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A recepcionista

Ele encostou um dedo no outro, torceu os do pé dentro do sapato e gemeu no cérebro a agonia de ter que esperar. Era irritantemente insuportável aquele barulho do salto da recepcionista que toda hora andava de um lado pro outro.

Mordia forte o nada que havia na boca. Qualquer movimento chamava-lhe a atenção, e então, por um breve instante, sossegou, sentiu um alívio no peito, suspirou alto e até esboçou um sorriso! Sorriso, quem diria! Mas foi momentâneo. Só de olhar para o relógio maçante disposto a sua frente e visto que ele não parava de fazer correr seus ponteiros, voltou-lhe a irritação. Sacudia o pé e a perna, e então os dois pés, as duas pernas, as mãos sobre os joelhos, a cabeça, o corpo todo, até que a recepcionista ergueu os olhos – até então concentrados numa folha – “Tudo bem?” desconcertado, respondeu que sim, tudo ótimo, por que não estaria? E para disfarçar olhou os quadros da sala, os certificados nas paredes pendurados, um vaso estúpido com flores já mórbidas, o pé das cadeiras, o próprio sapato, coçava a cabeça pra ver caindo as caspas, tirou cracas debaixo da unha, bolinhas da roupa, vasculhou uns papéis na pasta que carregava, tentou achar uma caneta para rabiscar algo. Não achou. Pensou em pedir à recepcionista que emprestasse uma. Desistiu. Não tinha mais o que fazer, passou-se uma hora, e nada acontecia.

Pensando nas aulas que tivera com um japonês muito bom em matemática, quis imitar uma técnica que ele disse ter aprendido na Ásia: a de dormir com os olhos abertos. Não conseguiu também. Lembrou de alguns exercícios interessantes que lera no livro do Paulo Coelho, mas não achava nenhuma maneira de fazer algum deles sem que a criatura que ali barulhava com o salto percebesse. O único já estava fazendo, o mais discreto, porém não menos eficiente: cravara a unha embaixo da outra, e estava sendo bom.
 
Foi ficando vermelho, nada acontecia, o telefone não tocava, nem tampouco a campainha, ninguém entrava, ninguém saia... algo de estranho, algo de muito estranho está para acontecer, pensou.

Reparou que a recepcionista não parecia com nada, era muito indefinida. Por um instante um pouco longo, pensou que havia sido vítima de uma cilada, uma emboscada fatal, algo assustadoramente inesperado. Arregalou os olhos, pensou um milhão de torturas as quais ele seria submetido durante horas seguidas e, talvez, quando estivesse no fio da morte, eles parariam para a dor pesar, e quando recuperasse uma gota de vida, tornariam a torturá-lo assim até entregar-se; a mandante de tudo seria a recepcionista que se revelaria lindamente má.

Seguindo-a com os olhos, os mínimos movimentos pareciam bruscos o suficiente para disparar-lhe o coração. O ápice foi quando ela levantou os dois braços para ajeitar o cabelo que desmanchara. Nesse momento ele quase grudou na cadeira. Mas foi achando que não seria ela quem daria a ordem de apreensão. Ela sim, falaria ironicamente, “querias tu dormir de olhos abertos? Pois saberás agora o que é nunca poder fechá-los” E colocando-o numa cadeira, de mãos e pés atados, faria funcionar um dispositivo ultra moderno que tornaria impossível o ato de piscar, assim estava, de modo que sua posição era de frente a um grandioso ventilador, fazendo com que sentisse imensa vontade de piscar.

Mas isso, e arrepiava-se mais, não era o principal. Na sala ao lado, na porta direita da recepção, um homem de olhar temível gargalhava ao deixar aquela sala e se aproxima da recepcionista "Este é o homem? Melhor do que eu imaginava, pois!" e vinha com um bisturi mui fino e inevitavelmente se aproximava, lento, olhos que não piscavam olhavam olhos quase pulando de tão esbugalhados, olhos sedentos de sangue!

E foi o homem, falando: "mas que impaciência feia tens, sabes que isso faz mal, muito mal!" E furou a barriga, como se espeta uma lingüiça, vagarosamente, como se quisesse fazer dele uma peneira!

Umedecia os olhos a imaginar seu enterro, a pobre mãezinha ao pé do caixão segurando uma rosa, murcha já, como aquelas que via no vaso estúpido tampando uma umidade da parede, um véu negro cobrindo a face inchada de  tanto chorar. Pobre mãezinha.

Agora ele, de olhos fechados, gemendo na cadeira, fazia barulhinhos de dor. Somente ele e a recepcionista, naquele lugar gélido, ecoante, a recepcionista, sim, agora sim, estava achando tudo aquilo muito estranho, onde já se viu, um homem daquele tamanho, aguardando na recepção da empresa para uma entrevista, não manter a postura?!

Chegou perto dele, quando, em um brusco movimento, cai no chão em um pranto pueril, de soluços altos, agarrado aos pés dela e gritando que não!!!! não o matem, era apenas um equívoco, ele era inocente!
Laís Mussarra
Enviado por Laís Mussarra em 02/10/2006
Reeditado em 03/10/2006
Código do texto: T254662
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Sobre a autora
Laís Mussarra
Estados Unidos, 29 anos
139 textos (8285 leituras)
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Laís Mussarra