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A moça de Negro

Desde que se mudara para esta rua, Luciano não podia deixar de reparar na bela moça sentada no ponto de ônibus toda manhã. Estava sempre sozinha, com a bolsa sobre o colo, olhando pro nada. Sua beleza era estonteante: tinha os cabelos negros levemente ondulados e os olhos verdes extremamente claros. Vestia-se sempre com roupas pretas, o que fazia com que Luciano pensasse que a moça, mesmo sendo tão jovem, seria viúva.

Nunca arriscara sequer um ‘oi’ pois não sabia se a moça se ofenderia. Contentava-se em apenas olhá-la de longe e em seguida sentar-se a seu lado no mesmo banco. Seu ônibus sempre vinha antes do dela, e sendo assim ele não podia nem admirá-la de pé.

Numa manhã ensolarada ele tomou coragem e decidiu: hoje falaria com ela. Saiu de casa dois minutos mais cedo e de longe avistou-a. Ela estava linda, como sempre, vestida de negro. Luciano aproximou-se e sentou-se a seu lado. Arriscou um ‘bom dia’ meio sem jeito. Para sua surpresa a moça respondeu, mas sem muito empolgação. Suas palavras saiam tristes. Ele estava decidido e então tentou puxar assunto:
- Hoje está fazendo um belo dia não?
- Sim, um belo dia. – respondeu ela bem baixinho.
- Bom, meu ônibus está vindo – insistiu Luciano – será que teria a honra de saber seu nome antes de embarcar?
- Oh, claro. Me chamo Vick.
- Muito prazer Vick. – Diz ele já embarcando no transporte.

O dia pareceu de arrastar, tamanha era a ansiedade de Luciano para que a manhã do próximo dia chegasse logo. Depois do trabalho correu para casa, jantou e foi dormir cedo para que a noite passasse mais rápido.

No outro dia levantou-se mais cedo que o habitual, tomou banho e vestiu-se com sua melhor camisa. Em seguida perfumou-se e saiu. Ao virar a esquina avistou-a e não pode conter o sorriso de satisfação. Sentou-se novamente a seu lado:
- Bom dia Vick
- Bom dia... – Ela respondeu e sem nem mesmo olhar para o pobre rapaz que sorria a seu lado.
- Desculpe se eu lhe parecer atrevido, mas gostaria de convidá-la para jantar comigo esta noite. – arriscou Luciano
- Como? Desculpe mas acho que não ouvi direito.
- Gostaria de jantar comigo esta noite?
- Jantar? Eu não sei se devo... – agora Vick finalmente encarou o rapaz de frente, o que o fez ficar ainda mais admirado com sua beleza.
- Ora, vamos, será divertido. Prometo que lhe deixarei em casa cedo. – insistiu o rapaz.
- Está bem, eu aceito.
- Que bom! Onde fica sua casa? Preciso saber para buscá-la.
- Oh não se incomode. Eu o esperarei aqui, nesse mesmo ponto de ônibus.
- Ok, as oito estarei aqui. Tenha um bom dia de trabalho Vick.
- Obrigada...
Quando Luciano entrou em seu ônibus Vick o acompanhou com o olhar e ao ver o ônibus se afastar deixou que uma lágrima rolasse pela face...

Oito horas em ponto ele chega ao ponto de ônibus e Vick já está lá, sentada como sempre, só que hoje à sua espera. Vick entrou no humilde carro de Luciano e seguiram pelas ruas, conversando e rindo bastante. Ela nem parecia mais ser aquela moça triste que ele via todas as manhãs. Estava linda, usava um longo vestido negro de alcinhas, deixando seu belíssimo e alvo colo a mostra.
- Em que restaurante gostaria de jantar, Vick? – indaga Luciano.
- Se você não se importa, eu não gostaria de jantar.
- Por mim tudo bem. Só de estar a seu lado a noite se torna perfeita.
Vick sorri de um jeito tímido, porém lindo e sincero. Luciano se aproxima e a beija. Vick corresponde. Os lábios dela estão frios, porém o beijo é o melhor que ele já provara.

Depois do beijo Vick diz que precisa ir embora. Luciano prontamente atende, ligando o carro e lhe perguntando o caminho. Vick o guia.
Menos de três minutos depois Luciano pára em frente a uma bela casa de dois andares, toda iluminada.
- É aqui. – Vick novamente volta a Ter o olhar triste.
- Te vejo amanha no ponto de ônibus.
- Durma bem, e obrigada pela noite maravilhosa. – Vick agora tem lágrima nos olhos.
- Espero que seja a primeira de muitas.

Vick lhe da um beijo no rosto e segue para o portão. Luciano liga o carro e vai para casa, assobiando de felicidade.

No dia seguinte ele estranha ao notar a ausência de Vick na parada de ônibus e decide que a noite vai ate a casa dela para saber o que houve. Passa o dia todo angustiado, louco para Ter noticias de sua princesa linda.

No fim do dia ele corre pra casa, toma um banho e se veste com uma roupa simples, porém bem alinhada. Pega seu carro e vai ate a casa em que deixara Vick na noite anterior. Novamente a casa está toda iluminada. Ele ajeita a camisa, sai do carro e vai até o portão. Toca a campainha e uma empregada muito bem vestida em seu uniforme vem atender:
- O que deseja senhor?
- Boa noite, estou a procura de Vick.
- À procura de quem?
- De Vick. Deixei ela aqui em frente ontem a noite, então imagino que essa deva ser a casa dela.
- Não senhor, aqui não mora nenhuma Vick não.
- Tem certeza? Porque se ela não quer me atender a senhora pode me dizer.
- Não moço, eu já falei, aqui não tem ninguém com esse nome.
- Está bem. Desculpe o incômodo.

Luciano então segue, cabisbaixo, até o outro lado da rua onde deixou o carro. Ao se aproximar do veículo ele leva um susto: Vick está ali, parada na calçada.
- Vick? Eu estava a sua procura, que bom que te encontrei!
- Tem algo que deve saber sobre mim...
- Sou todo ouvidos, pode falar meu anjo.
- Ta vendo aquela casinha ali? – ela fala apontando para uma pequena casa de madeira ao lado da enorme casa de dois andares.
- Sim, estou vendo.
- Vá até lá e pergunte sobre mim.
- Ué, mas por que? Agora já te vi, sei que está bem, não preciso pedir informações a mais ninguém.
- Por favor, vá até lá. – insistiu a moça, desviando o olhar dos olhos de Luciano.
- Está bem, se é tão importante pra você eu vou... –  ele vira-se e vai em direção à casa indicada por ela.
Luciano se aproxima e bate levemente à porta. Uma senhora aparentando Ter seus setenta e poucos anos abre a porta:
- Pois não? – a voz da senhora sai como um fiapo de tão baixa.
- Boa noite dona, uma moça mandou que eu viesse ate aqui falar com a senhora.
- Uma moça?
- Sim, Vick.
- Vick? Ora moço, o senhor vem na minha casa a uma hora dessas pra brincar comigo? – a voz da senhora agora era mais forte, cheia de indignação.
- Desculpe, mas não é brincadeira. Ela me pediu que viesse aqui e... – ele pára de falar, um pouco envergonhado.
A senhora o fita com uma cara de dúvida, e depois de uns poucos segundos o manda entrar.
Luciano nota que a casa é humilde, mas muito bem organizada e limpa. A senhora então ordena que ele se sente.
- Moço, seja lá o que o senhor quer, mas Vick não mora mais aqui. Ela sumiu no mundo com um rapaz e...
- Não pode ser, eu a vejo todas as manhãs a menos de duas quadras daqui, no ponto de ônibus.
- Por favor, seu moço, me deixe continuar.
- Desculpe... continue por favor. – diz Luciano.
- Vick fugiu com um rapaz de péssimo caráter, que imaginava que ela morasse nessa casa aqui ao lado – o dedo indicador da velha senhora apontava a grande casa de dois andares – e resolveu fugir com ela pra longe, pensando que ela fosse rica. Quando descobriu que minha neta Vick era de família humilde ele a espancou até a morte e depois abandonou seu corpo em um ponto de ônibus.
Luciano não podia conter o espanto.
- Não, não pode ser, eu estive com ela agora a pouco! – ele agora beirava o desespero.
- Não meu filho, não pode Ter estado com ela! Ela esta morta há mais de dez anos!
As lágrimas agora rolavam pela face do pobre rapaz.
- É isso mesmo, seu moço, ela está morta. A pobrezinha era muito apaixonada por esse rapaz, mas tinha vergonha de contar que era pobre. Então deu no que deu, ele a assassinou assim que soube. Pobrezinha, ela era tão linda... Sabe moço, ela tinha olhos verdes como esmeraldas....
- Eu sei sim senhora, eu estive com ela!
- Ora, por favor, o senhor se retire da minha casa que eu estou velha demais pra ouvir esse tipo de história.

E Luciano assim o fez, se retirou da casa as velha e seguiu para seu carro. Olhou em volta procurando Vick, mas nunca mais a viu. Ele seguiu sua vida, casou-se e teve dois filhos. Mas nunca esqueceu aqueles olhos verdes tão tristes e tão reais...
Lady Daphne
Enviado por Lady Daphne em 10/08/2006
Código do texto: T213180
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Sobre a autora
Lady Daphne
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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