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O Sabor da Vida

Hoje o céu está tão lindo, as nuvens estão obstruindo a passagem dos raios solares, o céu está mórbido, um vento frio sopra trazendo consigo calafrios, o ambiente realmente está muito belo. Há tempos não sou testemunha de uma manhã tão agradável, lembro-me como se fosse estivesse repetindo aquele dia, que certamente marcou de uma forma tão singular, a minha vida e certamente a de muitas outras. Acredito ser um dia perfeito para o que vai se realizar, um ambiente bem peculiar, com características semelhantes a todos os fatos que rodeiam esta historia.
Era um domingo de inverno, mas não aqueles dias em que amanhecem chovendo e podemos ver crianças brincando na rua, certamente não era desse tipo de inverno que estou a dizer-lhes. Estava tão nublada que em plena manhã, não podia sentir o calor advindo dos raios solares, tampouco sua imensidão de luz, estava escuro, o vento soprava bem particular, um ar frio e seco, mesmo estando no inverno, criava ao mesmo tempo um tipo de nevoeiro, a cidade inteira estava mergulhada neste cenário intimidante. Mesmo assim, o dia começou como qualquer outro, as pessoas saíram para dar uma caminhada logo cedo, para relaxar a musculatura e dar um certo alívio aos cardíacos. Devido o clima, os jovens preferiram ficar em casa, sob seus edredons quentinhos e apenas assistir um bom filme, haja vista, a programação da televisão nos fins de semana ser horrível.
Eu, como dependo de meu próprio trabalho pra sobreviver, preparei todo o meu material para ir trabalhar, fins de semana eram muito lucrativos para pessoas como eu, as pessoas adoram fazer festinhas de confraternização e aniversários e, certamente precisam de alguém para ficar com as crianças, aí que eu entro, sou palhaço. Nas festas, fico em um ambiente específico fazendo brincadeiras com as crianças, e particularmente, como gosto de fazer isto.
Para mim, o domingo tem algo de diferente, minha esposa e minha filhinha haviam falecido em um acidente de carro há meses, numa situação bem peculiar. Para animar as crianças eu usava umas bombinhas sem nenhum efeito nocivo, pelo menos aparentemente, tinta, balões e muitas fantasias. Num domingo, aproximadamente há dois meses, estava em uma festinha para crianças de uma comunidade de sócios de um clube importante na nossa cidade. Saí cedo de casa, pois o local da festa ficava um pouco afastado da cidade, como estava muito cansado, já que havia trabalhado pela noite, minha esposa dirigia o carro, tudo ia bem, até o momento que, sem motivo aparente, minha filha estourou uma bombinha no banco da frente, foi um barulho muito forte e minha esposa ficou repentinamente assustada e num movimento de reflexo, puxou o volante para a direita, o carro saiu da estrada e caiu em um precipício. Deste acidente, fiquei em estado de coma por exatos dez dias, mas este não foi o mais grave do acidente, minha esposa e minha filha foram arremessadas fora do carro e tiveram traumatismo e chegaram a óbito. Triste este momento, acredito ser o mais marcante de toda a minha vida, as pessoas que chegam, a saber, tal sofrimento, são apenas aquelas que estão envolvidas.
Após muito tratamento, fiquei praticamente sem seqüelas, pelo menos dizem os médicos. Já que eu mesmo acredito haver muitos danos a minha pessoa, sendo que, não consigo dormir normalmente, às vezes tenho pesadelos e sinto um certo mal estar em determinados ambientes, principalmente próximo a crianças, parece que tenho um certo impulso a tentar fazer mal a elas, não tenho clareza do que sinto. Mesmo assim, o psiquiatra me liberou dando inclusive recomendação para que eu continuasse meu trabalho como palhaço, seria muito salutar a mim.
Enfim, voltei a atuar em festinhas e eventos em geral. Mas, no domingo passado tive uma crise, não consigo explicar, mas irei relatar os detalhes mais importantes deste momento. Neste dia acordei um tanto quanto desanimado, sem vontade de trabalhar, sem vontade de fazer coisa alguma, apenas queria ficar em casa assistindo televisão, enfim, realmente estava muito deprimido. Após o almoço, me ligaram querendo que eu animasse uma festinha de umas crianças, filhas de funcionários de uma corporação internacional. Relutei bastante em ir, mas, o contratante foi muito insistente e, acabei aceitando. Seria em um balneário, fora da cidade, um local pacato, ouviam-se apenas sons de pássaros e da cachoeira, enfim, um ambiente maravilhoso, onde certamente a mãe natureza foi muito generosa.
Quando se aproximou do horário de eu partir para o trabalho, comecei a preparar as coisas, eram tantos cacarecos que às vezes até me perdiam diante tanta coisa. Ao procurar todas essas coisas, encontrei uma caixinha de madeira pintada a verniz, resolvi olhá-la, ao abri-la logo a deixei soltar-se no chão, tamanho foi o susto que levei, fiquei pálido, estático, totalmente sem reação, apenas vinha em minha mente memórias tão bonitas, agradáveis de sentir, mas que vinha acompanhada de tanta dor, um sofrimento quase insuportável, doía demais. Cai em prantos e fiquei ali totalmente inutilizado por alguns minutos, até que criei coragem e peguei novamente aquela caixa, caída no chão, entreaberta, podia desde já, ver as fotos. Eram as fotos de nossa família, quando estávamos de férias na casa de meu pai, olhando para as fotografias sentia corroer dentro de mim, toda aquela saudade acumulada e enclausurada, não sei o que precisamente estava a pensar a partir daquele momento, sinceramente não lembro.
Já estava no sítio, não sei como cheguei ali, apenas estava conversando com o dono da propriedade e ele estava me falando acerca do trabalho que dava pra deixar aquele ambiente sempre daquela forma, belo. Eu, sinceramente, não estava prestando atenção no que ele estava dizendo, apenas concordava. Até que ele saiu e foi conversar com os convidados, enquanto isso, eu já me vesti e preparei todos os acessórios para divertir as crianças. Estava indo tudo bem, tinha ensaiado um repertorio novo que estava deixando as crianças muito curiosas, brincadeiras realmente divertidas e educativas. Não me lembro de alguns momentos, apenas sei que estava no chão caído, e as pessoas me chutando, querendo me matar, gritavam por nomes muito ofensivos e eu não conseguia reagir, apenas rolava no chão e tentava levantar. Depois de alguns minutos, eu já estava à beira da morte, quando chega uma viatura e os policiais rapidamente me socorrem. Quando comecei a agradecê-los por terem me salvo daqueles sádicos, que estavam me espancando sem nem eu mesmo saber o porquê, sinto apenas uma pancada seca e forte na nuca e desmaiei.
Acordei aqui na prisão, não sei por que estou sendo assim tão injustiçado isso realmente acontece com pessoas de baixa condição financeira.  De outra forma, sentia-me muito bem, como se tivesse tirado um fardo das minhas costas, minha consciência estava leve e eu esbanjava simpatia. No entanto, todos ali me olhavam com certo receio e raiva, parecia que era um criminoso cruel, é o que percebia nos olhos daqueles presidiários e guardas. Mas, tudo vai se esclarecer, hoje pela tarde vou receber a visita de minha irmã e ela vai me tirar desta situação, que certamente acredito ser acidental. Não tenho porque ficar preso, uma pessoa que sempre pagou seus impostos e ajudou pessoas necessitadas, sempre foi um cidadão exemplar, e agora estar aqui, ainda mais sem saber o motivo. E ainda por cima, fui espancado, estava doendo demais, mas dava pra agüentar.
Enfim, está na hora do encontro com minha irmã, sangue de meu sangue, uma pessoa que me ama e fará tudo para que eu possa desfrutar da minha longa vida que resta, repleta de momentos agradáveis. Sentamos frente a frente em uma cabine que é divida por um vidro espesso e com alguns buraquinhos para que nós pudéssemos conversar. Quando ela levantou seu rosto para me olhar, pude ver uma face de uma pessoa destruída, sem vida, sem nenhum brilho, em estado de semichoque. Pelo que pude perceber já tinha chorado muito, a ponto dos olhos estarem feito duas maçãs, vermelhos e grandes, devido o inchaço. Ela levantou os olhos e fitou-me com um ar de desaprovação, mas com uma pena muito grande, não podia defini-la perfeitamente pelo olhar, estava com sentimentos ambíguos, seus ombros estavam caídos, o cabelo um pouco embaraçado e usava uma roupa simples, para momentos corriqueiros, o que era anormal para ela que sempre se vestia com o melhor que seu salário podia pagar, roupas e penteados lindos. Enfim ela sentou na cadeirinha a minha frente, finalmente poderia saber de tudo que acontecera.
Tudo em minha mente parecia tão simples, contá-la sobre tudo que acontecera e mostrar a ela  a injustiça pela qual estavam me imputando. Quando abri minha boca e comecei a lhe relatar minha versão, ela bateu as duas mãos sobre a mesa, com tanta força que todas as pessoas ao lado se assustaram. Em um tom vociferante, gritou-me:
        - E ainda tem a pretensão de explicar seus atos! – Não imagina a barbárie que fizeste? – Pelo menos está em sã consciência?
        Abaixou a cabeça, em sussurro disse:
        - Meu Deus! – O que ele fez!
Atordoado com tudo aquilo, estava ainda entendendo menos do que se passava, minha própria irmã estava a me acusar de ter feito algo tão inescrupuloso, pena eu não saber ainda o que. Pedi que me explicasse tudo com muita calma, ponto por ponto do acontecido.
Quando ela começou a me contar, a cada palavra em sua composição frasal completa, meu coração apertava contra o peito, meus olhos iam perdendo a vida, e proporcionalmente a tudo que me dizia, sofria como se tivessem destruído com meus sonhos, e era verdade que sim, mas eu mesmo acabei com meus sonhos. Relatava com detalhes o que eu fizera com as crianças, disse-me que eu os matei a todos, sem nenhum tipo de remorso, apenas a insensatez dominava meu ser, possuído por tudo que poderia ser definido como maldade, os matei com requintes de alta crueldade. Primeiro, amarrei os menores e com os maiores eu apunhalei, usando uma faca que desconhecia a origem. Quando minha irmã continuava a me contar eu ia sofrendo mais ainda, ela comigo chorava, vendo o meu sofrimento. Ela mesma ficava perplexa por não compreender, que eu agia como se não soubesse de nada que havia acontecido, mesmo eu ter confirmado a ela várias vezes que não lembrava do que tivera acontecido.
Após todo o relato sórdido do massacre, chegou ao cume da potencialidade da insanidade humana, ela disse-me que eu comi a carne de várias crianças, especificamente, o coração. Aquilo veio como uma punhalada  no peito, cheguei a ponto de quase desfalecer, abaixei minha cabeça e por algum tempo, permaneci ali parado, imóvel e estupefato com toda aquele relato. Após isso, não me lembro de quase nada, apenas o corpo de minha irmã jogado no chão, com o peito dilacerado e eu com meu corpo todo ensangüentado e ainda mastigando pedaços de carne crua, era uma sensação tão agradável, só comparada ao orgasmo. Sentia-me em um mundo que poucos compreendiam, perfeito, mágico, agradável, com todo aquele sangue por minha garganta escorrendo, um sabor incomparável, inundando todo o meu corpo de sentimentos e lembranças tão puras de pessoas imaculadas, neste momento, percebia o quanto à vida é linda, principalmente aquelas de coração tão puro. Eu amo a todos, os tenho como partes de mim, sinto toda aquela juventude e felicidade, por tudo isso, prossigo vivendo com tanta felicidade.
O quanto gosto desse clima, frio e nublado, um vento fresco correndo por todo o ambiente. Em dias nublados e escuros como o de hoje, lembro de momentos tão felizes na minha vida. Assim, sofro a abstinência de algo essencial a minha vida, tudo aquilo que me realiza como ser humano. Há quanto tempo não vejo, não sinto, não saboreio a vida daqueles que tanto amo. Essa angústia me corrói, apenas em saber que não estou próximo a seres que tanto quero proteger e amar.  Senti-los de uma forma tão nobre que poucos podem compreender, a proteção que ninguém, exceto eu, pode oferecer-lhes, tê-los literalmente como parte integrante de minha existência, fechados em mim e protegidos pelo meu corpo e amados pela minha alma.

Everton Cangussu
Enviado por Everton Cangussu em 18/06/2006
Código do texto: T177952

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Sobre o autor
Everton Cangussu
Imperatriz - Maranhão - Brasil, 38 anos
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