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Uma Nova Chance

Difícil compreender as nuances que o destino nos proporciona.
Algumas travessuras que a vida adora pregar em nós, sem que tenhamos qualquer possibilidade de prever alguma coisa.
Sei que vocês podem não estar entendendo o que estou tentado dizer, mas vou tentar explicar da melhor maneira que conseguir.
Estou em meu carro, em direção ao interior do município de Extrema, uma cidade localizada no estado de Minas Gerais, coladinha ao estado de São Paulo. Difícil é conter um sorriso a repartir minha face quando penso no que estou indo fazer.
Simplesmente estou indo de encontro ao grande amor da minha vida. Aquela pessoa que, assim que você a vê pela primeira vez, sabe que finalmente encontrou o que muitos passam a vida inteira atrás.
Um verdadeiro amor.
Seu nome é Maria, a mais bela alma que já tive o prazer de encontrar. Uma morena alta, com grandes olhos castanhos. Olhos que conseguiriam hipnotizar o mais gélido dos homens.
Nos conhecemos em 1997, durante um jantar da empresa onde trabalho. Ela era funcionária da filial, localizada na cidade vizinha. Começamos a conversar e nos conhecer nesta mesma noite, uma crescente harmonia e afinidade parecia fluir entre nós.
Acabamos por decidirmos marcar novo encontro para o fim-de-semana seguinte. E assim o fizemos.
E com o trocar do primeiro beijo, descobri que estava apaixonado por ela. Perdidamente apaixonado.
Namoramos durante um ano, e mesmo a distante que às vezes nos separava não era empecilho para que meu amor por Maria se tornasse cada vez maior.
Como seus pais moravam em Extrema, ela constantemente ia de encontro a eles, e por algum motivo nunca havia cogitado a possibilidade de que eu acompanhasse ela.
Mas ela devia ter seus motivos para isso. E o que importava era que eu sabia que ela me amava, e nada mais importava para mim.
Ao menos eu achava que seu amor era real.
Porém, depois de um ano de namoro, Maria simplesmente sumiu sem dar qualquer tipo de explicação e sem deixar um endereço de onde teria ido. E, por estupidez minha nunca pedi o endereço dos seus pais em Minas Gerais.
Tentei, entrando em contato com a nossa filial, onde ela trabalha, descobrir alguma coisa. Entretanto, nada havia lá que pudesse me indicar onde eles moravam, ou onde ela poderia estar.
Ela simplesmente havia abandonado tudo sem dar nenhuma explicação. Sumiu dos olhos de mundo, me deixando só, apenas com as lembranças dos belos momentos passados juntos.
Passei momentos terríveis, era como se tivesse levado junto consigo minha alma e coração. Nada parecia fazer mais sentido algum. Nada mais parecia importar.
Mas o tempo é o melhor remédio, como todos dizem, e muitas vezes realmente o é. Aos poucos consegui aprumar minha vida, colocar minha cabeça no eixo correto e prosseguir.
Cinco anos se passaram desde seu desaparecimento, e já tinha me conformado em jamais vê-la novamente.
Foi quando o inesperado aconteceu.
Numa noite fria e chuvosa de Maio, sem ter nada para fazer, decidi entrar em uma sala de bate papo da internet, para assim passar o tempo e dar algumas boas risadas, afinal, na internet se encontram as mais variadas espécies humanas possíveis e mesmo inimagináveis.
Estava já havia algumas horas navegando, e, prestes a desistir de achar alguma forma de vida inteligente naquele lugar, foi que tudo aconteceu.
Entrou na sala uma mulher com o nickname de bel@, e começou a puxar assunto comigo.
No começo não dei muita atenção, afinal de contas já estava cansado de perder tempo com as correntes de bobagem que fluem nesses bate papos.
Mas decidi perguntar a bel@ qual era seu nome real.
E então ela me disse, Maria.
Foi como se o chão sob meus pés tivesse resolvido se revirar como um grande terremoto. E um frio em minha barriga denunciou o que realmente estava sentindo.
Decidi saber mais coisas sobre ela, e então após algumas perguntas cuidadosamente feitas, eu tive a absoluta certeza de que se tratava verdadeiramente de Maria, a minha Maria.
Então revelei a ela quem eu era.
Mas, estranhamente, era como se ela já soubesse de que se tratava de mim, ao menos não parecia ter demonstrado qualquer reação de surpresa.
Mas como nunca podemos realmente saber a reação das pessoas na internet, não conseguimos enxergar nem ouvir suas vozes, achei que talvez fosse apenas impressão minha.
Começamos, deste dia em diante, a nos comunicarmos quase que diariamente. E aquele sentimento que eu considerava morto em mim renasceu com uma intensidade infinitamente maior.
Só que nunca conseguia arrancar dela qualquer coisa com respeito ao porquê de seu sumiço repentino, sem dar qualquer explicação. Ela apenas me dizia que, no momento certo, eu iria acabar sabendo de tudo.
Então, após algumas semanas apenas nos falando via computador, Maria pediu a mim se não gostaria de ir visitá-la no sítio do seu pai.
A minha resposta?
Estou neste instante a quinze quilômetros de finalmente reencontrar o grande amor de minha vida.
Tenho certeza que desta vez para sempre.


A cada quilômetro mais próximo do sítio onde Maria mora, mais eu sinto o tremor em meu corpo e mãos aumentarem.
Então avistei, ao longe, o sítio onde encontraria minha amada. E o tremor aumentou de intensidade.
Resolvi parar o carro e tentar relaxar por alguns instantes, afinal, do jeito que estava, iria apenas assustá-la. Não queria demonstrar dessa maneira o quanto ela fazia falta em minha vida. O quanto minha existência havia se tornado vazia sem sua presença.
 Aos poucos, recuperei o meu autocontrole, então respirei fundo, liguei o carro e me dirigi a casa onde habitava a mulher dos meus mais tenros e luxuriosos sonhos.
Ao passar pela entrada do sítio, reparei que não havia proteção alguma, nada impedia que qualquer outra pessoa adentrasse ali e furtasse o que lhes desejassem (ou o que teria).
Falo isso por que nitidamente as coisas não iam bem para os moradores (no caso, minha doce Maria e seu idoso pai). A sensação de abandono e descaso era visível a qualquer pessoa que observasse com um pouco mais de cuidado todas as peculiaridades existentes ali.
Mas não havia sinal de que alguém morasse naquela residência, nenhum sinal de vida, nenhum carro ou mesmo outra forma de condução. Era como se vivessem isolados do restante do mundo.
Resolvi buzinar, para ver se aparecia alguém. Tentei uma, duas vezes, e nada. Nem sinal de vida em qualquer canto do sítio. Cheguei a temer que tudo não passasse de uma terrível e cruel brincadeira comigo. Alguém que soubesse o que passei, e, resolverá jogar seu humor negro para cima de mim.
Esperei durante mais alguns minutos, e nada de diferente acontecia. Então resolvi ir embora, com meu coração e alma rasgados ao meio. Estilhaços de uma dor que não cicatriza jamais.
Foi então que vi. No canto da velha casa, avistei uma pessoa a me olhar fixamente. Um homem, que logo percebi não poder se tratar do pai de Maria. Este era um homem forte, de idade parecida com a minha.
Chamei por ele, mas ele instantaneamente desapareceu de meu raio de visão. Simplesmente fugiu, como se não quisesse ser avistado. Como se não pudesse ver visto por mim.
Sai do carro e tratei de caminhar rapidamente em direção ao lado da casa onde havia o enxergado, mas, ao chegar lá, não vi sinal algum dele. Era como se tivesse sumido da face da terra.
Ao me virar, vi Maria na porta da casa, olhando com ternura em minha direção, me fazendo esquecer completamente do misterioso homem.
- Rodolfo! Há quanto tempo! Que saudades eu senti, e, nossa, você não mudou nada desde a última vez que o vi.
Ah, Maria, externamente pode ser que nada tenha mudado, mas no meu interior as dores de sua partida continuam a machucar até hoje.
- você também, continua linda, continua a mesma princesa de cinco anos atrás.
Nos abraçamos, eu sentindo uma emoção nunca antes vivida, nem sequer imaginada. Abracei-a com toda a força que tinha, como se assim pudesse segura-la e tê-la comigo para todo o sempre.
Pena que ela não tenha feito o mesmo.
Seu abraço pareceu frio e sem qualquer sinal de emoção ou amor. Parecia apenas uma formalidade, uma mera e simples obrigação.
Mas poderia ser apenas uma impressão minha. O cansaço da longa viagem poderia ter afetado um pouco a minha percepção.
Conversamos muito, sobre tudo e, claro, sobre nós. Nossos bons momentos juntos, momentos que, eu espero, possam retornar.
Perguntei a Maria onde estava seu pai, que estava curioso para conhece-lo. Porém, ela me disse que ele já havia se retirado e repousava em seu quarto, que era um costume entre eles dormir bem cedo para aproveitar o dia em sua total plenitude.
Concordei com esta afirmação, até porque também estava exausto. E a idéia de poder dormir algumas horas na tranqüilidade do campo me seduziu, e falei a Maria que amanhã poderíamos conversar tudo que precisávamos. E ela me prometeu contar tudo que realmente houve. O porque de seu sumiço repentino e sem aviso.
Antes de ela deixar-me no quarto de hospedes, resolvi perguntar a ela uma coisa:
- existe mais alguém morando aqui?
- não, claro que não, somente eu e meu pai. Bom, boa noite e sonhe com os anjos.
Mas o receio em sua voz denunciava Maria. Ela estava mentindo.
Só gostaria de saber o porque.


Acordei cedo na manha seguinte, ansioso para saber o que realmente estava acontecendo ali.
Eu já tinha certeza absoluta que alguma coisa não estava certo, que Maria estava me escondendo algo importante. E não sossegaria até que ela me contasse tudo.
Sai do quarto, indo em direção a sala de estar, quando vi que na cozinha estava o que só poderia ser o pai de Maria. Resolvi me aproximar e fazer eu próprio as honras de apresentação.
- ola, tudo bem com o senhor, meu nome é Rodolfo Dias de Almeida. Sou o namo... um amigo de sua filha. Um grande amigo. É uma prazer conhecer o senhor.
Ele apenas estendeu sua mão em minha direção, sem fazer qualquer tipo de comentário.
Mas eu podia notar em seus olhos uma certa tristeza. Como se lançasse um olhar piedoso para mim.
E não consegui entender o porque, parecia que ele tinha pena de mim. Como se algo ruim fosse acontecer comigo naquele lugar.
Quando tencionei perguntar-lhe por que me encarava daquela forma, Maria chegou e me deu forte abraço e um efusivo bom dia, bem diferente de que no dia anterior.
- não se importe com meu pai, ele simplesmente não pode mais falar, sofreu uma operação em suas cordas vocais, e desde então vive em um silêncio eterno.
Enquanto Maria falava, eu notei que seu pai apenas baixava sua cabeça em vergonha. Como se essa deficiência o fizesse ser a pessoa mais fraca do mundo.
Ou talvez não era esse o motivo de sua vergonha?
Resolvi que era chegada a hora de Maria me contar tudo. Todos os motivos que a levaram a me abandonar sem dar qualquer espécie de explicação.
Como me arrependi de ter pedido tal coisa. Se ao menos eu tivesse idéia do que me esperava...
Ela me contou tudo, e durante todo o relato que saia de sua boca, ela não me encarou nos olhos. Apenas olhando fixamente para as suas mãos.
Maria era casada quando nos conhecemos, na verdade, ela era casada a mais de quinze anos. E seu marido sempre viveu, segundo ela, junto com seus pais neste mesmo sítio. Este era o motivo pelo qual ela seguidamente retornava para cá
Segundo ela, no momento em que nos conhecemos, ela estava brigada com seu marido. E, desiludida com ele e com a vida, encontrou em mim uma espécie de conforto para a tristeza que sentia.
Entretanto, algum tempo depois, ela e seu marido reataram o casamento, e tornou-se para ela cada vez mais difícil conciliar os dois amores. Então ela decidiu abandonar tudo que havia construído junto comigo, e preferiu viver novamente com seus pais e seu marido. Apenas um ano após ter saído do meu lado sua mãe veio a falecer.
Impossível descrever a dor, a tortura que as palavras ditas por Maria fizeram a mim. Então todo o meu amor, todo o meu desespero pela sua falta foram em vão, ela apenas estava comigo porque sentia-se só. Mas o verdadeiro amor de sua vida sempre havia sido seu marido. Eu era apenas uma forma de distração.
O homem que eu havia avistado, na ocasião de minha chegada ao sítio, era na realidade o marido dela.Talvez por isso ele teria se escondido quando eu cheguei.
Mas havia algo a mais. Alguma coisa que Maria não me contou.
Perguntei a ela o porque então que ela havia me chamado para este encontro.
Maria baixou novamente a sua cabeça, e apenas murmurou que precisava muito de minha ajuda.
Droga, esta mulher conseguiu pela segunda vez destruir meu coração, e mesmo assim eu sabia que não poderia negar uma ajuda a ela. O amor nos faz os maiores tolos do mundo.
Então ela me contou que seu marido era, na verdade, um fugitivo da polícia.
Quem diria? Maria uma mulher de bandido, isso realmente eu não esperava. Então perguntei a ela o que ele havia feito para ser decretada a sua prisão. Era por motivo de roubo?
A resposta dela foi um riso estranho. Um sorriso enigmático, que me fez sentir um leve tremor a percorrer meu corpo.
Na verdade, seu marido era procurado por mais de dez mortes. Ele estava envolvido com o tráfico de drogas, e não hesitava em matar quando lhe convinha. A vida humana para ele não tinha o mínimo valor. Apenas a sua própria, e o da sua família, valiam alguma coisa. E não foram apenas concorrentes e policiais que haviam perecido em suas mãos. Mesmo idosos e crianças já tinham sofrido o ataque fatal de uma fúria que não conhecia limites.
Senti um medo tomando conta de mim. Meu Deus, nunca poderia imaginar Maria envolvida com alguém assim. Não a Maria que eu conhecia, não a doce e delicada princesa que havia conquistado meu coração.
E perguntei a ela como eu poderia ajudar.
Este foi meu maior e último erro.
Maria apenas sorriu, uma risada maliciosa e debochada.
          - Nada. Ela me disse. - você não precisará fazer nada, você acaba de nos ajudar.
- como? Não conseguia entender o que ela quis dizer com isso.
Então senti uma forte pancada em minha cabeça, e, caído ao chão, vi o marido de Maria com um revólver apontado em minha direção. E apenas ouvi o barulho do disparo.
A partir daí, tudo escureceu.


- seu nome, por favor?
- Rodolfo Dias de Almeida. E está é minha esposa, Maria, e seu pai
- viagens a negócios ou turismo?
- apenas turismo, quero distância do meu antigo trabalho. De hoje em diante é como se eu fosse uma nova pessoa. Simplesmente uma nova pessoa.
Vicente Reckziegel
Enviado por Vicente Reckziegel em 04/05/2005
Código do texto: T14640
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Sobre o autor
Vicente Reckziegel
Estrela - Rio Grande do Sul - Brasil, 38 anos
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