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O Corredor

Os dedinhos balançam de um lado para o outro, o suor que lhe brota à face insiste em escorrer, os sussurros não querem deixá-lo em paz e agora sente o triste calafrio que ainda o faz ostentar a mentira na qual finge acreditar.
O medo se expande a cada momento e quando se ouve o ranger da porta, seu coração dispara e bate descompassado, prestes a ter infarto?

Não, pois jamais permitiria que o seu segredo fosse descoberto, tampouco faz pena à chaga em que insiste em carregar.

Absurdo acreditar que foi possível, porém sabia desde o princípio que aquele era o momento oportuno. Tagarelar um pouco talvez o mantivesse calmo, mas de tanto pensar resolveu permanecer calado. A triste fobia o transformava, conseguindo sem esforço algum, desolar aquela criatura tão frágil. Por um breve momento repousou os olhos em um pontinho de luz imaginário, pois acreditava estar vendo um vulto, quando dê repente se dá conta de que não há ninguém ali.

Infelizmente a culpa insiste em lhe acompanhar, se encarregando de lhe deturpar a consciência. Já não sabe a verdadeira identidade do corpo em que ousa habitar, muito menos o nome de batismo. Resolveu então, caminhar até o canto do cubículo. As mãos já manchadas pela angústia que o aprisiona agora procuram a soltura, sua mente cessa ao pensar na possibilidade de escapar dos momentos temerosos que o aguardam.

Que ouso tentar?  Pergunta a si mesmo sem obter resposta.
A fria lâmina que um dia lhe penetrou a carne deixou seqüelas em sua face sombria, o riso meigo se junta ao medo num transe perplexo, uma mistura sutil entre a vida e a morte.

As portas se abrem lentamente, à sua hora chegou. Pretende carregar junto à tumba o tão precioso segredo, suposta origem e identidade.Acreditando ser algo que não é, esconde um crime premeditado. Assassino de suas próprias esperanças, fruto do eterno dissabor de suas vertigens, condenado a morte por negar a si mesmo...

O corredor abraça o louco, preso, excluído, indeterminado. Aquele que veste a pesada camisa de força, esta que guarda silenciosamente em todo o seu tecido, não só o seu segredo, mas as inúmeras gotas de suor pertencentes às várias faces de uma única pessoa.

Elenice Lourenço
Enviado por Elenice Lourenço em 08/07/2006
Código do texto: T190012

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Sobre a autora
Elenice Lourenço
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
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Elenice Lourenço