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O SEGREDO DO TABULEIRO

Faz cinco dias que Cíntia, médica conceituada, mãe adorada, mulher admirada por uma beleza incomparável, de pele branca e olhar claro, minha mãe, havia falecido de um infarto fulminante dormindo. Era nublado, nove horas da manhã, quando o Juiz começou a ler o testamento que ela havia deixado.
Estavam presentes: eu, meu pai Flávio, meu tio Ricardo irmão do meu pai, sua mulher Laura, seu filho e grande amor meu Gustavo, meus avós e outros tios meus não muito ligados, pois minha mãe era filha única.
Durante a leitura, deixava para cada membro da família algo de muito valor, afinal durante anos trabalhou muito e se dedicou inteiramente à medicina, entretanto, chegou então minha hora:

 Deixo para minha única e adorada filha Sophia o meu lindo sítio “Renascer”, com todos os móveis e terras da propriedade – fiquei chocada, minha mãe ter dado todos os seus bens e ter me deixado apenas aquele rancho, velho e abandonado.

A leitura terminou e como sempre tia Laura saiu bem antes, tentando afastar Gustavo de mim, deixando apenas cruzarmos nossos olhares.

 Filha sinto que está muito decepcionada com tudo isso, mas, nem sempre é o que parece. – disse meu pai, beijando-me no rosto e despedindo-se de mim enquanto abria a porta do meu carro – papai, vou hoje mesmo ao sítio, ver suas condições para vendê-lo e tentar entender porque mamãe me deixou esse sítio e deu todos os seus bens para parentes até mesmo bem distantes... não consigo entender.
 Eu confio muito nas decisões da sua mãe, mas, vá, viaje é até melhor dar um tempo, afastar-se um pouco, pensar se é isso mesmo que você quer em relação a casar-se com Gustavo contra a vontade da mãe dele, que já fez de tudo para prejudicá-los.

Nos despedimos e segui em frente, fui a minha casa, peguei uma bolsa com algumas roupas, outra com mantimentos, liguei para Gustavo, pedi que viajasse comigo, apenas o final de semana, ele topou; disse uma história qualquer pra mãe dele e viajamos. Eram três horas da tarde quando chegamos, sai do carro e estava lá o velho sítio, um grande portão de grades brancas e sujas, logo acima o nome Renascer, ao longe aquela velha e aconchegante casa, entramos então, estacionei o carro e apesar do tempo, parecia que tudo estava intacto, sujo, porém, os moveis inteiros, até mesmo um velho pente da minha mãe ainda estava no mesmo local, próximo ao espelho.
Enquanto Gustavo saiu para olhar por fora os arredores, subi as escadarias e fui até o antigo quarto da minha mãe, ainda estava do mesmo jeito das fotos antigas de quando ela era solteira, os móveis e objetos antigos, perfumes, tudo parecida que tinha apenas envelhecido, mas, nunca mais tocada.
Comecei a limpar o quarto para dormirmos, limpei tudo até o cansaço chegar, sentei na cama, e encostei a cabeça no velho e fofo travesseiro e adormeci.

 Filha, está aqui olhe...
 Onde mamãe, não estou vendo, está muito escuro, acenda a luz!!!
 Não precisa filha, olhe de perto, você gosta de jogar, olhe...
 Estou vendo!!! Estou vendo !!!!

 Sophia, acorde, acorde!!! – disse Gustavo, me puxando enquanto sonhava.
 Oi Gustavo, o que houve?
 Não sei, só ouvi você gritando que não estava vendo e corri, quando cheguei você estava dormindo, acho que sonhando.
 Gustavo, sonhei com mamãe...
 Você está muito impressionada com a casa! Sim, achei um lago lindo aqui perto, tem um velho galpão... – disse alisando meus cabelos enquanto me olhava.
 Gustavo, mamãe queria me dizer alguma coisa... – falei insistindo
 Nada, você está impressionada, vamos jantar, trouxe algumas coisas... – disse se afastando de mim.
 Ela me mostrou um tabuleiro de xadrez e pediu que eu olhasse, ela estava apontando para um dos quadrados pretos, o que será que ela queria com o tabuleiro? Aqui tinha um, é isso mesmo, ela sempre gostou muito, deixa me ver, deve está no guarda-roupa – disse levantando-me e indo em direção ao guarda-roupa, abrindo-o estava vazio, comecei a procurar por todo o quarto, quando me dei conta...
 O piso Gustavo, o piso é xadrez! Deixa me ver pelo sonho o quadrado está embaixo desta cômoda, vamos ajude-me, vamos afastá-lo! – disse segurando no móvel, enquanto Gustavo se aproximava dizendo que não tinha sentido.

Afastamos o móvel e quando toquei o quadrado observei que ele estava solto, retirei e lá estava um envelope, amarelado do tempo, escrito “Para Sophia – ler próximo ao lago”. Olhei para Gustavo que se levantando disse:

 Não Sophia, não me diga que você vai realmente até lá?!
 Sophia você sabia da existência dessa carta? – perguntou-me – claro que não, foi o sonho, ela quer me dizer alguma coisa, vamos, vamos até lá.

Corremos até o lago, nos sentamos na margem, abri o envelope e comecei a ler em voz alta:

“Querida Sophia,

Sei que este momento está sendo muito difícil para você, afinal éramos muito ligadas, mas preciso que entenda as minhas decisões e que tudo que fiz foi por amor.
Eu tinha 17 anos quando meu pai comprou esse velho sítio, detestei, quase morri em ter que deixar a cidade pra vim passar as férias aqui, porém tudo mudou quando descobri  esse lugar e quando conheci Daniel. Nos conhecemos aqui, foi uma paixão louca e devastadora, nos encontrávamos todos os dias, e o que nossos pais chamavam de brincadeiras de criança se tornou uma linda história de amor.
Eu iria passar uns dias acabei passando o verão todo. Meus pais, viajavam durante a semana e me deixava aqui com os empregados, principalmente com Lara, acho que você lembra dela. E em uma dessas viagens dos meus pais, perdemos a noção do tempo, chegou à noite e neste velho galpão eu amei pela primeira vez o homem da minha vida...
Foi uma noite linda de janeiro, a lua estava cheia e eu estava descobrindo os prazeres da vida e do amor. Ele era único, lindo, carinhoso e me amava perdidamente. Desse dia em diante, passamos a nos encontrar direto, nos amar sempre e esse era o nosso porto, entende? Creio que sim, você sabe o que é isso, porque sei que ama Gustavo da mesma maneira.
Bem, queríamos ficar juntos o resto de nossas vidas, mas, seria muito difícil minha família aceitar um filho de garimpeiro casar-se com a filha de um médico, então, em meio à loucura da paixão e juventude, quando o verão acabou na véspera de voltar para casa planejamos fugir, juntamos nossas coisas e nosso “tesouro” para construirmos nossa vida juntos, porém, acho que não era o momento certo... a noite vim para o lago e ele não apareceu, quem apareceu foi meu pai para dar-me a noticia da sua morte por uma queda de cavalo. Quase enlouqueço, chorei durante dias, a morte havia chegado pra mim também, a dor era forte demais, os dias eram sem fim, mas algo me trouxe a vida, foi quando descobri que estava grávida de você... passei a ter outros sonhos, outra vida, eu agora tinha um pouquinho do meu amor para sempre. Entretanto, não sabia como contar aos meus pais, foi aí que contei a Flávio,  meu grande e confidente amigo de escola e da vida, do qual nunca tive nada a não ser amor e amizade, pois ele casou-se comigo, sabendo da minha gravidez, dando seu nome a você, me livrou dos escândalos e ainda a amou como se fosse filha dele, por isso éramos separados e nos dávamos tão bem.
Por isso pedi que conservasse meu corpo, até você encontrar essa carta, porque queria te explicar toda essa história e te pedir para cremar meu corpo e jogar as  cinzas aqui, porque o meu amor ficou aqui. Peço que me perdoe por ter omitido toda essa história, porque tinha medo que não entendesse.
Outra coisa, Flávio amou muito Laura com quem teve um filho que é Gustavo, porém ela  preferiu casar-se com Ricardo por estabilidade, escondendo a paternidade do menino,  ela tem medo de perder o marido. Na realidade tem medo de perder a vida social, então, peça a Gustavo que a perdoe por tudo, ela pensa que vocês são irmãos.
E o mais importante, o tabuleiro que lhe mostrei, vá até o galpão, o piso é um velho xadrez, no mesmo local, quero que vá agora.

Levantamos e seguimos até o galpão, no local quadrado, era uma velha e fraca madeira, quebramos e encontramos uma caixa e ao abrir encontramos inúmeras pedras preciosas.

Tudo isso é seu, era o tesouro que eu e seu pai tínhamos, nunca deixei ninguém visitar ou invadir o nosso sitio, esse lago, é cheio de pedras e só quem sabia era eu e Daniel, agora ele é seu, você e Gustavo podem começar sua vida aí, vocês agora são ricos, muito ricos.
Adeus minha filha, agora vou descançar em paz, me perdoe, seja muito feliz é meu ultimo desejo.”

Depois de ler a carta, ainda muito emocionados, deitamos e nos amamos no mesmo galpão. No dia seguinte, tomei toda a providência para que mamãe fosse cremada, jogamos as cinzas ao vento perto do galpão e do lago.
Gustavo contou a sua mãe que Eu não era filha de Flávio e ela nos abençoou, no entanto, nunca soube que sabíamos de toda a história. Nos casamos e fomos morar no sítio, começamos a trabalhar com as pedras e tivemos uma filha chamada Carmem, agora tem setes anos e apesar de gostar muito do jogo de xadrez, nunca ensinamos nem a incentivamos a jogar, porém, ela joga muito bem e diz que aprendeu porque joga todas as tarde com uma senhora brancas e de olhos claros que mora no galpão.
Albuq
Enviado por Albuq em 28/03/2006
Código do texto: T130220
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Sobre a autora
Albuq
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 37 anos
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