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O Andarilho

Uma estrada onde a noite é eternamente escura, onde as estrelas não brilham, onde a semente da vida não cresce nem germina.
Nesta via em que os homens não se arriscam a andar, e a tristeza é uma constante, caminha um homem vestindo trapos, farrapos de uma vida há muito perdida. Uma vida cuja chama interna aos poucos vai perdendo a intensidade, até que, fatidicamente, se apagara para sempre.
Seus pés chocam-se contra o áspero solo, pés que trazem feridas há tempos já cicatrizadas, onde o sangue não escorre mais, chagas que infestam não apenas sua pele, mas seu interior também.
Em seus olhos, a chama da vida não brilha mais, apenas buracos oculares gelados, capazes de congelar a mais radiante das criaturas existentes. E ninguém ousa se aproximar de tal alma perdida.
Como conviver consigo mesmo, quando a esperança é apenas um borrão indistinto em um horizonte impossível de ser alcançado?
Perguntas cujas respostas não são conhecidas, onde ninguém pode intervir, apenas assistir e lamentar mais uma batalha perdida. E as trevas novamente vencem e capturam uma presa indefesa.
E o pobre homem, cansado de andar, e não conseguir chegar a lugar algum, decidi descansar ao lado do caminho nebuloso. E assim o faz, fatigado, o ar escapando lenta e dolorosamente de seus pulmões.
Um corpo que, impiedosamente, não se entrega ao frio, e, ao mesmo tempo, doce abraço da morte. Doce ou travessura, jogos que não consegue compreender.
O homem joga seu corpo na relva úmida, gotas de orvalho brilhando na escuridão angustiante. Uma escuridão que recebe seus convidados de braços abertos. Braços acolhedores e mortais.
Deitado, olhando rumo ao borrão negro sobre si, o homem fecha seus olhos e ora pelo fim, para que tudo afinal chegue ao triunfante desfecho. Que soe os acordes finais de uma triste e desafinada canção. A música de sua vida, distorcidas melodias que machucam e aborrecem.
E o sono chega, não o sono reparador, não o sono eterno, aquele que acolhe. Apenas um sono perturbado, como a alma daquele ser. Como sempre haveria de ser.
Junto com o sono, chega o sonho, eterno, destrutivo. Não apenas um sonho, e sim a imagem fatal, a brincadeira final que irá ecoar para sempre, enegrecendo sua alma e despedaçando seu coração.
Os sonhos de fantasia, de esperanças que todos esperam que se tornem reais, sonhos de felicidade e jubilo, esses nunca mais iram chegar até ele. Morreram, decorrentes da realidade que insiste em mostrar sua face zombeteira.
E nas mãos deste homem repousa uma ensangüentada fita de cabelo azul. Segura firmemente, como se nela residisse todos os seus sonhos partidos, como um último elo com o mundo real. Como se nesta fita houvesse a única coisa que realmente importava ainda a ele.
Só resta então a escuridão:






O passado.



Um erro de rumo, e eles vagam em uma rodovia desconhecida, perdidos pela mais absoluta falta de diálogo. Há muito que já não falavam nada além do estritamente necessário. Um casamento, cuja paixão e cumplicidade há muito tempo já eram apenas borrões distantes. Um casamento que só se mantinha por um único fio. Uma filha, amada e venerada por ambos, mas principalmente por ele. A razão de sua existência. Inocência pura, imaculada. Cinco anos de idade, uma vida inteira pela frente.
Mas a vida prega peças, e nada se pode fazer para mudar o que um ser superior determina como início e fim.
Era uma estrada realmente estranha, nenhum tipo de estabelecimento comercial podia ser avistado. Nem sequer um posto de gasolina. Como uma grande via em meio a um deserto eterno eles vagavam. O ar seco, que ressecava os lábios e entorpecia o corpo. Cada movimento provocava um espasmo de dor. Uma noite sem estrelas, apenas a imensa lua laranja pairando sobre suas cabeças.
A única luz em meio à escuridão total.
E o medo. Sim, o medo era quase que palpável naquele lugar. Não se sabia o quê nem o por quê, mas havia algo errado naquele lugar.
Gotas de suor pingavam de suas frontes. Percorriam todas as nuances de suas faces até repousarem nas roupas, que, pouco a pouco, se tornavam úmidas. Lágrimas que apenas o corpo pode derramar.
De repente, uma peça de roupa foi avistada ao lado do acostamento, pairando como um boneco estúpido a mexer seus braços sem coordenação alguma. Movido pela leve brisa que soprava. Um vento quente que apenas aumentava o mal-estar sentido por eles.
Mais alguns metros adiante se podiam avistar mais outras peças. Uma calça feminina, suja pela poeira e terra que era levantada. E seguiam-se mais e mais roupas, até mesmo uma imensa mala pairava ao lado da rodovia.
Foi então que o carro passou por cima de algo que quase acabou por provocar um acidente fatal.
O que era, nenhum deles sabia. Mas o temor de terem atropelado algum animal selvagem, ou até talvez uma pessoa, tomou conta de todos. E mesmo a filha acabou por acordar com o sacolejar do veiculo e pôs-se a chorar, uma lamúria no principio tímida, mas que se tornou mais alta até afinal tornar-se um pranto digno de um Oscar.
Instintivamente, ele parou o carro, e após contar alguns segundos, resolveu sair e ver o que era aquilo.
Do lado de fora, o que parecia ser apenas uma impressão, talvez uma superstição tola, parecia realmente se materializar como uma espécie de ameaçadora verdade. O corpo parecendo mais cansado do que o normal, uma fuga, se necessária, nessas condições parecia uma verdadeira utopia.
Entretanto, fugir do que? O que havia realmente a temer naquele lugar, além do desconforto de parecer serem os únicos seres vivos por aquelas bandas?
O homem não sabia o que temer, mas tinha conhecimento que deveria sim temer, por si e por todos dentro do carro. Inclusive sua filhinha.
Mas a curiosidade é mais forte que o medo. Não encoste a mão no fogo que ele queima. E mesmo assim acabamos por testar se esta afirmação é verdadeira. E as conseqüências todos conhecem.
Então o homem parou diante do que havia passado por cima. Nada além de uma mochila repleta de roupas. Nenhum nome nela, nenhuma forma de identificar seus donos.
Uma mochila que parecia pertencer aquele lugar.
Voltando o mais rápido possível para o carro, ele acabou por larga-la ali mesmo.
Entrou no carro sem dizer coisa alguma, apenas tratou de religar o carro e tratar de sair o mais rápido daquele lugar.
Como se isso fosse possível.
Ninguém também lhe fez qualquer tipo de questionamento, com certeza ansiosos em fugir o mais rápido daquela estrada estranha e angustiante.
O carro deu uma pequena engasgada, como se temesse continuar a jornada, um pressentimento do que viria a ocorrer.
Mas acabou por ligar, e seu motor aos poucos tomava fôlego e ecoava aos ventos, quebrando o silêncio que imperava naquele local.
E deixaram, aos poucos, a mochila e todas as roupas que coloriam a estrada pra trás. Até que se tornaram apenas lembranças e nada mais, além disso.
Porem, apenas poucos metros depois, podia avistar-se outras formas paradas na estrada. Pedaços de carros que jaziam parados no asfalto negro. E um pouco mais adiante, no acostamento deserto, via-se um carro, virado de cabeça para baixo.
Possivelmente teria capotado.
O homem saiu de seu carro, com um leve temor a percorrer-lhe a espinha. Medo do desconhecido que todos devem ter. Receio de não saber o que poderia encontrar.
O estado do carro era lastimável. Tornara-se apenas um de monte ferro retorcido, onde podiam se avistar algumas gotas de sangue, estas já coaguladas.
Sua mulher, talvez impaciente pela demora dele, decidiu também sair do carro. Ansiosa para pegá-lo pelo braço e ambos saírem o quanto antes daquele lugar.
Mas onde estavam os ocupantes? Não havia qualquer sinal deles. Não poderiam simplesmente terem sumido. Sem deixarem qualquer vestígio. A não ser o sangue no carro.
 Foi então que a mulher deu um grito, abafado talvez para não amedrontar sua filha, mas cujo terror era evidente na sua voz.
Havia encontrado eles.
Jaziam estirados, a cerca de quinze metros de onde estava o carro. Seus corpos, apesar do tempo que deviam estar ali, ainda não apresentavam sinais de putrefação. Estavam até relativamente bem conservados. Dentro do possível, afinal de contas, pelo estado que se encontrava o carro, era de se esperar corpos mutilados, visões que trariam pesadelos durante longos períodos de tempo.
Entretanto, apenas estavam mortos. Quase nenhum ferimento. Apenas o sopro da vida não existia mais ali.
Tentando retomar o controle. Os dois resolveram sair dali o quanto antes, temerosos que sua filhinha pudesse estar vendo tal cena. O que poderia marcar a sua vida para todo o sempre.
Então que aconteceu.
Dos corpos, começaram a surgir, o que no princípio pareciam luzes, mas que logo se revelaram ser o próprio espírito. A alma daquelas pessoas que haviam perdido suas vidas cedo demais.
Espíritos que olhavam e vinham em sua direção.
Aterrorizados, o homem e sua mulher trataram de fugir dali. Abandonar aquele lugar antes que a loucura tomasse conta de vez de suas mentes já tão perturbadas por aquele estranho lugar e o ar de morte e desespero que pairava no ar.
Ligaram o carro, arrancando com os pneus riscando o asfalto, sobressaltando de vez a já chorosa filha. Que não entendia o que acontecia, só sabia que havia algo errado. E tinha medo. Muito medo.
Com razão devia temer.
 Andaram apenas alguns poucos quilômetros e viram que novamente a cena parecia se repetir.
No começo, roupas e malas espalhadas pelo trajeto, seguidos de pedaços de carro. Ate chegarem ao já indefectível carro capotado no acostamento.
Só que não era o mesmo carro de antes.
Até mesmo o estado em que ele se encontrava era diferente do anterior. Não estava tão destruído, até mesmo se encontrando em bom estado de conservação. Para um carro que havia capotado.
O homem decidiu parar o carro. Talvez pela maldita necessidade que se tem de confrontar o que não conhecemos. A curiosidade que move e leva muitas vezes a um beco sem saída.
E viram novamente espíritos saindo dos corpos mortos. Espíritos que vinham de encontro a eles.
O volante tremia na mão do homem, enquanto o carro rompia o silêncio com seu motor roncando.
Silêncio da noite negra, quebrado, despertando de vez todo o mal que ali residia.
Tentando imprimir a maior velocidade que podia conseguir, o homem não conseguiu segurar as lágrimas que insistiam em rolar de seus olhos. Lágrimas que misturava medo e insanidade. E ela não era o único a chorar...
E a cena continuava a se repetir, cada vez com uma intensidade maior. Cada carro destruído, cada alma que se levantava de corpos atirados ao longo do trajeto rumo ao nada.
O velocímetro marcando cada vez uma velocidade maior. Até chegar ao seu limite.
Com isso, o porta-malas se abre, espalhando pelo chão todas as malas e objetos que carregavam. Como se estivessem num conto de fadas, deixando migalhas pelo caminho para depois poderem depois saber qual rumo tomar para voltar.
Mas não havia volta. Não havia retorno daquela estrada. Apenas uma direção a seguir.
Foi então que o inevitável aconteceu.
O homem perdeu por alguns instantes o controle do carro. Instantes que foram suficientes para que uma tragédia anunciada acontecesse. O carro deu uma leve escapada de traseira. O que fez com que, tentando consertar o seu próprio erro. Fizesse o homem virar o volante em outra direção.
Na velocidade que estavam, um erro mortal.
Capotaram uma, duas, três vezes. O homem acabou sendo lançado para fora do carro.
Uma explosão, e o silêncio novamente reclama seu lugar.
Quanto tempo desacordado, ele não saberia afirmar. Só que, ao despertar, viu que estava sozinho deitado ao chão. Não conseguia avistar sua mulher nem tampouco sua filha.
Conseguiu levantar-se com certa dificuldade, não havia ferimentos sérios. Ao menos não superficialmente.
Após procurar por algum tempo, enxergou onde estavam os corpos delas.
Exatamente apenas os corpos. Mortos, irremediavelmente a chama da vida extinguida.
Lágrimas rolaram de seus olhos, enquanto sem notar, segurava uma fita azul. A fita de cabelo da sua filha.
Ao lançar seu olhar de volta aos corpos sem vida de sua família, viu que deles surgiam as mesmas luzes. E seus espíritos tomaram forma, lançando um olhar de dor e ódio em sua direção.
O homem tratou de correr o mais rápido que podia conseguir nas condições que se encontrava. Mas não há como fugir da dor. Ela acompanhara sempre seus passos, onde quer que ele vague. Até seu fim chegar.






Então as lembranças findam, e ele desperta. Sempre o mesmo sonho, sempre a mesma dor sentida e repetida. Sem saída, e a morte não brinda ele com o descanso e paz tanto ansiados.
E lança um olhar melancólico em direção a sua mão, que segura firme uma suja e manchada de sangue fita azul. Mas seus olhos não choram mais...
Levanta-se, para continuar a caminhar, talvez para todo o sempre, andar sem direção. Apenas para tentar esquecer a dor e mágoa sentidas. E assim o faz, como sempre fez e como para todo o sempre irá fazer.
Acima dele, como se acompanhando seus passos, duas formas espectrais flutuam. Dois pontos brilhantes em meio à escuridão.
Presos também aquele lugar. Sem direito ao descanso eterno. Almas presas num limbo.
Onde a vida nada vale.
Vicente Reckziegel
Enviado por Vicente Reckziegel em 28/04/2005
Código do texto: T13516
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Sobre o autor
Vicente Reckziegel
Estrela - Rio Grande do Sul - Brasil, 38 anos
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