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Redenção, Caminho Para o Paraíso (Capítulo 5)

_Há quanto tempo não nos vemos, não é mesmo? _ Disse a garota, esboçando um sorriso que poderia ser considerado como sarcástico.
_Pensei que já havia se esquecido de mim... _ o homem falava, olhando sério, e sem esboçar nenhuma mudança em seu rosto _ o que você quer agora? Já não basta tudo o que me fez passar há umas duas semanas?
_Quero uma informação. E quero ela agora, para seu próprio bem. _ a garota estava um pouco nervosa, afobada.
_Então fale logo o que você quer, porque não quero brigar com você, não hoje.

O homem era moreno claro, alto, bastante magro. Tinha um piercing na sombrancelha, feições turcas e um olhar frio e penetrante. Mas essa era apenas a sua aparência humana. Cansado de manter aquela forma, e também querendo incomodar um pouco a garota a sua frente, voltou a sua forma normal.

Era moreno escuro, com olhos escuros como o ébano. Tinha um pequeno par de chifres que saiam da testa, e apontavam para o alto. Um par de asas de couro negro como as de um morcego, porém mais sombrias. Era careca, o que lhe conferia um certo charme, mesmo se tratando de um demônio.

A garota soltou um sorriso, e também deixou seu disfarce cair, pelo menos em parte. Deixou que suas asas, brancas e brilhantes como a luz da manhã, aparecessem, ofuscando a aura maligna de seu adversário. Manteve os cabelos ruivos, os olhos castanhos, e o vestido preto, mas em sua mão trouxe a sua arma: uma lança.

_Onde está Erakel? O caído por assassinar. _disse a garota, com a voz firme, mas nem por isso menos bela.
_O que? Tudo isso pra encontrar aquele pária?
_Sim, eu preciso encontra-lo, e não tenho tempo para jogos agora, Lukiah. Diga-me logo tudo o que você sabe.
_Tudo bem, Allin. Ele está morando perto do portal do Inferno, na Praça do Matosinhos. Não atende mais por Erakel, mas sim por Eduardo, para se disfarçar. Mas ele não passa de um pária, um rejeitado pelo inferno e expulso pelo céu... Não sei o que você poderia querer com ele...
_Isso é problema meu, Lukiah. Agora, suma enquanto ainda me sinto em dívida com você o suficiente para não lhe causar nenhuma dor.
_Tudo bem, tudo bem... Se é assim que você deseja, adeus Allin, e espero que dessa vez seja pra sempre.
Mal acabou de falar, o homem havia desaparecido diante dos olhos de Allin, como se não passasse de uma visão embaçada nas névoas que encobriam a cidade.
_Hahahaha!! Como é fácil enganar esses anjos idiotas, hahahahaha!! _ Saiu gargalhando M, enquanto voava oculto pelos céus da cidade.
_bastou me disfarçar de um dos idiotas que vive surrando e nem mesmo desconfiam de nada... hahahahahaha! _ gargalhou novamente, mas dessa vez deixando seu disfarce desaparecer. Lukiah era um de seus servos, e com certeza não se importaria de manchar seu nome, afinal, sua aparência serviu-lhe de disfarce. “Mais um peça no tabuleiro foi movida, agora falta pouco”, pensava M, enquanto voava atrás dos ingredientes finais para o ritual.

***

Interessante. Esse era o pensamento puro de Marcos diante da conversa que acabara de presenciar.

Como se nenhum dos dois ali presentes se importassem com ele, bastou apenas convocar as sombras a seu redor para encobri-lo e mantê-lo ali, atento à conversa, de forma que pudesse escolher muito bem o que fazer.

Estava esperando um combate, mas este infelizmente não ocorreu. Tudo não passou de um diálogo, mas um diálogo tenso. Estava diante de um demônio e uma anjo. Se acontecesse uma luta, tinha certeza, qualquer dos lados que o ajudasse, o traria grandes privilégios, mas também muitos problemas.

Sentiu que a anjo havia mentido. Mas não podia dizer exatamente em que ou por que, mas sabia que ela havia mentido.

Estavam falando de uma pessoa que lhe era conhecida de algum tempo atrás. Eduardo, ou Erakel, que era seu nome verdadeiro, e usava apenas com quem tivesse algum dom sobrenatural. Sabia que ele não passava de um paria, uma criatura lamuriante que passa os dias e as noites chorando como um bebê por causa de uma mulher que havia morrido. Ainda não havia aprendido a superar as dores da vida imortal, e talvez nem mesmo aprendesse. Seria um paria para sempre.

O homem desapareceu bem diante de seus olhos, e mal pode acreditar em tamanha façanha. Também era capaz de se esconder e de praticamente desaparecer, mas não assim, diante de alguém prestando atenção em seus movimentos. E antes mesmo que pudesse se surpreender mais com o acontecido, ouviu a voz da garota se dirigindo diretamente a ele.

_Você escutou tudo, certo? E creio que também conhece Erakel. Pois bem, espero que me ajude.
Marcos saiu das sombras, e postou-se diante da garota.
_Meu nome é Allin, vim em missão em nome de Demiurgo e da Cidade de Prata, e estou procurando por Erakel. È de extrema importância que eu o encontre.
_Hum... E por que eu deveria ajuda-la? O que eu ganho com isso?
_Você será recompensado, tem a minha palavra.
_Mas o que você quer com esse Erakel?
_Assuntos confidenciais da Cidade de Prata, e quanto menos você souber, mais seguro estará.

Marcos podia sentir a dor nas palavras da garota quando ela disse isso, e sabia que, fosse o que fosse, Erakel estava com problemas. Agora, era apenas uma questão de avaliar quem poderia lhe dar a recompensa maior em troca de ajuda.

_Está certo, talvez eu te ajude, mas antes, quero me encontrar com Erakel sozinho. Se eu encontra-lo, levarei até o ponto de encontro que vamos combinar, ok?

Allin sabia que não era uma boa idéia, mas não tinha opção. Se quisesse salvar o artefato, deveria agir dessa forma, pois quanto mais demorasse para encontra-lo, talvez pior fosse. E, além do mais, não gostaria de chamar a atenção antes do tempo.

_Tudo bem, eu concordo.
_Está certo. O ponto de encontro será na Praça da Estação, amanhã à meia-noite. Mas não vá com essa aparência angelical, e nem fique usando esse nome, chamaria muita atenção sobre você e ele.
Allin concordou, e voltou a assumir sua forma humana. Mas ainda tinha a questão do nome.
_E quanto ao nome... Hum... Deixe-me ver... Por que não usar Aline? É parecido com o seu atual, e não chama a atenção.
_Aline... Gostei, pode ser esse então.

***

Magnus estava preocupado. Quanto mais corria, mais parecia estar certo sobre a sua premonição. Não estava preparado para se encontrar com ninguém de Paradísia, principalmente com ela. Ela foi à única pessoa que não o censurou quando estava planejando passar a eternidade com Isabela. E agora, depois de tudo ter dado errado, era a única pessoa que tinha medo de encontrar, por que não queria ver em seu rosto a decepção.

Já estava correndo pela Avenida Leite de Castro, quando avistou duas pessoas logo à frente. Sentiu o familiar cheiro de flores silvestres, e sabia que ali estava a última pessoa no mundo que gostaria de encontrar.

_Allin, é você? _perguntou, mas já tendo praticamente certeza da resposta.
_Magnus? _ perguntou, espantada, virando-se para ter certeza de que realmente era o amigo.
Correu até ele, com um sorriso nos lábios, não tentando nem mesmo esconder a sua felicidade.
_Que excelente surpresa os céus reservaram pra mim essa noite! Como eu estava ansiosa para revê-lo!
Magnus não parecia estar tão contente quanto Allin, pelo menos não para os olhos de Marcos, que observava tudo atentamente.
_Também é muito bom te rever Allin, só gostaria que fossem em melhores condições.
_Do que você está falando Magnus? Há algo de errado?
_É uma longa história... Vejo que já conheceu Marcos?
_Ah, sim. Nos encontramos por acaso, e ele está me ajudando agora.

Allin continuava bela como sempre fora aos olhos de Magnus. O caído era mestre em observar os pequenos detalhes. E o que mais chamava a atenção em Allin era seu jeito meigo, despreocupado.

Tinha um leve sorriso, que variava de acordo com as palavras que dissesse. Era sempre alegre, divertida, mas tinha um forte senso de verdade e de seguir em frente que era invejável. Ficou parado, observando os detalhes, até se perceber sobre um olhar examinador de Marcos. O vampiro não havia perdido o hábito de analisar as fraquezas das pessoas.

_Bem, se dá licença Aline, vou fazer o que me pediu, ver o que descubro. Mesma hora e local do combinado, esteja lá. _disse Marcos, acenando com a mão para Magnus, e despedindo-se com um olhar de Allin.
_O que está acontecendo? Em que ele está te ajudando?
_Eu estou procurando por Erakel. É muito importante que eu o encontre.
_Mas por que? O que Erakel fez para você vir atrás dele? _ Magnus já estava começando a ficar preocupado.
_Não posso lhe dizer Magnus. Sinto muito, mas não posso dizer a ninguém. É uma mensagem de superiores, que somente Erakel pode ler.
_E que história é essa de Aline?
_É o nome que vou usar para me disfarçar como humana...
_Hum... Entendo... Bem, nesse caso, espero que tenha sorte.
_Não, espere... Faz tanto tempo que não o vejo... Vamos conversar, por favor.

Magnus não podia resistir a um pedido desses. Cedeu de coração aos desejos da amiga, mesmo sabendo onde isso poderia levar.
_Tudo bem, mas espero que não seja uma conversa muito longa...

***

Erakel voava, á toda velocidade, em direção a seu pressentimento. Já estava nos limites da cidade, quando sentiu uma forte pancada em sua cabeça, e caiu no chão. Teve suas asas quase quebradas com o impacto, mas apenas isso de grave. Pôs-se de pé novamente, procurando pelo seu agressor.

_Seja bem vindo a minha casa, caído.
Olhou para trás, e viu um homem, apenas com uma calça de estilo oriental, do tipo usada em academias de artes marciais. Era um homem moreno claro, alto, bastante magro. Tinha um piercing na sombrancelha, feições turcas e um olhar frio e penetrante. Não lembrava em momento algum, exceto pela calça, um oriental.
_Quem é você? E como sabe o que eu sou? _ perguntou, tentando ganhar tempo para ver se descobria algo mais sobre seu oponente.
_Meu nome não lhe é importante, apenas saiba que você tem apenas duas chances de sair daqui: uma é morto pelas minhas mãos, e morto sem alma hahahaha... _ sua gargalhada era satânica, preenchida com puro mal e ódio.
_E a segunda?
_Bem, a segunda, é vendendo sua alma pra mim...
_O que? Você está louco?
_Não é o que me parece... Mas devo supor que você está... Se você se recusar, jamais verá a alma de sua amada novamente...
_O que... Então você é o maldito demônio que está com a alma de Amanda aprisionada?
_Hum... Obrigado pelos elogios, mas não, não sou eu. Mas quero que você me ajude a pegar o mesmo desgraçado.
_E por que você precisa da minha alma pra isso? _ Erakel já estava começando a se descontrolar emocionalmente, já estava se deixando levar pelo seu lado demônio.
_Por que não confio na alma de um demônio. Temos de fazer um acordo.
_EU NÃO SOU UM DEMÔNIO! _vociferou Erakel.
_Hahahaha, não mesmo? Tem certeza? Ao que me consta caídos se tornam demônios no exato momento em que são banidos!

Erakel estava tomado pelo ódio, por raiva daquele estranho. Havia caído em uma armadilha, sabia disso. Agora, o importante era se acalmar e pensar como um demônio, deveria virar o jogo a seu favor.

_O que você quer exatamente?
_Bem, como você já deve saber, nem céu nem inferno podem interferir diretamente na vida dos mortais, podem apenas influenciá-los.
_Sim, e daí?
_Bem, acontece que tem alguém quebrando as regras por debaixo dos panos, e isto está acabando com alguns dos meus planos.
_Agora me diga onde eu entro nessa história _ indagou Erakel.
_O nosso inimigo é o mesmo, e eu preciso de uma isca, alguém que o distraia enquanto eu descubro seus pontos fracos para podermos atacá-lo.
_Mas e que garantias teria eu de que isso não é uma armadilha?
_Tome, e uma prova da minha fidelidade a você.

O estranho jogou nas mãos de Erakel uma espada. Longa como um lança, leve como um bastão, fina como uma faca. Tinha vários entalhes de vermelho sangue em sua lâmina. E uma magia poderosa, que dava pra sentir apenas de tocá-la.
_Mas que espada é essa? _Perguntou Erakel, surpreso de receber tal arma de um estranho.
_Se chama Sanguinae. È uma espada que se alimenta de sangue. Quando fere seu alvo, não importa o que seja, começa a drenar seu sangue, até que morra por completo.
_Bem, nesse caso, acho que posso confiar em você.
_Mas eu ainda não posso confiar em você _ disse o estranho, para um surpreso Erakel _ em troca, quero que você me prometa a sua alma, caso venha a me trair, independentemente do motivo.

Erakel não sabia o que responder ao certo. Não tinha nem mesmo certeza que tipo de demônio, se era realmente um, era aquele.
_Me diga qual seu nome primeiro _ perguntou Erakel, disfarçando sua dúvida.
_Meu nome não é importante agora, e na hora certa você o descobrirá. Apenas já lhe adianto que eu sou sua melhor chance de conseguir salvar a alma imortal de sua amada.

Erakel estava confuso, e tinha de tomar uma decisão rápida. Se houver uma guerra, talvez não possa lutar ao lado do céu por causa desse pacto, mas se não o fizer, poderá condenar a alma de Amanda para um sofrimento eterno. Não tinha muitas opções.
_Estou esperando... Ande logo com a resposta... Não tenho a noite toda. _ O estranho já estava impaciente.
_Tudo bem, já tenho a sua resposta _disse Erakel, sabendo que daquele ponto em diante, não haveria mais volta.
Excelente _ dizia o estranho _ excelente, hahahaha!
Eduardo Setzer Henrique
Enviado por Eduardo Setzer Henrique em 20/09/2006
Código do texto: T245109
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Sobre o autor
Eduardo Setzer Henrique
São João Del Rei - Minas Gerais - Brasil, 32 anos
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Eduardo Setzer Henrique