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A Fronteira - Capítulo VI (Casa triangular)

O quarto era pequeno e sóbrio. Tinha, tal como todas as outras divisões, a forma de triângulo. A parede em frente à cama exibia o móvel antigo com um espelho de formato oval enquanto um pouco à esquerda - autêntica relíquia, o pêndulo do relógio ia e vinha e ia e vinha, em ritmo compassado, sempre igual.

A mulher estava no entanto demasiado preocupada com o problema da sua sobrevivência para reparar em pormenores estéticos. A mente treinada começou a laborar nas possibilidades – estava desarmada, é certo, mas poderia dar luta e talvez eliminar os dois guardas que vinham com regularidade trazer a alimentação e fazer o controlo de presença. No entanto isso não eliminava o problema fundamental – depois… para onde ir? Onde seria possível esconder-se?

A porta abriu-se um pouco, apenas o suficiente para que a figura encapuçada empurrasse o tabuleiro com os víveres. Patrícia olhou de relance.

“Espere!” disse para a porta que se fechava sem resposta.

A cena repetiu-se vezes sem conta. Ninguém respondia a condenados. Era como se já não existisse, como se a sua presença não fosse mais que a aparição de um fantasma encarnando aqueles ossos e tecidos. Não encontrara qualquer solução de fuga e o tempo foi passando igual, cheio de momentos gémeos verdadeiros e desinteressantes. Finalmente chegou noite de véspera do dia. A porta deixou entrar o ser pequeno ladeado pelos dois guardas.

“Deixem-nos sós um momento” ouviu num sotaque francês perfeito.

Apesar das vestes humildes de padre, o forasteiro, tinha um aspecto cuidado que impunha respeito. Olhou para um e outro lado, após o que se baixou e encostou o ouvido à superfície metálica da porta de entrada. “Já se foram, agora podemos falar”. E começou…

Sabe, nada acontece por acaso – o acaso é apenas fruto de nossa mente despreocupada e limitada, da nossa incapacidade para entender uma ordem maior, os planos deles. Imagine um canídeo – o que pensará ele dos passeios matinais e de fim de tarde? Nada. Sabe apenas que aquela hora e naquele momento, o dono estará para o levar. E no entanto os passeios obedecem a um plano, uma estrutura organizativa que o animal é incapaz de perceber. Assim estamos nós para eles…

“Eles? Eles quem?”

“Os humanos Mademoiselle. Não desapareceram como vulgarmente se pensa”

“Uh” Patrícia estava surpresa. “E qual é o meu papel no meio disso tudo, porque me está contando essas coisas?”

Bem… a Mademoiselle foi escolhida. Mas terá de passar por uma prova final”

“Prova?”

“Sim. Fugir. Tem menos de vinte e quatro horas”.

E, dito isto, levantou-se e virou as costas. Antes de chamar os guardas ainda teve tempo para dizer “Lembre-se demoiselle, o sonho, a UN, nada acontece por acaso”.

Ficou ali, na semi-escuridão pensando.”Então era possível, só tinha de encontrar como encaixar a última peça de puzzle”. Lembrou-se das palavras do arlequim

        Na voz do ilustre sabedoria existe
        Entre dois tempos no centro do momento
        O valioso está onde menos esperamos
        No reflexo de um espelho...a fronteira

“Entre dois tempos no centro do momento… espera lá, o pêndulo, só podia!” empurrou o banco para debaixo do velho relógio e subiu. Quase imperceptível, atrás do braço pendular, estava uma pequena caixa. Com cuidado, colocou a mão e retirou o objecto. Dentro, o papel tinha apenas uma palavra escrita

        Pessoa
José Espírito Santo
Enviado por José Espírito Santo em 04/11/2007
Reeditado em 04/11/2007
Código do texto: T722716

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Sobre o autor
José Espírito Santo
Portugal, 51 anos
155 textos (7496 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/10/17 17:18)