Coleção

- Mais uma mulher foi encontrada morta no parque das Nações Indígenas. Contando com essa, já se soma sete o número de vítimas do “Colecionador do Parque”. Para quem ainda não está por dentro das últimas ocorrências, este é o apelido dado ao assassino em série que já vitimou sete mulheres no Parque das Nações Indígenas, justamente pela maneira com que ele comete os crimes, deixando sempre um bilhete, com os seguintes dizeres: - “Mais uma para a coleção, é a sétima de uma lista de vinte e quatro...” E assim foi desde a primeira vítima. Elas são agredidas sexualmente, torturadas, asfixiadas até a morte e, após isso, lavadas, e vestidas com roupas brancas, que lembram anjos. A Polícia está empenhada em descobrir mais pistas sobre o assassino, antes que mais uma mulher seja vitimada. Porém o Colecionador é muito metódico, bastante detalhista e nunca deixa impressões digitais nas vítimas, ou nada que possa identificá-lo. O que mais chama atenção dentre as vítimas, além dos bilhetes, são as características das mulheres. Sempre jovens e com traços marcantes. A primeira vítima foi uma moça loira, seguida por uma ruiva, uma morena, uma negra, uma indígena, uma oriental e novamente uma loira, o que leva a polícia acreditar que a próxima vítima, provavelmente, será uma ruiva, já que depois de uma escala de seis protótipos, repetiu-se o primeiro. Por enquanto ficamos por aqui, mas voltaremos a qualquer momento com mais novidades sobre o caso, num plantão do MS notícias.

Dona Joana assistia ao noticiário com uma expressão de horror e, ao mesmo tempo, incredulidade, por imaginar como um ser humano poderia ser tão cruel, a ponto de cometer uma atrocidade daquelas. – João Pedro, vem ver o que o jornal está comentando, o tal do Colecionador matou de novo! Que barbaridade!

- Agora não posso mãe, estou terminando de me arrumar, tenho que chegar mais cedo no trabalho.

- Mas tão cedo assim, o que foi? Você só entra ao meio dia e agora não são nem oito! O que você vai fazer lá uma hora dessa?

- Ah mãe! Tenho um monte de certidões para expedir hoje, se eu não for mais cedo, não vou dar conta! Eles acham que a gente é biônico, sei lá, mas fazer o que, é meu trabalho, passei no concurso pra isso, ganho pra isso... e depois eu utilizo os créditos de sobra pra fazer aquela viajem no fim do anos que nós tanto planejamos, lembra?

- Tudo bem! Melhor assim, melhor trabalhando do que por aí, sem fazer nada, cometendo barbaridades como essas que passam na TV todo dia! Mas come antes de ir, eu fiz bolo de cenoura e o café está fresquinho, acabei de passar!

João Pedro deu um beijo na mãe e foi até a cozinha saborear aquele bolo que só ela saberia fazer tão bem! Depois disso, dirigiu-se à prefeitura, bateu o ponto e adentrou ao seu cubículo de trabalho. João Pedro era um jovem de dezenove anos, de cabelos loiros, com espinhas que o incomodavam desde a época da puberdade, uma miopia escandalosamente forte, obrigando-o a usar uns óculos de fundo de garrafa. Usava aparelho nos dentes para tentar consertar um problema no maxilar. Cursava Psicologia na Universidade Federal, no período noturno e trabalhava à tarde numa repartiçãozinha da prefeitura. Morava com a mãe, que o criara sozinha, à base de faxinas e venda de quitutes. Sempre fora um excelente aluno, daqueles Nerds mesmo. E, por conta disso, por ser o mais exemplar e tirar as melhores notas, nunca foi muito popular na escola, sofrendo chacotas e discriminação por parte dos colegas. Na adolescência a situação piorou, já que nenhuma menina interessava-se por ele, tornando-o ainda mais tímido e reservado. Assim fora a sua vida. Solitária e sem amigos, não fosse pela mãe, que sempre o mimou e apoiou em tudo.

No trabalho não era muito diferente. Ele trabalhava numa saleta, que, de tão pequena, só havia espaço para uma mesa com computador, um bebedouro e uma cantoneira, onde ficava a garrafa térmica com o café, que ele tomava o tempo todo. João Pedro entrava na sua sala e, somente saía quando da hora de ir embora, já que ali havia um minúsculo lavabo, facilitando, assim, o seu completo anonimato. Todo o serviço que o cabia, era repassado por e-mail. João executava, entregava os documentos e certidões requeridos ao Mirim da repartição. Aliás, o Mirim era o único ser vivo que tinha contato com ele durante o expediente, mas isso era muito pouco, no mais ele sempre estava sozinho, ele e o computador. Caso ele morresse no trabalho, só dariam falta a hora que as certidões se acumulassem por fazer.

E nesse cotidiano solitário, João Pedro seguia sua vida, que se dividia entre trabalho, faculdade e a casa, onde ele sempre podia encontrar o amor incondicional da sua querida mãe. Porém João andava muito mais quieto do que o normal, às vezes a mãe notava um sono agitado, cheio de pesadelos, onde o filho acordava gritando e suando muito. Muitas das noites, ele ia dormir no quarto da mãe, qual uma criança com medo do escuro, e ali encontrava a paz e a segurança para terminar a noite. Sempre foi assim, ele e a mãe. Não teve irmãos, nunca conheceu o pai. Soube de alguns namoros da mãe, mas somente uma vez ela levou o namorado em casa e o apresentou ao filho. Esse pareceu que seria algo sério, quem sabe até um possível casamento. Mas quando o noivado foi oficializado, o noivo sumiu, misteriosamente, sendo que a polícia nunca conseguiu desvendar o tal sumiço e a mãe, até hoje chora às escondidas, sem saber realmente o que houve.

Naquele dia, João Pedro trabalhou intensamente, colocou todo o serviço em ordem, arquivou tudo que estava destinado a esse fim, organizou as certidões por ordem alfabética, para não dar motivos de dúvidas para a chefe, enfim, fez o serviço praticamente da semana toda, pois tinha algo muito importante para fazer no outro dia e não poderia perder tempo com trabalho, já que todo um planejamento estratégico o esperava. Como o serviço estava todo pronto, João, no outro dia, somente bateu o ponto e saiu da repartição, sem que ninguém nem mesmo notasse algo diferente. Saiu para um passeio. Para uma caçada. João sempre quis colecionar algo, mas nunca conseguiu se interessar por nenhum artigo colecionável. Sua coleção tinha que ser única, marcante e eterna. Ele já havia começado a acumular os “troféus”, mas ainda não estava nem na metade, aliás, a recém estava passando da quarta parte do total de “prêmios”. Então, naquela mesma tarde, João escolheu a dedo o próximo item da coleção. Era uma linda jovem de cabelos ruivos e olhos azuis como o céu. Branca como algodão, com algumas sardas a contrastarem com a alvura. A moça estava saindo pro almoço quando entrou na ruazinha sem saída onde estacionava o carro. E ali foi imobilizada e desacordada com éter. Pronto! O oitavo troféu já estava garantido e a coleção estava crescendo.

João a levou ao esconderijo secreto, que nada mais era que um galpão abandonado de uma fábrica desativada. Lá ele a acordou e começou a acariciá-la, sempre olhando nos olhos, pois aquela expressão de pavor o deixava muito excitado. Depois das carícias ele a estuprou, várias vezes, descontando nela todas as rejeições sofridas desde a sua infância. Depois de humilhá-la em todo o seu brio, João Pedro a deixou amarrada, amordaçada, em baixo de uma goteira. E, de quando em quando, um fio com eletricidade era encostado na moça, que levava horríveis choques, que aumentavam de intensidade com a ajuda da água. Essa tortura durava uns quarenta minutos. E ele assistia tudo com um prazer orgástico, sádico, mórbido! Após a tortura, ele a asfixiou, olhando-a nos olhos, até o último suspiro. Olhando o relógio, ele viu que já estava na hora de ir, pois tinha que bater o ponto lá na repartição. E, como sempre, ninguém notou a falta dele por lá. O ponto foi batido e João dirigiu-se à Universidade. Entrou na biblioteca com seu cartão magnético, guardou o material no armário, pegou um livro e foi ao banheiro. Saiu pela janelinha basculante e voltou ao seu esconderijo. Colocou as luvas Lavou seu troféu detalhadamente, perfumou-a com alfazema e vestiu uma roupa branca, cheia de plumas. Sim, ela parecia um anjo. O bilhete já estava pronto. Era só levá-la ao parque e deixá-la por lá. Sabia que ninguém o estaria esperando, uma vez que ele sempre mantinha um intervalo de uma semana para aumentar sua coleção. Mas desta vez ele não aguentou esperar, e matou com apenas dois dias de diferença.

E assim o fez, carregou o seu “troféu” até o parque, no porta malas do carro de um colega, que estava na aula e não daria falta. Era sempre assim, a cada assassinato ele pegava o carro de um colega diferente, mas antes se certificando de que o mesmo não usaria o carro antes do fim da aula. Impressionante como ele era invisível. Ele saía e entrava na aula sem que ninguém desconfiasse de nada. Realmente ninguém notava a sua existência. Depois de colocar o corpo no parque, ele voltou para a universidade, estacionou o carro no lugar de costume e retornou à biblioteca pela mesma janelinha que havia saído. Pegou seus matérias, devolveu o livro e foi para a sala de aula, pois tinha uma prova muito importante depois do intervalo. O assunto abordado era a Psicopatia, que, aliás, era o seu preferido. E assim terminou aquele dia, ele fez a prova com a certeza de que tiraria a nota máxima, e dali foi pra casa, pro colo da mãe, onde nada o poderia atingir nem incomodar, onde o mundo real não passava de um álbum de figurinhas a serem colecionadas...

Mi Guerra
Enviado por Mi Guerra em 11/05/2011
Reeditado em 11/05/2011
Código do texto: T2963411