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Somos iguais

SOMOS IGUAIS

      Morando num bairro residencial de uma metrópole, Miguel é um adolescente de quinze anos e filho único de uma abastada família.
      O pai Arnaldo é um empresário bem sucedido.
      A mãe Alice é psicóloga e trabalha em uma escola do bairro, atendendo as crianças com desvios comportamentais.
      É uma família tranqüila, culta, de conduta normal, exceto Arnaldo cuja fama de paquerador, escapou ao controle e se disseminou pela região. Apesar disso, é um homem que não deixa rastros ou sequer, transparece qualquer atitude, indevida, que justifique sua fama.
      Miguel pretende estudar artes cênicas e se tornar artista. Isso desagrada o pai, pois, considera essa profissão vulgar. Pretendia ver o filho como profissional liberal, médico, engenheiro, industrial ou qualquer outra coisa que, segundo seu modo de ver, tivesse maior respeitabilidade dentro da sociedade.
      Alice defende a escolha do filho e tenta convencer o marido, que não deve interferir, afirma que o profissional só evolui quando satisfeito com o trabalho. Afinal de contas, é o dia- a-dia para o resto da vida.
      Apesar de não concordar integralmente, Arnaldo é compreensível e culto, por isso, apenas acompanha o desenrolar dos estudos do filho.
      Dois anos depois, Miguel ingressa, como primeiro colocado no concurso de admissão, na escola de artes, proporcionando evidente alegria para os pais.
      Alice está eufórica, mas Arnaldo ainda está reticente e, apesar de cumprimentar o filho pela vitória, volta a questioná-lo:
      -     Não seria melhor tentar uma outra profissão, filho?
      Três anos se passam e o nome de Miguel, aparece na mídia, é lembrado pela crítica que não lhe poupa elogios. Suas aparições em cena causam um verdadeiro frenesi nas moças da cidade. Rapidamente, torna-se conhecido e começa a transpor fronteiras do país.
      Arnaldo é sistematicamente parado em todos os lugares que aparece. Também, na empresa, todos vêm cumprimentá-lo.
      Aparentemente, o pai aceita a escolha profissional de Miguel, pelo menos, não demonstra repulsa pela arte. Na verdade, está orgulhoso do filho. Porém, devido ao comportamento e fama de namorador, não compactua abertamente com aquela situação.
      Alice está no céu, era tudo que esperava da vida, o único filho é seu orgulho, destacou-se na escola, nos estudos, na profissão, não tem vícios, possui um grande carisma e ainda tem uma educação esmerada.
      Ao completar vinte e um anos Miguel é apresentado à sociedade com uma grande festa.
      Todos estão presentes, parentes, amigos, funcionários da empresa do Arnaldo, da escola onde Alice trabalha, uma badalação total.
      No dia seguinte, um domingo, o almoço foi servido às duas horas da tarde, estavam cansados e nem imaginavam o que lhes esperava.
      Miguel resolve e conta para os seus pais que é homossexual. Aliás, desde os quinze anos, mas agora, maior de idade, devia assumir sua opção e a vida.
     Alice é pega de surpresa, controla-se, refaz-se da indignação, levanta-se, abraça o filho e chora.
     Arnaldo fica ruborizado, levanta-se bruscamente, vai para o quarto, troca sua roupa e sai para a rua.
      Miguel conversa com a mãe, explica a situação e diz se sentir feliz com o companheiro.
      Indagado sobre o companheiro, resolve não dizer e explica para a mãe:
      -     Assim, é melhor, pois, não sei como o pai estará recebendo a notícia.
      Alice concorda e se compromete a interceder junto ao pai, mas, deveria ser paciente, pois, conhecia, bem, o Arnaldo e precisava dar tempo para que ele refletisse.
      Miguel concorda com a mãe e se dirige ao quarto, aonde passa o resto do domingo.
      Já, era madrugada de segunda-feira, próximo às três horas, quando Arnaldo chegou bêbado, entrou aos berros com Alice e lhe pergunta:
      -     Aonde está  Miguel?
      Ela tentou acalmá-lo, porém, totalmente, embriagado, não continha a sua irritação.  Abruptamente se dirigiu ao quarto de Miguel, Alice o acompanhou, ficou preocupada com o que pudesse acontecer. Quando ele abriu a porta, Alice colocou-se à sua frente para proteger o filho.
      Arnaldo manda que Miguel recolha suas roupas, arrume a mala e se retire da casa o quanto antes, porque sua criação e educação não aceitavam tamanha vergonha.
      O filho atende prontamente e começa a arrumar a bagagem.
      Alice tenta fazer com que Arnaldo espere o dia amanhecer. Irreverente ele diz não querer ver o filho nem mais um minuto.
      Miguel pede a mãe que se tranqüilize porque, naquele momento, a melhor opção era retirar-se. Despede-se da mãe e se compromete a contatá-la posteriormente. O pai não aceita se despedir.
      Quatro anos depois, vítima da bebida e desilusão, Arnaldo fica gravemente enfêrmo. Está nas últimas.
      Alice, companheira de todas as horas não lhe deixa um só instante.
      Arnaldo pede para ela procurar o filho e pedir-lhe que venha visitá-lo no hospital. Pois, quer vê-lo pela última vez.
      Alice que nunca perdeu o contato com Miguel, telefona e faz o convite.
      Pouco mais de duas horas se passam até que o filho chegue ao hospital.
      Alice esperava ansiosa, conversa com ele e pede para ser paciente.
      Sem contestar Miguel vai ao quarto do pai.
      Arnaldo pede para Alice:
      -     Deixe-nos a sós!
      Está arrependido, pede desculpas para o filho e também que o perdoe.  Diz que a maneira como foi criado, não lhe permitiu aceitar aquela verdade, por isso, também, não foi capaz de enfrentar os óbices surgidos durante a vida. Disse, ainda, que internamente o entendia, porém, não era capaz de suportar a cobrança da sociedade.
      Miguel abraça o pai e diz:
      -      Não fale mais nada. Desde o dia que sai de casa, já, lhe tinha perdoado. Estou feliz.
      Arnaldo pede para Miguel levar o companheiro, quer conhecê-lo.
      -     Aguarde um momento pai, vou buscá-lo, está em frente ao hospital.
      Ao passar pela sala de espera, explica rapidamente para a mãe tudo que aconteceu.
     Contente, retorna com o companheiro indo ao quarto do pai.
     Ao entrarem, Arnaldo faz uma expressão de espanto, tenta se levantar, não consegue, sofre uma parada cardíaca, era o fim.
     Marcos, companheiro de Miguel, retira-se rapidamente.
     O corpo de Arnaldo é levado para o necrotério.
     Miguel pega a roupa para vestir o pai, estava abalado, mas, tinha a obrigação de praticar aquela ação.
     Ao verificar os bolsos do paletó, encontrou um envelope e, dentro, uma carta com o seguinte texto: “Miguel, não tenho certeza se você me perdoará pelo modo que te tratei nem se virá visitar-me no hospital. Porém, essa carta é minha última esperança de lhe pedir perdão e confessar meu maior segredo. Também, sou homossexual e tive um companheiro até seis anos atrás quando ele sumiu. Só você saberá quem foi esse companheiro e lhe peço, manter segredo. Foi o Marcos, tinha uma joalheria na rua de casa, lembra? Seja muito feliz e tenha certeza de que te amo demais, afinal, somos iguais”.
      Miguel empalidece, o choque foi grande demais. Não podia pensar que tudo aquilo estava acontecendo. Acaba de vestir o pai, beija-o, recoloca a carta no bolso do paletó e se retira.
      No dia seguinte, durante o enterro, Alice pergunta para o filho:
      -     Por que teu companheiro não veio?
      Miguel diz:
      - Mãe, ele nunca mais virá. O mundo pequeno, mas tem, grandes, surpresas. Sou muito parecido com meu pai, inclusive nos gostos e comportamento. A partir de hoje, viverei só para você.
      Assim, procedeu. Dedicou-se integralmente à mãe, abdicando dos sentimentos menores, como ele mesmo dizia, ser o amor.
         

Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 27/03/2006
Código do texto: T129240

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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