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Expurgo

O ocaso do sétimo dia havia chegado. Logo seria a hora da realização do ritual, pois só com a presença da escuridão, mãe das feras, que a passagem poderia ser efetuada. Ardowën estava sentado ao longe da construção e, observando o ambiente semi-rubro, esperava o momento certo para o início de mais uma missão que lhe foi destinada.

     Possuía uma fisionomia dura, castigada pelo tempo, afinal, já vislumbrou mais de quarenta primaveras. Seu cabelo grisalho reflete os tempos difíceis pelos quais passou e seu olhar profundo expressa a sabedoria adquirida diante da imensa vivência. Não era o mais alto entre os seus iguais, mas ostenta um porte físico bem desenvolvido. Durante suas incontáveis batalhas, aprendeu a valorizar a soma da razão e da força a fim de obter conquistas. No momento, trajava nada mais que roupas costumeiras de sua antiga vila, Northirl. Não precisaria de sua armadura – Ulrillën, aquela que rutila, – para sua próxima ação.

     A cena do casebre envolto por chamas silentes, advindas do pôr-do-sol, descrevia uma paisagem idílica. Gramíneas vistosas, graças à recém primavera, tomavam conta do solo ao redor da cabana. A sombra de um carvalho, enraizado próximo, estendia-se e aparentava, numa tentativa desesperada, querer tocar a choça; talvez a escuridão estivesse aflita para, rapidamente, invadir aquele local, até então, de escárnio.

     Esta não é a primeira e nem será a última vez que Ardowën citou as palavras já esquecidas para lacrar a besta no interior do cubículo. Há muito não mais é incipiente.  Desde sua infância, preparou-se para seu destino, a clareza de seu dever sempre esteve nele. Cresceu só, sua mãe faleceu em seu parto e seu pai, no dia de seu concebimento. No entanto, aproveitou-se de tal situação para tornar-se forte de corpo e espírito, a aridez de seu desenvolver o transformou num Titã.

     Dentro do recinto, estava a horrenda criatura, presa já há uma semana pelo encanto de Ardowën. O ser vil deveria estar fraco no momento da passagem, facilitaria o ritual. Comida não lhe foi dada, água de dois em dois dias e só durante o sol do meio-dia. Uma agonia fúnebre se instaurou na besta. Tinha consciência de que seu fim era iminente; sofria, para desde então, pagar uma pequena parcela de seus pecados. Encontrava-se humilhada, não restavam vestígios de homem, apenas as trevas. Sua angústia era externada através de sons indecifráveis, ao longe, era possível escutar seus lamentos, porém impossível sentir pena. Tal animal merecia suportar aquilo que fez muitos agüentarem: a dor.
     
     A luz se foi, Ardowën ergueu-se e encaminhou-se em direção a choupana. Enquanto andava, começava a ouvir urros, grunhidos e gritos que de lá vinham. O ambiente, anteriormente idílico, já não aparentava harmonia, a escuridão associada ao barulho transformavam o que antes era belo, por sua simplicidade, em desconforto. Todavia, Ardowën aparentava não demonstrar qualquer sentimento maior que a indiferença. A sombra do Carvalho alcançou a porta, seus galhos, agora, pareciam braços contorcidos e suas folhas, garras grotescas. Deviam, inutilmente, querer arrancar as amarras que prendiam o ser execrável no interior da estrutura, mas ele estava devidamente selado pelo poder de quem chegava.

     À medida que o semblante de Ardowën, O Sem Sombra, aproximava-se, as trevas do Carvalho não mais eram disformes, visto que ali estava aquele que ilumina. Em frente à porta, parou, murmurou poucas palavras e, logo em seguida, as sombras, antes existentes, desapareceram, fazendo a árvore secar e o silêncio reinar. Abriu e entrou.

     Dentro da construção só havia escuridão. No canto direito, encontrava-se o que parecia algum dia ter sido um homem. Ele estava encolhido e nu. Possuía tatuagens, alguns símbolos cabalísticos, talvez frutos de antigos rituais de poder. Com a cabeça entre os joelhos, começou a falar, em baixo tom, palavras desconexas numa tentativa desesperada de súplica. Seus olhos estavam fechados, pois se abertos, diante de Ardowën, queimariam. Envolto por seus próprios excrementos, o ser esperava o momento de seu julgamento.
Ardowën, não incomodado com a repugnância do ambiente, proclamou:

     - É hora. Levanta-te e me encara, é chegado o momento de teu expurgo. Nesse instante, involuntariamente, a figura de pé ficou, seus olhos abriram, observou Ardowën e, sustendo o imenso ardor da queima de sua visão, exclamou:
     - Tens clemência! És O Puro! Filho do que brilha! Tens piedade! Enganado, fui! Mas arrepender-me posso! Tens piedade! Tens piedade!
     - Cala-te. Respondeu Ardowën. A besta sentiu suas forças sumirem e calou-se. Ardowën continuou:
     - Não estás aqui para a absolvição, mas sim condenação. A misericórdia só é dada àqueles que a ostentam. Tu, marionete do macabro, vais pagar por cada sorriso e esperança que tirastes da face de alguém. Conheces meu poder, deves, agora, silenciosamente e conscientemente, arder igual ao mais ígneo líquido e, só após seu corpo ter sido banido da existência material, retornar com a memória da agonia de onde viestes: a escuridão.
E assim foi feito.
Flávio Leal
Enviado por Flávio Leal em 28/11/2005
Reeditado em 01/12/2005
Código do texto: T77977
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Sobre o autor
Flávio Leal
Recife - Pernambuco - Brasil, 33 anos
10 textos (538 leituras)
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Flávio Leal