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NATACHA E A └RVORE DE CAQUI

Aqui estou novamente. Eu, Natacha Nanine e a árvore de caqui. Mas não sei por que. Não me lembro. Angústia. Muita angústia.
Olho para o caquizeiro tentando me lembrar de algo muito importante, mesmo. Mas, não consigo. Em minha mente, só imagens disformes. Indecifráveis. No entanto, entre estas imagens, algumas são mais visíveis, como a do garoto ruivo. Bela imagem, por sinal. As demais são uma rosa, o sol e um colar de ouro. Também imagens bonitas. Não devia me preocupar tanto. Não. Entre elas, há mais uma. O pássaro negro. Vou tentar ignorar esta por enquanto, ainda que não identifique a ave.

Enquanto as lembranças não chegam, eu escuto coisas. Ruídos. Estrondos. Vozes... Prantos. Alguém chora. Assexuado, talvez. Ou não. Pode ser um casal também. Ainda não consigo identificar. Sempre fui boa de memória, mas, desta vez, ela me falha e eu não compreendo o motivo.
Caquizeiro. Árvore asiática da família das Ebenáceas. Tronco avermelhado, talvez. Sou ótima em Biologia, mas não conheço a cor do tronco de um caquizeiro. Não mesmo.
Espere! Algo me retorna. São lembranças. Elas estão vindo, ainda que vagarosamente. Tenho que me concentrar. Sei que esqueci algo muito importante e não posso desviar a atenção no momento. São algumas imagens deturpadas, outras não. São sons claros e obscuros. Minha memória está se reativando. Já não era sem tempo.

Lembro-me de uma tarde ensolarada. Fim de semana do mês passado. Estou sozinha subindo uma colina, com um colar dourado no pescoço que acabo de ganhar de minha mãe. Colar? Sim, o colar. O mesmo que vi em minha mente anteriormente. Me dirijo para a casa de minha amiga Júlia. Vou mostrar o colar para ela, que mora do outro lado da cidade. Escuto vozes de pessoas, ao longe, vindas da cidade. Nada mais. Continuo subindo a colina e avisto uma única árvore. O caquizeiro.

Aqui estou novamente. Eu e a árvore de caqui. As lembranças se foram, novamente. Droga! Eu estava quase lá. Pelo menos, agora sei que o que esqueci aqui, foi no mês passado. O estranho, é que realmente não me lembrava de ter ganho um colar de ouro e nem de que ia o mostrar para Júlia, muito menos de que o tinha ganhado de minha mãe. Por que? Não compreendo. Não me lembro. Mas, se não me engano, faz exatamente um mês que não converso com a Júlia. Não sei por que, mas não conversamos mais neste tempo. Será que brigamos? Sei lá. Outra bizarrice é o mesmo tempo que não converso com meus pais. Saio de casa há exatos 30 dias em busca de respostas nesta árvore. Vou e volto pra casa, mas, não converso mais com eles e, nem eles mais comigo. Por que? Não consigo me recordar. Está difícil, talvez eu esteja com amnésia. Será?

São muitos por quês. São muitas perguntas. Poucas respostas. Só tenho certeza de que estou falando sempre e... sozinha. Talvez tenha ficado louca e não me lembre. Será? Mas isso ainda não faz sentido lógico. Espera! Estão voltando. Elas estão voltando... as lembranças. Concentre-se, Natacha.
Vejo-me no topo da colina. Na sombra da caquizeiro, um belo garoto me espera. Isso! O garoto ruivo de antes. O sol deixa o dia mais quente que o normal naquela tarde de verão. Solstício, talvez. Calor e timidez. Estou adorando o momento, pois me vejo conversando com ele. Provavelmente algo agradável. Mas só escuto risadas, vindas de sorrisos discretos e... apaixonados. Sim, gosto dele e ele de mim. Agora escuto estrondos. É o meu coração batendo à todas por segundo. Me despeço e sigo até a casa de Júlia. O garoto ruivo permanece nas sombras. Mas, espere! Não se vá. Tem mais alguma coisa. Ruídos estranhos e... branco.
A memória se esvai, só pra variar. No entanto, desta vez, consegui enxergar mais alguma coisa antes de me esquecer de tudo novamente. Eu vi tristeza nos olhos daquele garoto. Muita tristeza. O que será que houve? Talvez eu o tenha decepcionado, frustrado, sei lá! Não me lembro. E é por isso que estou aqui, de frente para esta árvore de caqui de tom estranho.

É irônico o dia de hoje, muito diferente das imagens que vi do mês anterior. Se antes estava uma tarde ensolarada, quente e alegre, agora está uma tarde nublada, fria e triste. Está ventando, vejo isto, pois as folhas das árvores distantes esvoaçam e os galhos balançam, mas não sinto o frio. Ainda que saiba que está frio. Também não sinto o vento. É como se transpassasse meu corpo. Se eu estivesse de blusa, compreenderia o fato, mas estou apenas com meu vestido branco e nada mais. Coincidentemente é o mesmo vestido que usei nas minhas lembranças do mês que se foi.
Aí estão. As lembranças voltaram. O que verei agora? Móveis, lugarejo simples, porta de saída. Me vejo despedindo-me de Júlia e sua casa e, provavelmente, retornando para a minha. Vejo-me subindo novamente a colina. O sol continua. O calor também. Mas, desta vez, não parece ser da paixão. Me deparo mais uma vez com o caquizeiro. Estou só. Agora posso ouvir uma voz melancólica. Atrás de mim, vejo uma sombra. É ele. O garoto ruivo. Vejo que não olho para trás e ele diz: “Natacha, você me decepcionou. Esperava que o meus sentimentos fossem correspondidos.” Silêncio. Vejo as folhas esvoaçando, o vento sopra forte, jogando meu colar de ouro para o lado de cima dos ombros. Vejo que vejo um reflexo prata das mãos dele refletindo em meu objeto do pescoço. Em seguida, o que posso ver é o sol. Os raios cobrem a vista, me cegando. Não vejo mais nada. Não lembro de mais nada. Dejà-vú. As lembranças se dissipam.

Volto ao presente, de frente ao caquizeiro. Hoje foi um dia mais lucrativo que os demais. Durante um mês me dirigi pra este lugar em busca de respostas. E, hoje, eu consegui algumas delas, a maioria, talvez. Mas, não o suficiente. Não me lembro o que esqueci de importante neste lugar. Droga! Provavelmente terei de voltar aqui novamente. Até amanhã, árvore de caqui... Espere!
A rosa. Agora não são lembranças. Estou vendo no presente, de verdade. Talvez não tenha reparado nela aqui antes. Mas ali está a rosa, próxima a raiz da árvore. A mesma rosa das lembranças anteriores. Algo brilha nela. O colar dourado. Sim, é ele mesmo que está entrelaçado na flor. Será que foi isso que esqueci aqui de importante? O colar de ouro. Sei lá!... Espere!

Entre a rosa com o colar, posso ver um pequeno e discreto cruzamento de madeira branca. Que estranho. Não havia reparado em nada dessas coisas antes. Mas em um mês eu estive aqui e esses objetos devem fazer algum sentido, com certeza.
Ouço vozes. Também não são sons de lembranças. Estou escutando neste momento. Pessoas em prantos. Olho para trás e vejo meus pais. Nas mãos deles, mais rosas. Estou estupefata. Não compreendo. Talvez eles estejam decepcionados comigo por algum motivo. Talvez eu realmente tenha brigado com eles neste mês. Mas não me recordo. Falo com eles, grito de todas as maneiras e até aceno. Eles me ignoram. Será que aprontei algo muito ruim. Não me lembro. Estou me sentindo muito mal com tudo isso.
Agora eles seguem em minha direção e passam por mim. Sinto um calafrio em meu estômago. Como pode isso ocorrer. É impossível. Mas aconteceu.

Ainda chorando, os dois se ajoelham na grama e colocam mais rosas ao lado da outra. Eu não consigo dizer mais nada. Estou realmente assustada por ter sido ignorada de tal maneira. Meus pais permanecem em silêncio por alguns segundos. Logo após, se levantam e, ainda me ignorando, passam por mim mais uma vez e se vão. Outro calafrio. Mas, não tão grande quanto o calafrio que senti quando li uma pequena faixa envolta às rosas: “Feliz aniversário, querida Natacha”.

Me lembrei. Hoje é o aniversário da minha morte.
Douglas MCT
Enviado por Douglas MCT em 19/01/2007
Código do texto: T352082

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Sobre o autor
Douglas MCT
Socorro - SŃo Paulo - Brasil, 31 anos
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