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O ATROPELAMENTO

                                         

          Chovia muito. Com o pé no acelerador, cerveja na mão, escutando sua música de rock favorita, os pára-brisas não querendo trabalhar direito, ele ia em grande velocidade. Estrada deserta, sem policias e sinaleiras. Victor tinha acabado de sair de uma festa.

          De repente um garoto de bermuda e camisa branca atravessa na frente do carro. Victor como vinha muito rápido e o asfalto estava molhado, não teve tempo de freiar, atropelando o garoto, que foi arremessado longe, já sem vida. O incrível é que o garoto não sofreu nenhum arranhão.

          Victor abre a porta do carro, apavorado, e olha para os lados para ver se alguém assistiu o fato. Percebendo que não havia ninguém por perto resolveu entrar no carro e fugir.
 

           Quando fechou a porta  do carro, olhou o garoto caído na estrada e resolveu sair novamente do carro, indo até o garoto. Chegando perto dele, o colocou entre seus braços. Olhou ao redor e viu um lago próximo da estrada.
     

           Chegando no lago, Victor rasga a camisa do garoto, amarra uma das pontas numa pedra de trinta quilos (que encontrou ali perto) e a outra ponta no pé do garoto. Victor chorava muito, mas para não deixar nenhuma pista, resolveu jogar o garoto no lago, amarrado à pedra. Minutos depois, com a certeza de que o garoto já estava no fundo do lago, Victor correu em direção ao  carro e fugiu.


           Um dia depois do atropelamento Victor acorda.


           Toma seu café, escova os dentes e se olha no espelho, lembrando do acontecimento do dia anterior. Ao sair do banheiro, Victor vê o chão molhado. Era uma água negra, tipo suja e com marcas de pegadas. Então ele foi seguindo as pegadas. Sua casa era enorme. Ele, pacientemente, foi seguindo o rastro, imaginando ser um ladrão. Mas não poderia ser um ladrão, pois as pegadas eram de criança.
 

            Chegou até a porta que ficava no final do corredor. Abriu, trêmulo, esperando saber quem era o dono das pegadas. Quando abriu, levou um susto! O mesmo garoto do atropelamento, todo encharcado, com um pouco de sangue no canto da boca, e com os  olhos  roxos. Victor grita, apavorado:



- N-não p-pode ser você!!! Eu matei você!... Te joguei no lago! COMO VOCÊ PODE ESTAR VIVO, DROGA?

O garoto olhou para Victor. Era um olhar melancólico, triste e suplicante como se estivesse desesperadamente pedindo ajuda. Sem dizer nenhuma palavra, começou a vomitar uma água escura . Victor passa as mãos nos olhos para acordar daquela  realidade inexplicável. Ao abrir os olhos, percebe que o garoto não está mas ali. O chão estava inundado pela aquela água negra, cobrindo seu pé.
Victor estava assustado e trêmulo. De tal forma que teve ingerir um calmante para ficar tranqüilo. Depois, já mais calmo, decidiu  ir ao supermercado fazer compras para clarear as idéias e voltar à normalidade.

        Pegou seu carrinho de compras, sua lista no bolso e se aventurou naqueles corredores imensos do supermercado. O local estava cheio, e com muitas mulheres lindas, que fizeram ele esquecer o garoto. Quando entrou no corredor dos doces, viu um garoto de costas para ele. Todo encharcado, com a água negra. Victor, apavorado, gritou:
     

- Droga! O que você quer comigo !!? Me deixa em paz... Me deixa em paz. Por favor!!!

Todos que estavam próximos do Victor olharam para ele, sem entender nada. Ele então grita para as pessoas:

- Vocês não estão vendo o garoto?!? Vocês estão cegos?!? Olha ele aqui na minha frente!!!


Quando Victor se virou, o garoto já não se encontrava mais no local.


         - Ele estava aqui. Eu juro. - bradou Victor, apontando para o local onde o garoto estava. Todos fixaram os olhos nele, como se estivessem diante de um louco.


Victor sai correndo do supermercado, entra no carro, já alucinado pelas aparições do garoto, e vai até o lago onde jogou o corpo.



        Era meio-dia.

Victor chega no local, abre a porta do carro e sai correndo, na direção do lago. Sem pensar direito, mergulha com roupa e tudo. A água estava preta de tão suja. Vasculhou o fundo para ver se achava o cadáver. Seria difícil ter um contato visual naquela escuridão, mas Victor não desistiu. Foi quando tocou um braço. Tinha achado o garoto. Puxou com força, até a superfície do lago.
                                                         
          Carregou o cadáver até a beira da estrada. O corpo do garoto ainda se encontrava num bom estado. Victor colocou o cadáver nos braços e foi caminhando, em lágrimas, a pé naquela estrada, esquecendo do carro. Varias pessoas que moravam nas casas próximas da estrada, olhavam para ele, estarrecidas com aquela cena bizarra.        

         Após andar por mais de meia hora, Victor parou na frente da delegacia mais próxima. Diante da recepção, largou o corpo bruscamente sobre o balcão.


Victor, em desespero, se entregou para a polícia e contou tudo que havia acontecido. Devolveram o corpo do garoto para a família. Victor foi preso, julgado e condenado a quinze anos de cadeia.



Hoje, continua preso, tendo cumprido dois anos de sua pena. O garoto nunca mais apareceu para ele. Em compensação, Victor foi dominado por um  medo mórbido de água. Medo este tão compulsivo que sempre que o levavam, à força, para tomar banho, ele entrava em pânico e começava a gritar:  



- Nãããããooooo!!! Água não! O garoto pode estar aí! Ele morreu e quer me pegar. Nãããooooo!!!

FIM.
mensageirojc
Enviado por mensageirojc em 25/04/2006
Reeditado em 25/04/2006
Código do texto: T145063
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Sobre o autor
mensageirojc
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 32 anos
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