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A Morte Escolhe

       “Morte: o único imortal que trata a todos com igualdade, cuja pena, paz e refugio são para todos... os pecadores e os puros, os ricos e os pobres, os amados e os esquecidos...”.
Mark Twain




Ar puro!
Era tudo que eu poderia querer, que ansiava sentir, após a minha escolha de deixar a cidade grande rumo à paz e tranqüilidade do interior.
Depois de muitos anos vivendo toda a loucura que uma grande cidade como São Paulo traz consigo, o constante receio de que algo de ruim pode vir repentinamente a acontecer, agora toda esta neurose urbana ficou para trás, e ao meu redor apenas a calma do campo.
Optei por voltar ao meu estado de origem, o Rio Grande do Sul, comprando uma grande área de terras e construindo uma confortável casa para que, dessa forma, não sentíssemos um grande impacto, ao deixar a capital paulista, e toda as facilidades que uma grande cidade nos propicia. Afinal de contas, tudo que quiséssemos, lá, estava ao alcance de nossas mãos. Claro que isso se o bolso nos permitisse.
Mas agora, São Paulo é apenas uma lembrança do passado, o nosso futuro está aqui, no interior. Quem diria, depois de todos estes anos, acabei por me tornar um fazendeiro. E todo dia que passa me sinto realizado por ter tomado esta decisão.
E também, eu não posso pensar apenas em mim, não sou e nem estou sozinho no mundo.
Faz sete anos que estou casado, e apesar do receio que se apossou de mim no momento do sim, cheguei a cogitar uma fuga tresloucada da igreja, gritando a plenos pulmões “ajudem-me, estou louco”, mas contive esse sentimento dentro de mim. Graças a Deus, pois nunca imaginei que poderia ser tão feliz de dividir meus sucessos e fracassos com Eloísa, minha fiel companheira, minha sempre disposta amante.
E, claro, meu filho, Thiago, a principal razão de ter decidido abandonar o barulho e abraçar o silêncio.
Apenas cinco anos de idade, mas com reações e maneiras de pensar e agir que sempre nos surpreendem. Thiago é uma criança extremamente inteligente, e, apesar de tímida, acaba por sempre cativar as pessoas que estão ao redor.
Uma criança especial, como todos os pais consideram os seus filhos.
E dois meses morando aqui, no sítio agora pertencente a mim, meu amor pela minha esposa e meu filho parecem ter dobrado sua intensidade. Mesmo o meu amor próprio parece ter atingido novos patamares. Estava feliz, isso resume tudo que sinto.
E nessa linda manhã, ao apreciar toda a beleza que o nascer da primavera nos proporciona. Nessa manhã, tudo mudou.
Eu assistia ao meu filho brincar na beira de um pequeno lago que existe na propriedade, quando notei que havia algo de diferente no ar.
Algo que eu não sabia explicar exatamente o que, mas com certeza não era apenas uma má impressão. Não era apenas uma sensação ruim.
Aproximei-me um pouco mais de meu filho, sem que ele notasse que eu o estava observando, mas nada parecia de diferente aos meus olhos. Não conseguia perceber nada de diferente.
Não conseguia enxergar, mas conseguia sentir.
Difícil explicar em palavras, mas o mais próximo que posso descrever, era como se o ar tivesse se tornado mais pesado, como se a respiração se tornara mais difícil.
Então que vi a mais aterrorizante imagem de minha vida.
Um pouco acima de meu filho, como que flutuando no ar, estava uma pessoa a olhar fixamente para mim e meu filho. Não exatamente uma pessoa, e sim uma criatura, uma visão que infesta os nossos pesadelos infantis, e nos faz temer dormir de novo.
E eu sabia, no primeiro instante que a vi, eu sabia de quem se tratava.
A morte.
E olhava fixamente para mim e depois, para meu filho.
Como explicar o pânico que passou a tomar conta de meu corpo? À vontade de berrar em desespero, de arrancar meu filho daquele lugar e fugir para o mais longe possível.
Mas como fugir da morte?
Então ela sussurrou, as palavras surgindo de todos e de nenhum lugar, como se trazidas pelo vento para que eu pudesse ouvi-las.
“Breve”
Após isso, a criatura virou para meu filho, e sumiu, como se nunca tivesse estado ali.
Como se fosse apenas uma alucinação minha.
Mas eu sabia que não era, eu sabia que o que tinha visto e ouvido era real, e a conclusão era uma só.
A morte iria levar meu filho.
Em um desespero interno, que queimava meu corpo, corri e abracei meu filho, abracei com toda a força, como que querendo impedir sua ida para o além-mundo.
Como se isso fosse possível.


Entrei em casa rapidamente, levando comigo meu pequeno filho em meus braços, e durante todo aquele dia não sai e não permiti a ninguém que deixasse a residência.
Uma pífia tentativa de impedir algo que não poderia ser impedido.
E a noite, após colocar Thiago para dormir, ao permanecer ao seu lado, zelando pelo seu sono, zelando pela sua vida, comecei a chorar. Um pranto baixinho e repleto de dor. Lágrimas por uma vida que nem se iniciou e que poderia estar chegando já ao seu final.
E nesta instante uma certeza se apossou de mim, eu nunca veria meu filho crescer. Naquele instante, eu sabia que estes seriam meus últimos momentos em sua companhia.
E as lágrimas continuavam a rolar pela minha face. Nada eu poderia fazer.
Não consegui dormir durante a noite inteira, mas não falei coisa alguma pra Eloísa, pretendia manter o que vi e sabia somente para mim.
E assim o fiz.
O dia seguinte transcorreu normalmente para eles, mas não para mim. Cada som fora do comum me fazia temer que a hora teria chegado. E que meu filho seria tomado de mim. Tomado por uma maldita entidade que se considera no direito de tomar dos humanos a única coisa de valor que possuem. A vida.
Mas nada aconteceu, tudo ocorreu como sempre, nenhum sinal de algo diferente, de algo inesperado.
Será, que afinal de contas, Tudo não passava de apenas uma espécie de delírio meu? Uma alucinação e nada mais?
E no meu intimo, cheguei a acreditar nisso.
E a noite, novamente, preencheu os céus com sua escuridão, revelando o fim de mais um dia.
E nada havia acontecido.
Voltei a sorrir, sentindo uma incontida alegria se espalhar pelo meu corpo. Nada havia acontecido, talvez nada nunca viesse a acontecer, e viveríamos felizes para sempre.
Mas não existe felicidade eterna.
Naquela mesma noite, ao deitar junto com minha esposa, a alegria se rendeu ao desespero.
Apenas se ouviam os sons dos animais e do vento que soprava com relativa força lá fora. Mas dentro da casa uma outra espécie de som sibilava, um forte e ensurdecedor canto.
E apenas eu parecia ouvir tal som, minha mulher continua a dormir ao meu lado.
Levantei rapidamente e me dirigi ao quarto de meu filho. Mas, ao chegar lá, notei que ele também dormia profundamente.
Ou será que ele não estava apenas dormindo?
Olhando atentamente da porta para ele, não conseguia distinguir qualquer espécie de movimento em seu corpo, e um temor começou a se apossar de mim. Um inevitável tremor de meus ossos. Um frio percorrendo toda minha espinha.
Após incontáveis segundos parado, me desloquei em sua direção, com o coração parecendo que saltaria do meu peito.
Coloquei minha mão defronte ao seu nariz, e senti um leve respirar. Ele estava vivo, nada havia acontecido com ele.
Um indescritível alivio tomou conta de mim.
Então ouvi novamente o agudo sibilo que me acordara anteriormente.
E ele vinha do andar de baixo.
Mais precisamente abaixo de mim.
Deixei o quarto de Thiago, me dirigindo ao som que parecia me hipnotizar, como que um canto de sereia me atraindo, me seduzindo, sem possibilidade de voltar atrás.
Mas, um lampejo de lucidez me fez pegar o taco de beisebol, que havia sido dado ao meu filho no ultimo natal.
E então comecei a descer. Descer de encontro ao angustiante som que apenas eu conseguia escutar. Um som destinado apenas a mim.
A cada passo que dava, cada vez que me aproximava mais do estranho canto, mais ele parecia desvanecer-se. E ao chegar ao primeiro andar, o som sumiu por completo.
E o silêncio novamente tomou conta da casa. Um silêncio sepulcral.
Com o bastão erguido em posição de ataque, abri a porta do banheiro, que era de onde pareciam surgir os sons.
Mas não havia nada, nada nem ninguém lá dentro. Apenas o vazio.
Senti uma espécie de alivio, parecia, afinal, que tudo isso provocara uma espécie de loucura em mim, talvez fosse isso, nada, além disso. Uma pequena dose de insanidade que se apossou de mim. Mas já passara, e tudo estava bem.
Foi então que vi, no espelho do banheiro, como que se escrito em sangue. E todo meu alivio se transformou no mais profundo pesadelo.
Apenas uma palavra, mas era o suficiente.
“Amanhã”.
Então cai no chão, e chorei copiosamente. Joguei para fora todo o desespero que havia dentro de mim.
E ali mesmo, após horas chorando sozinho, que adormeci.


Na manhã seguinte, acordei com os primeiros raios de sol que se chocavam em minha face, secando as lágrimas que me acompanharam durante toda a noite anterior.
Levantei-me com certa dificuldade, o corpo inteiro dolorido, não tinha mais idade para ficar deitado e dormir no chão frio e duro do banheiro. A ultima vez que havia feito isso foi aos vinte anos de idade, depois de um porre que me impediu de sequer chegar a minha cama.
E ao olhar minha imagem refletida no espelho, notei que não havia mais nada escrito ali. Como se alguém tivesse vindo apagar as evidências de seu crime durante o meu sono, sem que eu percebesse coisa alguma.
Será que tudo não passou de mais um delírio meu? Talvez depois de tantos anos na loucura da cidade grande, a calma do interior tivesse me enlouquecido.
Mas ao olhar para baixo, todas as dúvidas se dissiparam.
Na pia do banheiro, gotas de sangue se misturavam a água que corria da torneira aberta.
O sangue que havia sido usado para escrever no espelho a noite anterior.
O sangue da morte.
E ao olhar para meu reflexo no espelho, enxerguei a face de um homem derrotado, alguém cuja esperança havia abandonado o seu corpo combalido.
E nada restava a não ser esperar pelo inevitável.
Decidi mandar minha mulher fazer uma visita para seus pais que moravam no interior do Paraná, e que passasse alguns dias lá, e não se preocupasse que tudo ficaria bem comigo e com Thiago.
Ela relutou bastante em aceitar minha idéia, mas acabou por concordar. Eu sabia da saudade que ela sentia, da falta que faziam seus pais em sua vida. Poucas vezes depois de casados tivemos a oportunidade de visitá-los. Eu sabia que esse desejo acabaria por fazê-la aceitar minha sugestão.
E então, após curtas porém sinceras despedidas, ficamos apenas eu e Thiago em casa. A espera do que viesse em nossa direção. Eu faria de tudo para impedir que acontecesse algo de ruim com ele, mas sabia que dificilmente teria algum sucesso em minha empreitada.
Nos divertimos muito durante todo o dia, brincamos durante a tarde toda, até a hora que a noite chegou.
A noite, a hora que os mortos se erguem, e os vivos se juntam a eles.
E com a lua cheia brilhando em todo seu esplendor do lado de fora, senti uma presença junto a nós dois. Uma presença forte demais para ser ignorada.
Ela estava entre nós. Era chegada a hora que tanto temi nestas ultimas horas.
Sem que Thiago notasse qualquer coisa, como se ele estivesse surdo pela presença milenar que estava diante de nós, apenas eu enxergava e ouvia a criatura surgida das profundezas. Uma entidade apenas imaginada em filmes e livros de terror.
Porém, era uma presença real, tão real quanto eu e você.
E a morte estendeu sua mão desprovida de carne em nossa direção. Um chamado para meu filho acompanhá-la rumo ao desconhecido.
E do lado de fora não se ouvia som algum. Como se todos os animais tivessem emudecido diante de tal horrível entidade.
Meus olhos, repletos de lágrimas de dor, não conseguiam de maneira alguma encarar tão medonha criatura. Criatura esta que veio tirar a coisa mais importante em minha vida. E nada havia que eu pudesse fazer para impedir.
Apenas consegui murmurar as palavras “seja breve, e não o faça sofrer, por favor”, nada mais, além disso.
E ela o foi, o mais breve possível, e tomou minha mão. O seu gélido e repugnante toque de encontro a minha pele, erguendo e fazendo-me caminhar em direção as névoas que a cercavam.
Somente então percebi a verdade.
O alvo da morte nunca havia sido meu filho. Ela nunca realmente tinha pretendido levar ele. Desde o primeiro instante seu objetivo havia sido eu.
Apenas por alguns instantes senti o alívio de saber que, ao menos, meu filho iria poder sobreviver e desfrutar sua vida por completo. Aquele sentimento de saber que não poderia vê-lo crescer era real, apenas era eu que não estaria ao seu lado. Mas tudo estaria bem com ele.
Foi neste instante que me dei conta do que havia feito.
Ao mandar Eloísa visitar seus pais no Paraná, pedi a ela que não me ligasse de maneira alguma, que não se preocupasse que eu entraria em contato com ela.
Fiz isso, pois sabia que não teria condições de comunicar a ela a morte de nosso filho.
E agora, Thiago está sozinho, quilômetros longe do centro da cidade, praticamente sem mantimentos.
Sozinho no mundo, longe de tudo e de todos, uma criança de apenas cinco anos.
Como ele poderia sobreviver?
E ouvi uma horrenda gargalhada ecoando ao meu redor. E mesmo sem poder enxergar, eu sabia quem havia dado tão horrível risada.
A morte havia conseguido o seu intuito, iria conseguir levar ambos junto consigo.
Maldita, como pude ser tão estúpido?


Sozinho na noite escura, Thiago continuava a brincar, tentando entender para onde seu pai poderia ter ido àquela hora da noite. Ao menos ele tinha com quem brincar, apesar de não saber quem era aquela pessoa que estava junto a ele. Cego desde o seu nascimento, Thiago estava acostumado com a escuridão. Só não entendia como poderia estar tão frio dentro de casa.
Vicente Reckziegel
Enviado por Vicente Reckziegel em 26/04/2005
Código do texto: T13073
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Sobre o autor
Vicente Reckziegel
Estrela - Rio Grande do Sul - Brasil, 38 anos
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