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O velho da janela

O VELHO DA JANELA

      Todas as manhãs dos dias úteis, José saia para trabalhar. Ao passar por uma rua muito antiga, ainda sem asfalto, avistava aquele velho debruçado no parapeito da janela de sua casa. Aliás, a casa era bem mais velha do que ele. Era tão fácil observar as rachaduras de suas paredes, quanto às rugas daquele rosto de olhar distante e que parecia fixar-se além dos limites da vida.
      José acreditava que aquela casa ainda não houvera ruído, porque não haveria Deus de querer sepultar, com um pouco de antecedência, toda a ternura daquele olhar distante, que certamente teria no seu horizonte, emoldurada uma tela da mais pura beleza, assinada com todo amor e carinho, pela artista saudade.
      - Assim é a vida que em cada estágio lhe dá uma razão, uma coerência ou mesmo uma verdade, variando os seus valores a cada momento e circunstância.
      - A realidade te será concedida no instante derradeiro e só tu a saberás.
- Dez anos se passaram e as rachaduras, como também as rugas, multiplicaram-se.
- A cada dia seus aspectos eram mais aterradores e ficava evidente a impossibilidade de restauração, tanto da obra do homem, quanto da obra divina.
      - Porém, José pensava: O que estará guardado como acervo histórico naqueles dois monumentos? - Quantas vivências e fatos por ali já passaram, coroando-os com o turbante da sabedoria? - Quantas paixões, amores, infâncias, adolescências e mesmo adultos, fizeram em seus peitos a sua morada?
- Bem, assim é a vida. Ela chega e parte sem muitas explicações e embora perpetue em seus peitos, com muitas alegrias e dissabores, acaba por apaga-los.
- O mais intrigante é que ainda resolve repetir em outras gerações, oferecendo-lhes o mesmo fim.
                                   Mas, nada disso importava ao José, entendia que a arte de aceita-la é que valia a pena. Compreende-la e por vezes até driblá-la, além de trazer as sensações da vitória, glória, fama, orgulho e poder, todas ilusórias ou efêmeras, também  te proporciona os amargos da derrota, do anonimato e simplicidade, além da certeza de que nada possuis.
     Naquele dia José não se dirigia ao trabalho, era domingo. Ao passar pela rua, deparou com aquela cena intrigante. - A casa não ruíra, mas estava destruída. - O velho da janela não estava debruçado no parapeito, mas sim sobre os joelhos e sentado na sarjeta.
     José aproximou-se do velho e viu em suas fundas rugas as lágrimas a escorrerem, imitando o curso de um rio e que culminavam por se despejarem pausadamente sobre o chão empoeirado. Então com voz suave e calma, perguntou-lhe o que estava acontecendo.
     O velho, depois de passar suas mãos encarquilhadas e trêmulas sob seus olhos vermelhos e molhados, pediu desculpas ao José por não conseguir controlar suas emoções apesar da longa experiência de vida. Em seguida, com a voz rouca e quase embargada, falou: “Assim é a vida, uma incógnita que ainda não conseguimos determinar, com muitas variáveis e valores oscilantes para mais ou para menos, são operações que realizamos por toda a existência e jamais conseguimos achar o denominador comum. Os tempos passam e as coisas “evoluem”, ao menos é o que sempre escutei. - As mudanças no aspecto arquitetônico da cidade e a necessidade de abrirem uma nova rua, acabou por atingir a minha casa. - Conforme as explicações que me deram, o desenho foi direcionado para que fossem atingidas as construções mais antigas o que viria a favorecer o município, que teria menos gasto com as desapropriações, o que nos traria um benefício muito grande. - Tenho que entender porque, como a casa, eu também estava ruindo e as coisas “evoluem”, ao menos é o que sempre escutei. - Certamente não “evolui”, pois nem sequer descendentes eu tenho. - Fui apenas um cidadão honesto que trabalhou numa industria por muitos anos.  Hoje certamente estava ocupando um espaço indevido, no lugar errado e num momento que não mais me pertencia.”
     Mas, para onde irás? Perguntou-lhe José!
     Sem demonstrar um mínimo de preocupação, apoiou-se nos ombros de José, que estava agachado, levantou-se, deu-lhe sua mão para que ficasse em pé e respondeu-lhe: “Um dia entenderás o que estou passando, sentirás as mesmas angústias e curtirás as mesmas saudades. Tanto as boas como as más lembranças, far-te-ão companhia diariamente e cada momento será repleto de conceitos e experiências. Em cada novo sol, não mais terás a certeza de ver a lua. Apenas um parceiro te será fiel. Terás a convicção de que o tempo é exíguo e, nessa hora, encontrarás dentro de ti, exatamente ali onde o coração habita, a paz que procuraste, mas que só esse desconhecido e incógnito, como a própria vida, poderia te ofertar”.
     Mas para onde irás? Insistiu José.
     Outra vez, com sua fisionomia inabalável e sua rouca voz, respondeu-lhe: “Estás muito preocupado com o depois, precisamos cuidar do agora porque, se o depois não vier, já teremos feito um e não teremos deixado de fazer os dois. Espero que entendas! Não me julgue um divagador. Essa característica não caberia entre as rugas dessa pele carcomida pelo tempo, mas inevitavelmente espalham-se facilmente nos jovens, lindos e lisos rostos da volúpia inexperiente, daqueles que não conseguem perceber que o fim está depois do agora”.
     Mais uma vez José perguntou-lhe: Porque razão, tu estás evitando dizer-me para onde vais? O que te impede de dar-me essa resposta?
     Foi então que, naquele instante, o semblante do velho mudou! Seus lábios muito pálidos, olhos extremamente fundos e a voz já quase inaudível respondeu-lhe: “Pensei que não era mais necessário te dar essa resposta, porém te afirmo que agora não é agora, mas sim o depois do depois”.
     José sentiu uma forte rajada de vento frio, observou uma pequena nuvem que se afastava... Foi quando o homem que comandava a demolição perguntou-lhe: “Senhor! Está me escutando? - Por acaso conhecia o finado, aquele velho que morava aqui?”
     Não! Não Senhor! Respondeu José.
Estava, por acaso, passando pela rua e fiquei entretido, contemplando a demolição. - Desculpe-me, agora preciso ir embora. Depois tenho muito para fazer ainda!
    Retirando-se bastante reticente, José olhou ao seu redor, mas nada viu.    Porém, quando voltou seu olhar para o céu, lá estava aquela pequena nuvem ainda vagando lentamente e cada vez mais distante, tal qual a compreensão de José. Então pensou: “Realmente a maioria das coisas só aprendemos depois de muitos agoras, mas apenas uma, saberemos no último agora, assim mesmo quando estivermos depois do depois.”
     No lugar da velha casa, abriu-se uma bela avenida totalmente asfaltada, mas estranhamente e no exato local onde ficava o velho debruçado à janela, o asfalto apesar de muito bem cuidado, permanecia sempre enrugado e com contorno idêntico ao rosto do ancião.
      José também envelheceu e passava a maior parte de seu tempo, debruçado no parapeito de sua janela, a bem da verdade, a única porta que certamente o levaria para uma pequena nuvem vagante, entre as tantas que observava, distraído e ainda reticente.
         


Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 09/03/2006
Código do texto: T121071

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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