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Redenção, Caminho para o Paraíso (Capítulo 4)

Erakel havia esperado impaciente pelo anoitecer. Iria procurar Marcos, um dos vampiros da cidade, para descobrir informações sobre o seu inimigo. Não gostava muito de fazer acordos com vampiros, mas sentia que Marcos era diferente. Não sabia dizer se o vampiro era uma pessoa de boa ou má fé, mas sabia que ele não matava. Não era um assassino sanguinário como os outros vampiros que havia conhecido.

Durante o dia, seguiu sua rotina quase normal. Tinha uma pequena casa no bairro Jardim Paulo Campos, bem próxima ao portal da Praça de Matozinhos. Havia ido até lá para ver como as coisas iam. A praça era pequena, cortada pela ferrovia que dava percurso à Maria Fumaça, tinha o chão todo de ardósia, com alguns bancos dispostos em torno de árvores plantadas em pequenos canteiros. O portal que levava ao inferno estava disfarçado como uma estátua, localizada bem no meio da praça.

Era uma estátua de metal vermelho, com um homem de pé, vestido com uma toga de aparência romana, que fitava seriamente o norte da cidade. Segurava uma espécie de bastão na mão esquerda, e uma foice de colheita druida na mão direita. Na base haviam duas caras de demônios, uma de cada lado, apontadas para o leste e o oeste, que antigamente jorravam água da boca, e também um símbolo de uma cobra e um lagarto enroscados em vinhas pantaneiras, viradas para o norte e para o sul. Toda a estátua era suportada por uma pequena elevação que parecia esconder as pontas de um hexagrama, ou uma Cruz de Davi.

Tudo parecia normal no que dizia respeito à praça. Apenas alguns casais aproveitando a bela tarde de sol, jovens andando de skate, crianças brincando felizes. Parecia que ninguém nem mesmo suspeitava do perigo que havia naquele lugar, mas, como que por instinto, percebeu que ninguém se aproximava muito da estátua. Inconscientemente as pessoas se desviavam dela, mantendo uma certa distância.

Quando a noite chegou, Erakel decidiu que era hora de procurar por Marcos. Saiu de casa com sua roupa habitual, calça preta, botas, camisa de banda, bandana, e alguns adornos como anéis e brincos, que usava para disfarçar sua forma humana. Foi um anjo no passado, e jamais admitiria se vestir dessa forma se ainda o fosse, mas os tempos eram outros, agora era um caído, e deveria agir como tal, pelo menos até que encontrasse com aquele que procurava vingança, pois não poderia se dar ao luxo de deixar o inimigo perceber suas verdadeiras intenções.

A noite estava fria e um pouco nublada. Era estranho, e Erakel quase podia sentir como se alguém estivesse provocando aquilo. Era uma espécie de sexto sentido, de premonição. Sentiu que devia apressar-se, que alguém precisava dele. Sentiu um aperto no coração, como se uma pessoa muito próxima estivesse pedindo por socorro, por ajuda. Não podia voar assim, livremente, com tantas pessoas olhando, seria muito arriscado. Estava de frente à Praça do Matozinhos quando começou a correr em direção ao centro da cidade. Não sabia exatamente para onde deveria ir, mas sabia que era naquela direção, e rezava para que pudesse chegar a tempo.

***
Magnus estava angustiado. Passara o dia todo procurando por uma pista qualquer que pudesse lhe dar o nome do maldito demônio. Parece que ninguém na cidade sabia de sua existência. Pelo menos, ninguém que conhecia. Magnus ainda mantinha os mesmos portes de quando estava na Cidade de Prata, e pretendia voltar para lá, portanto não se permitia pecar, por menor que fosse esse pecado. Precisava disso para voltar para seu lar, para o lugar de onde não deveria ter saído.

Andara o dia todo, e ainda não havia encontrado uma pista se quer. Tivera passado em vários lugares, observado várias pessoas, e ainda sentia como se tivesse falhado, como se tivesse feito um esforço infinitamente menor do que o que poderia.

Esperou o anoitecer, hora predileta das criaturas que servem ao inferno andar. Sentiu o clima estranho que fazia naquela noite. Nunca havia visto na cidade uma neblina se formar tão cedo. Preocupou-se com o que poderia acontecer, mas tirou esse pensamento da cabeça logo em seguida, pois tinha de se concentrar em sua missão. Se realmente pretendia voltar aos céus, deveria cumprir sua missão, e não admitiria falhar novamente.

Caminhou, lenta e pausadamente por algum tempo, pensando em qual lugar poderia procurar por informações. Sabia de um bar que servia de reduto para vampiros e pequenos demônios, mas não se atreveria a ir até lá sem destruir pelo menos um daqueles malditos.Pensou em procurar alguma pessoa que pudesse usar a internet para buscar pistas, mas seria difícil disfarçar suas verdadeiras intenções.

Quando se deu conta de si novamente, estava caminhando próximo à Avenida Leite de Castro. Não estava tão movimentada como de costume, talvez por conta da neblina que caia. Continuou caminhando, absorto em pensamentos que pudessem lhe trazer alguma pista para cumprir sua missão, até que sentiu uma presença familiar, que não sentia já há algum tempo.

Preocupou-se. Não poderia ser quem pensava, não ela. De todas as castas que havia conhecido em Paradísia, havia apenas uma da qual tinha receio de encontrar, ainda mais agora que havia caído, e, se seu pressentimento não falhara, estava prestes a estar frente a frente com um membro em pouco tempo, fosse para seu bem ou para seu mal.

***

Passava pouco das oito da noite. Marcos havia despertado há pouco mais de duas horas. O tempo estava frio e meio nublado. A lua parecia não estar presente no céu esta noite. Caminhava tranqüilamente pela Avenida Leite de Castro, procurando por alguma jovem mulher para se alimentar, pois já fazia algumas noites que não se alimentava, e o sangue que tinha já começava a se tornar pouco, o que poderia vir a ser um problema, caso tivesse que entrar em alguma batalha. Havia conquistado alguns inimigos, alguns aliados, mas, acima de tudo, havia aprendido a jogar. Não chegava a ser, necessariamente, um paranóico, mas tinha consciência de que o perigo poderia aparecer assim que dobrasse a esquina, portanto, não arriscava ser pego desprevenido. Era uma pessoa muito prevenida e astuta, preferia um embate emocional ou psicológico a um embate físico. Tanto que se aperfeiçoou nos caminhos da magia, principalmente magia das trevas, a sua especialidade.

A Avenida Leite de Castro possuía 2km de comprimento, dividida em duas vias de mão única por uma ciclovia. Como também era usada para caminhadas e corridas, podia-se encontrar muitas pessoas nesse trajeto, bem como vários pontos de vendas de lanches. Durante o período letivo, também era fácil encontrar estudantes das mais variadas idades, de alunos do ensino fundamental a universitários. Era um local ideal para caçar, como Marcos gostava de dizer.

Marcos podia ser um vampiro Strigoi, mas também não era um monstro. Geralmente, alimentava-se apenas de mulheres, mas em casos raros, ele também se alimentava de homens e animais, mas nunca chegava a matar suas presas, ou quase nunca, pois ele abria exceção para bandidos e marginais. Sempre cuidava de suas presas como se fossem filhos, e não aceitava que nenhuma criatura sobrenatural os fizessem mal. Esse era um dos motivos que o fazia entrar em conflito com muitas criaturas e até mesmo outros vampiros. Era sarcástico, talvez um de seus piores defeitos, ou melhor das qualidades, tudo dependia do ponto de vista e de seu humor. Era polido, seco o suficiente para não ser grosseiro fora de hora. Mas era sarcástico o suficiente para retirar até mesmo a paciência de um anjo.

Caminhava já há alguns minutos, quando se deparou com uma bela jovem que lhe chamou a atenção. Conhecia muitas das pessoas da cidade, ou pelo menos já as havia visto antes, mas aquela era diferente. Tinha os cabelos pouco abaixo dos ombros, de um tom ruivo vivo, pele clara como a luz, olhos de um castanho claro e suave. Usava um vestido preto, não muito justo nem muito folgado, salto meio fino, mas não muito alto. Estava parada, de pé, olhando em sua direção, como se tentasse enxergar sua própria alma. Jamais havia visto aquela garota em São João Del Rei, e quando uma coisa assim acontecia, somente podia significar problemas. Havia aprendido, anos atrás, que estrangeiros sempre vêem acompanhados de problemas, e quanto melhor a aparência, pior o problema.

Não tinha sangue o suficiente para entrar em combate, caso fosse necessário. Não era um covarde, mas era prudente, não arriscaria um confronto nas condições em que se encontrava, e também suspeitava que a garota não quisesse arriscar um confronto em local público. Umas das leis que quase todas as criaturas sobrenaturais seguem é não se mostrar sem necessidade, pois os humanos não tinham motivos para conhecer tudo o que vive com eles.

Marcos continuou caminhando, sempre observando a garota, da mesma forma que um leão observa sua presa. Não conseguia encontrar nenhum traço diferente, uma marca, uma cicatriz, qualquer coisa que fosse, mesmo com sua visão bastante apurada. Estava quase do lado da garota, quando sentiu uma nova presença, logo atrás dele, mas não se importou muito. Estava mais preocupado com aquela estranha garota, que parecia nem mesmo mudar suas expressões. Olhou fixamente para seus olhos e pode perceber que, com muita sutileza, havia desviado o olhar, percebeu que ela não olhava diretamente para ele, mas era como se olhasse através dele. Nesse momento se deu conta, a garota estava preocupada com outra pessoa, e não com ele. Havia mais alguém ali, alguém poderoso, por que sua presença praticamente já nem era mais notada.

Virou-se, lentamente, para ver o que exatamente a garota olhava, e percebeu que teria ali uma excelente oportunidade, bastava escolher o lado certo e cobrar o favor depois. Ali estava uma situação que não via já há algum tempo. Sabia que alguém precisaria de ajuda, e sempre é bom poder cobrar um favor de alguém, principalmente alguém ligado aos céus.


***

A jovem garota olhava fixamente para o ponto logo a sua frente. Não estava nem um pouco preocupada com o homem que a observava como um predador. Sentia o perigo vinha dele, o mal que representava, a marca de uma criatura que não deveria existir pelas leis sagradas do Criador. Mas o que a preocupava não era aquele homem. O que a preocupava era o homem atrás dele.

Havia recebido uma missão: deveria pegar o artefato roubado e leva-lo de volta, em segurança, e sem que nenhum humano descobrisse sua existência, bem como qualquer outra criatura que o pudesse usar com propósitos obscuros.

Quando estava em missão, tentava cumprir sua missão o mais rápida e eficientemente possível. Não se permitia qualquer tipo de distração, obstáculo ou prejuízos. Era rápida, certeira, eficiente. Localizava, neutralizava, recuperava e retornava para casa. E tinha orgulho de ser assim. Não havia necessidade de fazer mais do que lhe fora ordenado, e não admitia fazer menos também. Era uma caçadora, e já havia encontrado sua presa. Agora, bastava apenas neutralizar e retornar, fim da missão.

***

A neblina aumentou gradativamente na noite da cidade. As pessoas, como que por encanto, estavam evitando sair de casa, e, principalmente, de passar pela Avenida Leite de Castro. O responsável pelo fenômeno atendia apenas pela alcunha de M. Ninguém sabia ao certo o que ele era, apenas sabiam que era poderoso.

O que sabiam de M se resumia a: corra se o vir, aceite se ele lhe oferecer, cumpra se fizer um acordo com ele, e nunca tente descobrir sua identidade.

Aparentemente, todos os que cruzavam o caminho de M eram, direta ou indiretamente, amaldiçoados a verem sua vida ruir diante de seus olhos, a ter o chão retirado de seus pés. Sonhos eram desfeitos quando estavam quase se realizando. Há quem diga, até os dias atuais, que ele era um especialista em transformar os mais belos sonhos das pessoas em seus piores pesadelos, em verdadeiros infernos na terra.

Ninguém conhecia, ao certo, quais eram suas motivações, seu real nome, ou até onde iriam seus poderes. Os poucos que o haviam encontrado se recusavam a falar, e os que se arriscavam a dizer algo, simplesmente perdiam tudo o que amavam.

Todos, menos uma pessoa. Havia um maldito anjo que o havia atrapalhado em mais de uma ocasião, o que o deixava com um ódio mortal apenas de lembrar. Não havia conseguido encontrar um meio de tornar sua vida um inferno, de faze-lo sentir os tormentos do inferno dentro do próprio paraíso, pois o desgraçado havia caído antes. E até mesmo nisso o havia frustrado, pois havia caído por matar um mortal, justamente um de seus servos mais fiéis e dedicados.

Havia aguardado por anos, até sentir que o desgraçado estava feliz. Percebeu que o seu inimigo, o único do qual ainda não havia conseguido se vingar, estava feliz novamente. Foi a oportunidade perfeita. Matou a mulher que o maldito amava, e aprisionou a alma dela em seu poder. Seu plano caminhava como o esperado.

Agora era apenas uma questão de tempo. Manipular as pessoas certas, mexer os cordões corretos, soltar as pistas necessárias. Faria o maldito de cachorrinho, deixaria ele correr atrás de seu próprio rabo, e então daria o golpe final.

Mas antes, precisava cuidar de uma certa pessoa. Havia uma caçadora em seu encalço, e agora estava diante dela. Não sabia se ela estava atenta a ele ou a outra pessoa, mas sabia que ela já o havia percebido. Uma batalha estava prestes a começar, e esse era apenas o começo de seus planos.
Eduardo Setzer Henrique
Enviado por Eduardo Setzer Henrique em 20/09/2006
Código do texto: T245102
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Sobre o autor
Eduardo Setzer Henrique
São João Del Rei - Minas Gerais - Brasil, 32 anos
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Eduardo Setzer Henrique