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STIGMATA

Véu preto, vestido longo e igualmente preto, a bíblia debaixo do braço. Assim vai Maria pela rua, em direção a igrejinha da cidade.

A cidade, pequena como ela só, com apenas duas ruas que se dividem ao redor de um quarteirão e se reencontram na rua da pracinha com a igreja, convive há muito com a senhora de cabelos ralos que usa apenas roupas pretas, a caminhar pelas pequenas ruas de pedra todas tardes.
As escadas de pedra cinza Maria sobe vagarosamente, com calma, até chegar à porta antiga, de madeira puída que, entretanto, se destaca com beleza no conjunto da modesta construção, de tempos coloniais.

No altar, muito velho e com resquícios do dourado do ouro que um dia estivera ali, roubado já pelos ladrões de passagem, está uma figura esguia, de média estatura, com uma grande túnica branca. À ele Maria se dirige, arrastando seus pequenos pés pelo piso arranhado da igrejinha. Suas canelas não mais estão cobertas, como outrora. Aos poucos, suas pernas e coxas também se descobrem. Seu olhar alcança a pequena imagem, lá no alto, de seu cristo crucificado. As mãos pregadas com feridas abertas, a coroa de espinhos a sangrar-lhe a fronte. Seus joelhos tocam o chão
Portas fechadas, nenhuma luz, ali Maria se revelava. Sua reza sussurrada e entrecortada pelo som dos sinos determinava o tamanho de sua devoção.

Em sua volta para casa, Maria é zombeteada pelos meninos sujinhos e ranhentos que brincam na rua. Os mais velhos, maldosos, insinuam, e a chamam de Maria Beata aos burburinhos, enquanto a figura sinistra, toda coberto de negro passa por entre as ruas estreitas da pequena localidade.

Em casa, uma pequena casinha, de pintura rosa descascada pelo tempo, é que Maria se permite ser vista. Retira o véu velho e já furado pelas traças, depois as meias com manchas de bolor, a saia longa e bem vincada, a blusa que um dia foi de sua avó e, por fim, as luvas, que escondem seu grande segredo. Ali, somente ali, de frente ao velho espelho enferrujado pelo tempo e encoberto de poeira, que suas mãos não podem limpar, Maria se mostra, mostra seu corpo. Mostra suas chagas, que reza nenhuma, e padre nenhum, conseguiu curar.
Meg Casarin
Enviado por Meg Casarin em 27/07/2005
Código do texto: T38088
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Sobre a autora
Meg Casarin
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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