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A Noite de Primavera Rubra

 “o que é a loucura se não apenas uma ilusão que acaba por se tornar boa demais para ser somente uma mentira?”

A noite tinha um brilho avermelhado quase sobrenatural, a forma como as nuvens se mexiam parecia atribular meu coração, palpitava assustado em meio as trevas que havia se metido. Eu ainda sentia a falta dela, da minha tão quista e amada companheira, qual a doença levou-a de mim cedo, sentia saudade do seu brilhar de olhos que só se comparava aos seus lábios atrativos e tão suculentos, como morangos na primavera. Sua tez mais macia do que qualquer seda, a lembrança da textura me parecia ainda tão viva quanto o ultimo toque que eu lhe dei, segurava suas mãos enquanto ela vacilava de medo da morte, ah doce Rosa mesmo naquele momento seus olhos ainda brilhavam como dois grandes sóis crepusculares, apesar de toda a dor que eu sentia não poderia lhe fazer nada. Apenas assistia a sua morte tão serena, transformando meu ser num monstro de face horrenda, sentia que era impotente e pequeno, sua vida esvaia-se por entre as minhas mãos e eu pobre de mim já não podia mais sustentá-la. Minha amada Rosa... Foi numa noite dessas que eu a perdi, de nuvens tão vermelhas, cheias do sarcasmo hediondo do diabo, da amargura que não me saia dos lábios, a lembrança cheia de saudade e ódio daquele sorriso que só você tinha, de seus dentes perolados, seu falar macio e arrastado, como quem devagar conquista o que pede...
Eu me lembrava de tudo como sempre fazia todas as noites, ao ponto que eu havia chegado nada mais me importava, minhas propriedades, minhas economias, minha santidade ou mesmo hombridade, tudo se tornava miserável ante as memórias que eu relutava para resistir lembrar. O conhaque me deprimia e a noite soturna e lasciva me chamava aos seus bordeis e batéis os mais diversos, podia sentir o sussurrar do próprio Queronte em meus ouvidos, oferecendo-me a passagem tranqüila em troca de pequenos júbilos monetários. Do outro lado um anjo prostituído me cantava enquanto tentava afavelmente levar a minha algibeira, queria ainda tragar meu corpo para aquela orgia a qual os gritos incessantes de prazer ebuliam, os escutava, porem ainda sim tão distante meu olhar estava que eles não poderiam me atrapalhar. Não me importava mais a algibeira, as propostas e nem nada, eu implorava somente pela hora em que o álcool me apagaria, ou talvez qualquer coronhada para um roubo, todas essas coisas eram simplesmente meros detalhes.
A prostituta com quem estava era bela e sedutora, cheirava a libertinagem de forma a aguçar meu sentido até a vontade de devorá-la, Josephine se chamava a pobre imigrante francesa a qual veio tentar aqui sua sorte e se perdeu no mundo do lucro fácil, enquanto me embriagava e me convencia contava-me por vezes a sua história, tinha medo de morrer sozinha, como as putas velhas do prostíbulo, que envelheciam, adoeciam se tornavam podres por fora e depois por dentro, até que a morte as tragasse para o inferno a qual a elas eram destinadas. Eu me ria ainda de sua inocência tão grande e ela perguntava com aquele doce sotaque delicado – de que se ri monsieur? É de mim? Duvidas de minha santidade? – e eu lhe dizia carinhosamente – ah minha pequena criança... se a santidade nos livrasse de todos os infernos você certamente seria o primeiro dos anjos – ela me sorria docemente enquanto sentia sua mão penetrar meu bolso e furtar as minhas economias. Então lhe segurei firme o braço e olhei-a diabolicamente nos olhos, ela se assustou com a minha expressão, algo que ela nunca tinha visto, a minha sombra mais escura.
Cherri por que tanta violência no tocar? – me perguntou a linda meretriz tão educada e medida em suas palavras e eu a respondi no tom delicado de sua pergunta ao mesmo tempo em que aumentava a pressão de meus dedos em seus frágeis braços – ora querida flor de intenções tão cruéis, acha mesmo que pode me levar dinheiro sem nenhum trabalho? – ela um pouco assustada foi tentando tirar devagar as mãos do bolso de minha casaca e eu sentia cada vez mais algo de satânico gritar em minha alma. Ela então corou e eu me acalmei, soltei o braço e ela saiu da mesa em que eu estava assustada, nem me importava o que pensava aquela devassa nobre vadia, eu estava apenas vivendo a sutileza da vida de forma que pagasse a ela da mesma maneira que a vida pagara a minha tão cordial bondade, com a morte da única coisa que ela significava. Voltei-me a pensar em Rosa e em nossos planos, no mármore branco que escolhemos para nossa sala de estar tão glamourosa, os desenhos que nele se faziam me lembravam seu corpo que vacilava como um grande celo firme e bem delineada e ainda sim delicada. Não era mórbida e nem pálida era uma mulher tão doce e cheia de vida, ao contrario de seu companheiro que mesmo sendo um homem assustadoramente grande se parecia mais com uma criança desgarrada cedo demais das tetas, e ainda sim Rosa era forte o suficiente e inteligente para suplantar as minhas dores quando eu necessitava, e eu fazia o mesmo pelas dela, não poderia ser tão mortal o que nós um pelo outro sentíamos, nosso entendimento era maior que uma simples simpatia, era uma ligação espiritual que ia alem do que a vida poderia selar.
Doce Rosa... que agora aquele belo corpo a terra carcomia, do seu ser mais que angélico não sobrava mais nada, a não ser seu espectro que pairava por todos os cantos da casa, e que por mais conhaque eu tomasse ele ainda me perseguia com aqueles olhos de saudade, aquele brilho choroso que me encantava, aquela alma penada que agora me vigiava. No seu mausoléu eu havia colocado o mesmo mármore da sala, na sua câmara mortiça eu havia feito o mais belo dos quartos, que mais parecia um quarto nupcial do que um sepulcro sem vida, eu a imaginava lá dormindo todas as noites ainda chorando os acalantos do separar de nossos corpos e vindo encontrar a minha alma sem poder tocar-me ainda sim nos amávamos, sem poder sentir nossos lábios ainda sim se perdiam...
Tudo naquela noite era excessivamente deprimente a taverna, um lugar simplesmente carente de tudo que existia, jazia em pleno acalento a libido excessiva. Poucos poetas lá se achavam, em sua maioria homens de pouca cultura, mas muita força e talvez pouca valia. Assassinos, ladrões, bêbados e depravados lá jogavam, comiam, riam de suas crueldades e eu, tão diferente daquele ambiente ainda achava muito divertido observar em tantos seres humanos uma mesma face, ou em tantas faces uma mesma expressão, em tantos vermes um mesmo modo de vida. Hora ou outra surgia uma briga e então atiravam aquele corpo para fora, eu somente do conhaque bebia e esperava por algo que eu não poderia prever. Talvez a morte, talvez uma nova musa, talvez uma mulher que ao menos por aquela noite substituiria Rosa a minha amada colombina.
Josephine voltava por ordens de sua cafetina, vinha-me mimosa olhando nos olhos e com as bochechas coradas, havia se maquiado mais para tentar-me pelo lado que sabia ao qual um homem como eu não resistiria. Tentaria conquistar meu romantismo e quem sabe até meu amor, a pobre coitada mais do que tudo desejava sair de lá, dizia-me docemente – mon amour, perdoe minha tão cruel indelicadeza, eu aqui sirvo e trabalho – eu a olhava com aquele meu jeito terno de piedade natural da minha pessoa enquanto ela continuava – não posso ignorar as ordens de minha senhora, do contrario como as outras vou para a rua e sofro dos destinos o pior de todos, a miséria extrema! – ah como era divertido vê-la falar em miséria e sentir-se miserável pela falta de moedas, de um quarto, de um luxo qualquer que lá ganhava pela sua beleza ainda intocada pelo tempo. Respondi então a ela como desejava ouvir, disse-lhe como um perfeito apaixonado – diga então a sua senhora que vai embora, que lhe pagará suas dividas com ela assim que chegar a seu destino, que encontrou o homem que a ama e que a tirará deste inferno tão sombrio – até o jeito poético que eu lhe falava a comovia. Seus olhos se encheram de lágrimas de emoção e ela correndo fora falar com sua dona, pobre coitada... Enquanto ela se demorava resolvendo seus assuntos eu pensava mais e mais que Rosa também deveria sentir minha falta, imaginava se onde quer que sua essência esteja ela ainda quisesse meu calor, meu carinho, recostar sua doce pele em meu peito e só para escutá-la dizendo que era só minha. Oh Rosa que triste fim nossa miserável existência termina não? Aqui solitário nesse prostíbulo enganando uma pequena prostituta para servir aos meus fins mais macabros... Quando me tornei assim? Quando você deixou que a alma de seu amado viesse se perder nesse inferno tão cruel? Poderemos agora encontrar-nos no doce paraíso? Tantas perguntas e tão poucas respostas... Minha Rosa murchara no inverno, antes que a primavera pudesse revigorá-la, eu me lembrei ainda daquele dia em que te aceitei como minha esposa, que em nossa cerimônia não havia ninguém alem de mim e você, vindos ambos de famílias tragicamente perdidas, órfãos ambos muito ricos. E ainda que tão jovens amávamos-nos de maneira tão sublimemente incompreendida ah Rosa lá estávamos eu e você subindo ao altar e você enrubescia enquanto eu sentia o calor esquentando todo meu corpo a ansiedade de chamá-la de minha, a necessidade que tinha de seu apego... Como tudo isso foi morrer de forma tão leviana, por uma doença tão covarde e vil? Esse episódio tão triste que foi sua partida de minha vida faz pensar que somos todos da mesma trupe, todos parasitas imundos vivendo sem nenhum bom sentido...
Josephine voltava com uma pequena mala com suas roupas e tinha no rosto uma expressão de assustada, a loira agora era morbidamente pálida enquanto seus lindos olhinhos de um lilás incomum brilhavam com o medo, sua boquinha pequena era bem fechada, me agarrou pela mão dizendo – vamos embora! Rápido mon cherri não quer me tirar daqui? – fazia aqueles olhinhos que imploravam os quais eu não poderia resistir e novamente me lembrei de Rosa fazendo os mesmos olhos só que claro com muito mais carinho e muito menos farsa, não podia negar a ela sequer um desejo! Meu amor por ela não permitia tamanha traição, por alguns minutos fiquei pensando enquanto a prostituta parecia tentar me puxar para fora de lá e a cafetina blasfemava algo. Eis que vejo um braço forte vindo em minha direção com a intenção de machucar-me o rosto, meu impulso não foi o suficiente e eu ganhei uma pequena chaga, um homem de porte eslavo e grande me atacava enquanto Josephine gritava desesperada. Eu estava sim machucado e sem entender nada do que se seguia, mas simplesmente observei o redor e vi as garrafas de conhaque vazias. Quando o forte velho tentou uma segunda investida rapidamente apanhei uma garrafa e sentei-lhe na cabeça, não tinha muita consciência do que fazia porem foi prazeroso abater um homem tão grande de uma maneira tão estúpida e fria. Ele oscilou um pouco para trás, a garrafa havia se quebrado e sua cabeça sangrava, eu estava com um olhar pasmo de quem não acreditava no que estava acontecendo, ele então novamente veio e eu agora mais desperto pude esquivar com certa facilidade sua investida, simplesmente o empurrei em direção da parede fazendo-o bater contra ela e machucar a mão e a cabeça, enquanto a cafetina gritava com ira agarrei a mão de Josephine e ambos saímos correndo daquele lugar horrendo. Lembrei-me de quando eu e Rosa fugíamos um do outro por entre os gramados, dois apaixonados brincando e relutando para que não nos alcançássemos, adultos brincando como crianças, que apenas riam da boa ventura que haviam tido, se amavam, não precisavam se preocupar com nada que não fosse o brilhar dos olhos um do outro, partiu e nem mesmo teve a gentileza de quebrar meu coração para que não sentisse a falta dela...
A grama era fria, a noite era de inverno e o sereno cobria nossos corpos. Eu estava bem protegido, mas a prostituta, poderia facilmente ter uma pneumonia, o decote demonstrava que era saudável e eu a levava para onde a garota nem imaginava. Corríamos ainda minutos depois e ela disse – para onde vamos cherri? Para o seu castelo no alto desse vale? – eu lhe dei o mesmo sorriso brando característico – sim minha vida, apenas para o meu doce castelo nas nuvens e poderemos então vivermos felizes e sossegados você jamais terá que se preocupar com mais nada daquela vida, nem com dividas, nem com a pobreza, nem com a doença e nem com nada – ela sorriu alegremente, acho que foi a primeira vez que vi uma meretriz sorrir de forma tão bonita – oh mon amour! Assim me fazes a mulher mais feliz em vida! Gozemos juntos então mais essa noite, vamos direto as nossas núpcias, antes que a luz do dia me acorde desse belo sonho – ela soltava um risinho tão meigo que até o peito doía, novamente pensei em Rosa tão delicada em nossos primeiros dias, tímida, imaculada como um botão de rosa na primavera mais quente de sua vida, ela aos poucos se abria enquanto conhecíamos nossos corpos quentes que só desejavam um ao outro, ainda sim lhe beijava o colo como sinal de meu carinho e apresso pela mulher que tanto respeitava e amava, e em meio a tudo isso, em todo esse amor de respeito, morava uma vontade carnal gigantesca, como pode em tanto paradoxo existir tanta poesia?
Subíamos o vale em direção a minha propriedade, ela estava cansada e preocupada com o meu ferimento tão superficial q eu fazia questão de mostrar como se fosse uma medalha, somos tão patéticos que para demonstrar que amamos outras pessoas temos que sangrar por elas, Josephine ainda era meiga e cuidadosa comigo, segurava-me o braço por vezes, outras horas tentava limpar o sangue de minha casaca branca, chegamos então ao ponto alto daquele pequeno morro e já se era capaz de ver a minha grande mansão solitária e ao lado dela um pequeno casebre, redondo que parecia um coreto. Ela adentrava os portões das minhas terras, curiosa e um pouco amedrontada, talvez agora medisse a conseqüência do que fazia daquela noite tão tenebrosa. Eu lhe disse compassivamente – entre meu anjo! Se continuar com essas roupas vai resfriar-se e não poderemos aproveitar nossas tão quistas núpcias – não contive o gargalhar não tenebroso mais cheio daquilo que chamam de “intenção cruel” ela se riu de volta e me respondeu – ora meu caro doce príncipe, uma vez lá dentro não precisarei mais destas roupas e tenho certeza que para meu calor, não existe vento ou frio que o apague, e logo você ira descobrir todas as minhas sórdidas experiências – nos tratávamos de igual para igual, nos divertindo com a sexualidade proibida. Adentremos a minha gigantesca casa a lareira eu mesmo havia deixado acesa e os meus serviçais estavam todos visitando suas famílias, a casa era somente nossa para quais fossem os nossos fins. Ela não conteve o suspiro de deslumbre quando colocou os olhos em tanto luxo, sobre o mármore que minha Rosa havia escolhido com tanto carinho ela pisava-o com desdém e eu a segurava na ponta dos dedos enquanto ela caminhava para perto da lareira como uma verdadeira rainha – tudo aqui é tão grandioso e bonito! És um homem de extremo bom gosto! – eu sorri fugazmente – sou um homem refinado querida dama, talvez tanto requinte não agrade a senhorita – ela soltou um risinho enrubescido e disse – pelo contrario, faz-me sentir rica, poderosa, mais ainda, protegida e abençoada pelas mãos de um homem tão bom e que a tanto me ama – pobre Josephine sonhadora...
Entrar em casa na madrugada me fez lembrar dos dias que soube da doença de Rosa e que ela já estava num estado o qual nenhum tratamento curaria, só a faria sofrer mais e mais, então eu e ela de mãos dadas decidimos que nossos últimos dias seriam alegres e felizes, sem que pensássemos que no futuro eu um dia a perderia, imaginaríamos nossos filhos, escolheríamos os nomes e não tocaríamos no assunto da doença até que ela ficasse precária demais para me acompanhar. Passamos os dias mais agradáveis da minha miserável vida! Era como se ela jamais tivesse que ir embora, planejávamos o futuro na esperança que um milagre o faria existir de verdade e entre risos e planos eu notava todo dia que Rosa ia ficando cada vez mais pálida e fraca, ia morrendo aos poucos e me escondia, não queria assim como eu deixar de se agarrar a esperança do milagre ou arranhar meu coração com a lembrança da partida. O dia finalmente chegou, minha flor começara a murchar tanto que não poderia mais sair da cama, minha Rosa adormecia e uma semana se passou assim com ela no leito e eu ao lado dela segurando suas mãos e apaixonadamente sofrendo e tentando acreditar que isso tudo era uma estúpida ilusão um pesadelo o qual eu acordaria e poderia tocar minha amada sem nenhum medo de machucá-la, e não tivesse que dividir sua atenção com aquela que mais tarde viria a ser tão minha amiga... Rosa instruiu-me a arrumar uma outra mulher forte para ter meus filhos, mais do que meus nossos, meu e de Rosa para que levasse a diante pelo amor que por ela tinha, eu não conseguia pensar em outro amor que não fosse o dela, eu havia encontrado a minha felicidade e brutalmente a vida me retirava esse deleite tão importante... O restante dos dias seguiu em cada vez mais tempo de sono e cada vez menos tempo de consciência, logo ela não abriu mais aqueles olhos tão brilhantes da ágata mais amarela que existia.
Essas lembranças duraram fração de segundos enquanto Josephine pairava pelo térreo da casa espantada com seu tamanho e pelo fato de estarmos sozinhos naquele ambiente que a essa hora era simplesmente pavoroso então a chamei em tom imperativo – Josephine minha querida, venha a mim! Preciso-te agora! – eu pude escutar seus passinhos chegando até a biblioteca onde estava – sim mon cherri? Quer agora a minha carne? – me perguntava ela insidiosa – não meu bem, acalme-se, ainda preciso lhe mostrar mais um aposento... – retirei de uma estante um livro e com certa pressão foi fácil girar toda a estante mostrando a ela uma porta secreta – oh mon bijou! – exclamou ela – mas que tentador convite! Amor numa masmorra esquecida, que coisa mais profana – eu somente me ria. Acho que ela não notou meu tom de riso macabro enquanto caminhávamos mais adentro daquele recinto mórbido, era um longo corredor e eu usava uma tocha para iluminá-lo – aonde vamos? Aonde vai me levar? O que quer afinal? – eu ainda ria baixinho e lhe exclamei – sem muitas perguntas minha querida noiva, se eu lhe contar as coisas perdem o encanto e a graça, a surpresa não será mais pra você uma novidade tão espetacular da forma que eu percebo que você nem imagina – só mais uns passos e estaríamos novamente cara a cara, eu e ela juntos para eternizar de novo aquele pacto o qual fizemos longe dos olhares do clero, que acharia tudo uma grande blasfêmia...
Chegamos a uma câmara sombria, a tocha não era capaz de iluminar toda a tristeza dos espectros que lá rondavam, os gemidos e sussurros pareciam tocar a carne como ventos gélidos rasgando quentes lábios, ela já começava a sentir mais receio e sentia-se apavorada – mon amour eu gosto de novas experiências, mas isso esta se tornando amedrontadoramente estranho... Que lugar é esse? – sua voz oscilava e eu adorava isso. Sentir aquela emoção tão forte brotar de sua garganta, sim... Não somente eu como todas as almas que lá padeciam também se deleitavam daquele medo que ela proferia. Contaminavam sua alma, tocavam-lhe a nuca a ponto que ela tivesse calafrios, acho que já não se sentia mais com vontade de expor suas experiências tão... Variadas e divertidas, ela então ouviu um estrondo e soltou um gemido, eu logo disse – esta assustada? Era só a nossa porta de entrada se fechando, para que tivéssemos a nossa privacidade minha querida... – ela soltou um pouco mais a respiração e levemente relaxada respondeu – mas querido... Como sairemos daqui mais tarde? – eu então sorri e lhe disse num tom sarcástico – você não percebeu então cara Josephine? Eu lhe trouxe a uma câmara de repouso onde dorme a minha falecida esposa Rosa – ela então conteve um grito – príncipe querido, não me diga que estas louco a ponto de querer amar-me em cima da sepultura de sua antiga amada? Ela nos amaldiçoaria! – respondi de pronto momento – ela não me importa, foi tremendamente egoísta não me deu os prazeres que eu tanto queria e partiu de maneira estúpida, sem nem mesmo me dar um motivo para odiá-la venha Josephine, consumemos nossa carne antes que os abutres da morte o façam! Venha e deixe-me ajudá-la – eu podia escutar o riso das almas, os espíritos se animando tudo naquele lugar era simplesmente fantástico.
Com pouca dificuldade lhe tirei o corpete apertado e rapidamente rasguei sua saia, parecia um animal revoltado, isso a excitava a deixava com mais e mais vontade, beijava-a como quem a deglutia sobre a sepultura e quando ela menos esperava e com o belo corpo e seios expostos, puxei do sepulcro de minha amada uma adaga segurei entre as mãos e enquanto ela gemia lhe dei um beijo para silenciá-la e cravei-a no centro de seu belo busto. A lamina da faca entrava perfeitamente naquele vale tão bem irrigado, que se tornava branco e empalidecia, eu a via morrer diante dos meus olhos e beijava com um gosto anormal, eu era um monstro terrível sedento de sua vida. E sem nem mesmo pestanejar abri o berço de minha amada Rosa e virei o corpo da semimorta retirei a adaga prateada que avia maculado seu corpo e assistia o sangue jorrar sobre o cadáver de minha amada. Tinha a impressão de que ele absorvia cada gota dele como se morresse de sede e que quanto mais sangue eu lhe dava mais corada e próxima da vida estaria a minha tão bem cultivada Rosa que voltava a ficar vermelha de paixão como sempre fora, deixava de lado o branco de mármore que tinha sua face agora. Você já não precisava mais se preocupar, pois eu trazia toda a noite uma forma de deixá-la sempre viva... Minha Rosa que me deixou num inverno tão gelado, poderia eu trazê-la de volta numa primavera rubra, banhada em sangue do pecado?
Alucart
Enviado por Alucart em 14/09/2007
Código do texto: T651658

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Sobre o autor
Alucart
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