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Perdido na Madrugada

Eram passadas três da madrugada quando o galo cantou. Seu estridente canto me tirou do pesadelo ao qual eu havia entrado. Por que o galo cantaria a uma hora dessa? Não havia nem a luz da lua! Saí de debaixo do aconchego do cobertor, calcei os velhos chinelos, e fui a cozinha para beber água. Ao sair do quarto para o corredor o ar da madrugada me bateu no peito como a foice da morte. A janela do outro lado se encontrava aberta. Fui a passos largos e a fechei com rispidez. Ao lado de fora a noite escondia minha chácara em véu negro, não conseguia discernir nada a mais de três metros de meus olhos. Até chegar a cozinha a única coisa que ouvia eram os estalos do chinelo ao bater em meu calcanhar. Pensei em acender a luz, mas na geladeira havia aquela lâmpada com luz opaca que serviria a meu propósito. Quando abri a geladeira um odor nauseante escapou para o espaço aberto. Alguma coisa tinha se estragado. Antes que pudesse ver o que era algo bateu fortemente a porta, como se tivesse sido arremessado. O coração palpitou com maior velocidade. Por que tais coisas só acontecem na madrugada? Acendi a luz da cozinha e abri a porta, agora, ao contrário do corredor, não havia vento, apenas o ar parado. Na parte inferior da porta uma grande mancha vermelha. Oh Deus! Seria aquilo sangue? Não tive audácia de verificar. Primeiramente fui até os degraus da escada para ver se via algo suspeito. Nada. A noite engolia a luz como um buraco negro faz no espaço. Então experimentei uma sensação de perda dos sentidos, um amortecimento dos músculos e a mente vazia. Não sei quanto tempo estive ali perdido, flutuando sob um abismo de esquecimento, entorpecido, aquilo não podia ser real.
Acordei com a casta luz do sol, ainda nascendo longe no horizonte, machucando minha vista. Encontrava-me nú, estirado sobre a grama no pequeno jardim a porta da cozinha, não sentia frio, só uma estanha sensação de fome, um grande vazio no estômago. Curvei-me para sentar e senti o corpo todo latejar. Havia inúmeros pontos sob a pele, como sinais deixado por agulhas, estava trêmulo, senti falta do cabelo rebelde que sempre me caía sobre a testa e levei a mão ao topo da cabeça, não havia mais cabelo, deixaram-me apenas elevações que minha intuição dizia ser cicatrizes. O que havia acontecido comigo?
Assim que me acalmei e olhei ao redor, não acreditava no que via. Os animais estavam todos mortos. Galinhas espalhadas, contorcidas por todo o terreiro, montes de penas em poças rasas de sangue. Um dos cães estava enrolado no cercado de arame farpado, seu corpo fatiado pelas farpas, do outro, só sobrara a carcaça do lado da porta da cozinha, provavelmente fora ele que bateu a porta no meio da noite, havia literalmente explodido, as vísceras esparramadas, tornando o chão de terra púrpura.
Caminhei para a porta e depois de três passos eu caí.
Caí de boca no chão, na boca o gosto do sangue que achava ser das galinhas, abri os olhos lentamente, sentindo os ossos doerem onde havia batido. Comecei a rir, histericamente poderia dizer. Estava eu em meu quarto, ainda tinhas os cabelos rebeldes sobre o rosto, e as vestes em meu corpo. Através da cortina os primeiros raios do sol entravam no quarto, o galo cantava, trazendo com seu canto uma nova manhã.

24/05/06
Juliano Rossin
Enviado por Juliano Rossin em 27/05/2006
Código do texto: T164282
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Sobre o autor
Juliano Rossin
Curitiba - Paraná - Brasil, 33 anos
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Juliano Rossin