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O REFÉM

          — Larguem as armas ou eu faço um buraco na cabeça dele — ordenou o sujeito de capuz, apertando com força o cano de sua pistola calibre 38 na têmpora esquerda do jovem funcionário da loja de conveniências do posto de gasolina Reis Magos.
            Do lado de fora do estabelecimento, o cerco se intensificava. Três viaturas da polícia bloqueavam a saída. Os policiais apontavam suas armas para o criminoso, enquanto esperavam a chegada do superior que comandaria as negociações. O clima era muito tenso.
            — Larguem as armas e me deixem sair, ou vou espalhar o sangue deste cara por todas as paredes, ouviram? — insistiu o sujeito encapuzado. Ele suava e tremia, enquanto via os minutos passarem sem conseguir sucesso em seu objetivo. — Não estou brincando!
            Paulo chorava feito uma criança, sentindo a frigidez do cano forçando sua cabeça. Trabalhava havia um ano na loja e já tinha sido assaltado outras vezes, mas como conseguir um bom emprego atualmente é difícil, tinha se acostumado a esvaziar o caixa logo que anunciavam o assalto. Mas não desta vez. Foi rendido na hora em que dois soldados da Polícia Militar abasteciam a viatura. A inexperiência do bandido ficou evidente, quando viu as luzes da viatura parada perto das bombas de gasolina. O que seria somente mais um assalto em sua rotina se tornou o pior dos seus pesadelos. Antes que pudesse se abaixar, deixando livre o caminho para o efeito da lei, foi dominado rapidamente, ficando exposto como um escudo humano nas mãos daquele homem ainda mais assustado do que ele.
            Fazia mais de trinta minutos que estava sob a mira de inúmeras armas de fogo, sem poder se mexer. Não sabia o que mais o apavorava, se a arma colada em sua cabeça exalando o cheiro seco da pólvora ou a enorme quantidade de miras em seu corpo. Tinha certeza de que seu pescoço estava em perigo, principalmente por seu algoz parecer nervoso. A falta de profissionalismo criminoso poderia levá-lo a uma situação imensuravelmente mais arriscada, se o assaltante perde-se definitivamente a calma, acertando-o em cheio, ou provocando os policiais, a ponto de dispararem contra ele.
            Naquele momento incerto, pensava em por que se mantivera naquele maldito emprego sem segurança, sabendo dos riscos que corria ao trabalhar no turno da noite, em um posto isolado, na beira da estrada Rio-Santos. Se o matassem ali, só dariam pela sua morte no dia seguinte, quando o funcionário do dia chegasse para a troca de turnos. Por que não deu ouvidos à sua mãe, quando lhe disse para procurar uma ocupação mais segura. As mães nunca erram em suas previsões, parecem ter um sexto sentido apurado. Mas, prestes a se casar, não poderia trocar o ordenado do mês e as gorjetas por um módico salário-mínimo, sem nem mesmo ajuda de custo para alimentação ou transporte. Precisava de dinheiro rapidamente ou não teria condições de mobiliar a pequena casa que tinha construído nos fundos do terreno dos pais. Como diria para sua noiva, Ana Carolina, que o casamento demoraria mais do que o previsto? Muito mais do que o previsto, se pedisse demissão.
            A lembrança da noiva despertava-lhe medo. Nem mesmo ele, às vezes, acreditava em sua sorte. Casaria com a mulher mais espetacular que conhecera em toda a sua curta, e ameaçada, vida. Ele, que não era nem de perto a sombra de qualquer maravilha do mundo, baixo, com uma leve barriga indesejada se formando, com estudo ainda incompleto, tinha a sorte de desfilar na rua com uma mulher de causar inveja em qualquer homem. Ela tinha as pernas bem torneadas, coloridas de um bronze vivo, uma voz sedutora quando abria sensualmente os lábios carnudos e desejáveis. Ela era turrona, mas também era gentil e carinhosa, como nunca pensara existir no mundo. Ana Carolina era apaixonada por ele a ponto de querer passar a vida ao seu lado, a ponto de dizer o sim diante do altar e compartilhar com ele sua felicidade. Não, às vezes, realmente não acreditava que a vida lhe pudesse ser tão boa. Deus não poderia ser tão cruel, prometendo-lhe uma vida de sonhos e tirá-la bruscamente num maldito assalto.
            Em silêncio, Paulo rezava desesperadamente pela ajuda divina, pedia para que uma luz superior fizesse aquele homem desesperado soltá-lo e se render. Queria que tudo acabasse em paz, sem feridos e que, principalmente, pudesse voltar para os braços da mãe. Voltar para os seios de Ana Carolina, os seios rosados que tanto o fascinavam, mesmo encobertos por um simples decote, levando-o à loucura quando os mamilos apontavam rijos, fosse pelo frio, fosse pela excitação de um momento a dois. Apegava-se a todos os santos canonizados e a outros ainda no tortuoso processo, apelava para qualquer um que viesse em seu auxílio. Até mesmo se o diabo se materializasse em sua frente, ele se jogaria aos pés do chifrudo, pedindo mais alguns anos de vida, só para poder acordar todos os dias ao lado dos seios de Ana Carolina. E se morresse? Ela choraria por ele? Manteria o luto por quanto tempo? Não queria nem imaginar. Pior seria se, depois de morto, como um espectro condenado a vagar pelo mundo, visse a sua doce Ana Carolina aos beijos com outro homem. Desistiu de pensar, implorando com o olhar para que findassem com o seu martírio.
            — Calma, rapaz — a voz pacificadora do sargento Ramos entrou pelos vidros entreabertos. — Pense no que você está fazendo. Não há como fugir. Este caminho é sem volta. Entregue-se e tudo será mais fácil.
            O sargento Ramos insistia pacientemente, tentando conseguir que o assaltante se entregasse sem ferir o refém. Seus anos de experiência em situações críticas o faziam perceber que o meliante estava desesperado, até mesmo arrependido de ter sacado a arma naquele momento impensado. Tinha ainda a ficha criminosa do rapaz, Jackson Pereira da Silva, nas mãos, e lamentava ver aquele jovem, de vinte três anos, a idade do seu filho mais novo, enveredar pelo caminho do crime. A lista de pequenos delitos era pequena. Apenas um furto e uma briga na saída de uma boate. Nada muito sério, nada que uma boa conversa entre pais e filho não resolvesse. Angustiava-se, como pai, imaginado o próprio filho de arma em punho, cercado pelos seus colegas de trabalho, prontos para fazê-lo cair com um projétil no peito ao menor descuido. Não queria que isso acontecesse a Jackson, acreditava que o rapaz tinha salvação, uma oportunidade de dar uma reviravolta em sua vida e deixar o crime. Definitivamente não queria que nada lhe acontecesse, não como policial, mas como ser humano, preservando a vida. Quem sabe não poderia ter a pena reduzida; pensava, tentando fazê-lo se entregar, antes que o superior chegasse e não lhe deixasse escolha, ou chance de lhe reparar os erros.
            — Fácil? — gritou Jackson de dentro da loja, estufando as veias de medo e raiva. — Vocês me matam na primeira oportunidade. Eu sei do que a polícia é capaz.
            O sargento Ramos estava enganado. Não havia salvação para Jackson.
            — Não, rapaz, a polícia serve para proteger as pessoas — insistiu na sua tentativa desesperada de dominar a situação.
            — Sem essa! — retrucou, forçando o revólver. — Vocês são mais perigosos do que qualquer bandido. Pergunte para a primeira pessoa que aparecer em quem ela tem mais segurança. Com certeza não é na polícia — declarou, cuspindo exaltado, enquanto brilhavam os olhos de uma raiva nascida na infância.
            — Por que você não pergunta para esse rapaz tremendo de medo — ironizou o sargento, meneando a cabeça negativamente — afinal, é ele quem está com uma arma apontada para a cabeça.
            O policial tinha razão. Jackson sabia que provocava pânico no atendente da loja, mas era inevitável. Aprendera desde a infância que a polícia era perigosa. O trauma que tinha devorado a sua inocência justificava sua opinião. Viu-se novamente com seis anos de idade, franzino e ingênuo, sentado no colo do pai, numa noite comum. Riam assistindo à televisão, despreocupados com o tiroteio que assolava o bairro onde moravam. Estavam tão entretidos no programa que, quando a porta foi arrombada, caíram no chão como dois pesos sendo derrubados. Não entendia o que se passava na sala, não entendia por que o homem de farda cinza gritava para seu pai não se levantar. Não compreendeu, em podia, o motivo dos disparos a sangue frio na cabeça do pai, só porque ele gritava, nervoso, que aquilo era um terrível engano. Sentiu o sangue quente espirrar em seu rosto e o grito morrer sufocado em sua garganta. Viu o cano ainda esfumaçado virar para sua testa, centrado entre seus olhos, a expressão fria do assassino querendo exterminar a testemunha do seu abuso, quando milagrosamente outro policial invadiu a casa, gritando para o companheiro:
            — Merda! Você errou a casa.
            — Não — afirmou o outro, apontando o revólver para o menino. — Olha o desgraçado que matou o Pereira ali no chão.
            — Caralho, Cruz! — exclamou o segundo, torcendo o rosto. — Não é esse cara, não.
            — Puta que pariu — falou o soldado, baixando a arma, esquecendo-se completamente do menino chocado, olhando para eles, sem entender o que tinha acontecido, esperando somente a sua hora de ver o mesmo clarão que fizera o pai sangrar.
            — Vamos embora. Rápido antes que dê mais merda.
            — E o menino?
            — Deixa esse merdinha aí. Ele não vai falar nada. Vai? — perguntou mostrando o revólver para Jackson, que, imóvel, não conseguia nem chorar.
            Dois tiros entraram pela janela, estilhaçando a velha televisão e os dois policiais se lançaram ao encalço do criminoso procurado, deixando Jackson ao lado do cadáver do pai. Abraçado ao corpo ainda quente, esperou até que a mãe chegasse do trabalho, esperou até que o dia amanhecesse, implorando para que o pai se levantasse e o pusesse na cama para dormir. Esperava para acordar do pesadelo logo que o relógio soasse às seis da manhã. Mas não era um pesadelo.
            Passou a vida sem dizer uma palavra sobre aquela noite, mas por dentro, revia as cenas assustadoras sempre que pousava a cabeça no travesseiro, odiando, a cada dia, qualquer homem que usasse uma farda. Largou a escola quando ainda tinha doze anos e começou trabalhar como adulto para ajudar a mãe no sustento da casa. A revolta se tornou maior quando uma terceira pessoa se juntara a família, fazendo-o sentir a solidão ser sua única companheira. Anos depois do assassinato do pai, a mãe se casou com outro homem, um bicho alcoólatra e violento, que não punha nem o pão que comia à mesa. O padrasto humilhava a pobre mulher, surrava-o sem nenhum motivo e ainda lhe roubava o pouco dinheiro que ganhava sob o sol, vendendo doces na beira da estrada.
            Se existisse algum culpado pelo seu inferno, sem dúvidas era a polícia, não aquele incompetente que o ameaçara, mas toda a corporação. Ela era a culpada, não só pela morte do amado pai, como também pela doença incurável de sua mãe. A mãe que se matava de trabalhar até ser devastada por uma gonorréia mal curada.
            As lembranças o atordoaram por alguns segundos. Vacilou, deixando que Paulo tivesse uma oportunidade de fugir e deixá-lo desprotegido contra o arsenal apontado em sua direção. Sem pensar duas vezes, deu uma coronhada no refém e o puxou para trás do balcão.
            Que merda, essa foi por pouco — pensava, secando o suor que entrara em seu olho, provocando uma dor insuportável.
            — Não estou brincando — gritou enfurecido. — Larguem as armas ou vão se arrepender.
            Paulo, em meio à confusão que a pancada provocara em sua mente, delirava imaginando Ana Carolina entrando pela porta completamente indiferente aos policiais ali parados, erguendo asas imensas sobre ele. Com toda a ternura de sua figura angelical, salvava-o do inferno, acalmando os demônios mais terríveis com sua luz divina. Podia sentir o lufar das suas asas atirando para longe o bandido e lhe levando ao céu.
            Sorriu enquanto pensava voar, causando estranheza em Jackson, que olhava de lado para ele, sem compreender o motivo da satisfação estampada no rosto do seu refém, que até pouco tempo chorava como ele tinha chorado, colado ao corpo sem vida do pai anos atrás.
            Este cara perdeu a noção do perigo. Endoidou de vez — concluiu, tentando encontrar uma forma de sair ileso dali.
            Tranquilizado pela brisa imaginária em seu rosto, Paulo se desligou da situação perigosa em que era vítima. Aos seus pés o mundo era um lugar distante e inofensivo, rodeado pelas águas claras e calmas do mar a poucos metros de distância. Elevava-se nos braços de Ana Carolina, que, batendo fortemente as imensas asas brancas, sorria como no dia em que se conheceram. A paixão lhe aflorava à pele, perdendo o senso do concreto em imagens surreais. Penetrava no mundo das ilusões, e por ele tomava gosto, sem medo do que acontecia realmente consigo. Toda a tensão fora dispersada à medida que ruflavam as asas salvadoras. Tentava discernir o que lhe causava mais contentamento, se era o alívio da fuga ou o toque quente do corpo nu daquele anjo lhe levando ao paraíso. Sorriu, mas por pouco tempo.
            A escuridão sideral lhe cegou. Seu corpo pesado vacilou nas mãos de Ana Carolina e pendeu fortemente para baixo. Tentava se segurar, mas não conseguia se manter preso no corpo angelical, deslizando cada vez mais. Gritava por ela, que batia as asas sem notá-lo em desespero, mas não fazia efeito. Se não o ajudasse, despencaria para a morte, voltaria para o pesadelo real. Suas mãos desceram do ventre para os pés, iria cair, era certo, mas mantinha a esperança de que ela intercedesse, puxando-o ao seu colo seguro. Ana Carolina olhou para ele, friamente. Seus olhos, antes verdes, eram duas bolas escuras e sem vida. O rosto esquálido sorria como se a queda fosse esperada, como se o tivesse levado para aquela altura propositalmente, apenas para vê-lo despencar com violência até sumir quando batesse no chão. As asas não eram as mesmas. A alvura inicial deu lugar a um negrume medonho, parecendo asas de morcego voando na escuridão das trevas. Enrugada, a pele parecia se desprender com seu inútil esforço, despedaçando-se em pedaços apodrecidos e cheios de pus. O líquido gosmento escorria em suas mãos tornando impossível se firmar nas alturas.
            — Socorro — gritou desesperadamente, esbugalhando os olhos, sem que pudesse acreditar na mudança drástica que se operava em sua beldade.
            Acelerado, o coração parecia que, em poucos minutos, explodiria como uma bomba alimentada de sangue. Um gosto amargo lhe invadiu a boca seca, fazendo-o sentir náuseas cruéis, enquanto lutava para não despencar. Ana Carolina era um demônio sádico, rindo do seu pavor, da sua morte próxima.
            Não aguentou por mais tempo. Os pés dela escaparam das suas mãos cobertas pela gosma nojenta. Caiu, vendo a escuridão crescer avassaladora à sua frente, até que sentiu o impacto da queda esfarelar seus ossos.
            A dor foi tão intensa que mal conseguia respirar. Os olhos se desanuviaram e compreendeu o que acontecia. Perdera a noção de si quando recebeu o golpe na cabeça, por isso teve a estranha alucinação. Nem anjo, nem demônio, ninguém veio ao seu auxílio. Ainda tinha apontado para a cabeça o cano mortal do revólver, decidindo o seu tempo de vida.
            O sorriso deu lugar a uma estranha apreensão, não só pelo medo de ser baleado, mas principalmente pela dor em seus ossos ser muito maior do que a laceração no lugar em que recebera a coronhada do revólver.
            Paulo se encolheu, abraçando o próprio corpo, como uma lagarta em seu casulo. Rezava em silêncio para que o pesadelo acabasse antes que ele tivesse o seu triste fim. Ana Carolina? Agora não mais queria pensar na noiva, pois o rosto demoníaco tinha ficado registrado em sua memória como um imenso pôster, colado em todos os lugares para onde olhasse.
            — Socorro — implorou, num tom quase inaudível, para que lhe tirassem dali.
             Jackson percorria a loja com os olhos apreensivos. O tempo passava rápido e não conseguia sucesso em suas exigências. Quase uma hora se passou desde que entrara no posto com seu velho Volkswagen 79. Se imaginasse que um simples assalto daria tanto trabalho, jamais teria ouvido a voz de sua ganância em desespero, querendo dinheiro para cuidar da mãe, a velha prostituta sem clientes. Depois que o tempo derrubou sua formosura, Jackson só queria dar a ela uma vida menos sofrida, num lugar onde desconhecessem o seu passado. Levou dias planejando a série de assaltos a lojas noturnas, sem proteção, ou seguranças dispostos a dar a vida para protegerem os bens que, certamente, o seguro ressarciria, caso fossem roubados. O plano seguia bem, se não fosse o azar se intrometer em seu caminho, dando-lhe uma rasteira. De quem era a culpa de terem aparecido, no exato instante em que encheria os bolsos, os malditos policiais? O desenrolar das negociações estava lhe cansando. Talvez fosse esse o plano, levá-lo à exaustão, para poderem finalmente encarcerá-lo. Das outras vezes em que foi pego, escapou por pouco, depois de alguns dias na prisão, graças à lei que protege os menores delinquentes, mas agora era diferente, perante o juiz, era responsável por seus atos, completou a maldita maioridade; portanto se o pegassem, passaria um longo período vendo o sol nascer por entre grades de um presídio, rezando desesperadamente para que não fosse estuprado quando a noite caísse. Não se entregaria facilmente, morreria a ter de voltar ao confinamento, com criminosos piores do que ele. Mas se realmente não houver esperanças para a fuga, o que devo fazer? — cismava retorcendo os lábios. Não vou sozinho para o inferno, levo esse cara comigo só para provar que eles são incompetentes — disse a si mesmo, olhando, furtivamente sobre o balcão, para o movimento intenso dos policiais, que aproximavam cada vez mais rápido da porta. Precisava impedi-los de entrar, fazê-los recuar até o ponto em que estavam.
            — Parem aí, mesmo — gritou nervoso, mas decidido. — Se derem mais um passo, vou fazer os miolos deste cara voarem. A vida dele está nas mãos de vocês. O que escolhem?
            — Se o matar, Jackson, nada nos impedirá de entrar e acabar com você — gritou Ramos, ameaçando-o.
            Ele sabe meu nome, droga. Agora não tem mais jeito. Não vou ter paz nunca. Se conseguir sair desta merda de lugar, vou precisar sumir do mapa por um ano, pelo menos. Estou ferrado! Não vou ter mais sossego. Para onde eu poderia ir? Talvez para o Rio, como tanta gente faz. Fico escondido numa favela até esquecerem de mim. Qual? Claro, tenho um amigo no Complexo do Alemão. Se der certo, acho que consigo mais dinheiro por lá em uma semana do que aqui em um ano. O tráfico enriquece, cara — conversava consigo mesmo mentalmente, diante dos olhos desconfiados de Paulo. Mas vai ser foda sair daqui!
            Paulo sentia um incômodo em seu estômago, provocando uma pequena ardência que subia até sua garganta. As paredes estomacais queimavam em brasa, provocando-lhe um leve desconforto que em breve se transformaria em uma dor insuportável, caso não comesse alguma coisa. A forte tensão e o medo que lhe envolviam, aceleraram seu metabolismo, fazendo a barriga roncar como um gordo dorminhoco. O som do borbulhar da bile lhe apavorava, mais por apreensão pela possível reação negativa do assaltante do que propriamente pelos estragos que a fome lhe causariam. Trêmulo, pela primeira vez desde que fora rendido, olhara para os olhos de seu algoz, implorando por comida. Não era, em si, a fome que o atormentava, mas as causas de ter vazio o estômago, quando o nível de glicose oscilava entre trezentos ou quatrocentos e depois de perfurar a barriga com a seringa de insulina, descer absurdamente abaixo de setenta. Momentos antes de Jackson invadir a loja, ele aplicara o doloroso remédio. Depois, pego de surpresa, o estresse somado à falta de açúcar no sangue faziam cair para níveis perigosos sua taxa normal de glicose. Os espasmos começavam a se intensificarem, causando-lhe desespero. Se tivesse uma convulsão, poderia morrer por falta de socorro, não poderia arriscar a inanição. Suas mãos tremiam, sua cabeça pendia de lado, enquanto sentia todo o corpo fraquejar. A visão se turvava, imergindo novamente nos estados confusos da mente.
            Tentou implorar por comida ou simplesmente uma bala para que o corpo restabelecesse o nível seguro de açúcar, mas a língua se entortava na boca, e o único som que emitiu foi um estranho e desconcertante rangido dos dentes, chocando-se uns contra os outros, enquanto mordia a própria língua. Ergueu a cabeça num esforço tremendo e, sem que pudesse sustentá-la por mais tempo, a deixou cair novamente, perdendo os sentidos.
            Tinha os olhos abertos, mas não podia ver com clareza onde estava. Parecia preso numa espécie de caixa selada, forrada com um tecido sedoso e acolchoado. Respirava com dificuldade o ar pesado e escasso. Seus pulmões ardiam cada vez que os enchia, inspirando com dificuldade o pouco oxigênio. Tentou levantar as mãos para procurar uma saída daquele lugar, mas os cotovelos bateram contra a parte de baixo do que seria, se não estivesse enganado, seu próprio caixão, impedindo-o de completar o arco que abriria a tampa pesada. O pânico o tomou. Paulo se debatia violentamente dentro do caixão, a fim de parti-lo em mil pedaços, mas sua força de nada adiantaria para arrebentar a pesada madeira que o encarcerava para a eternidade, ou pior, aos vermes asquerosos que lhe viriam roer a carne, enquanto ainda tentava respirar. Podia sentir as larvas subindo em suas pernas e entrando em suas roupas. Não entendia como aquelas criaturas entravam no caixão, uma vez que ele tentara sair dali sem ter encontrado uma única fenda.
— Estes bichos já estavam aqui quando me enterraram — disse com os olhos arregalados ao constatar o óbvio — vivo — gritou agoniado — neste maldito caixão.
            O verme subia por seu. O corpo mole e escorregadiço se arrastava sobre sua pele, arrepiando-o. O desgraçado continuava percorrendo seu corpo, como se fosse um caminho prometido ao paraíso da fartura, uma fonte imensa de alimento. Podia vê-lo deslizar para seu pescoço e escalar lentamente até chegar ao rosto aterrorizado. Experimentou o gosto amargo e repulsivo do pequeno monstro se remexendo rapidamente para abrir caminho pelos seus lábios cerrados, forçando a passagem para dentro de sua boca. Movido por instinto, mordeu o corpo repulsivo, fazendo se misturar à sua espessa saliva o líquido repugnante do verme.
            Mesmo com as ânsias de vômito, Paulo ficara aliviado por ter conseguido dar cabo à criatura medonha. Mas a calmaria durou pouco. Muito pouco.
            Ouviu um som de tecido sendo rasgado. Primeiro num tom baixo, imperceptível se estivesse fora do túmulo, mas ali, imerso na quietude lúgubre, o menor ruído era um estrondo devastador.
            Seu corpo estava coberto por milhares de vermes. As criaturinhas caíam do tecido rasgado da tampa, subiam por baixo dele com uma velocidade estonteante. Em poucos segundos estava submerso numa gosma amarelada. Corpos agitados debatiam sobre ele, buscando freneticamente sua boca, seus orifícios nasais, seus olhos. Não havia como evitar a fúria daqueles seres famintos. Cerrar os olhos, selar a boca, tentar levar a mão ao nariz para tampá-lo era impossível. O imenso número de vermes dentro do caixão impedia qualquer movimento. Seus braços tentavam se erguer, mas não aguentavam o peso dos predadores esfomeados. Eles entravam em seu corpo, mastigava os que caíam na boca, mas não era suficiente, entravam de qualquer maneira, por todos os lugares. Uma dor lacerante o fez urrar feito um animal ferido. A pele do braço se inchou. Sentia algo se mover dentro do seu corpo, invadindo o tecido subcutâneo. A passagem fora aberta, agora centenas de vermes tomavam o seu corpo numa avidez louca por carne fresca. A dor crescia. A pele se rompeu, transbordando os bichos asquerosos, cheios de sangue, como um vulcão em erupção, jogando lava por todos os lados, mas ao invés de lava, eram os vermes carnívoros que voavam no caixão, impulsionados pelo fluxo contínuo de sangue se misturando à gosma amarelada que aqueles seres cada vez maiores desprendiam sobre seu corpo. Era devorado vivo, sem perder jamais a consciência, apesar do sofrimento insuportável que o mutilava.
            Em poucos minutos, Paulo tinha se tornado apenas um monte de ossos, um esqueleto fosco, contorcido angustiosamente.
            — Uma bala, por favor — grunhiu para Jackson, fazendo um esforço superior às limitações de seu organismo, depois de voltar a si, horrorizado por seus delírios obscuros — Preciso de... açúcar.
            Confuso, Jackson temia que o refém morresse naquela hora, deixando-lhe sem proteção contra as investidas dos policiais. Poderia jogar a arma no chão, caso perdesse seu único meio de barganhar com eles pela liberdade. Vasculhou o balcão à procura de uma balinha salvadora, mas só encontrou produtos de limpeza automotiva e papéis insignificantes.
            Não podia se levantar e caminhar até as prateleiras de alimentos, pois fatalmente seria atingido por um projétil veloz. Os policiais há muito perderam a paciência, e desperdiçar uma oportunidade de porem fim àquele estúpido cerco seria abraçada com euforia. Estava encurralado, sem saída aparente, próximo de ver o homem que padecera em suas mãos já havia quase uma hora, morrer estupidamente por falta de uma simples bala.
            Socou o tampo do balcão, fazendo tombar sobre eles diversos potes. O estrondo do vidro partindo pareceu um disparo à queima roupa.
            Ramos, ao ouvir o som vindo da loja, gritou para Jackson, preparando-se para uma investida fatal.
            — Largue a arma e saía com as mãos para cima. Você tem dez segundos para sair ou vamos entrar aí e tirá-lo à força. O tempo está passando, rapaz.Você pode escolher entre vir com a gente, andando, ou dentro de um saco plástico. A decisão é sua.
            Jackson olhou enraivecido para Paulo, contorcendo-se como se estivesse em meio a um ataque epilético. A cabeça repicava contra o chão em movimentos rápidos. Seu dedo apontava para alguma coisa escura caída entre os pedaços de vidro, batia a mão violentamente contra o corpo na tentativa de fazê-lo pegar a pequena barra de chocolate no chão. Jackson seguiu o dedo até o doce. Pegou-o, empurrando-o em seguida na boca de Paulo, derretendo aquele retângulo adocicado na medida em que se misturava com a saliva.
            — Se derem mais um passo, eu mato este cara. Desapareçam antes que eu perca a paciência — gritou cheio de ira.
            Mais uma viatura chegou ao posto. Entrou no caminho das bombas velozmente, por pouco não colidiu com elas. Parou atrás de Ramos, que se esforçava para dominar o assaltante, mas sem obter sucesso. A porta se abriu lentamente, fazendo surgir uma figura prepotente do banco do carona.
            Ramos sentiu medo. Teve certeza do seu fracasso, quando o comandante Cruz, vestindo seu terno azul-marinho e sapatos muito bem encerados, ergueu-se diante dele.
            — Eu assumo de agora em diante — falou seriamente para Ramos, tomando-lhe a ficha criminal de Jackson de suas mãos. Olhou-a, estudando os pequenos delitos do rapaz e, muito contrariado, esbravejou — Vocês são mesmo uns incompetentes. Esse merda não oferece o mínimo perigo a ninguém. Como pode um bandidinho medíocre fazer despencar para este fim de mundo oito policiais e fazê-los de besta.
            Paulo voltava ao normal. Os espasmos violentos se foram, deixando-o apenas com a respiração entrecortada. Pensava em sua desgraça, sobrevivendo às ameaças do assaltante, mas padecendo por hipoglicemia sem que nada pudesse fazer. Seria irônico se a doença hereditária, depois de tanto tempo no purgatório, levasse-o à morte.
            Os dois se estudavam, malfeitor e vítima, com os olhos apavorados e sentimentos distintos. Paulo agora mais calmo, agradecia em silêncio, forçando um gesto de alívio para Jackson, por tê-lo salvado a vida. O criminoso por sua vez, estava agradecido por não ter perdido a única coisa que mantinha os policiais distantes. Obviamente, não sabia até quando os homens da lei suportariam a espera angustiosa pela sua rendição. Não estava disposto a se entregar. Tinha chegado longe demais para voltar atrás e tentar sair da condição complexa em que se meteu. Pensou muito antes de resolver que mudaria de vida por meios ilícitos. Tinha pensado no difícil e incerto caminho para as glórias da vida justa, trabalhando diariamente numa empresa, para ganhar um salário risível que, certamente, fugiria do seu bolso ainda no meio do mês. Impossibilitado de saldar suas menores dívidas, ou pagar os médicos e os remédios que sua mãe precisava tomar para os reumatismos, artroses e o câncer, não havia outro jeito. Se a vida chegar a miséria, se seu universo foi devastado, se sua mãe não encontrou outro meio para lhe dar o mínimo para o sustento e a educação, sabia exatamente de quem era a culpa. Embora estivesse em estado de choque, ouviu muito bem a voz do policial homicida tão bem, que nos seus pesadelos a voz era intensa e desdenhosa. Se a ouvisse novamente, dizendo a menor palavra, poderia identificá-lo. Se acontecesse, não importaria se fosse um poderoso empresário ou, como a realidade, um simples delinquente desesperado, faria de tudo para retribuir as angústias infligidas em sua sôfrega existência. A morte do desafeto seria pouco para compensar a separação daquele que mais idolatrava, do seu herói incondicional, do treinador que não se cansava de dizer que ele deslumbraria o mundo com a camisa rubro-negra, tornando-se o novo Deus da Raça, chamando os fiéis para o maior templo futebolístico do mundo. Não, nem mesmo teve a chance de enfrentar a peneira do Flamengo, não teve a chance de treinar no modesto time local. As promessas de dinheiro e satisfação profissional morreram junto com o pai, enquanto o time que os reunia em frente à televisão naquele dia inesquecível e determinante para a sua conturbada existência jogava. A morte daquele homem fardado seria pouco para compensar a falta de amigos e namoradas, porque era o filho de uma puta. São os filhos que sofrem as dores das mães que exercem a mais antiga profissão do mundo. Trucidar aquele que terminantemente era o provocador da miséria que conheceu ainda menino, não o faria esquecer os insultos e brincadeiras maldosas que recebeu durante a infância e adolescência.
            O silêncio vindo do lado de fora era preocupante. Jackson tinha certeza de que algo ruim lhe aconteceria. Simplesmente os policiais não largariam seus postos o deixando sair livre e vitorioso daquela loja. Se talvez tivesse mais reféns sob seu domínio, poderia usá-los como uma valiosa moeda de troca, se um deles fosse uma pessoa importante, um político influente, ou figurão riquíssimo já teria o passaporte carimbado para a liberdade, mas não, eram apenas os dois, ele e um atendente insignificante. Não tinha um bom pressentimento sobre o que poderia acontecer caso vacilasse um instante sequer.
            Seus demônios interiores surgiam para amedrontá-lo. A mãe cadavérica sorrindo entre corpos saciados, coberta de esperma e cheirando a devassidão, erguia-se entre aqueles homens fantasmagóricos, chamando-o para mais perto.
            — Venha, meu filhinho! Venha com a mamãe — dizia com uma voz tenra e consoladora, gesticulando com as mãos. — A mamãe também vai ensinar uma coisa para você, meu querido.
            Jackson obedecia à mãe e seguia adiante, sem que pudesse compreender aquelas estranhas imagens repulsivas se contorcendo como serpentes venenosas, prontas para o bote mortal. Mais próximo, viu o sorriso malicioso da mãe recaindo sobre ele, como se o estivesse esperando desde que perdeu a inocência do corpo, anos depois da morte do marido.
            Mesmo com o amor filial, a aparência da mãe o deixava enojado. Voraz o tempo, assim como os modos, passou por aquele corpo despejando ira. Os seios nus caíam sobre a barriga igualmente dilatada e sofrendo a força da gravidade, vincados de rugas e marcas desajeitadas de dedos vulgares. Repulsivamente, os fartos e crespos pêlos pubianos contornavam sua vagina murcha e ao mesmo tempo desgastada por tantos pênis que a frequentaram como um objeto criado para vender os prazeres da luxúria. Tentava desvencilhar os olhos inquietos do sexo abominável, mas pareciam estar fortemente presos num hipnotismo macabro.
            Sua mãe já voltou da zona? Posso pagar com cheque? Ela faz desconto para três? As maldosas gozações dos vizinhos e colegas de escola explodiam em seu pensamento, molestando-o com a mesma intensidade dos tempos em que não compreendia exatamente o trabalho da mãe. Lembrou-se de quando ouvia, entristecido, os comentários das vizinhas moralistas e enciumadas sobre seu pai, revirando-se no túmulo se soubesse o que a mulher estava aprontando com os homens da vizinhança em troca de dinheiro. Um ódio abrupto fervilhava seu sangue, ruborizando-lhe de vergonha e insatisfação. Quis gritar, mandá-la se limpar e se vestir como a senhora que era, não como uma prostitua barata. Suportar impassível a dor era impossível, mas não podia vencer a força da voz materna puxando-o para mais perto, com um sorriso amoroso, estendendo-lhe os braços, como se quisesse abraçá-lo, embalá-lo para dormir.
            — Venha, meu filhinho, eu vou ensinar a você como se faz para deixar uma mulher louca. A mamãe sabe muito bem como você deve fazer.
            Contra a vontade, seu corpo foi puxado para os braços asquerosos da mãe, que o enlaçaram com violência e desejo. Percorreram suas costas, causando-lhe um frio incômodo congelá-lo por dentro.
            — Não, mãe! Não faça isso, por favor — dizia, tentando empurrá-la delicadamente para não machucar aqueles ossos fragilizados pelo tempo.
            Não queria machucá-la, mas foi obrigado a usar toda a força para se livrar do pecado. Empurrou-a com violência, forçando os braços musculosos contra o corpo frágil dela. Estranhamente, não surtiu o mínimo efeito. Ela, apesar das debilitações, parecia não se abalar com força do filho lhe afastando. Aos poucos foi dominado, perdendo o controle dos membros, tornando-se uma presa fácil para as mãos ardilosas que percorriam seu abdômen e estavam prestes a entrar em sua calça.
            Gritou animalescamente, não vendo nada além do abismo negro onde deviam existir olhos. A pele se lacerava, despencando como se fosse leprosa. Não sangrava. Dos pedaços de músculo expostos, escorria apenas esperma. O cheiro forte se impregnara em suas narinas, fazendo o estômago revolver-se e devolver os restos da digestão inacabada no rosto cadavérico daquela mulher. Não era mais a sua mãe.
            Conseguiu se soltar do abraço pecaminoso. Ela tentava alcançá-lo, deslizando sobre um chão nebuloso. Pedaços de carne se desprendiam do seu corpo, principalmente do rosto. Encurralava-o contra uma parede que não havia antes. Outros braços desconhecidos o seguraram por trás, imobilizando-o. Ela estava perto. Podia sentir seu hálito podre entrar em sua boca. Ela se inclinou num movimento sensual, apesar da sua monstruosidade, estendendo o que tinha restado dos seus lábios para um beijo apaixonado.
            Jackson cerrou os olhos e berrou com tanta força que o grito de desespero rompeu a barreira do pesadelo e chegou à realidade, tão amedrontadora quanto à ilusão sinistra que acabara de ter, assustando o fragilizado Paulo que, encolhido no canto do balcão, implorava angustiosamente para não morrer.
            O desespero regia os dois desconhecidos, prisioneiros das suas próprias e estranhas alucinações perversas. Algo superior às suas compreensões brincava com suas mentes atormentadas por conflitos inteiramente diferentes, mas que, no fim, visam ao mesmo objetivo: saírem ilesos dali e voltarem à suas casas no raiar do dia.
            O pensamento em Ana Carolina evocava em Paulo visões sombrias que o apavoravam como a uma criança, vendo na escuridão do quarto, a porta do guarda-roupa abrir muito devagar, rangendo sinistramente, dando-lhe a certeza de que das trevas que a porta selava, sairia um demônio ávido pelo seu sangue puro. A experiência que tivera em sua última fuga da realidade o deixava perplexo pela forma como sua mente tinha desfigurado o rosto belo daquela estupenda mulher, que julgava não merecer como esposa um dia. Não que fosse religioso para acreditar em formas demoníacas ou pessoas realmente más, porém o pesadelo lhe pareceu ser tão real que passara a temer ver a noiva novamente ressurgir em seus sonhos e se tornar aquela criatura de olhos flamejantes, batendo suas asas de morcego como se sobrevoasse sua vítima. Preso a dicotomia mais importante de sua vida, Paulo não sabia o que fazer para aliviar a pressão a que era submetido. Não sabia onde era melhor ficar, se sóbrio diante a sua realidade perigosa ou como um bêbado batendo às portas de um castelo suspenso no ar. O que, ou quem, estaria nele? A noiva, sorridente, o receberia feliz por sua chegada ou encontraria o maldito diabo gargalhando de prazer ao vê-lo espancar afoito a entrada maquiada do inferno.
            Cara, acabe logo com esta tortura — dizia mentalmente para Jackson, enquanto seus olhos vazios encaravam o assaltante encurralado — e me dê de uma vez esse maldito tiro na cabeça. É melhor me matar e acabar logo com essa angústia do que me deixar tremer ou ter outra crise. Pelo amor de Deus, do diabo, ou de quem for, acabe com isso, porque não aguento mais um minuto sem saber o que será de mim. Não sei se subirei ao altar e direi “sim”, ou descerei ao túmulo mudo e banhado das lágrimas daqueles que esperavam um futuro promissor de mim.
            Paulo pensava o que não tinha coragem de dizer na confusão mental que o desolava, sem dar-lhe chances de decidir o que aconteceria consigo. Esperava que Jackson se entregasse, mas isso foi no início, quando ouviu os primeiros sons da sirene. Agora não tinha mais tanta certeza de que a vida estava a salvo. O tempo corria, mas para ele os minutos eram intermináveis. Esperava somente a hora em que o vulto negro da morte entrasse pela porta com sua enxada cintilante na mão e a lançasse contra sua cabeça, levando-o, com ela, para as trevas mais obscuras que já ouviu falar. E se olhasse atentamente para o rosto encoberto sob o capuz negro, veria o rosto familiar e amado de Ana Carolina, sorrindo como da vez em que se conheceram, despreocupada e satisfeita, vitoriosa por deixá-lo perder o senso, os sentido, a razão, a vida, enfim, tudo entregue às suas mãos.
            — Jackson, largue essa maldita arma e saía com as mãos para cima, agora — ordenou Cruz, sem dissimular sua raiva por ter sido retirado às pressas da cama, interrompendo um sono pesado que lhe fazia esquecer o próprio mundo, vida, mulher e filhos. — Você não tem saída. Desista agora ou não terei outra escolha a não ser invadir essa merda e acertar sua cabeça com meu 38.
            A voz do policial invadiu sua cabeça. Jackson descobriu o verdadeiro significado da palavra pânico, quando a intimação forçou passagem em seus ouvidos cansados de escutar a mesma ladainha que até então não tinha levado a nada. Urinou, molhando a própria calça, num fluxo incontrolável, como um velho debilitado à beira da morte. Sentiu um calafrio gelar seu corpo e uma forte tremedeira nascer em seus pés até dominá-lo completamente. Viu-se de novo no colo do pai, enquanto este gritava exaltado para os jogadores do time de futebol, como se fosse o técnico suspenso, assistindo à partida pela televisão, acompanhado pelo auxiliar de seis anos. Uma onda de calor lhe subiu o corpo, aquecendo os espasmos friorentos que fizeram seus pelos enrijecerem de medo. Escuridão. O som de fogos disparados a pouquíssimos metros o paralisou. O tombo que levou, do colo do pai, sangrando pelos buracos no rosto. A voz de um homem fardado fazendo piada sobre algum engano e apontando aquele reluzente cano de metal para sua cabeça. A voz. Pensou que nunca mais ouviria aquele tom áspero de novo rasgar seus ouvidos. Pensou até mesmo que aquela voz não seria apenas uma composição de sua imaginação infantil. Mas estive enganado todo o tempo. A voz do policial assassino era tão real como as lembranças daquela noite ocorrida havia doze anos. Aquele tom que o fez tantas vezes acordar gritando depois de um sonho mau, em que os episódios mais tristes se repetiam constantemente.
            Jackson se ergueu, protegido pelo balcão. Deixava à mostra apenas uma pequena parte de sua cabeça, um pedaço suficiente que lhe permitia, ao menos, visualizar o que acontecia do lado de fora e, principalmente, queria ver sem se enganar se o dono da voz correspondia com o invasor de seus sonhos.
Olhava fixamente para a multidão de oficiais, apontando suas armas para dentro da loja e, entre eles, em posição de destaque, seu pior pesadelo à frente dos subalternos. Era ele, sem dúvidas. O homem que matou friamente seu pai.
            Uma onda nervosa bateu contra o seu rosto. Dos poros dilatados, o suor brotava, encharcando sua roupa de tal modo, que parecia ter saído sem proteção num dia chuvoso. Os músculos se contraíram num violento espasmo, fazendo-o apertar a coronha do revólver com tamanha força, que seus dedos começaram a sangrar nas juntas. O sangue vivo escorria por suas mãos, pingando no chão intensamente. A dor corporal era mínima diante do sofrimento que a lembrança impregnava em seu espírito.
            Seu medo aumentara, dando-lhe a certeza de que dificilmente conseguiria sair dali. O tempo cada vez mais rápido fechava em sua vida, como se uma monstruosa tempestade se aproximasse, despejando sua ira cega sobre ele.
            — Vou contar até dez, Jackson — Cruz falou impaciente, indicando com o dedo para os policiais cercarem a entrada e se prepararem para invadir a loja. — Ou você sai daí andando com as próprias pernas até eu terminar de contar ou vai sair dentro de um saco preto. Um...
            Esqueceu-se de Paulo, do assalto frustrado, do dinheiro que não conseguira pôr as mãos. Sua cabeça estava presa na lembrança, na arma apontada para sua cabeça. Ergueu-se detrás do balcão e gritou enfurecido, como se, de seu berro, o veneno mortal da desgraça voasse em direção ao policial que tinha arruinado sua vida.
            — Vai pro inferno, seu filho da puta! Eu vou matar este cara e a culpa será de vocês.
            Os olhos raivosos de Jackson caíram sobre Paulo. Engatilhou a arma e apontou para a cabeça do seu refém.
            — Sinto muito, amigo, mas não posso fazer nada. Você viu que eu tentei sair daqui sem ferir você, mas esses porcos lá fora não me deixaram escolha. Faça sua última oração, porque quando acordar vai estar no céu.
            — Por favor, não me mate — implorou — se você se entregar...
            — Eles me matam do mesmo jeito — completou, com o olhar vazio.
            Cinco...
            Paulo fechou firmemente os olhos, aguardando sua execução. Acordar no céu — repetia mentalmente — com todos os pesadelos que tive agora, não me espanta se o próprio diabo vier me levar para arder num buraco em chamas. Não mereço isso, mesmo sabendo que pequei tantas vezes sem saber que pecava.
            Mesmo de olhos fechados, Paulo viu a porta de vidro se abrir e Ana Carolina, perfeitamente linda, entrar na loja. Seu sorriso sereno o acalmou, aliviando seu tormento ante a morte próxima. Ela estendeu os braços, como se o chamasse para um abraço salvador.
            Nove...
            Ana Carolina novamente mudava de forma. Seus braços esticados se revelaram monstruosos. A mão ganhou uma proporção enorme, vincada até os dedos asquerosos, terminando com longas unhas grossas. Seu sorriso já não mostrava os dentes brancos e alinhados, tinham agora um aspecto sujo e mal cuidado, com caninos muito pontiagudos dentro de uma boca ávida e pavorosa.
            Ela estava muito perto. Perto demais para tentar fugir. Suas mãos desceram em seu ombro, apertando-o até fincar as unhas em sua carne, provocando uma dor insuportável.
            É só uma alucinação — disse a si mesmo, tentando fazer a imagem repugnante e fétida desaparecer.
            Não desapareceu.
            — Não sou uma aparição — disse ela, como se lesse o seu pensamento. — Sou tão real como esse pobre, prestes a pôr fim a sua estúpida vida.
            — Não! Quem é você? — Perguntou, tentando se livrar do abraço mortal. — Você não é a Ana Carolina!
            O demônio gargalhou.
            — Não, eu não sou aquela piranha! Mas foi divertido brincar com você no corpo dela. Engraçado, Paulinho — disse zombeteiramente — você não se borrava de medo, quando estava dentro de mim, ou dela, sentindo prazer.
            — Pare com isso! Ela me ama e nós... — parou, não tendo certeza se iria ou não continuar vivo para casar com a noiva.
            — Ela ama você? — gargalhou, ainda mais alta e intensamente do que da primeira vez. — Por acaso pensou que uma mulher bonita e cheia de vida iria amar um homem como você, seu tolo. A verdadeira Ana Carolina nem mesmo sabe quem você é. Faz tempo que estou com você, faz tempo que Ana Carolina morreu.
            — Mentira — gritou Paulo, desafiando o demônio.
            Uma imagem se formou em sua mente. Parecia uma tela em que passava um filme mudo e sem cores. Ana Carolina, a sua doce e delicada noiva, olhando para baixo, no beiral de um prédio altíssimo. Ela chorava como se algo muito doloroso a fizesse sofrer. Seu corpo mole cambaleava no beiral. Imagens rápidas, janelas passando em alta velocidade. Estática. O corpo da menina jazia imóvel no chão em meio a uma multidão de curiosos. Uma lápide no cemitério, um nome conhecido. Era o nome dela talhado no mármore. Estava morta.
            Paulo gritou indignado:
            — Por quê? Por que você fez isso com ela?
            — Não foi bem com ela que fiz algo. Apenas me aproveitei do seu corpo suicida para brincar com você.
            — Por quê? — insistiu ele.
            — Por quê? — a criatura repetiu. — Não se questiona o diabo, meu caro, mas vou satisfazer o seu último desejo, antes de levá-lo comigo para onde o sofrimento é eterno. Simples; porque eu quis. E isso me basta!
            A criatura infernal sorriu, cobrindo-o com suas imensas asas negras. A escuridão o tomou, fazendo-o sentir o corpo arder como se fosse queimado vivo. Agonizava.
            Dez!
            — Eu vou matá-lo — gritou Jackson, tentando evitar que os policias invadissem a loja.
            — Meu rapaz, fatalidades acontecem todos os dias — disse pesarosamente o capitão Cruz. — Vá em frente!
            Um estrondo seco veio de dentro da loja, segundos antes dos policiais a invadirem, disparando ininterruptamente até que não houvesse mais munição em suas armas. Embalagens voaram destruídas, espalhando seu conteúdo por todo o chão, antes branco e limpo, agora imundo e bagunçado. O balcão que protegia Jackson contra a investida sanguinária foi completamente perfurado por dezenas de projeteis certeiros.
            Silêncio.
            Jackson agonizava sobre o corpo sem vida de Paulo. O sangue escorria da sua boca, depois de ser violentamente vomitado, cobrindo seu rosto de um tom vermelho vivo. Não havia sequer uma parte de seu corpo que não queimasse como brasa.
            Ele preferiu matar o refém a negociar comigo — pensava desconsolado e perplexo com o ponto em que tinha chegado a situação que imaginou, tolamente, dominar, mesmo sabendo de suas limitações para o assalto. O que mais o incomodava não era, em si, o desfecho, mas como foi sucedido. Era inacreditável que a decisão de matar um inocente trabalhador viesse de quem deveria dar a vida para protegê-lo, apesar de conhecer, por experiência própria, a falta de escrúpulos do capitão Cruz; de saber como ninguém o quão maldoso aquele policial podia ser.
            A cada vez que buscava o ar com dificuldade, sentia os pulmões doerem com brutalidade. Tentou respirar, mas o sofrimento era intenso demais. Sufocava-se, afogando-se no próprio sangue que descia pelo sistema respiratório e alojava-se nos pulmões perfurados. Perdia a consciência rapidamente em espasmos torturantes. Seus músculos se contraíam, parecendo-lhe ser fisgado por um anzol pontiagudo, rasgando a pele sem piedade.
Ao seu redor, o mundo escureceu.
            Jackson estava imobilizado. Mãos asquerosas prendiam seu corpo como algemas. Não conseguia se mover, apesar do esforço que fazia para tentar se livrar da sua prisão. À medida que os olhos se acostumavam com a escuridão, começava a identificar as formas diante de si e o medo foi maior do que a certeza da morte.
            Rindo, à sua frente, a mãe lentamente se aproximava. Os braços arroxeados estendidos como se estivessem prontos para um abraço que ele não gostaria da receber. Não havia saída, tampouco como lutar contra a inevitável proximidade daquela mulher por quem tinha decidido enveredar pelos caminhos ilícitos, em busca de uma vida mais confortável e segura.
            Os seios murchos se encostaram no seu peito, como se quisessem se fundir a ele. Sentiu nojo daquela figura mórbida, tentando beijá-lo como uma mulher vulgar diante do cliente abastado. Como lhe virou o rosto, ela esticou a língua, penetrando em seu ouvido, deixando escorrer uma gosma esverdeada da sua boca. A sensação de asco lhe provocou a pior de todas as náuseas que já sentiu em sua vida. O estômago se revolveu, fazendo a bile sair do seu corpo num jato forte, cortando o ar.
            — Você não é minha mãe — gritou entre lágrimas.
            Ela não lhe deu ouvidos,  ignorando seu grito de horror.
            A língua que brincava em sua orelha crescia como a língua venenosa de uma serpente. Entrava em seu ouvido, perfurando os tímpanos como se fosse uma faca afiada rasgando a carne com precisão.
            Jackson gritou, mas em meio aos gritos, percebeu que de nada adiantaria. Estava entregue a própria sorte nas mãos vorazes daquele ser que aparentava ser a própria mãe.
            A língua varou sua cabeça, descendo pela face oposta até chegar a sua boca. Sem resistência, entrou em seu corpo e puxou a alma de Jackson para ela, engolindo-a vorazmente..
            Os espasmos cessaram. O corpo agora estava inerte, caído sobre sua vítima, cercado pelos policiais, que cumpriram a ordem mortal do superior.
            Tudo estava acabado.
            Ramos entrou na loja assim que os disparos terminaram. Pesaroso, lançou um olhar de descontentamento para os policiais, já de armas abaixadas, como se os repreendesse por agirem sanguinariamente. Ajoelhou-se diante dos corpos, lamentando a péssima decisão tomada por Cruz, sem que nada pudesse fazer para impedir a brutalidade da resolução dos problemas ou, pelo menos, salvar o pobre refém.
            O investigador entrou em seguida, sorrindo satisfeito por, em menos de dez minutos, acabar com a novela que ocupava vários policiais. Parou ao lado de Ramos, olhando-o com desdém.
            — Ainda não se acostumou com isso, Ramos — espetou, pousando as mãos no ombro tenso do policial.
            — Tire suas malditas mãos de mim — deu de ombros, afastando-o.
            — Fatalidades acontecem diariamente — repetiu com cinismo. — Um policial deve saber disso.
            — Poderíamos ter salvado este rapaz — argumentou, levantando-se.
            Ramos parou de frente para Cruz, encarando-o com raiva. Teve vontade de esmurrá-lo ali mesmo, na frente de todos os oficiais, mas deteve seu acesso de ódio. Sabia perfeitamente que problemas maiores o assolariam caso encostasse um mísero dedo naquele verme imbecil.
            — Você receberá em dobro, Cruz — prosseguiu. — Todo o mal que você fez voltará para você. Anote o que eu digo: você irá se arrepender por ter derramado tanto sangue inocente, seu canalha — proferiu, se afastando, enquanto cerrava os punhos, tomado por um sentimento repulsivo.
            — Que assim seja. Amém — brincou o superior, rindo da fragilidade de Ramos. — Aguardo ansiosamente por isso.
            Ramos estava de costas, por isso não viu os olhos de Cruz brilharem pavorosamente como se flamejassem no escuro. Um sorriso infernal se desenhou em seu rosto, deixando-o em gozo.
            Um vulto negro despendeu dos corpos, passando por dentro de Cruz e assoprou a orelha de Ramos. Vendo o desafeto se arrepiar e tremer incomodado, soltou uma gargalhada, que ecoou pela noite afora.
            — Eu sou o próprio mal — disse ele.
            Num outro plano, invisível aos olhos vivos, Paulo gritava, inflando as veias do pescoço, esbugalhando os olhos como se as órbitas fossem saltar, enquanto era carregado para a escuridão eterna pela criatura demoníaca em sua forma natural, fétida e bizarra, sabendo-se iludido e derrotado pelos seus sonhos de ternura. Ana Carolina era boa demais para ser de verdade, perfeita demais para amá-lo com sua baixa estatura, com a barriga protuberante, e feiúra suficiente para afastar as lindas mulheres que posavam em revistas, mulheres tão perfeitas como a noiva, a noiva que nunca existiu. Sentiu-se o maior dos tolos, por não desconfiar do óbvio, em acreditar que tamanha beleza, em poucos meses, tinha se apaixonado e desejava passar sua vida ao seu lado. Havia algo estranho naquele amor doentio, mas não percebeu o que era; aceitou tudo passivamente, sem se importar com as manias, com a cordialidade exagerada de Ana Carolina e seu empenho para satisfazê-lo plenamente.
            — Como fui tolo — disse a si mesmo em voz alta, para que a criatura pudesse ouvi-lo.
            Ela não o respondeu. Continuou batendo suas asas em direção à escuridão.

in: Pesadelos, contos de horror e medo

Alberto da Cruz
Enviado por Alberto da Cruz em 07/07/2006
Reeditado em 08/01/2010
Código do texto: T189439

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Sobre o autor
Alberto da Cruz
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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