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Na Floresta Negra

Este texto faz parte de um algo maior que eu estou montando, um algo experimental que eu ainda não sei se vai sobreviver a meu abandono.

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Eu já estava cansado, sem fôlego, suado e assustado, mas não podia deixar de correr ainda mais, eu tinha de sair dali. Não sabia como havia chegado, porém hoje em dia com todo esse tipo de droga que inventam, eu não tinha mais certeza de nada, só não podia parar de correr. Será que deixei a porta do apartamento aberta de novo?
Antes de estar assim correndo eu me achei deitado no mato úmido, minhas costas doíam por causa do chão duro e havia formigas sobre mim, algumas até haviam me picado, deixando enormes erupções vermelhas na pele, que coçavam o diabo. Tentei me restabelecer o mais rápido possível, mas, do meio daquela imensidão de árvores negras eu ouvi um grito alto. Parecia estar por perto, e logo depois um NÃO que foi tão alto quanto o grito. Porém algo decepou a voz, e então pareceu gorgolejar. Só as árvores ousavam sussurrar numa língua que só elas podiam entender. Minha perna direita ainda dormia, formigava, mas o pavor foi tão grande que eu saí correndo por instinto sem saber para onde ir. Caí e tropecei incontáveis vezes, meu rosto e braço cortados pelos galhos baixos afiados. É tão horrível quando o silêncio parece ameaçador e o cheiro de humo do local parecia entorpecer-me, como uma droga injetada na veia.
Não havia vento, e o pequeno farfalhar nas minhas proximidades fazia-me correr desnorteado, eu era a caça e algo me dizia que aquele não era o meu dia.
O sol fazia pequenos cortes nas árvores e penetrava naquela escuridão com feixes de luz opacas. Minha visão era limitada, e eu não tinha nenhuma aptidão com os outros sentidos. Estava literalmente perdido.
Em certo momento minha perna esquerda falhou, senti uma fisgada no tornozelo e este torceu indo me levar ao encontro do chão. Meu ombro, sem condição de se defender, projetou-se sobre uma grande raiz que emergia da terra, a dor se estendeu por todo meu braço. Fiquei escondido entre as raízes daquela árvore por algum tempo, até notar que estava sendo novamente coberto por formigas, grandes e negras como aquele lugar. A dor era grande, mas o pavor venceu a batalha e eu saí dali, meio rastejando, meio me escorando em qualquer coisa que pudesse me suportar. O corpo ia chegando ao limite, a exaustão total das forças.
A última vez que caí o pesadelo ficou pior.
Estava eu largado, estirado ao chão, a luz por ali ganhava mais força e eu quis olhar ao redor. Haviam corpos dependurados nas árvores. Uns mutilados, outros apenas secos em sua decomposição, devia haver uns quinze corpos, entre homens e mulheres.
(salve meu bebê)
Meu Deus! Até aqui eu podia ouvi-los!
Na terceira árvore do meu lado direito, de onde a voz havia aparecido, a uma altura de uns 4 metros mais ou menos, o corpo de uma mulher estava alçado por uma corda amarrada logo abaixo do peito, ela estava nua, e de uma fissura em sua barriga um feto ainda em desenvolvimento estava pendurado pelo cordão umbical, que o ligava a mãe. Em um galho ao lado, um homem pendurado pelos pulsos exibia sua bela barriga de cerveja enquanto se via que lhe faltavam o pé esquerdo e a perna direita logo acima do joelho, que lhe fora arrancada por cima do jeans.
Havia do outro lado um com os olhos fora das órbitas, amarrado pelos pés e lhe faltando a carne dos braços, deixando-os estirados num mergulho infinito. Uma mulher já seca, sem os lábios, os mamilos e as pontas dos dedos que provavelmente foram decepados, ficava daquele lado também. Mas o mais bizarro deles era o dos dois homens juntos, suas bocas estavam colocadas como em um beijo quente, o braço de um atravessa o peito do outro e subia até agarrar o trapézio, enquanto o outro abraçava-o tão fortemente que tinha os dedos cravados na costa do outro. A ânsia de vômito era constante, porém não havia nada para ser expulso de dentro de mim.
Rastejei mais um pouco para tirar aquelas visões da minha frente, mas não devia ter feito isto. Presa ao tronco da árvore a minha frente estava minha mulher. Todo o corpo espremido e marcado pela força da corda, o assassino havia feito um novo sorriso nela, cortando seu pescoço de um lado a outro. Arranjei forças do nada e cheguei até ela, seu corpo ainda morno, veio a lembrança os gritos que eu havia ouvido, teria sido dela? Oh meu Deus! O que fiz para merecer a isso? Estava além de meus limites e caí num choro de criança, abafado e sem demora.
Quando me restabeleci e abri os olhos eu estava diferente. Estava coberto por uma roupa antes branca, agora manchada de sangue, nacos de carne, terra, mato e violência. Eu tinha de novo em minhas mãos instrumentos cirúrgicos, melados com o espesso sangue de minha última vítima provavelmente. Então regurgitei minha dor e acordei em minha poltrona ao lado da janela. O corpo dolorido pela má posição em que me encontrava e alguns arranhões se faziam aparecer em meus braços. O que teria sido real, o que teria sido sonho?
Juliano Rossin
Enviado por Juliano Rossin em 01/12/2006
Código do texto: T306566
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Sobre o autor
Juliano Rossin
Curitiba - Paraná - Brasil, 33 anos
64 textos (3953 leituras)
1 e-livros (8 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 00:28)
Juliano Rossin