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Irmãos de Sangue


Sentou-se à mesa, lábios secos, têmporas latejando, suor empapando a camiseta rasgada.
Estava ali, a arma. Carregada, pronta...
Respirou fundo na expectativa do ato. Olhou mais uma vez o quarto escuro, pegajoso, a cama nua e manchada. No teto a luz incerta pendia num fio, pousado de moscas.
Olhou para si mesmo, esquálido no caco de espelho e chorou toda sua covardia.

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Como sempre acordou tarde, ao som de Sinatra no rádio despertador. “Strangers in the Night”...
Uma boa ducha e uma toalha felpuda enxugaram o resto de sono e o gosto da ressaca. C’est la vie.
Em frente ao espelho ajeitou a gravata Armani, passou o dedo nas grossas sobrancelhas e sorriu para si. Tinha um bom dia pela frente.

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No silêncio do quarto a respiração pesada parecia escorrer nas paredes úmidas. Limpou o rosto e pensou num banho. Água nenhuma o limparia, ainda mais naquele chuveiro que gota-gotejava egoisticamente, comum de tantos quartos daquele pardieiro.
Melhor sair.
Desceu rápido as escadas rangentes e feriu-se ao encarar o sol forte, os olhos desacostumados com a luz.
Mais de meio-dia, pensou. O estômago doendo fundo confirmava. Quanto tempo estava sem comer?

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Olhou o mar da varanda, o sol radiante. As frutas estavam frescas e deliciosas. Um bom café da manhã reforça a disposição de enfrentar as oscilações do pregão. Nunca foi tão fácil ganhar dinheiro. O dia prometia.

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Na rua ele andava apressado, a arma pulsava com vida por sob a blusa, em contato com seu corpo magro. Ainda não tinha certeza do que faria, não tinha certeza de nada, como nunca o teve. Era uma eterna vítima de sua pusilaminidade, desde a infância, dos estudos abandonados ainda menino, da fuga de casa depois que descobriu as drogas e onde a mãe guardava as jóias. Ele se virava, se virava e para qualquer lado que olhava não encontrava retorno.

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O carro importado ronronava e era música para seus ouvidos, a potência daquele motor era uma extensão de sua libido. Era rico, bonito, bem sucedido e tinha uma vida inteira pela frente. Sempre foi um vencedor. Aluno brilhante, acadêmico precoce, um gênio das finanças e um amante discípulo de Valentino.

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No sinal fechado um homem mal vestido e de péssima aparência aproximou-se do carro. Os vidros automáticos foram imediatamente acionados. Não se dá mole para o azar. O homem estranho aproximou o rosto do vidro. Alguma coisa naqueles olhos...
Súbito um lampejo de memória. Seria possível? Vinte anos não apagam momentos de companheirismo. Uma alegria irracional apossou-se dele, havia reconhecido o irmão desaparecido, o medo deu lugar à esperança. Baixou os vidros e sorriu sem palavras para expressar sua surpresa.
Reconhecera o irmão. Ele não. Apontou a arma, entendeu o gesto de abraço como uma ameaça. Um tiro, mãos rápidas tateando o terno de fino corte. A carteira recheada.
O assalto foi um desastre, só queria algum para a droga do dia, mas que diabos, aquele almofadinha tentou agarra-lo. Um tiro, uma morte. Ao menos a carteira tinha muito dinheiro.

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Em seu pardieiro sujo conferiu o resultado, jogando os documentos de lado. Na boca comprou uma dose generosa e saciou seu vício.
No dia seguinte, após a costumeira ressaca, uma curiosidade mórbida fê-lo olhar os documentos do morto.
Lágrimas. Sofrimento. Um outro tiro. Na cabeça.
Fim.

Mauro Gouvêa
Enviado por Mauro Gouvêa em 19/11/2006
Código do texto: T295551

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Sobre o autor
Mauro Gouvêa
Alfenas - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
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Mauro Gouvêa