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Uma Ligação no Escuro

Já era tarde quando o telefone tocou. Ele odiava aquele som quando já estava dormindo. Seus passos foram silenciosos através da casa - a meia branca que usava era uma mania desde criança – , e enquanto ele andava em direção ao telefone não notou o silêncio que mortificava o ambiente dentro da casa.
Em pensamento xingava o infeliz que não tinha mais o que fazer e ficava ligando para casa dos outros. Por que tinha que ser com ele? Não havia uma pessoa mais bem humorada para se encher o saco? Obviamente não, as pessoas que ligavam normalmente não sabiam para quem ligavam. Aquele seria mais um trote da madrugada.
Chegou a mesinha do telefone e olhou a bina. Coçou os olhos limpando aquele embaçamento inoportuno e voltou a olhar para a luz piscante da caixinha preta ao lado do telefone. Aquele era um número que ele conhecia. Era o número do celular que dera para sua filha no último aniversário dela. Será que havia algum problema com ela?
- Alô! – e sua voz saiu estranha ao telefone, uma mistura de sono com preocupação. O que seria desta vez?
Do outro lado uma respiração parecia sair difícil, abafada por algo. Um breve instante depois e um som gorgolejante.
- Alô! O que está havendo aí, responda!
- Olá professor! – as palavras soaram lentamente, como se degustasse as letras saindo de sua boca.
-Quem é o engraçadinho? E o que está fazendo com o celular da minha filha. Anda, responda-me.
Do outro lado uma risada baixa, um som zombeteiro e a ligação foi fechada.
Caiu sentado na poltrona no canto da sala. O telefone ainda na mão. O que foi isso? Um sonho? E agora, o que fazer? Ligar para a polícia? Será que eles resolveriam isso? Não, ele tomou o telefone e ligou para o celular.
O som o assustou tanto que o fez levantar da poltrona num pulo. O toque vinha da cozinha. O mesmo som que saia do celular da filha. Uma irritante música que ela havia baixado da internet. O coração acelerado, como se quisesse sair pela boca o irritava, aquilo provavelmente era uma piada, uma piada de muito mal gosto de sua filha. Ele ficaria muito zangado com ela. E a faria ouvir um tamanho sermão.
Seus passos continuavam silenciosos, mas agora ele já notara a morbidez do ambiente. Ele ia vagarosamente, ouvindo o som chegando cada vez mais perto. Até que colocou o primeiro pé no piso da cozinha. A mão foi para a parede onde ficava o comutador, enquanto os olhos espreitavam o breu do lugar. Mas havia algum problema com a luz, ela não acendia. Tentou, apertando para cima e para baixo várias vezes, mas não houve luz alguma.
No meio da cozinha havia uma mesa e do outro lado ficava a geladeira, no canto ao lado da pia. Lembrou-se que da geladeira saia uma luz boa, que provavelmente iluminaria a cozinha toda. Ele foi pelo lado esquerdo da mesa, contando os passos dados, prestando atenção em qualquer coisa que pudesse se mexer. Porém nem o ar ali dentro circulava.
Estava a uns cinco passos da geladeira, quando sentiu algo ensopar a sola da meia direita. Aquilo era frio. Olhou para o chão, mas nada conseguiu ver a não ser um brilho de algo líquido. O restante dos passos foram largos, mas pareceram demorados. Ele abriu a porta da geladeira, e dela saiu uma luz fraca, porém que iluminava bem o ambiente. Levantou um de seus pés e viu que o que molhara suas meias era algo vermelho, vermelho como sangue. Olhou para o chão e viu uma poça desse mesmo líquido colorir seu piso de cor clara. Do outro lado da cozinha, do lado direito da mesa, estava sua filha. O pescoço aberto e a faca que fizera o ferimento ainda lá, cravada no final do corte.
Ele correu até o corpo morto da filha, ainda estava quente, provavelmente o que ele ouvira gorgolejar no telefone era a garganta dela. Uma lágrima brotou em seu olho direito e escorreu pela face. Ela estava morta e não havia nada o que se fazer.
O telefone ainda estava em sua mão, agora suja de sangue, ele discou 190 e colocou o fone no ouvido. A linha estava muda, cortaram-lhe o telefone para que não pudesse pedir ajuda. Porém o celular da filha ainda estava ali, jogado no chão da cozinha. Ele tomou do celular e tentou discar, mas sua mão trêmula o fez errar os números três vezes, até que conseguiu fazer a chamada. Primeiro toque, ele se levantou e escorou na cadeira. Segundo toque, levantou os olhos e viu parado na entrada da  cozinha o aluno. Terceiro toque, e alguém atendeu, o professor não conseguiu falar, o celular escorregou de sua mão ensangüentada, e caiu no chão.
- Olá querido professor! Que feio o que o senhor fez. Matar a própria filha? Isso é insano. Não lhe parece?
Aquele indivíduo parado ali na entrada de sua cozinha era o exemplo de um maldito aluno. Na verdade o pior aluno desde que começara a lecionar. E olha que muitos lhe haviam trazido problemas. Porém uma coisa o intrigava, aquele rapaz, devia ter uns 17 anos, havia morrido há uns três meses. Depois de ter sido denunciado pelo professor, por um roubo que ele na verdade não cometeu, foi levado pelos policiais que já não aturavam mais o seu gênio indomado e com a “permissão” do professor foi levado até uma certa distância da cidade, dentro de um matagal não muito confortável. Foi amarrado a uma árvore, e serviu de alvo para os cassetetes dos policiais. Até que ele não sentiu tanto pelas borrachadas levadas, era acostumado a levar do próprio pai, um bêbado viciado. Porém os policiais frustrados por sua lição não estar dando certo, apelaram para cortes que iam desenhando no corpo liso do rapaz. Era gostosa a sensação de ir vendo a pele abrindo, e o sangue vazando em pequenos filetes.
- Surpreso em me ver? Caro professor! – na voz, ironia pura – ele entrou mais para a cozinha e o professor pode ver nele as marcas que os policiais deixaram, os cortes abertos, secos, e um olhar brilhante, faiscante dentro da escuridão da cozinha.
- Enquanto eu levava os golpes de cassetete, eu imaginava que depois poderia dar o troco, um por vez, claro. Mas de repente me surpreendi sendo retalhado. Aqueles morféticos rindo em seu sadismo e a dor sendo lancinante, eu imaginava “Vou matá-los! Vou matá-los e esquartejá-los. Eu vou resistir!”. E enquanto eles ficaram olhando para meu corpo moribundo, achando que já estivesse inconsciente, disseram que foi você que havia dado essa chance a eles. O engraçado é que eles sabiam que eu não havia feito nada, e mesmo assim me levaram – e tentando imitar os policiais - “Aquele professor nos deu uma boa oportunidade, até forjou o roubo, ele sabe como dar uma lição nesses delinqüentes”. É realmente eles sabem. ELES ME MATARAM! Deixaram-me agonizando no meio daquele lugar sujo. E enquanto eu agonizava, senti formigas rastejando sobre meu corpo, elas entraram nas feridas e me ferroavam. Essa sensação eu não posso lhe dar, querido mestre.
O professor ouviu tudo aquilo sem ação. E foi como se ele visse um filme passando em sua cabeça, mostrando as atrocidades que o aluno sofrera. Isso não era difícil, o resultado daquilo estava em sua frente. Mas agora era o aluno apodrecido e ressentido quem o encarava. Ele olhou o corpo da filha ao chão, e teve uma idéia quando viu a faca ali ainda.
Abaixou-se rapidamente e puxou a faca. Nesse momento a cabeça da filha caiu de lado e ele gemeu diante da cena.
- Então venha garoto. Se você ainda não morreu, eu é que vou te matar. Miserável.
- Pobre professor! Sua mente anda fraca ultimamente. Eu já estou morto, quem vai morrer aqui é você – e uma risada alta se propagou na cozinha.
O professor adiantou-se com a faca a frente, mas atingiu a parede. O aluno estava do lado, olhando para a tentativa frustrada do professor. Ele então passou uma rasteira naquele corpo velho, fazendo-o cair no chão, e pulou em cima, prendendo-lhe os braços com as pernas. Tomou da faca e fez leves riscos na pele áspera do velho professor.
- Isso é bom. É uma sensação inigualável. Se o senhor tivesse tempo eu lhe recomendaria fazer isso em alguém. Mas agora chegou a hora de eu ir embora. Então vamos terminar nossa conversinha.
O aluno liberou o braço direito do professor, e lhe deu a faca. Este a agarrou e cravou no aluno. Inútil, o aluno estava morto, ele já tinha dito isto. O podre aluno pegou a mão do professor e tirou a lâmina de si, virou a ponta da faca no meio do peito do velho e foi cravando a lâmina aos poucos. A boca do professor foi abrindo sem grito, enquanto sentia seu coração sendo perfurado. A mão do professor foi perdendo a resistência até não se mexer mais.
- Foi bom para você, maldito professor? – deu um suspiro, virou o corpo do ex-professor e sumiu na escuridão. Seu trato havia acabado, e agora ele iria pagar sua dívida.
Algum tempo depois uma viatura da polícia estacionou na frente da casa. O guarda, depois de insistir e ninguém abrir, arrombou a porta, achando na cozinha dois corpos.
- Ei Flávio, chame a central, há um assassinato seguido de suicídio aqui.
Juliano Rossin
Enviado por Juliano Rossin em 04/09/2005
Código do texto: T47644
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Sobre o autor
Juliano Rossin
Curitiba - Paraná - Brasil, 33 anos
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Juliano Rossin