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A Confissão do Diabo - parte final

      --- Foi horrível tudo que ele disse. Blasfêmias, calúnias, injurias. Foi demais pra minha cabeça. A mente humana não comporta tanta maldade. Saí ensandecido do confessionário, rasguei minhas roupas, corri em direção ao altar derramando a água benta no chão e arrancando o nazareno da cruz. Eu gritava que ele era o verdadeiro rei da mentira. Eu estava com ódio de Deus. Arranquei a imagem de cristo e com força espatifei no chão aquela estátua de gesso em mil pedaços. Depois ainda enlouquecido pelo demônio dentro de mim peguei um latão de querosene e taquei fogo na estátua de Nossa Senhora, enfim, na igreja toda. Eu fugi daquela cidade.
Depois de um tempo começou um período... não muito claro... acho que... bem apesar de algumas coisas que fiz... acho que meu jeito mudou. Meu ódio e minha amargura... assim como a maldade que me fez trair a confiança daquelas crianças se acabaram. - dizia o padre careca e bicha.

    ---- Sei, sei... -- eu fazia idéia de como ele começara a acariciar as crianças com esse fim de amargura.

    ---- Eu me tornei bondoso e gentil, compassivo e o mais importante, compreensivo, tornei-me um padre melhor.
Um bicha eu diria.

        ---- Viajei pelo País durante dois anos. Não sei bem que Evangelho eu preguei, mas sei que levei a paz a algumas almas perturbadas ao longo do caminho. A última delas foi interior da Paraíba... batizei gêmeos em uma noite tão bela que era possível se afogar nas estrelas.

       'Aposto como deve ter afogado as crianças'.

     ---- Eu me senti feliz de novo e então resolvi vir para o sul... foi quando te encontrei naquela tarde. Você pensou no que aconteceu comigo depois daquilo?

      ---- Por um certo tempo. Soube que te meteram numa sala vazia, pensei que tinha sido pelo resto da vida. Torcia pra que levasse eletrochoque todo dia... mas aconteceram outras piores comigo e eu quase esqueci de você. Até hoje.

    ---- Você estava certo. Fiquei num hospício por mais de vinte anos. Eles nunca souberam dos outros, mas o que fiz com você... e o fato de estar catatônico... isso era o bastante. De repente o mundo perdeu o sentido pra mim. Eu vivia acorrentado e em uma camisa de força. Até isso, tudo bem. Nunca me faltou companhia. Ele vinha todas as noites e me lembrava sua confissão. Por mais de vinte anos ele me afastou da sanidade. Porém cerca de uns três meses atrás ele apareceu e tudo ficou diferente...ele disse 'você está curado...' e então eu me vi são. Os médicos levaram um mês para ter certeza, mas o governo não tinha mais dinheiro. Saúde não é prioridade, quanto mais a mental. Tive alta quinze dias atrás.

     O que ele estava tirando de dentro do casaco? - Lápis

    --- Eu ... não sei por que ele me libertou. Mas não esqueci da confissão dele nem do que ele me levou a fazer... é por isso que eu vim aqui... eu vim... pra perguntar...

    ---- É! e isso nos deixa com mais uma pergunta né? Qual foi a confissão do diabo?

       Os olhos do padre pecador estão cheios de lágrimas. Então em silêncio, ele colocou um lápis encostado em cada olho e firmou a base do objeto na murada do banco. Em seguida forçou e bateu com a cabeça para a frente.


    Eu fico ali ainda uns minutos. Meu free acabou. Tenho que comprar mais. O diabo te libertou porque sabia que ia me encontrar. Sabia que você jamais poderia repetir a confissão dele. Você foi um recado, careca.

 Um dia desses o capeta vai me encontrar e então... pouco antes de morrer eu também vou ouvir... a confissão do diabo. Bom, que ele se contente com sua alma padre, por enquanto...
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 18/04/2006
Código do texto: T140869

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes