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DEUS E SUA PARÓDIA POÉTICA

O medo o dominava, olhava para todos os cantos como quem teme a própria sombra. E a cada simples vulto da longa cortina branca, seu coração parava e seu corpo se virava instintivamente para ver o que ocorria, os olhos arregalados, e o cintilar pálido da lua sobre seu rosto apenas o tornava tão assustador como aquele, ou aquilo que temia.
Esse era Charles Valenco, e esse era seu dia, o dia em que pagaria por seus piores pecados. O dia em que conheceria seu curioso carrasco. Sua crueldade havia feito dele um mito em sua cidade. Matara mais homens que qualquer assassino na historia policial de qualquer país, havia traído amigos que lhe juraram fidelidade, dormido e usado mulheres que o amaram com a pureza do primeiro amor. Sumira com filhos bastardos, e até assassinara suas “luxuriosas mulheres”. Houveram tantos em suas mãos que alguns juravam que Valenco não era um simples homem, era uma entidade do inferno que regava a terra com sangue e horror.
Em certa vez, enquanto jantava em um famoso restaurante local um homem distinto havia olhado sua mulher, e pedido-lhe fogo para ascender seu cigarro. Valenco, se sentindo ultrajado com tudo aquilo, após o jantar e alguns drinques, espancou a esposa até que seus dentes saltassem da boca, e que seus olhos nem mesmo pudessem se abrir pelos  inúmeros socos, mas isso, no fim, não chegara perto do que fizera ao dito “distinto homem”. Enviou seus homens para  seqüestrar o infeliz. O jogaram em uma velha metalúrgica que Valenco havia comprado para construir um parque temático. Lá, após arrancar seus dedos, e queimar parcialmente seu corpo, como o pior dos algozes vindo das profundezas do inferno, conseguira também capturar toda a família do pobre coitado. O próprio Valenco violentou cada mulher, incluindo a filha de seis anos de sua vitima, que por sinal, morrera dias após em prantos, gritando como uma alma penada em nosso plano material. Depois moera os corpos dos mortos, e fizera com que fossem ingeridas pelo “distinto homem”, e só após essa tortura diabólica é que resolvera queimar seu torturado, e quando questionado por seu braço direito, apenas respondeu: “Primeiro se mata a alma, depois nos livramos do corpo...”, sempre frio e calculista era Charles Valenco.
O tempo passou, e o sol estava cada vez mais próximo para se pôr para Valenco, e ele, com sua descomunal crueldade e espírito maquiavélico sobrevivia em sua cidade, trazendo horror e desesperança aos já injustiçados. Foi quando sua secretária entregou-lhe uma carta de envelope simples e suja de terra. Ele a abriu, sorriu em deboche ao ver o recado escrito em letras grandes, que diziam: “Vou mata-lo, porco desgraçado!”. E pensou Valenco, como alguém teria tamanha coragem. Após algumas gargalhadas, jogou a carta sobre a mesa larga de mogno, levantou e pegou seu casaco, e foi para a casa. No entanto os recados continuaram, cada dia com freqüência maior, e logo passaram a mais de duas cartas por dia, sem mencionar aqueles entregues em seus “escritórios secretos” pela cidade, e não demorou para receber mensagens em sua secretaria eletrônica. Se mencionar em seus celulares. Estava irado, mandou que seus homens caçassem esse seu verdugo, e gritava para que todos ouvissem: “Farei com esses filho da puta sofra mais do que qualquer um! Um maluco, isso sim! E vou espremer esse doente com as minhas mãos e depois fritar sua carne e come-la!! Maldito seja esse homem!”, e não havia alma viva que duvidaria daquilo.
Dias, meses, anos se passaram e aquelas mensagens continuaram, nunca o haviam pegado, e Valenco havia massacrado todos suspeitos possíveis, mas as mensagens continuavam, as cartas não paravam, os telefonemas nunca cessaram. Mas a raiva havia dado lugar ao medo, o desespero de saber que havia alguém que não só não o temia, mas jurava mata-lo todos os dias. O “Imperador do crime”, “rei da tortura” não conseguia nem mesmo sair de casa ou atender um simples telefonema, o simples som do aparelho telefônico o levaria ao pânico, carregava até mesmo sacos de papel nos bolsos do paletó devido às crises. Havia adquirido fobias, ficava apenas em casa, seus filhos moravam em outro país, e sua esposa havia sido assassinada por ele mesmo, temendo ser ela aquela que desejava sua morte, desconfiava até mesmo de sua sombra.
Então, numa dia nublado de março, acordou, caminhou até a sala da jantar, e lá vira um buquê, de lindas rosas brancas manchada com o tão amado sangue. Depois de crises e gritos horrorosos pela casa, e pegar seu revolver calibre 45, ele aproximou-se do buquê. Notou o bilhete e o pegou. E nele estava escrito: “Todo defunto precisa de rosas em seu túmulo, essas são suas rosas, manchadas com o sangue de suas vítimas. A mansão erguida através do horror que trouxe a cidade será teu túmulo, seu jazigo. E a lua, testemunha de suas atrocidades, será tua guia para o inferno.” Valenco tremeu, as mãos tremiam e o coração palpitava. Pensou em ligar para seus homens, mais desconfiava de todos, não havia ser vivo na face da terra que poderia confiar.
E com a mansão trancada, e escondido em seu escritório, só podia ter em sua companhia o medo, e seu revolver 45. Silenciosamente a porta de seu quarto fora empurrada, e velho criminoso o viu, era seu carrasco que aproximava-se lentamente segurando uma arma. Valenco vacilou, não teve coragem de atirar a princípio, e quando a teve, a arma não estava em suas mãos, e sim na de seu algoz, que ao ver seu rosto, percebeu a semelhança, era ele! Era Valenco ali! Com o revolver na mão, apontando para si mesmo num sorriso de satisfação. Sua mente entrou em confusão. Valenco mata Valenco?. O revolver foi mirado em sua cabeça, e ainda que as lagrimas escorressem por seus rostos, sorriam. Valenco foi encontrado naquela noite, caído com um tiro na boca, diante do espelho de seu quarto. E eu nem precisarei dizer quem o matou.
Zé Rizzotto
Enviado por Zé Rizzotto em 23/11/2006
Reeditado em 14/04/2007
Código do texto: T298821
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Sobre o autor
Zé Rizzotto
Cuiabá - Mato Grosso - Brasil, 30 anos
41 textos (4263 leituras)
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Zé Rizzotto