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Estrada do Horror

Era uma belíssima noite de verão e Clara dirigia pela estrada deserta apressadamente. Queria chegar logo em casa, afinal havia dançado a noite inteira. O vento estava quente, o que fez com que ela abrisse os vidros do carro e deixasse seu belo cabelo negro esvoaçante. Ligou o rádio e começou a cantarolar uma velha musica que tocava em um daqueles programas de flash-backs da madrugada. Olhou para o relógio: 02:54. Pelas suas contas estaria em casa dentro de vinte minutos e a lembrança de sua cama fofinha a fez pisar ainda mais fundo no acelerador. O velocímetro marcava 110 km/h.

De repente ela sente um solavanco e pára o carro no acostamento.
- Ô droga! Não pode ser! Pneu furado a essa hora... só acontece comigo! – esbravejou ela, chutando o pneu murcho a sua frente.
Olhou para si e não conteve o riso. Vestia um belo vestido longo verde como seus olhos e calçava um sapato com salto agulha de doze centímetros.
- É, não tem jeito, vou Ter que fazer isso sozinha.
Clara abaixa-se, tira os sapatos de grife e os atira em cima do banco traseiro do carro. Pega o ‘macaco’ e o ‘step’ e vai cumprir sua difícil tarefa.

Cerca de trinta minutos depois ela finalmente consegue terminar a troca. Suada, cansada e toda suja, ela entra em seu carro e olha no espelho fazendo uma careta de desaprovação. Em seguida ela dá a partida e segue seu caminho.

Menos de cinco minutos depois de ter trocado o pneu Clara sente outro solavanco. Novamente pára o carro no acostamento e desce para ver o que está acontecendo. Qual não é sua surpresa ao se deparar com outro pneu furado.
- Droga! E agora? Só tenho um step, obviamente...
Ela corre pra dentro do carro e resolve ligar para casa, a fim de pedir pra sua mãe chamar um guincho para ajudá-la. Ao pegar o celular percebe que está fora de área. Olha ao seu redor e não vê nem sinal de alguma casa ou de um carro. Liga o rádio e as mesmas musicas de flash back ainda tocam... Pega seu maço de cigarro, seu isqueiro, e resolve sentar no capô  para esperar por algum carro que passasse e aproveitou para descansar um pouco.
De repente a programação do rádio é interrompida por uma notícia:
“Temido assassino fugiu hoje da cadeia. Todo cuidado é pouco pois se trata de uma pessoa perigosa e incontrolável.”
Clara nada ouve, pois acabara de adormecer....

- Moça... Ei, moça!
Clara acorda num sobressalto e se depara com um belo rapaz, na casa dos trinta anos, cabelos negros e olhos de um azul profundo.
- Oh, desculpe, acho que adormeci esperando ajuda....
- Precisa de ajuda com o pneu? – pergunta o rapaz apontando para a roda já no chão.
- Bom... na verdade não. É que esse já o segundo pneu que fura hoje e não tenho mais step. Eu estava mesmo é esperando alguém que pudesse me dar carona até o telefone mais próximo para que eu pudesse chamar o guincho.
- Ok, venha comigo.
O rapaz seguiu em direção a um carro negro muito luxuoso e Clara correu para pegar sua bolsa e o seguiu. Olhou no relógio no painel do carro e viu que já passava das 4:40 hs.

- Para onde estava indo sozinha a essa hora da madrugada? – perguntou o rapaz sem desviar os olhos da estrada.
- Estava voltando de uma festa. Moro aqui perto, cerca de quinze minutos.
- A levarei até onde deseja.
- Se não for incômodo... – Disse ela com uma certa timidez.
- Qual seu nome?
- Clara. E o seu?
- Bill. – responde ele puxando bruscamente o volante para uma entrada de terra a beira da estrada.
- Ei! Para onde está me levando – indaga ela assustada.
- Vou te levar para onde deseja ir.
- Mas esse não é o caminho para minha casa!
- Não é o caminho da sua casa, mas é o caminho de onde deseja ir.

Em seguida ele pára em uma clareira em meio a uma mata muito fechada.
- Por favor me deixe ir!  - a frase de Clara é interrompida pela boca de Bill. Ela reluta, mas em poucos instantes está entregue ao beijo daquele desconhecido.

As mãos dele percorrem todo o seu corpo e a deixam em êxtase, implorando para que ele a possua de uma vez. Jamais conhecera homem algum, e era virgem por opção. Mas aquele homem a fez mudar de idéia. Estava completamente entregue àquele estranho e desejava que ele a invadisse, a possuísse, na sua forma mais completa.
Ao perceber sua inexperiência ele foi cuidadoso, mas não menos voraz. Transaram até seus corpos estarem exaustos e doloridos. Foi muito especial e inesquecível, apesar de não existir amor entre eles. Passaram a madrugada toda juntos e ao amanhecer adormeceram.
Acordaram somente quando o sol já estava se pondo e amaram-se até que a lua começou a aparecer...

De uma hora pra outra Bill parece outra pessoa. Ele olha inquieto para o relógio e olha para o céu de maneira assustadora. Em seguida manda que Clara deite, ainda nua, no banco traseiro do carro e ela obedece sem pestanejar.

Quando a lua aparece, linda e majestosa, Bill começa a se transformar. Seu corpo é todo coberto por pêlos horríveis. Suas unhas transformam-se em garras e seu lindo rosto torna-se uma asquerosa fuça de lobo.
Clara tenta gritar mas não consegue. Está tomada pelo pânico.

O animal se aproxima dela. Clara tenta de todas as formas se livrar daquele ser repugnante, mas ele é mil vezes mais forte que ela. Seu esforço todo é em vão e o lobisomem toca seu corpo e a penetra a força, fazendo-a ter náuseas de tanto nojo. Clara se debate, mas o animal nem nota.

Depois de se satisfazer com o corpo da pobre moça, o lobisomem sai de cima dela e a arrasta para fora do carro. Clara ainda usa as poucas formas que lhe restam para tentar fugir, em vão.

Ele então a pega no colo e ergue-a como em oferenda à lua. Em seguida a joga no chão, fazendo com que Clara sinta alguns de seus ossos se quebrando.
- Por favor, seja você quem for, me deixe em paz! – Clara chora sem parar e sua voz sai como um fiapo.

Sem lhe dar ouvidos o lobisomem se aproxima dela e Clara nota que os olhos azuis profundos de Bill estão ali, pedindo socorro. Mas antes que pudesse esboçar qualquer reação a criatura quebra seu pescoço, jogando seu corpo sem vida em meio à mata.


Na manhã seguinte Bill acorda com a terrível dor de cabeça que já conhece bem. Não se lembra de nada que fizera quando o lobo tomara conta de seu corpo. Ao olhar para a mata ele vê o corpo de Clara e pede desculpas a ela em silêncio.

Fora condenado a crimes que não cometera. Não sabia ao certo a maneira como acontecia, sabia apenas que não era dono de seu próprio corpo quando encarava a lua cheia. Todos aqueles crimes eram do lobo e não dele. Ficara um ano preso e finalmente conseguiu fugir, mas hoje já não sabia se esse fora realmente um passo acertado. Nos tempos em que estivera na cadeia não fora possuído pelo lobo pois não via a lua. Hoje sentia-se o pior dos seres por ter estado com aquela moça. Tiveram momentos ótimos juntos, mas agora nem seu corpo podia recolher.
Precisava fugir mais uma vez.
Precisava fugir de todos e principalmente de si mesmo.

Lady Daphne
Enviado por Lady Daphne em 03/10/2006
Código do texto: T255427
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Sobre a autora
Lady Daphne
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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