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Revelação do inconsciente

Era uma manhã fria do mês de  junho. A neblina baixa descia até as folhas secas espalhadas pelo chão, que sinalizavam o ápice do outono.  Os primeiros raios do sol penetravam  por entre os galhos  grossos das árvores e, aos poucos,  aquele nevoeiro ia se dissolvendo.
Guilhermina acordou assustada e com taquicardia outra vez. Era outro pesadelo.  Já fazia quase dois meses que Bernadete havia sido sepultada, no cemitério da fazenda, sob a sombra de uma quaresmeira.
Bernadete era filha única, sofria de leve esquizofrenia, desde os dois anos tinha crises convulsivas e até os treze anos viveu à custa de muitos remédios. Depois que tornou-se moça,  os medicamentos diminuíram.  Aparentemente era uma jovem normal, como as outras,  mas de hábitos incomuns.
Ela adorava caminhar sozinha pelos campos. Apanhava uma flor silvestre ou uma margarida, e ia desfolhando as pétalas, uma a uma: “mal me quer, bem me quer, mal me quer…” De vez em quando cantarolava canções inventadas por ela, sem ritmo e sem nexo nenhum.  Usava vestidos na canela, esvoaçantes, tinha os cabelos castanhos, pesados e compridos. Enquanto corria pelos trilhos da fazenda, os cabelos e o vestido iam  acompanhando a sua marcha.  Era de uma beleza comum, tinha traços singelos, era meiga, mas, mesmo assim, nunca nenhum rapaz havia se aproximado dela, pois todos por ali sabiam dos seus problemas  de saúde e muitos a chamavam de "louca".
Um cão pastor, de nome Shadow,  era seu grande e inseparável companheiro.  Dormia aos pés de sua cama, deitado num tapete de chenile.  Quase sempre a acompanhava por suas andanças nos arredores da casa grande.
 O pai de Bernadete era um sujeito rude, voltado apenas para os negócios e passava quase que todo o dia fiscalizando e repreendendo os empregados da fazenda. Nunca tivera muito tempo para a filha.  Mas, apesar disso, quando se viam, era muito amável com a jovem. Passava-lhe os dedos pelos cabelos e os dois conversavam sobre coisas sem importância.
Numa manhã de domingo os pais notaram que Bernadete demorava-se para sair de seu quarto.  A moça gostava de levantar-se bem cedinho, quando o orvalho da manhã ainda cobria a relva e o sol começava a despontar no alto da serra azul. Mas naquele dia ela não apareceu.  Guilhermina correu até o quarto da jovem e viu que ela ainda estava deitada sobre o leito, descoberta, e o quarto estava muito frio. Uma das folhas da janela ficara aberta durante a noite.   A mãe correu até a moça e percebeu  seu corpo imóvel e frio, rígido. O pulso já não respondia.
- Vicente, chama a médico, depressa!
Vicente veio correndo, ajoelhou-se ao lado da cama, segurou o pulso da filha e, após alguns segundos:
- Não adianta mais, ela está morta.
Mesmo assim, o velho doutor Juarez, o médico da família, chegou depois de duas horas. Entrou no quarto, examinou o corpo inerte e consolou a mãe que chorava copiosamente:
- Morreu como um passarinho. Agora está no céu, ao lado dos anjinhos e de Nossa Senhora!
Marcaram o enterro para as quarto da tarde. E, como era de costume dos antepassados, seria sepultada ali mesmo, no cemitério da fazenda,  onde foram plantados os flamboyants e as quaresmeiras.
Pouca gente compareceu ao velório: alguns vizinhos, amigos da família, o vigário que veio encomendar o corpo. Os parentes não vieram porque todos moravam longe e não chegariam a tempo.  Bernadete ficou bonita dentro do ataúde: semblante tranquilo, estava  com a pele rosada e parecia estar sorrindo. Seu corpo fora coberto com hortênsias azuis e cor-de-rosa e na mão fora lhe colocado um rosário de águas-marinhas, que era da avó materna.  Foi sepultada em uma das gavetas do mausoléu da família, ao lado dessa mesma avó.
A mãe não foi até o cemitério, ficou em casa,  deitada na cama e sendo amparada por uma comadre, velha conhecida.
Nas primeiras semanas seguintes  Guilhermina  permaneceu inconsolável. Perdeu a rotina das tarefas domésticas, passava grande parte do dia rezando e visitando a sepultura da filha, que ficava a uns cem metros da casa. Todas as vezes que  lá chegava, o cão pastor estava lá, deitado ao lado do túmulo. E fazia isso, religiosamente, todas as manhãs.
- Sai daqui, Shadow, vá embora! – dizia a mulher, incomodada e intrigada com a presença do cão ali, todos os dias.
Vicente, já mais contido, de vez em quando escondia-se da mulher para deixar cair uma lágrima de saudade, que, com relutância, descia-lhe dos olhos. Depois que a filha havia morrido, não mais voltou ao cemitério.
Entretanto, quando a mãe parecia mais confortada com a perda, passou a ter pesadelos com a filha.  No sonho,  via a moça correndo por  uma estrada, com os braços abertos, pedindo por socorro.  E estes pesadelos tornaram-se constantes. Às vezes sonhava que a filha corria em direção a um precipício, toda vestida de branco e chamando por ela: “Mamãe, por favor, me ajude!”  Guilhermina acordava de sobressalto, com o coração acelerado e  suando frio.
Mandou celebrar dezenas de missas por intenção da alma da jovem. Num domingo à tarde o vigário chegou a ir à fazenda e celebrar lá, com o casal, os vizinhos e  os empregados.
Por fim, cansada daqueles insistentes pesadelos, e, acreditando ser aquilo um sinal, decidiu:
- Quero desenterrar o corpo de Bernadete!
- Você enlouqueceu, mulher! Isso não se faz! – retrucou  Vicente, com fúria.
- Não há outra maneira! Quero saber o que ela tem a dizer para mim.
- Isso é uma insanidade! Vão pensar que você está louca! Já faz quase dois meses que nossa filha morreu e seu corpo deve estar desfigurado…
E, durante aqueles três dias Guilhermina  não falava em outra coisa.
Até que, numa tarde, num impulso repentino,  saiu correndo de casa e foi até o cemitério. Vicente, percebendo a pressa da mulher, correu atrás e conseguiu alcançá-la já junto à lápide mortuária, arrancando violentamente e em soluços, com um pedaço de ferro, o pedaço de mármore que fechava a gaveta.
Os dois puxaram o ataúde até o chão.  E qual não foi a supresa do casal, ao retirarem a tampa do caixão e verem o corpo da filha virado de bruços, com as unhas encravadas num  rosto todo arranhado. A moça tivera um ataque de catalepsia e fora enterrada viva.
J Angelo
Enviado por J Angelo em 09/06/2006
Reeditado em 09/06/2006
Código do texto: T172314
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Sobre o autor
J Angelo
Alfenas - Minas Gerais - Brasil
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