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O Perfume da Sedução, Cap. I


                  Não é preciso ter pressa
                  Sempre se chega a algum lugar...




   -Cuidado com que cê vai aprontar lá pela cidade, menino!
   -Tem nada não, pai. Tou é mandando notícia sempre.
   -Trata de respeitar os chefes, sempre ouvindo mais e falando de menos. Agora é que cê vai vê o que é bom pra tosse.
   Marcelino deu um beijo na mãe, pegou a velha maleta com suas coisas e subiu no ônibus. Foram só mais dois minutos para o veículo se afastar pelo acostamento da rodovia, a poeira querendo encobrir o chapéu de Cipriano e sujando a barra vermelha do vestido novo de Ivete.
   O casal precisava voltar logo. Cipriano tinha que reassumir o posto no pequeno laticínio da fazenda. E Ivete a casa da patroa. Louça suja do café e limpeza dos banheiros e da varanda ainda antes do almoço. D. Helga provavelmente almoçaria em Ribeirão Preto, mas era certo voltar para o jantar. E voltaria certamente cansada, depois de ter andado pelos escritórios e bancos da cidade. E de ter consumido no mínimo hora e meia de viagem, ida e volta. Considerando-se o movimento na estrada no final do dia. Isso andando bem, como ela costumava dirigir.
   D. Helga possuia uma pequena fazenda no caminho de Pradópolis, a mais ou menos 35 minutos de Ribeirão Preto, de carro. Depois de se deixar o asfalto, para se chegar à casa principal ainda havia um trecho em terra, sempre com buracos e pedras, de aproximadamente 8km, em que nunca se perdia menos de 20 ou 25 minutos de carro.
   Ivete e Cipriano já estavam com Helga há uns dez anos. Um relacionamento pode-se dizer sem arestas. Helga era muito ciosa de suas obrigações sociais para com o casal. Percebera logo de início que se tratavam de pessoas facilmente manipuláveis e incapazes de maiores exigências quanto a direitos trabalhistas. Contudo, a educação que recebera de seus pais, judeus dinamarqueses, curiosamente admiradores de líderes como Che Guevara, não lhe permitiria agir no sentido de obter vantagens ilícitas. Além disso, após a morte dos pais, compreendeu que era necessária a construção de relacionamentos sólidos que lhe permitissem administrar a pequena fazenda que recebera de herança. Uma família era necessária. Os parentes europeus não queriam saber da propriedade aqui no Brasil. E de certa maneira nem dela. O que poderia ser também curioso. Não em relação a ela, mas aos bens envolvidos.
   Na casa principal havia três quartos, sendo duas suítes, duas salas, uma área de serviço, um banheiro social no corredor, uma boa cozinha e a varanda. Helga compreendeu logo que esses 180,00m2 representariam muito trabalho para uma só pessoa. A sua atuação junto com Ivete na limpeza da casa, a princípio bastante combatida pela empregada, aproximou muito as duas. Respeito e admiração mútuos foi o resultado disso.
   Ivete era uma mulata de altura mediana, braços e pernas fortes, lábios grossos, mas o nariz afilado, cabelos crespos, olhos castanhos. Praticamente iletrada. Não falava muito, mas dizia o que era necessário nas horas devidas. Não andava depressa, mas chegava logo nos lugares aonde ia. Seus movimentos eram precisos. Diziam que era filha de um português, que não conheceu, com uma negra. Seios volumosos, mas facilmente suportados por costas amplas. Aspecto atarracado, mas a voz de um passarinho. Uma bela mulata que não aparentava os 49 anos que tinha.
   Helga era alta, esguia, magra. Os cabelos bem lisos e de um dourado esmaecido, cobrindo os ombros quando soltos. Olhos azuis num rosto ovalado, vivamente rosado nos dias de inverno. Uma mulher atraente que, aos 44 anos agora, havia desistido de achar um marido. Isso devido ao desconforto e decepção experimentados na relação que terminara há cinco anos com Otávio. Foram inúmeras as tentativas de agressão que sofrera. Mas também devido à família que praticamente encontrara em Ivete e Cipriano, como também aos inúmeros afazeres provenientes do empreendimento que herdara e que teimava em dar prosseguimento. Eram quase 75 cabeças de gado, um laticínio produzindo leite, manteiga e queijos, um pequeno rebanho de ovelhas e carneiros, cinco cavalos manga-larga marchador, algumas galinhas e três cães do tipo pastor alemão.
   Cipriano cuidava de tudo isso, ajudado por oito empregados no laticínio e cinco para o trato dos animais e os serviços gerais. Treze homens sob o seu comando. O jardineiro Aparício, mais presente nos fins-de-semana, ficava por conta de Helga e Ivete.
   Cipriano, com 62 anos, era um negro alto e troncudo, digno representante de escravos. Não tão iletrado quanto Ivete. Apesar do aspecto bravio, com o convívio ficava-se com a impressão de que era um bonachão. Vivia com a mulher na casa de dois quartos reservada para os caseiros. Não muito grande, mas bem confortável. Ali criaram os dois filhos que se encontravam casados na capital, aos quais fora se juntar agora Marcelino, o mais novo.
Aluizio Rezende
Enviado por Aluizio Rezende em 07/08/2006
Reeditado em 07/08/2006
Código do texto: T210811

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Sobre o autor
Aluizio Rezende
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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