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A CAPA E O GUARDA-CHUVA

                 



     Tudo começou em uma festa...
     A festa transcorria animadamente, mas, não sei por que, eu não me sentia muito à vontade. Não sei se o motivo que me fazia sentir assim tão por fora era o clima formal da festa, ou se era o ambiente muito sofisticado da casa que me deixava desajeitado.
     Resolvi então dar uma volta pelo jardim para tentar melhorar. Fui saindo da casa de fininho, passei pela porta de entrada, e me dirigi à piscina que ficava localizada do lado direito da casa.
     Aqui e acolá eu encontrava casais, que talvez pelo mesmo motivo meu, acharam melhor curtirem a festa do lado de fora da casa, espalhados pelo imenso jardim que a rodeava.
     Depois de alguns passos cheguei à piscina, que, por sinal, era muito bonita, feita no modelo oval, com azulejos verdes e azuis que formavam um bonito jogo de cores na água. Ao seu redor, espalhados por todos os lados, existiam várias mesas de mármore protegidas por coloridos guarda-sóis.
     Sentei-me em uma delas e fiquei imaginando se iria embora, ou se voltava para festa. Já fazia algum tempo que eu estava nesse devaneio, quando o mesmo foi interrompido pó uma voz suave vinda de algum ponto atrás de mim.
     “Olá, não está gostando da festa?”
     Virei-me um pouco assustado, pois não esperava encontrar ninguém naquele lugar afastado da casa, e dei de cara com uma linda moça, usando um bonito vestido de noite.
     “Pelo que vejo não sou o único”. Disse-lhe enquanto ela se aproximava de mim.
     Ela sorriu.
     “É, realmente a festa não é das melhores”. Disse.
     “Tem razão. Meu nome é Dimas”. Falei como maneira de me apresentar.
     “E o meu é Ângela”. Apresentou-se ela, ao mesmo tempo em que se sentava em uma das cadeiras da mesa.
     Mais de perto pude perceber que seus olhos eram de um azul intenso, e seus cabelos, que no momento eram esvoaçados por uma suave brisa, eram louros.
     Ficamos conversando ali, na beira da piscina, durante um bom tempo. Lá pelas duas da madrugada ela levantou-se da cadeira onde estava sentada, esboçou um pequeno sorriso, e disse:
     “Bem, foi um prazer conhecer você, mas já está ficando muito tarde e eu tenho que ir embora”.
     “Eu posso levá-la em casa?”. Perguntei.
     “Não precisa, muito obrigada, eu não moro muito longe, e posso tomar um táxi”.
     “Mas eu também já estou de saída”. Insisti. “E você pode economizar o dinheiro do táxi pegando uma carona comigo”
     Ela ainda tentou argumentar, mas acabou desistindo e aceitou a minha oferta.
     Saímos da piscina e nos dirigimos ao estacionamento onde estava o meu carro. No caminho de volta encontrei muito mais casais do que na minha ida à piscina, sinal evidente de que a festa estava mesmo uma droga.
     Um pouco mais de meia hora após deixarmos à festa, chegamos à casa de Ângela. Parei o carro próximo ao meio-fio, e antes que ela saísse do carro, eu lhe perguntei se poderia vê-la novamente. No início ela não queria concordar, mas, no fim, acabou aceitando o número do meu telefone, e ficou de me ligar qualquer dia desses para fazermos um programa.
     Dois dias depois, eu estava em casa sem ter o que fazer, quando o telefone tocou. Era Ângela perguntando se eu não queria dar uma volta com ela à noite. Aceitei, e a partir dessa noite, passamos a sair juntos todos os fins-de-semana.
     Durante todo esse tempo em que íamos a teatros, cinemas, pizzarias, festinhas, ou a outro lugar qualquer, duas coisa estavam me deixando muito intrigado: sempre que eu a trazia de volta para casa, ela nunca me deixava descer do carro para levá-la até a porta, e todas as vezes que saiamos, ela estava sempre com o mesmo vestido preto que usava quando eu a conheci.
     Em um desses fins-de-semana, quando estávamos assistindo a uma peça de teatro, começou a chover, e continuou chovendo muito durante toda a noite.
      Debaixo de um tremendo temporal, eu levei Ângela para casa.             Parei o carro no local de sempre, junto ao meio-fio, perto da calçada, e como ainda continuava chovendo muito, agora bem mais forte do que no início, ofereci o meu guarda-chuva e a minha capa para que ela não se molhasse ao sair do carro. Ela aceitou e ficou de me devolver tudo no outro dia em frente a sua casa, no mesmo local em que estávamos agora.  Na hora eu não lhe disse  que a minha intenção era a de voltar no outro dia para pegar a minhas coisas pela manhã, e não à noite como ela queria.
     No outro dia, um domingo, estacionei o carro em frente à casa de Ângela, saltei, atravessei o portão do muro, subi três pequenos degraus, apertei o botão da campainha e ouvi quando ela tocou dentro de casa.
     Alguns segundo se passaram até que a porta foi aberta por mulher dentro de um vestido florido. Seu rosto bem que poderia ser o de Ângela alguns anos mais velho.
     “Bom dia”. Disse. “Meu nome é Dimas. Ângela está?”
     “Ângela?!” Pareceu assustar-se.
     “Sim, Ângela, uma moça loura de olhos azuis, muito bonita”.
     “Desculpe, meu rapaz, mas aqui não mora ninguém com esse nome” Falou a mulher. “Você deve ter se enganado de casa”
     “Não pode ser, ontem mesmo eu a deixei aqui em frente” repliquei.
     “Escute meu filho. A única moça que morou nessa casa realmente se chamava Ângela, mas já está morta faz seis anos vítima de um acidente de trânsito”.
     Diante dessa revelação, eu senti um estranho calafrio percorrer todo o meu corpo, e um pensamento começou a tomar conta de mim.
     “A senhora tem certeza?” Perguntei me sentido um pouco estranho.
     “Absoluta”
     “A senhora não teria uma foto dessa Ângela para me mostrar”
     “Sim, tenho. Mais não vejo motivos para isso” Disse.
     “Mostre-me, por favor.” Pedi sem saber se queria realmente ver ou não a fotografia.
     “Está bem. Espere-me um instante que eu já volto”.
     A mulher entrou em casa, se demorou um pouco, e voltou depois com retrato de tamanho médio, protegido por uma moldura.
     “Aqui está” Disse enquanto me entregava o retrato. “Essa é a Ângela que morava nessa casa”
     Peguei o retrato e ao olhá-lo, senti os cabelos das minhas pernas e braços se arrepiarem e meu coração disparar como se quisesse sair pela boca.
     Ali, no retrato que eu estava segurando nas mãos, agora trêmulas, estava Ângela. Sim, não podia ser outra pessoa. Aqueles olhos azuis, aqueles cabelos louros e aquele mesmo sorriso nos lábio. Não poderiam existir duas pessoas tão idênticas.
     “Mas essa é a moça que eu deixei aqui em frente ontem à noite” Falei de maneira apavorada.
     “Você deve estar enganado. Essa aí é Ângela, mas, como eu disse, já morreu há algum tempo.” Repetiu a mulher.
     “Como já morreu há algum tempo se ontem estava comigo?” Perguntei tentando me acalmar.
     “Vejo que você não está acreditando em mim. Quem sabe se visse onde ela está enterrada você acreditaria.”
     “Onde ela está enterrada” Eu quis saber.
     “No cemitério local, aqui pertinho. Você quer ir lá comigo?”
     Alguns minuto depois chegamos ao nosso destino. Estacionei o carro em frente ao cemitério, saltamos, entramos e começamos a andar por entre os túmulos, onde, defronte a alguns, algumas pessoas depositavam flôres.
     Tínhamos percorrido cerca de trezentos metros quando paramos em frente a um túmulo muito bem cuidado, com algumas flôres plantadas ao redor, e uma cruz ornamentando-o.
     “Aí está.” Disse a mulher apontando o túmulo.
     Olhei, e vi escrito na lápide que cobria o túmulo, o nome Ângela Viera Rodriguez de Lima, a data do seu nascimento, e data de sua morte seis anos atrás.
     Ao lado do seu nome, dobrada e com uma linda flor em cima estava a minha capa. Pendurado na cruz, estava o meu guarda-chuva.
     

   




     





   



     
     

Taufic de Souza
Enviado por Taufic de Souza em 09/08/2006
Reeditado em 09/08/2006
Código do texto: T212947

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Sobre o autor
Taufic de Souza
João Pessoa - Paraíba - Brasil
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