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Na penumbra dos sonhos

Na penumbra dos sonhos




Nestor experimentou a excentricidade ao ingressar na faculdade. Tivera, até ali, uma vida pacata, de poucos amigos. Desde a infância, preferia atirar-se a jogos solitários, ou aos estudos, qualquer coisa que o afastasse do fervor humano. Seu relacionamento com as pessoas era frio. Não se via nele, malícia, ou afeição, apenas indiferença, e um notável amor pelos pais.

Sonho pequeno e meta curta a cumprir. Jamais havia aspirado a honrarias por grandes feitos, e nem dinheiro. Agradava-lhe esperar pela simples carreira de fiscal na receita do estado, como tinha seu pai. Teve bom início na faculdade. Sua maneira singela de ser, e o domínio impecável das disciplinas ministradas no curso, projetaram-no entre a turma, conquistando a simpatia dos colegas. Contudo não derrubara a armadura da timidez.
Fez poucas amizades, embora tivesse adquirido muito prestígio na turma. E já pelo final do ano, formou-se um trio inseparável, tanto na faculdade quanto fora dela, entre ele e dois rapazes, inconfundíveis expoentes do campus. O mais velho era o Murilo, um sujeito extrovertido, esperto e muito bem informado, e o outro era o Noel, também, extrovertido, mas pouco esperto. Agia nas sombras do companheiro que lhe servia de mestre.

Estas três personalidades fundiram-se, formando o triunvirato perfeito da harmonia. Um e outro desdenharam realizar um sonho em comum. Não se importaram com as peripécias para tal, contanto que fossem para o Havaí, em regalo de pelo menos um mês. Nestor sempre incentivou os amigos a estudarem com afinco, e o trabalho profissional amealharia dinheiro suficiente para o feito. Murilo e Noel concordavam por conformismo, insatisfeitos com essas formalidades.

Mas a roda do destino parou sobre eles numa noite de sábado, por caso de uma garota esbelta de olhos castanhos que enfeitiçavam Murilo, quando foram a uma festa muito famosa na região. Vinha gente de longe prestigiar. O Nestor com o Noel ficaram na mesa junto à mãe daquele, enquanto o pai coordenava um leilão da receita do Estado, no mesmo recinto do clube, enquanto o Murilo cortejava a bela moça, até que o pai a levara para casa, quase no fim da festa.

Por volta das três e meia da madrugada, o salão já estava vazio, e os pais de Nestor ao saírem, carregados de apetrechos, convidaram-no a ir para casa, mas o rapaz preferiu ficar mais um pouco, ouvindo as bravatas do companheiro, a respeito da namorada. Um abraço e um beijo nos pais o despediram.

Murilo não se animou em falar dos detalhes sobre a namorada, e exaustos pelo sono da madrugada, talharam a noite na estrada escura e silenciosa, que os colocaria nos limites da cidade. Iam calados, Nestor quase adormecido no banco traseiro. Pouco depois de uma curva, em uma parte alta do caminho, Murilo irrompeu o silêncio: aí pessoal, vou mijar. A escuridão era total, só havia um naco de lua no céu, que pouco ou nada iluminava a paisagem íngreme, acentuando filetes escurecidos de vegetação que se cruzavam entre os precipícios e vales.

Nestor permaneceu no carro, quase inconsciente pelo sono, quando o Murilo com o Noel o sacudiram com frêmito de violência: encontramos alguma coisa. O capinzal meio amassado escondia um carro que se desgovernara na curva, dando vários capotes, encaixara-se em uma árvore à beira do precipício. Nestor apavorado, no afã de acudir aos infelizes, avançou naquela direção, mas foi bruscamente impedido pelos companheiros. O rapaz enfureceu-se com a atitude dos amigos. Depois de muita demanda, Murilo serenou o ânimo: quer ir para o Havaí, ainda esta noite?

Os três amigos mergulharam no profundo humano, encontraram o que mais havia de sinistro no ego. Murilo conduziu a situação, pediu que Nestor ficasse onde estava com Noel, e se dirigiu excitado até as ferragens retorcidas do veículo. Os dois mal enxergavam o vulto do amigo que sumira entre os destroços, revirando-se no seu interior, e aumentando os grunhidos que viam daquela direção, que mais se pareciam com súplicas lancinantes, atormentando a consciência do inerme Nestor.

Segundos depois, Murilo sai arrastando uma sacola, tão escura quanto tudo que ali estava. Abriu-a diante dos conluiados, exibindo seu interior calcado por cédulas de dinheiro. Era a materialização dos seus desejos, compelindo-os a um efeito superpotente, intransitivo. Estavam envoltos por uma auto-suficiência sensual, saborosa e decidida. Liderados por Murilo, corromperam-se pelo ardil do sonho fácil, negligenciando a possibilidade de socorro às vitimas. Tornando-se seus algozes, empurraram os destroços recheado de moribundos no abismo.
       
Quando cessou o ruído surdo no fundo da vala, Nestor sufocou de vez sua consciência impertinente: faria tudo de novo! Faria tudo de novo! Atenta ao detalhe, a mente astuta de Murilo o inflamou com o mal maior e, na volúpia de seu cupidez, soprara-lhe ao ouvido, a nota mortal: ele disse ao Noel que fosse até a cidade abastecer o carro, enquanto ele o Nestor ficavam ali cuidando da sacola. Todos concordaram, porque, na entrada da cidade, havia um posto policial, que poderia submetê-los a uma fiscalização e encontrar o dinheiro no carro.

Na ausência de Noel, Murilo, corroído pela ganância, continuou a falar com Nestor sobre seus planos. Calcularam que, na sacola, havia uns duzentos mil reais, suficiente para pô-los fora do país, e lá começarem algum negócio. Mas, e o Havaí? ¾ Isso é para depois. Falo de começarmos com coisa que dá dinheiro: pó. Entendeu? ¾ Isso é pesado, cara. ¾ E o que fizemos aqui, o que você acha que é?

Foi a primeira vez de sua vida, que Nestor experenciou um sentimento autêntico por alguém. Toda sua frieza terminara naquela curva tenebrosa. Percebe que, em um breve momento, aliara-se à mente criminosa dos amigos, que lhe roubava a paz e, como criminoso, obrigar-se-ia a fugir no mundo, deixando os pais que tanto amava. Angustiado pela insensatez, ele degustava o amargo dos porquês, ouvindo o Murilo propor lhe novos rumos, enquanto planejava seu próprio destino, movido pelo ódio que brotara em seu espírito.

Meia hora após a saída de Noel, um farol luzia morteiro no sopé da montanha. Os dois companheiros esconderam-se no capinzal. Quando a face do mal se apresenta, não acredite nessa, porque sempre há uma outra em oculto... Murilo repetiu por várias vezes isto para Nestor. E Nestor já havia percebido tal verdade. Dividiriam o dinheiro em apenas duas partes e, quando Noel desceu do carro, trazendo uma garrafa de vinho com três quartos do conteúdo, sofreu violento golpe pontiagudo nos rins e no pescoço. Antes que seus olhos se fechassem diante dos verdugos amigos de outrora, cravou, no tórax de Nestor, sua intenção com um projétil vinte e dois.

Antes que o corpo de Noel arriasse ao chão, Murilo agarrou-lhe das mãos a pequena arma, e a enganchou na cinta. Em seguida, a garrafa de vinho, e a pôs sobre o teto do carro, olhou para o Nestor, em um ato interrogativo, e este disse que o tiro havia sido de raspão, e juntos atiraram o corpo do amigo no abismo, rolando junto a um dos ferros torcidos que utilizaram para matá-lo. ...Quando a face do mal se apresenta, não acredite nessa, porque sempre há uma outra em oculto, pensava Nestor. Murilo caminhou para o carro, mas já não havia nos planos de Nestor, a cumplicidade com um amigo criminoso, que lhe atirara a delinqüência. Então, antes que chegasse ao veículo, a escuridão da noite entrou-lhe pelas costas transpassadas pelo ferro nas mãos de Nestor.

O manto escuro da noite desbotava-se pelo lado leste. Nestor estava exausto, e muito dolorido. Antes de arrastar o corpo de Murilo até o precipício, relaxou-se com o vinho deixado sobre o teto do carro. O líquido descia fresco em goles espaçados, até quase se esgotar na garrafa, enquanto ele se desvencilhava da boa consciência. Meio zonzo, trata de livrar-se também, do corpo de Murilo, mas sente que suas forças o abandonam. Já à beira do precipício, Nestor deita-se de costas no chão para empurrá-lo com os pés.

Sua debilidade o apavora, desgosta da ação hostil do tempo que começa a cinzentar o céu no nascente. Nestor faz um grande esforço, põe-se em pé, usando como arrimo, a árvore onde o carro desastrado havia se encaixado, e começa a ter espasmos, dores fortíssimas no abdômen, e uma ardência latejante no intestino. De um quase de repente, sufoca-lhe a respiração, e na ânsia da agonia, despenca rolando pelo precipício.

Foi como se o próprio Cronos trouxesse o sol da manhã, junto à dura realidade para Nestor. A mesma face do mal que o havia visitado e ao Murilo, pegara carona com Noel até a cidade,  e usando seus próprios demônios, envenenara o vinho que o dominava. Mas antes tivesse o Nestor expirado sem a dor maior que sentiu, ao ver que ao seu lodo, dentro do carro destruído, eram seus pais que estavam mortos.
Alexandre Modos Neto
Enviado por Alexandre Modos Neto em 02/07/2005
Código do texto: T30251
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Sobre o autor
Alexandre Modos Neto
Cornélio Procópio - Paraná - Brasil, 44 anos
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