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ALINE E O TÚMULO ABANDONADO

No dia seguinte,Aline levantou-se mais cedo.Arrumou algumas coisas que ia precisar em uma bolsa grande e foi avisar a Dona Filó que ia pra casa do pai.Dona Filó nunca gostava quando ela fazia isso.Aline sentia que não era bem por causa de ciúmes,mas alguma coisa em relação à casa.Não conseguia entender, já que a maldição acabara e tudo estava bem agora.A não ser a descoberta do tal túmulo...

Ao chegar lá,mal podia conter sua curiosidade.Largou a bolsa em cima do sofá e contornou a casa em direção ao quintal.Este era totalmente cercado por um muro alto,mas o terreno que Raul lhe falara ficava depois do muro.Era um lugar sombreado,com muitas árvores altas e frondosas que formavam um teto de folhas sobre sua cabeça.A vegetação rasteira cobria seus pés.Era um local silencioso também: nenhum canto de passarinho,nenhum inseto,silêncio total! Até o vento soprava fraco ali.Aline teve a impressão de estar isolada do mundo,sentiu como se tivesse dado um salto pra trás no tempo e a cada passo a sensação crescia.

Demorou um pouco pra que ela encontrasse o túmulo.Na verdade,era uma pequena lápide tumular,quebrada e coberta de fungos e líquens.Será que Raul quebrara a lápide ao tropeçar nela?Curvou-se e apanhou a lápide,mas por mais que tentasse não conseguia ler o nome gravado lá.Só distinguia a letra "F" e uma data:1850.Sentia uma certa opressão no peito,mas só tinha uma coisa a fazer.Levou a lápide até o tanque de lavar roupa da casa e tomando uma escova tratou de escová-la.Aos poucos conseguiu juntar as letras e ler:

Philomena Garcia Marques

1850 - 1885

Aline sentiu um arrepio.Era quase o nome da avó Filó!Com a diferença do sobrenome que viera de seu avô, o nome de Dona Filó era: Filomena Marques de Oliveira!

Alguém a chamou na sala,era Seu Pedro:

- Aline você viu aquela pá grande?Estou precisando dela.

- Não, não vi.Seu Pedro preciso lhe perguntar uma coisa.

- Pois diga, menina.

- Só um minuto!

Aline volta ao tanque pega a lápide e entra triunfalmente na sala.Seu Pedro tem um sobressalto e fica pálido:

- Aline,o que você anda aprontando menina? - disse ele tremendo.

- Eu quero saber quem é - disse ela com voz firme - Filomena Garcia Marques que está enterrada aqui nos fundos do terreno desta casa.

- Eu não... - balbuciou Seu Pedro.

- Ela é de minha família Seu Pedro? Porque foi enterrada aqui e não no cemitério da cidade?Ninguém cuida do túmulo, eu nem sabia de sua existência!

- Acho que devia falar com sua avó - Seu Pedro parecia recuperado do susto - Se alguém tem que te contar é ela e não eu!

- Mas o senhor sabe, não é? Me diga!

Seu Pedro senta-se lentamente no sofá, Aline o acompanha e coloca a lápide no chão.

- Tudo que sei é que ela era a avó de sua avó Filó - disse ele depois de uma pausa - Foi ela que construiu esta casa e aqui morreu ainda jovem e de maneira muito estranha...

- Morreu como?

- Ah! Eu não sei,tudo que sei já lhe contei! - disse Seu Pedro quase gritando,levantou-se e saiu.

- Seu Pedro o senhor sabe de mais coisas!Me conte!

- Eu não!Vou procurar a pá e a Senhorita coloque esta lápide onde a encontrou!

Aline fez mais que isso.Pegou uma enxada,retornou ao terreno e limpou ao redor do túmulo.Colocou a lápide no local original da melhor maneira que pôde.Nesse mesmo dia retornou a casa da fazenda.Encontrou Dona Filó sentada na cozinha:

- Já voltou? - disse quando viu a neta.Aline dá um beijo na testa da avó.

- Vó, precisamos ter uma conversa séria.A senhora sabe por que fui na casa de papai hoje?

- Por que você adora aquilo lá!

- E a senhora não né? Por que?

- Apenas não gosto e pronto!

- Explicação pouco convicente - diz Aline - sabe o que descobri lá hoje?

Dona Filó pareceu apreensiva.

- Descobri o túmulo de sua avó - continuou ela.

Se Aline tivesse jogado uma bomba de São João na cozinha não teria provocado uma reação tão grande na avó.Dona Filó ficou paralisada,mais branca que a blusa que usava.Com uma força que Aline a julgaria incapaz um momento antes,Dona Filó se levanta e diz com raiva:

- Quem lhe autorizou a remexer no passado?

CONTINUA...

Aline correu pra perto da avó preocupada:

- Calma vó! Desculpe! - disse ela.

Dona Filó caiu sentada na cadeira e respirou fundo.Aos poucos se acalmou.As duas foram para sala,onde Dona Filó sentou-se em sua poltrona favorita perto da janela que dava para o jardim.

- Está bem! - disse depois de um tempo em silêncio - Eu vou lhe contar tudo.Sei que você não vai sossegar enquanto não souber a verdade.Mas prepare-se Aline, pois a história não é bonita.

Aline balançou a cabeça afirmativamente,os olhos brilhavam de curiosidade.

- Minha Avó Filomena, tinha uma personalidade muito forte. Meu bisavô sempre tentou controlá-la sem sucesso.Filomena fazia o que queria.E não adiantava castigá-la, pois a cada castigo ela se revoltava mais.Um dia Filomena arranjou um namorado:Firmino.O rapaz se parecia com ela no jeito de ser,gostava de desafiar o mundo,e era muito mais rebelde que Filomena.Esta dizia que tinha encontrado sua alma gêmea.Meu bisavô, é claro, não gostou nada da novidade, e tratou de impedir que eles se encontrassem.Ele tinha um pretendente pra Filomena,mas esta não aceitou de jeito nenhum o noivo arranjado pelo pai.Meu bisavô gritou,ameaçou Firmino,mas nada nem ninguém impedia que eles se encontrassem.O escândalo começou no dia que Filomena não pôde mais esconder: estava grávida.A casa quase veio abaixo neste dia.Meu bisavô expulsou Filomena de casa,dizendo que ela não era mais sua filha, que ia deserdá-la e que nunca mais queria vê-la.Filomena e Firmino se refugiaram numa pensão de freiras,pois Firmino era orfão e não tinha família. - Dona Filó faz uma pausa e suspira.

- Mas, meu bisavô nunca se recuperou do escândalo.Tinha ódio mortal de Firmino.Algumas pessoas tentavam justificar isso:Filomena era filha única, e para meu bisavô, Firmino tinha destruído todos os planos que tinha feito para ela.O fato é que, uma noite Firmino não voltou pra pensão.Ficou desaparecido por quase uma semana.Todo mundo já pensava que ele tinha ido embora, e abandonado Filomena a sua sorte.Mas a verdade era muito pior: Firmino foi encontrado morto com vários tiros no peito.Até hoje, ninguém nunca provou,mas todos sabiam que tinha sido meu bisavô que mandara matá-lo.Quando minha avó Filomena soube,você deve imaginar,ficou totalmente desesperada.Caiu numa tristeza de dar dó.Passava os dias trancada em seu quarto,não queria ver ninguém.Quando o bebê nasceu,ela caiu em depressão profunda.As freiras cuidaram da menina, que veio a ser minha mãe, até que Filomena lentamente saísse do estado que se encontrava, e tomasse as rédeas de sua vida novamente.Neste meio tempo,meu bisavô veio a falecer de um ataque do coração.Filomena foi ao velório, e lá em meio as lágrimas, fez as pazes com a mãe e os irmãos. - Dona Filó faz outra pausa,suspira novamente.

- Depois disso, Filomena manda construir a casa que agora é de seu Pai Fernando.Dizia que queria ter seu próprio canto.O meu bisavô não cumprira a ameaça de deserdá-la,e ela herdara o suficiente pra manter sua filha.Dois anos após ela ter se mudado pra casa nova,aconteceu uma nova tragédia.Dizem que ela voltou a ter depressão,que estava muito estranha.O fato é que quando minha mãe voltou da escola,encontrou a casa pegando fogo e Filomena morta no terreno atrás da casa com um tiro na cabeça.

- Meu Deus vó! - disse Aline arrepiada - Ela se suicidou!

- Sim, o revólver foi encontrado ao lado do corpo dela.Ela foi enterrada lá mesmo,pois era o local que ela mais gostava de ficar.Foi um escândalo enorme e a família resolveu silenciar sobre a vida trágica de Filomena.Nossa família era influente e rica em uma cidade pequena,onde todo mundo sabe da vida alheia.Foi um golpe terrível pra eles.A casa permaneceu fechada por anos e anos,até que eu a vendi pra seu pai.

- Que história triste Vó! - disse Aline com lágrimas nos olhos.

- Eu te avisei - disse Dona Filó com um olhar distante - Mas por favor,não saia contando esta história por aí.Deixe minha avó descansar em paz.

Duas semanas após este ocorrido, Aline recebeu uma ligação telefônica que esperava ansiosamente:

- Aline? - dizia a voz do outro lado.

Aline reconheceria aquela voz em qualquer lugar do mundo - É Raul!

- Raul! Que bom ouvir sua voz! Descobri o mistério do túmulo! - disse ela radiante.

- Ah! Eu sabia que você conseguiria,mas minha tia já me contou tudo.

- Ah é? Pensei que eu mesma ia ter o prazer de te contar...Você é da família também.

- Não fique chateada,eu liguei pra te perguntar outra coisa. - Ele fez uma pausa longa,Aline achava que ia passar mal,o coração batia depressa demais e ela respirava com dificuldade.O tom de voz dele mudou:

- Sabe, eu acabei com minha namorada.E não consigo parar de pensar em você...Quer namorar comigo?

Aline se segurou na mesa pra não cair,se recuperou e começou a pular de felicidade:

- Claro que sim!Você ainda pergunta?

FIM

Ane
Enviado por Ane em 23/01/2006
Reeditado em 26/05/2007
Código do texto: T102928
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Sobre a autora
Ane
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 46 anos
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