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Posso me sentar aqui?

-Posso me sentar aqui?
Era o que Sara perguntava ao moço solitário sentado no canto da danceteria. Ele parecia uma pessoa reservada, mostrava até uma certa insegurança, mas era muito bonito. Atrás de seus óculos, via-se belos olhos verdes. Seu cabelo era negro e liso e era dono de um belo porte. Trajava um casaco de couro preto e uma blusa azul escura e calças jeans. Em uma de suas mãos via-se um copo de uísque e na outra uma fotografia. Com a cabeça baixa, logo disse:
- Claro, estamos em lugar público.
Dizendo isso, soltou um belo sorriso, no qual mostrava a perfeição de seus dentes.
Logo que sentou, Sara olhou para a foto.
- Posso ver?
- Claro. Aqui está.
Olhou para a foto e viu a imagem de uma mulher muito parecida com ela: cabelos pretos e lisos, alta, olhos verdes e pele branca. Ela estava sorrindo, em pé, com um cigarro na mão direita. Estava com uma calça jeans e uma blusa preta com um decote em "V". O cenário era um quintal e uma cas ao fundo.
- Quem é ela?- indagou Sara.
- É minha mãe, quando era jovem. Ela me deixou quando eu tinha apenas cinco anos de idade. Fiquei sozinho com meu pai. – O homem falava da mãe com uma certa frieza mostrada nos olhos.
- Que triste! E por que você ainda guarda uma foto dessas?
- Para lembrar que não posso confiar em tipos como ela!
Sara se calou por um momento. Algo lhe dizia que não era muito bem vinda naquela mesa.
- Meu nome é Sara Mass.- disse ela, tentando quebrar o silêncio estendendo a mão direita.
- O meu é Elias Pen - respondeu ele com a voz baixa - prazer em conhecê-la.
Sara não conseguia tirar os olhos da fotografia. Queria saber mais sobre a foto. Algo chamava, de certa forma, a atenção dela naquela imagem, naquela mulher.
- Diga-me, - começou ela.- sua mãe era daqui da Inglaterra?
- Sim, era.- respondeu Elias friamente.
- Desculpe se estou me intrometendo em sua vida pessoal...
- Tudo bem pode perguntar o que quiser!- disse ele com um sorriso.
- Por que ela o deixou?
Ele pensou por um momento. Abaixou sua cabeça, fitando o copo de uísque.
- Ela conheceu um outro cara. Eles fugiram. Mas, até achava bom isso ter acontecido! Ela me espancava muito. Ainda tenho várias cicatrizes nas duas pernas. Era onde ela mais gostava de bater. Vivia bêbada. Era o tipo de mulher que fazia e ainda faz de tudo para acabar com a vida do próprio filho.
- Nossa! Mas e o seu pai?- perguntou Sara, com uma expressão de espanto.
- Meu pai entrou em depressão. Foi parar num hopital psiquiátrico. Está lá há uns 15 anos. Foi parar lá quando eu tinha nove anos. Tive que ficar com minha avó paterna. Ela cuidou de mim até completar 18 anos. Agora moro sozinho numa casa.
Sara não conseguia desviar o olhar das mãos de Elias.
- Mas, - começou ela.- sua avó não te batia como sua mãe, não é?
- Não. Mas me ensinou coisas valiosas.
- Como o que?- perguntou Sara com um sorriso no rosto.
- Por exemplo, que não posso ficar parado e ver as coisas acontecerem. Tenho que destruir o que destruiu minha vida, e construir uma vida nova.
Ficaram cerca de uma hora e meia conversando. Foi o tempo de conversa que durou para Elias convidar Sara para visitar sua casa.
A casa de Elias não era longe. Cerca de três quilômetros dali. Quando estava quase parando o carro, Sara percebeu que era um lugar quase deserto. A vizinhança devia ficar a uns 150 metros dali. A casa era razoavelmente pequena, mas em compensação, o muro de cimento tinha mais de 2 metros de altura.
- Chegamos!- disse ele abrindo os braços como se quisesse mostrar a casa.
Era uma casa simples, de madeira. Na sala tinha um sofá de couro para três pessoas, uma televisão 14 polegadas, um abajur todo branco e no chão um tapete, que aparentava ser Persa.
- Bela casa!- exclamou Sara.- Simples e aconchegante!
- Mas, - começou ele de costas para ela.- o lugar que mais gosto, é o porão!- disse isso se virando em direção a ela.
- E o que tem nesse porão?- perguntou ela interessada.
- Espere e verá, mamãe.- disse isso com um sorriso estampado no rosto.
Sara, a primeiro momento, não tinha percebido do que Elias acabara de chamá-la: “Mamãe”.
Foram até a cozinha, onde ficava a porta que tinha como destino o porão. Elias acendeu a luz fraca, e começou a descer as escadas. Sara estava atrás dele. Quando chegaram lá, Sara teve uma surpresa. Uma surpresa que iria acabar com sua vida.
No porão, ela se deparou com duas cadeiras. Nas cadeiras, estavam sentadas duas mulheres, uma em cada, com um pano na boca. Uma corda amarrava os braços e outra amarrava as pernas delas. Elas estavam, a princípio, inconscientes, viradas para uma parede. Logo que eles chegaram ao porão, as duas acordaram com uma expressão de medo. Mas, o que mais amedrontava Sara, era o fato das mulheres serem iguais. Cabelos pretos longos, olhos claros, pele branca e magras. As duas estavam nuas e com dois cortes, um em cada braço, que pareciam tatuagens. No braço esquerdo, as inicias “E. A. P.”, no direito a palavra que mais assustara Sara: “Mamãe”. A memória de Sara se voltou a sua chegada a casa. Ele a chamara de “Mamãe”.
- Não falei para vocês ficarem calmas que eu traria mais uma companheira?- disse Elias às outras mulheres com um sorriso.
- O que... o que é isso?- perguntou Sara, já sabendo a resposta e ao mesmo tempo a temendo.
- É o meu jeito de construir uma nova vida, como minha avó me ensinou!- respondeu ele sorrindo, ainda.
- O que você quer com elas?- perguntou Sara quase chorando.
- O que eu quero com elas? Não, você formulou a pergunta errada! A pergunta certa é: “O que eu quero com vocês?”. Agora, se você quiser tentar fugir, tudo bem, mas já vou avisando que não vai adiantar porque o muro tem quase três metros de altura e tem arame farpado. Ou seja, ou você morre aqui e agora e poupa uma dor desnecessária, ou você morre como duas de minhas vítimas morreram, e sem ninguém para ajudar, pois afinal, estamos num lugar quase deserto!
- Dor desnecessária?
- Sim, você provavelmente vai estar inconsciente! Era o que minha avó dizia: “Acabar com a dor sem sofrimento!”
Sara não conseguia respirar de tanto medo. Olhava para as outras mulheres como se quisessem ajuda. Mas, não adiantava. Todas estavam no mesmo barco, afundando. Elias fitou todas por um momento. Olhou para um retrato de uma senhora que estava em cima de um pequeno armário. Uma bela senhora de cabelos soltos, lisos e brancos que batiam nos ombros. Mas, pelo seu corpo, não aparentava Ter mais de 60 anos. Era magra, mas não ao extremo. Trajava um vestido branco, liso. Tinha poucas rugas e olhos castanhos. A única maquiagem que tinha no rosto,era um batom vermelho na boca.
- Foi isso que aquela senhora ali -dizia ele apontando para o retrato.- me ensinou durante a vida! Amar apenas os que te amam!- dizia isso com uma voz de choro.- Mas tem um problema: a pessoa que deveria ter me ensinado a amar me abandonou! É isso que ganho por ter amado minha mãe! – começou a observar sua avó.- Imagina como ela deve estar feliz em saber de minha boa ação! Acabar com a raça de quem quase acabou com a vida de nossa família.- dizia isso com a maior calma do mundo.
Elias parecia descontrolado. Começou a chorar, pegou o retrato da avó e jogou com força no chão.
- Pena que não está mais viva para poder apreciar o único neto.
Todas as mulheres choravam, choravam muito. Mas, nem chorar, nem nada no mundo era a solução. Elias molhou o pano com um pouco de clorofórmio que ainda sobrava. Foi por trás de Sara, que reagiu por muito tempo, até não agüentar mais, e respirar dentro do pano.
Quando Sara desmaiou, Elias tirou sua roupa e colocou-a sentada em uma cadeira de frente para a parede, como as outras duas estavam.
- Quem vai querer ser a primeira voluntária de minha boa ação? Infelizmente meu clorofôrmio acabou, então não vai haver anestesia!

Quando Sara acordou, estava tocando “ Lucy in the Sky with Diamonds” uma música dos “The Beatles”. Percebeu que ainda estava virada para a parede. Olhou para o lado e não viu nenhuma das outras moças. Infelizmente, aquilo estava longe de ser só um pesadelo. Então, tomou coragem, e finalmente ousou olhar para trás. Foi a cena mais chocante que viu em toda sua vida.
Elias acorrentou uma das mulheres na parede e começou a espancá-la nas pernas. Estava sem camisa, o que mostrava um enorme corvo nas suas costas. Não só matou a mulher, como também fez questão de abri-la do peito até a barriga, para depois, sem nenhum motivo, tirar-lhe o coração e ficou olhando para ele durante algum tempo. Depois, tirou-lhe todos os órgãos internos. Sara ficou chocada. Uma lágrima correu em seu rosto. Elias, então, depois do que fez, abaixou a cabeça, como se estivesse cansado. Ficou com a cabeça baixa durante uns cinco segundos, até que levantou bruscamente. Sara levou um susto.
- Vamos à última voluntária!- disse ele como se estivesse contente.
Sara não conseguia tirar os olhos da mulher morta e estripada. Sabia que isso iria acontecer com ela também.
- Ah!- disse ele para Sara com um sorriso malicioso no rosto.- Você já acordou, mamãe?
- Eu não sou sua mãe!- respondeu ela agressiva.
- Lógico que não!- retrucou ele, com uma pequena pausa.- Mas poderia ser! É igual a ela!
Ela começou a chorar.
- Calma!- disse ele com a maior paciência do mundo.- Outro dia trago mais uma companheira!
Quando ele disse isso, Sara cuspiu na cara dele. Ele só limpou sua cara e disse:
- Você não está sendo uma boa menina!
- Volta para o inferno!- respondeu ela agressiva novamente.
Elias não respondeu nada. Apenas agarrou Sara com toda a força que tinha e amarrou seus punhos na parede com duas algemas.
- Nossa!- Elias fez uma cara de espanto.- Esqueci de uma coisa!
Ele pegou uma faca, e com ela escreveu em um de seus braços “ E. A. P.”, e no outro, “Mamãe”. Sara gemia de tanta dor.
- Agora sim! Posso terminar meu trabalho!
- Seu filho da puta! E sobre a tal dor desnecessária?
- Ah! Esqueci de avisar que o clorofôrmio acabou, não vai haver anestesia!
Sara soltou um forte grito. Mas não adiantava. Não havia ninguém para ouvir.

O dia estava nublado. A policial federal Jennifer Sanders analisava o local do crime de três mulheres. Um porão encardido e escuro. Quase não dava para se ver nada. Tinha poeira em todos os móveis.
- Senhorita Sanders!- gritou o delegado Spencer - Aqui estão as fotos das mulheres que você me pediu!
Disse isso dando a Sanders as fotografias. Eram três mulheres muito bonitas. Cabelos escuros, olhos claros e pele branca.
- É! Com certeza não passa de mais um assassinato em série!- respondeu Sanders analisando as fotos.
- Sem dúvidas!
- Onde está o assassino?
- Está preso na penitenciária municipal.
- Podem voltar para Londres. Eu ficarei em Liverpool.
- Mas aonde você vai ficar?
- Acho que vou ficar por aqui mesmo. Assim fica mais fácil a investigação. Não há nada como entrar na mente de um assassino para saber o porque de sua loucura.

Nessa mesma noite, Jennifer, na sala da casa, ouve o som de um corvo. Olhou para a janela e lá estava ele, parado, olhando para ela. Seu olhar era fixo e mostrava uma certa curiosidade e um certo temor. Jennifer se aproximou do animal e sentiu calafrios por todo o corpo; a cabeça girava com se tivesse levado uma pancada forte. Teve um pesadelo: sonhou que era o próprio assassino. Sentia-se uma pessoa forte e imponente. O orgulho que sentia de si mesma, tornava-a ainda mais forte. Viu-se arrombando uma casa. Nela havia uma mulher morena com olhos claros e com uma expressão de pavor claramente mostrada em seus olhos. Nisso, tirou um canivete de seu bolso e avançou na direção da mulher. Nessa hora, Jennifer acordou. O relógio mostrava que eram 3:30 da madrugada. Estava no porão. Não entendia como chegara lá. Não se lembrava de nada. Ainda tonta, conseguiu levantar-se e ficar sentada. Olhou para o canto de uma das paredes do local e avistou a sombra do corvo projetada em um objeto que antes não estava ali na hora da investigação. O corvo saiu pela janela.Ela aproximou-se do objeto.Era um baú de madeira velha e úmida, literalmente podre. Viu que o cadeado já estava arrombado. Abriu o baú, e viu coisas, aparentemente, importantíssimas para sua investigação.
No baú, estavam objetos pessoais do assassino. Ela viu um retrato da avó de Elias, um livro do Edgar Allan Poe e um disco dos “The Beatles”.
- Mas qual a conexão entre esses objetos?- se perguntou Jennifer.
Mas Jennifer estava muito cansada para se preocupar com isso. O que mais queria era deitar no sofá e dormir.

Jennifer acordou com a luz do sol em seu rosto. Eram 9h: 14min. Se vestiu e foi comprar alguma coisa no mercadinho para comer. Quando retornou a casa, o relógio marcava 9h: 39min. Colocou as compras em cima da mesa e se sentou. Quando fez isso o telefone tocou.
- Jennifer!- gritava a voz do outro lado do telefone.
- Alô? Senhor Spencer!- disse ela em resposta.- Aconteceu alguma coisa?
- Houve um assassinato a duas quadras de onde você está!
Nessa hora, Jennifer ficou gelada. Colocou um casaco nos ombros, pegou um biscoito e saiu em direção ao local do crime.

Quando chegou na casa, Jennifer teve uma grande e desesperadora surpresa.Tinha a impressão de já ter tido estado naquela casa antes.
- Seu nome era Marta Lavigne. Foi assassinada ontem. Quer dizer, pela madrugada-Disse o Delegado Spencer.
- Que horas?- perguntou Jennifer, temendo a resposta.
- Aproximadamente, às 3h: 30min.
Jennifer se sentiu gelada por dentro. Algo muito estranho estava acontecendo ali.
- O mais estranho é que não há marcas de digitais.- disse o delegado.
Jennifer precisou se sentar.
- Você está bem, Jenni?- perguntou o delegado, passando a mão em sua cabeça.
- Estou.- respondeu ela com os dedos da mão esquerda sobre a testa.- Mas, quem pode ter sido? Elias está na cadeia!
O delegado olhou para os próprios pés. Passou a mão direita na própria testa, e finalmente disse:
- Ele morreu ontem às 7:00pm. O mataram na prisão.
- Mas por que vocês não me ligaram?
- Seu telefone não atendia!
- Como não atendia? Eu fiquei na casa o dia e a noite inteiros!
Jennifer começava a ficar cada vez mais confusa. Tinha certeza de não ter ouvido o telefone tocar. Saiu daquela casa batendo a porta. Estava extremamente nervosa.

Chegando em casa, a primeira coisa que resolveu fazer foi analisar o conteúdo do baú. Tirou tudo o que tinha nele. O disco, o livro e o retrato. Mas, percebeu algo que não tinha visto antes. No fundo do baú, como escondido, estava uma carteira de identidade. A foto era de Elias, quando criança. Devia ter uns dez anos quando a foto foi tirada. Era um menino encantador. Igual ao Elias adulto, mas com cabelos tipo “tigelinha” e um olhar que mostrava uma certa inocência. Mas, algo estava errado. Ao olhar o nome do garoto, viu que não estava escrito “Elias Allon Pen”, mas sim, Charles Skold Dant.
Isso confundiu ainda mais Jennifer. Ele tinha mudado o próprio nome. Mas, por que?
Começou a analisar a foto da avó de Charles. Percebeu umas letras minúsculas ao canto da foto. As palavras escreviam o nome da senhora: Lucy.
Pegou o disco dos “The Beatles”. Começou a analisar as faixas, até que o nome de uma música lhe chamou a atenção.
- “Lucy in the Sky with Diamonds.”- exclamou ela, olhando fixamente para o nome da música.
Se lembrou que quando criança ouvia essa música com a mãe. Começou a lembrar e cantar a letra da música, tentando encontrar algo.
- “ ...Flores de celofane amarelos e verdes/sobressaindo em cima de sua cabeça/ procure a garota com o sol em seus olhos/ e ela se foi.../ Lucy no Céu Com Diamantes!”- Estava conseguindo encaixar as pistas.- Mas, e o livro?
Nesse momento pegou o livro. O título era “Histórias Extraordinárias” Começou a folhear o livro, e um poema lhe chamou a atenção: “O Corvo”.
Se lembrou que Charles tinha um enorme corvo nas costas, e, logo depois, se lembrou da visita do corvo noite passada.
Olhou o nome do autor. “Edgar Allan Poe”.
- Elias Allon Pen!- disse ela - E.A.P! E a quantidade de letras é o mesmo!- dizia isso para si mesma.
Alguém bateu na porta. Ela guardou tudo e foi atender. Era uma senhora com um vestido preto longo, cabelo comprido e branco. Seus olhos eram muito azuis.Havia muitas rugas em seu rosto.
- Posso ajudar em algo?- perguntou Jennifer.
- Não.-respondeu a velha.- mas tenho certeza de que eu poderei lhe ser muito útil.- disse isso entrando na casa.
- Eu acho que não conheço a senhora...-disse Jennifer.
- Não, não conhece mesmo.-disse a velha passando a mão sobre o sofá de couro.- Mas eu sei quem você é. Me chamo Golda.
- Meu nome é...
- Jennifer já sei!
- A senhora é da polícia, por que não lembro da senhora...
- Não! Sou de um lugar muito longe.- disse isso com um ar misterioso.
Jennifer não sabia quem era ela e nem o que pretendia. Estava com um certo receio e medo. A velha se sentou no sofá.
- Sente-se, criança!- disse Golda.- Não precisa ter medo de uma velha como eu.
Sem mesmo saber quais as intenções da velha, Jennifer se sentou.
- O que a senhora quer?-disse Jennifer enquanto se sentava.
- Você errou a pergunta, querida! A verdadeira pergunta é: O que você quer!
- Como assim “o que eu quero?”
- Vejo que você está muito confusa sobre algo. Não sabe o que fazer. Você tem dúvidas.
- A senhora é algum tipo de...
- Bruxa?- perguntou a velha movimentando o pescoço para frente.
- É.- respondeu Jennifer, meio apreensiva.
- Digamos, que sou algo, além disso.
Jennifer coçou a cabeça. Não estava entendendo nada.
- Diga, senhora Golda, o que a senhora sabe sobre mim?
- Como vou saber? Nem você sabe nada a respeito de si mesma! Mas, não é sobre você que você quer saber, apesar de no final das contas ser isso que você vai descobrir. É sobre algo que você acha até bobo.
- Bem, na verdade, estou trabalhando num caso, e não posso dar detalhes por ser sigiloso. Só que já consegui ligar todas as pistas, e só uma não bate!
- Qual?
Jennifer tinha dúvidas se perguntava ou não. Tinha medo de a pergunta ser muito boba ou infantil.
- O que é um corvo? Quer dizer, o que ele significa?
Golda pôs a mão direita sobre o queixo, fitou Jennifer e olhou para o teto.
- Bem, -começou Golda.- alguns tipos de pessoas acreditam que um corvo é capaz de levar a alma de alguém que já morreu. Mas se essa alma ainda pertencer a essa dimensão, o corvo a traz de volta, provavelmente para se vingar.
- Se vingar?
- Sim! Provavelmente algo em sua vida não foi resolvido.
Jennifer olhou para as próprias mãos. Isso estava ficando cada vez mais preocupante.
- Bem, -disse a velha.-tenho que ir!
As duas se levantaram quase ao mesmo tempo, e Jennifer abriu a porta para Golda sair.

Já eram 7:00pm. Jennifer estava dormindo no sofá.De repente, ouviu o som de um corvo. Acordou assustada. Olhou para a janela, e lá estava ele, parado, olhando para ela. Ela se levantou e foi em direção a ele. Quando chegou perto, começou a passar mal e desmaiou. Sonhou novamente que era o assassino, e matava uma mulher no parque. Quando acordou, estava no porão. Por que sempre acordava lá? Eram 7:48pm.
Começou a subir as escadas do porão. Quando chegou na cozinha, o telefone tocou.
- Senhorita Sanders, temos uma emergência no parque municipal de Liverpool!- dizia Spencer do outro lado da linha.
- O que aconteceu?
- Outra morte!
Jennifer estava com tanto medo que nem queria ir, mas era sua obrigação. Pegou o carro e partiu em direção ao local. Chegou lá quando estavam colocando um lençol branco em cima do corpo. A família da moça estava toda reunida, chorando sua morte.
- Coitada!- disse Spencer.- Era tão jovem e bonita!
Jennifer estava muito preocupada para pensar nisso.
- A que horas ela foi morta?- perguntou ela temendo a resposta.
- Entre 7:30pm e 7:50.
- Preciso ir! – disse ela virando as costas para Spencer.
Quando Jennifer foi embora, Spencer tirou o lençol branco de cima da mulher por um momento e percebeu algo. Haviam marcas de unhas no corpo da vítima, marcas essas que formavam a palavra “MAMÃE”.

Jennifer entrou na casa. Deitou no sofá e adormeceu. Sonhou com Golda.
Esta, porém, não parecia estar contente. Estava com uma cara de brava.
- Seu reflexo é a verdadeira face de sua alma!- disse Golda fitando Jennifer. Virou as costas desapareceu.
Nesse instante, Jennifer acordou. Desceu as escadas e foi ao porão. Esvaziou todo o baú, mas não encontrou nenhum espelho. Até que percebeu que o baú tinha um fundo falso. Com muito esforço e suas unhas grandes, conseguiu tirar o fundo. Lá dentro, tinha um espelho com decorações de corvos.
Ao olhar o seu próprio reflexo, teve uma surpresa. O que via, não era ela. Era Charles. Olhou para as próprias mãos e teve mais uma surpresa: Suas unhas estava com sangue.
Olhou para a janela e viu o corvo. Seus olhos eram negros como as próprias penas. Foi quando ele vôou, deixando um bilhete, onde estava escrito: “Obrigado, mamãe”.

(Katerine Canabarro e Luciana Tazinazzo)
Katerine Canabarro
Enviado por Katerine Canabarro em 15/07/2006
Código do texto: T194660
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Sobre a autora
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