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ESTÁGIO DA DOR.





Nuvens negras tingiam o azul desbotado do céu. Jordana deus alguns passos, estava trôpega. Olhou para imensa sala que outrora fora palco de grandes festas. Acendeu um cigarro, encheu novamente o copo. Tudo estava desolado. Cadeiras arqueadas aleatoriamente, copos trincados, garrafas vazias. Permaneceu ali, estática, contemplando o passado que deixara as marcas no livro do tempo que ainda não estava com a página virada. Olhou para a imensidão noturna. Lá de cima, a lua espiava seu tormento, clareando a penumbra que há muito se instalara em sua sinuosa estrada. Acendeu apenas um ponto de luz, justamente a que iluminava o espelho. Ela carecia de afeto, a solidão por anos seguidos, havia consumido o debilitado coração. Com dificuldade, chegou até os espelho. Constatou que a maquiagem pesada tentava esconder a enrugada face. O desalento do abandono fora cruel para com ela. Os convites, antes freqüentes, haviam cessado. A abrupta rejeição ardia na alma, impregnava o discernimento. Viu uma disforme imagem no espelho. Ela, que fascinava a todos, agora causava repugnância. Noutros tempos Jordana era narcisista compulsiva. Frente à realidade aterradora dos árduos e atuais dias, o espelho era sinônimo de algo assustador. Possuía todos os cosméticos do mundo, via naquele gesto, a forma delicada de prolongar traços joviais. Não se lembrava com clareza, a última vez que fora solicitada. Olhou de soslaio, temerosa, tensa; tentando ocultar sua imagem. O reflexo era deprimente. O cabelo mal tingido mais se parecia um carro alegórico. O corpo flácido e cansado causou-lhe um tremor nas mãos. Pensou em despedir-se da vida. No entanto descartou a idéia, era covarde demais, incapaz de suicidar-se.
- Peste de espelho que me cerca! – gritou praguejando.
- Você nem ao menos sabe diferir a peste!
Jordana foi tomada por um súbito pânico. Não havia mais ninguém ali. Sentiu toda a raquítica massa estremecer. Talvez alguma entidade tentando fazer contato!
- Quem é que está me importunando?
- Sou eu, o espelho!
Os olhos de Jordana viram o espelho tomar formas. Um semblante esmaecido refletido junto a sua imagem.
- Espelho falante?
- Sou a tua alma, vim me despedir desta massa descartável que causou minha ruína.
Não, logicamente se tratava de alucinação. Jordana olhou com atenção, a imagem estava dialogando com ela.
- Santo Deus, talvez já esteja morta e não saiba.
- Seu coração ainda teima em bater! – disse o espelho.
- Já que se diz minha alma, então o porque deste meu abandono, sentenciada a viver neste ato silencioso?
- Você causou danos a si própria.
- Toda minha vida entregue a um amor não correspondido!
- Você sempre amou as drogas e com elas, sucumbiu.
- Essa rejeição é algum castigo pelos atos que cometi?
- Atos que cometeu! Disse muito bem. Onde estão seus três filhos e o marido?
- Filhos? Nunca os tive e tampouco marido.
- Você patrocinou o enredo da vida e me arrastou neste limbo. Hoje, sou alma sem aura.
Jordana estava transpirando. Aquele diálogo a estava exaurindo. Relembrou que sempre tivera uma vida em vão, subtraída. Pensou que com sorte, receberia com extremado prazer, o aroma nefasto em bolor, que antecede à gloriosa presença da almejada e bem vinda senhora da morte.
- Diabo de espelho! – berrou, olhando com ódio acumulado.
O espelho voltou ao normal. A imagem da alma desaparecera. Novamente a solidão da errante noite lhe fazia companhia. Tudo estava consumido. Pegou o revólver e apontou para a cabeça, dar cabo à vida seria a providencia mais viável. Apertou o gatilho, ouviu o estrondo do projétil atravessar a massa craniana. Nada sentira. Soluçou conformada no último estágio da dor. Não havia sangue, nem perfuração.
- Hoje, no expirar de minha existência, o mundo emudece ao perder minha beleza...! – sussurrou Jordana num último respiro.
Eram balas de festim. Mesmo assim, Jordana estava morta, ainda que em vida. Uma velha, com vinte anos de idade.
Cumprindo pena no manicômio judicial, por ter praticado quádruplo homicídio, ela acendeu mais um cigarro, absorta na clausura da alma. Alguns pássaros horrendos sobrevoaram o imundo prédio, corriam das nuvens negras. Iria chover na terra da garoa.




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"Escrevo o que sinto, mas não vivo o que escrevo"

Paulo Izael
Enviado por Paulo Izael em 01/10/2005
Reeditado em 24/12/2010
Código do texto: T55454
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Sobre o autor
Paulo Izael
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Paulo Izael

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