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Algumas Canções

    Ele observa que as músicas não duram tanto quanto as de hoje. “You ain´t nothing but a hound dog… You ain´t no friend of mine”. Elvis Presley canta alto no som da sala. Enquanto ele, no quarto, embala seus sonhos no computador. Na sala, já tinham estado Beethoven, Verdi, Eric Clapton, Joe Cocker, Fred Mercury, The Faces, Célia Cruz, the great Jimmy Hendrix e muitos mais. “One Night with you”, Presley entoava agora. E ele no PC, sonhando que is what I’m now praying for.
    A campainha tocou. Uma, duas, três vezes. Até que finalmente ele ouviu. Quem seria naquela Quinta-feira Santa, às onze horas da manhã? Sua irmã provavelmente tinha ido pra região dos lagos. Mariana, que tinha acabado de dormir com ele, tinha voltado há pouco pra casa dela. Será que era algum empregado do condomínio? Será que alguém tinha reclamado do barulho? Vou mandar tomar no cu, porra. Será que logo hoje, que tiro um dia pra ouvir música, nego vem me sacanear? Respirou fundo e se dirigiu à porta.
    -Pois não, disse ao abrir a porta e se surpreender com a morena clara, olhos castanhos, cabelos lisos alcançando os ombros.
    -Desculpe ter tocado. Ouvi o som e gostei. Adoro rock. Elvis, então, nem se fala!
    -Se quiser entrar e escutar mais um pouco..., sinta-se à vontade.
    -Não vou incomodar?
    -Claro que não. Estou sozinho mesmo. Só me preocupo se não vai se importar com o barulho.
    -Certas músicas não são para serem escutadas baixinho.
    A moça sentou-se no sofá da sala. Vestia uma calça de lycra e uma camisa de malha branca folgada, chegando-lhe até à cintura. A calça moldava-lhe as pernas, grossas e longas. O nariz afilado, a boca pequena, mulher que chamaria a atenção de qualquer homem. Não é possível que isso aconteça comigo outra vez nessa vida. Essa será a primeira e última. Uma garota assim entrar sem mais nem menos na minha casa!? Apressou-se em abaixar o som pra que pudesse escutá-la e vice-versa.
    -Você deve estar estranhando a minha cara de pau, disse ela numa voz clara, sem qualquer timidez. É que gosto muito de música.
    -Somos dois. Tanto que costumo ouvir de vez em quando sozinho, quando tenho algum tempo sobrando.
    -Já percebi. Foram vários os fins-de-semana em que ouvi o teu som, às vezes bem alto, às vezes mais baixo. Já tinha ouvido hoje, quando fui jogar o lixo na lixeira.
    -Sei que devo incomodar os vizinhos. Você mora no apartamento ao lado?
    -Alugo com um casal amigo. Venho fins-de-semana sim, fins-de-semana não.
    -Encho muito o saco deles?
    -Acho que não. Nunca reclamaram comigo. Eles não ficam muito no apartamento. Só quando não faz sol. Estão sempre na praia ou na sauna.
    -Toma um vinho, um refrigerante, um whisky?
    -Você teria um Martini?
    Ela deveria ter uns vinte e sete anos, imaginou. Pouco menos da metade da idade dele. Certamente não deveria ter entrado em seu apartamento para nada a não ser ouvir um pouco de música. Embora possivelmente já tivesse observado que ele vivia sozinho. Ele não se lembrava de tê-la visto anteriormente.
    -Que coleção de CD’s, héin! Ela se mostrou surpresa com as três filas de CD’s na estante em frente ao sofá, ocupando um espaço de mais de dois metros em duas prateleiras.
    -É, é muita coisa mesmo. Estou pensando em vender ou trocar alguns deles. E assim renovar a minha coleção.
    -Você deve ir de Jacob do Bandolim a Armandinho, não é mesmo?
    -Passando por Lou Reed e Rory Galagher, ele acrescentou.
    -Chegou ao underground?
    -Tenho alguma coisa.
    -Conhece Piaf?
    -Como não poderia? E Callas também. É esplendorosa. Foi mulher do Onassis.
    -Meu Deus, você sabe tudo, conhece tudo.
    -Não fala assim que você me acanha. De moreno posso ficar irremediavelmente preto.
    -Irônico também, é? What about Ray Conniff?

    As sandálias pretas de saltos baixos e tiras finas dela deslizavam suavemente sobre o carpete da sala que impedia um pouco o movimento do chinelo de borracha dele. Mas era o suficiente para que ela percebesse, ao som de Besame Mucho, o quanto ele dançava bem. A taça de Martini, sobre a mesinha de centro afastada da frente do sofá, já tinha sido esvaziada por três vezes. O copo de whisky, na sua segunda dose, achava-se sobre o DVD, num dos nichos da estante, apoiando-se numa bolacha de papelão com o nome de um fabricante de cerveja qualquer.
    Ao dar a sua clássica paradinha, em que obrigava a dama a se mexer com ele por três vezes sem sair do lugar – como nos tempos do Lins de Vasconcellos, em que tinha 17 anos –, seu pênis já se achava suficientemente duro para, roçando-se no meio das pernas da moça, comunicar-lhe a sua inquestionável intenção. A emoção de Strangers in the Paradise, em conjunto com a quantidade de álcool ingerido, certamente levara-o àquele ponto. Surpreendentemente não percebeu, por parte dela – deveria ser o álcool também –, qualquer tentativa de impedimento à sua investida. Ao contrário, sentiu foi o pressionar mais acentuado dos quadris dela de encontro aos seus. O curto calção velho de jersey permitiu que o membro excitado, não tendo o que o impedisse – nunca usava cueca em casa –, fugisse para fora do calção e calidamente se acomodasse no meio das coxas da moça, diretamente sobre a fenda formada por seus lábios vaginais.
    Aos primeiros acordes de Summertime, que ele e talvez ela lembraram na voz rouca de Janis Joplin, suas bocas se colaram. Suas mãos, que cingiam a cintura dela, assim como as dela faziam o mesmo com a dele, desuniram-se para que apenas a sua mão direita pudesse esfregar seu pau na buceta dela ainda coberta pela calça de lycra. Percebia ele que ela se achava encharcada e irremediavelmente oferecida. Sentiu vontade de lhe penetrar o nariz afilado com a língua, ao percebê-la ofegante e inteiramente abandonada. Preferiu, porém, descer-lhe com as duas mãos a calça de lycra, junto com a calcinha de renda, enquanto ela fazia o mesmo com o seu calção velho de Jersey. Quando a última faixa do CD acabou, ele já a penetrava lentamente, valendo-se da estatura dela, superior à dele, que lhe permitia introduzir-se inteiramente nela estando os dois de pé, enquanto ele a mantinha encostada contra a parede da estante. Suas mãos procuravam abrir-lhe a bunda, na tentativa de encaixar o ânus dela no pequenino puxador arredondado do armário de baixo da estante. Aquela peça esférica de madeira seria intensamente cheirada por ele assim que ela saísse.

              Quem me disse que eu chorei
              Quando você partiu?
              Nenhuma lágrima brotou.
              Esse alguém mentiu...

    Ficou cantarolando entusiasmado esses versos, depois que ela se foi, pensando que eles pudessem ter sido escritos por ele. Como estavam em cima de uma melodia conhecida, eram de algum compositor famoso. De que não se lembrava. The man ain’t got no culture, dizia Bob Dylan na sala agora. A coceira no pé lhe dava a nítida impressão de que aquela mulher não voltaria em algum outro dia. Ou não voltaria jamais.
    Já eram quase duas da tarde. Iria perder certamente o almoço barato no único shopping no bairro em que podia encontrar aquele preço. Saiu rapidamente, esquecendo-se do puxador da gaveta na sua estante da sala.


Rio, 21/04/2005


(texto incluído em meu livro "Desejos Descalços", lançado no Rio de Janeiro, em 26/05/2006)
Aluizio Rezende
Enviado por Aluizio Rezende em 11/06/2006
Reeditado em 02/10/2006
Código do texto: T173774

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Sobre o autor
Aluizio Rezende
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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