de espanto. Todos os arcadianos esperavam aquela comunicação. Era natural. Era sempre assim. Mas que raio...

Faz-se silêncio. Baixam-se as bandeiras. Durante minutos toda a arena é feita de expectativa. Por fim a voz regressa fazendo-se ouvir novamente

– Senhores e senhoras. O Júri deliberou. Ao fim de analisar a
  articulação de 15 milhões de movimentos dos vários participantes e
  tendo em consideração o estado anímico, o tamanho e a condição
  física de cada um, tendo efectuado uma análise estatística e inferido
  qual a capacidade evolutiva intrínseca de cada um dos concorrentes
  da prova declaramos vencedor o ... NUMERO CINCO.

A multidão aplaudiu de imediato sem qualquer reserva. Cada um tinha feito bem as suas contas e naquele ponto todos estavam de acordo.



José Espírito Santo
Enviado por José Espírito Santo em 07/07/2007
Reeditado em 07/07/2007
Código do texto: T555438

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Sobre o autor
José Espírito Santo
Portugal, 48 anos
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