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Martírio

                                                                                          Segundo o "efeito borboleta", nun simples bater de asas desse inseto, uma grande catástrofe pode acontecer em algum canto do planeta, um maremoto, por axemplo. Para um homem, o que pode causar um grande desastre em sua vida? Um casamento infeliz? Uma vida parada no tempo? Nenhum sonho mais a ser realizado? Ou uma colegial de pele dourada?
                                                                                                                      *              *                    *
"É  preciso perícia, Júlio César. É preciso perícia!", lembrou, com os maxilares doendo e uma impassível dor de cabeça ­- tudo era dor. E o médico sempre trabalhando, não parava nunca. Grande parte de sua vida passava em sua clínica, não via mais a família, a sua bela casa, a confortável poltrona, a rica biblioteca. Dr. Júlio realmente já não vivia, andava exausto, extremamente estressado - era um ser que apenas sobrevivia, vegetava. Esgotado. Suas forças há muirto tempo haviam secado, não sorria, não comia decentemente. Andar, respirar, simples atos como estes, tornaram-se impossíveis para ele. Sentir a brisa no rosto, a invadir e espalhar-se entre seus cabelos, algo tão normal entre as pessoas do mundo lá fora, e ele esquecera - queria voltar a viver. Vida. Precisava  dela, não aguentava mais cuidar dos outros enquanto ele morria.
Pensou em férias. Um final de semana seria suficiente. Quem mal tinha tempo para um simples café, um dia estava muito bom. Iria socar-se em algum lugar, longe da clínica, dos pacientes, da própria medicina. Fugir. Fugir com a mulher e os dois filhos. Queria voltar a viver.
Saiu da clínica direto para casa. Estava louco para fazer o convite à família. E eles decidiriam: a fazenda no Mato Grosso do Sul, ou a casa de práia em Florianópolis - uma semana não seria impossível, seria o tempo perfeito para aproveitarem. Não via a hora de descançar, de voltar ao convívio familiar, tão escasso para eles.
- É preciso viver! - exclamava de si para si, com intuito de entusiasmar-se.
                                                    *           *               *
Chegou em casa sorrindo de orelha a orelha. Com a viagem, tiraria uma enorme carga de suas costas. Entrou na sala de estar, pôs-se a beber uísque com gelo na sua poltrona coringa. Há muito tempo não bebia do seu uísque escocês: uisge beatha! elaborado há muitos séculos num destilado, de cevada fermentada nas conhecidas terras altas ( Highlands ) da Escócia.Observou a ampla sala, os móveis de fibras naturais, as cortinas de algodão cru, uma grande tela na parede ( pintura raríssima ), ao lado de máscaras da Polinésia. Desgravatou-se. Por um instante, achou o ambiente estranho, a sua própria casa. Só chegava tarde da noite, e quando colocava os pés ali, era só tempo de tomar uma ducha e jogar-se na cama. O pai, desde cedo, o preparou para comandar o patrimônio, e a clínica era o maior deles, o que mais recebia a sua atenção, uma das mais conceituadas do interior paulista - e com certeza daria a sua alma ( o seu sangue!) - para mantê-la naquele patamar. Por toda a sua dedicação, esqueceu-se do seu acochegante lar. O próprio casamento, aos poucos, acabava. Sentia-se culpado agora. A mulher já até acostumara com sua ausência.
Gritou pela empregada, que chegou segundos depois da mulher. Marisa estava desconfiada, agora andava sempre assim, esquisita, parecia esconder algo, estranhou o marido àquela hora.
- Tão cedo?
- É preciso viver, meu amor! - repetiu  novamente a frase, agora erguendo-se da poltrona, ainda segurando a sua bebida, tentando beijá-la sobre o sofá de veludo. A empregada retirou-se.
De súbito, Marisa dá um grito - ele derramara uísque no seu novo vestido, no sofá aveludado, no tapete com estampa de zebra.
- Meu vestido!
O marido recuou. O copo com o resto do uísque ainda na mão.
- Olha só o que você fez! olha o meu sofá! - ela gritava desvairadamente.
Ele parado, olhando-a:
- Meu tapete! meu...!
- Querida... são apenas... a gente compra outro no... eu... trocamos o sofá... compro outro vestido, não tem problema... há muitos tapetes na casa, inclusive persas - consolava-a desajeitado.
Ela gritou pela empregada. O vestido agora era um molambo, o sofá um trapo velho, o tapete nem se fala... Era de se advinhar, ele tão cedo em casa, só podia ser sinal de desgraça.
- Foi sem q...
Antes de tentar explicar-se, completar a frase, ela retirou-se, olhando-o raivosamente. Ficou sozinho na sala - esse era seu carma: a solidão. Pegou a legítima gravata italiana do chão, observando-a por alguns segundos, presente outroro da sua mulher, pôs-a no bolso da calça. Pensou em dramatizar aquela cena, jogar o copo do seu sagrado uísque na parede, desistiu antes de concluir o pensamento, enchendo-o com mais uísque e, sem pôr gelo, tomou de uma só vez, depois pôs mais, agora com gelo - quatro cubos. Percorreu a sala, fixou-se na tela a óleo, a práia morrendo à margem, espumando, um homem sozinho andando descauço pela areia - parecia triste - os pássaros quase ponteados de tão minúsculos, o céu limpo, sol despontando saltitante, parecia que tudo queria mover-se, saltar da tela, parecia que havia muito mais vida ali. Sentiu-se arrasado. Em seguida, olhava os porta-retratos: a foto de casamento, ele ao lado da mulher, beijavam-se... mas tudo entre os dois morria, acabava; observou uma outra foto, em que toda a família estava reunida, o casal e os dois filhos, Julinho e Alicinha. Eram felizes.
Foi até a varanda. Viu a piscina, a água transparente e azul. O uísque na mão. Respirou desajeitado. Olhou a hora, o sol reluzia no relógio - uma fortuna também. Sentiu-se amargo por dentro. A mulher bem que podia sumir, junto com o sofá e o tapete..."dane-se!", gritou de dentro."A esperança é a primeira que morre", concluiu. Uma lágrima de uísque escocês desceu pelo copo, fria e solitária... Levado por um impulso repentino, louco, dirigiu-se à cozinha, abriu uma, duas, três gavetas até encontrar o objeto que procurava, trêmulo. Entrou na sala novamente, foi de encontro ao sofá..."vai degolar a mulher", calculou a empregada. Ergueu o instrumento afiado para retalhar o maldito assento em mil miseráveis pedacinhos..."É preciso perícia, Júlio César! - recordou-se da frase do pai, herdada há séculos. Largou a faca. Buscou o seu  Campbeltown Malt Whisky , acompanhado de quatro pedras de gelo. Então lembrou-se de uma frase de Vinícius de Moraes: Se o cachorro é o melhor amigo do homem, então o uísque é o cachorro engarrafado... riu sozinho, amargamente.
Subiu para o quarto de Julinho. Não o encontrou, estaria na faculdade? também não sabia. Passou a olhar o cômodo, uma revista de mulher pelada jogada, folheou-a rapidamente, sorriu, em seguida fixou-se num porta-retrato do filho com uma loira, abraçados - quem seria? indagou-se. Custou notar que era a sua própria mulher. Fez uma careta de resignação: nada sabia dele, da mulher,da filhota, daquela casa; mal os reconhecia! Estava distante de tudo e de todos. O filho tão bonito, saudável, seguindo a medicina também, os mesmos passos do pai, do avô. E ele longínquo, sem a menor participação naquela vida. Saiu e fechou a porta.
Seguiu para o quarto de Alicinha. Encontrou-a ao telefone. Entrou sem fazer ruído. Agora observava a filha, sua princesinha do país das maravilhas, quinze ou dezesseis anos? não, não, tinha certeza que eram quinze, tinha sim. Uma mocinha já - com certeza virgem... mataria quem encostasse num único fio de cabelo dela... a sua última gota de vida! E não viu quando ela largou o aparelho e correu para abraçá-lo, dando-lhe um beijo barulhento, causando-lhe um leve e bem-vindo susto:
- Com quem falava? - perguntou, devolvendo o abraço e o beijo.
-Com Ágata, minha amiga.
Quem seria? Não fazia a menor idéia.
- Temos um trabalho da escola para fazer hoje, inclusive tenho que chamar um táxi...
- E o nosso motorista? Não vai me dizer que foi despedido, pediu demissão, faleceu... enfim!
- Pensei nele sim, mas lembrei que acabou de sair com dona Marisa - chamava a mãe pelo nome.
- Aposto que foram fazer compras!... Acertei?
- Não faço e menor idéia, saiu sem falar nada, como de costume.
Como de costume... Marisa realmente andava estranha, isso era percebível até mesmo para ele.
Ela ia discando o número do táxi quando ele a interrompeu:
- Posso levá-la até a casa da...da...dessa sua amiguinha?
-Você?! - surpreendeu-se ela.
Ele sacudiu a cabeça com um sim, sorrindo.
- Não tá doente, tá? - ela colocou a mão em sua testa - parece que tá um pouco quente...
- Falo sério. Acabo de decidir que não vou mais à clinica hoje!
- Jura? Milagres acontecem!
- Palavra de médico... não, palavra de pai!
O sol, as estrelas, o próprio mundo, se fosse possível, lhe daria - daria tudo isso e um pouco mais.
Ela acochou-o num forte abraço, selando-o com um beijo. Ele derretia-se naqueles afagos, eram os melhores momentos de sua amarga vida.
                                         *   *   *
Podia ser feliz sim. Se o casamento entrava pelo ralo, ele tinha os seus dois filhos: Julinho seria, assim como todos os patriarcas da família, um grande médico e assumiria a clínica, os negócios. Alicinha, a sua flor, tão meiga, doce, lhe daria lindos netos, cuidaria do pai na velhice. Sonhava com uma coleção de netinhos.Quisera ter mais filhos, criança sempre faz falta, ainda mais naquela casa tão grande. Foi Marisa quem não quis, dizia sempre que se um era pouco, dois já era suficiente, três seria loucura. Ela sempre contra os desejos dele... Pensando bem, ele não era o melhor pai do mundo, nunca seria: se não dava atenção para dois, imagine então três!
Acabou esquecendo do convite. Depois da cena do uísque, desanimou-se de vez. Por qualquer bobagem Marisa irritava-se com ele, isso não era recente, já fazia um bom tempo - mal se cruzavam e discutiam. O uísque fora só um pretesto.
Mas... e se a conquistasse novamente? Ainda, quem sabe, podia ser feliz ao lado dela... por que não?
- Ainda somos casados... ainda posso ser feliz! - exclamou, enquanto dirigia rumo à casa da amiga da filha. Alice ao lado, mostrando o caminho.
Sim. Tinha que colocar aquilo na cabeça. Era preciso acreditar.
- Lutar pela felicidade!
- Quê? Falou comigo? - perguntou Alice, atenta em ler o nome das ruas nas plaquinhas.
- Não, é comigo, querida... - ele sorriu. Ela voltou a se consentrar nas placas.
Ligou o som do carro, pegou um cd qualquer - não sabia nem mesmo se havia cd's ali: de onde surgiram? perguntou-se. Não leu a capa, pôs assim mesmo, o cd deslizou...
"Look into my eyes
You will see, what you mean to me
Look into my eyes
You will see, what you mean to me"
A filha riu, vendo o pai tão diferente naquele dia ...
- Acho que você tá realmente doente... - concluiu ela.
                                  *   *   *
Chegaram. Era num bairro belíssimo. O pai tocou o interfone. Pouco tempo depois uma jovem saiu para atendê-los. O médico a olhou fria e meticulosamente: parecia analisar uma doente terminal altamente contagiante. "Seria a amiga de Alice?" perguntou-se, torcendo para uma resposta negativa. Era uma moça gorda, a empregada da casa.
- Entrem! A Ágata tá no jardim... fiquem à vontade!
"Ufa!", respirou aliviado.
Seguiram a gorda. Antes de se chegar na enorme casa, via-se um gigantesco jardim. Júlio observava cada detalhe: viu grandiosas palmeiras, vasos rústicos de cerâmica, uma piscina que era um verdadeiro oásis, um quiosque também de estilo rústico e a cobertura em sapé, abrigando uma enorme churrasqueira. Parou diante de uma estátua fabulosa, réplica de David, de Michelangelo - isso o frustou, porque no seu jardim não havia uma grandiosidade igual, mas prometeu a si mesmo que compraria uma, maior, mais artística. Tinha dinheiro para isso, não tinha? Então? Era Júlio César, esqueceu?
A amiga de Alice estava em um balanço, abaixo de algumas árvores, no fim do imenso e quase infinito jardim. Os três em fila. Ele avistou uma gruta: frustou-se novamente. Percebeu que a sua casa era bem inferior àquela, perdia em tudo, na grandiosidade do jardim, estátuas, plantas, piscina; e ele que um dia chegou a pensar que não havia casa que superasse a sua naquela cidade, enganara-se. Mas era Júlio César, ora, podia comprar aquela se quisesse... Podia tudo.
- Mudou de motorista, Alice? - perguntou Ágata quando viu eles se aproximando, soltando um sorriso logo depois. E foi aquele sorriso de colegial que fez o visitante parar de cobiçar o lugar.
A primeira impressão não foi a de uma mulher, para ele tratava-se apenas de uma garotinha, mais uma coleguinha da filha. Mas ao aproximar-se em definitivo - tudo seria definitivo a partir daquele momento - , viu o quanto a colegial era qualquer coisa de perdição. Qualquer coisa seria injustiça, ela era muito mais que isso... Lembrou-se de uma réplica fiel sua, titulada: O balanço, de Fragonard. Notou, porém,  que sua pintura tinha bem mais roupa que Ágata. "Está digna de um assédio...ou coisa pior...", pensou rapidamente."O mundo tão belo e ele preso numa clínica", concluiu.
A filha apresentou os dois. O doutor mal conseguia disfaçar o olhar curioso, sedento. A moça de pernas à mostra, um dos pés engessado.
- É... prazer! - disse ele meio desajeitado.
Tanto tempo longe da civilização, só podia dá nisso, pensou, sorrimdo em pensamento, tinha essa mania de sorrir interiormente.
O olhar agora desviava-se para os seios da moça, que emergiam devido à blusa muito pequena. Fixou-se ali, atônito, alheio a quase tudo. Ela estava à vontade, sem sutiã, a blusa meio transparente, quase detalhando os mamilos róseos, que o olhavam, convidando-o para um desastre. Suava.
Tudo era mais belo naquela casa...
- Viemos sequestrá-la! - exclamou Alice, toda sorridente.
O homem, sem saber por que, riu também.
- Aqui estou eu! Aproveitem! - complementou a outra.
E de novo ele sorriu sem saber do motivo.
- Não sabia que teu pai fosse tão jovem...
- É, ele ainda quebra um galho! - brincou Alice.
O médico ia rir novamente, mas ao notar qualquer coisa a seu respeito, ficou meio sem jeito:
- Obrigado pela parte que me toca - disse, encolhido, tentando ser simpático. Mas no fundo sentia-se um adolescente com a cara cheia de espinhas, fugindo sempre para as curvas da colegial.
- Eu dizia que nao imaginava que o senhor fosse tão jovem... desculpa! senhor ou você?
- Você!
"Júlio César, O Garotão", titulou-se ironicamente.
- Também não pensei que a amiga da minha filhota fosse tão... - sentiu que sua frase podia caminhar para um adjetivo impensado, analisou, tomou cuidado e tentou ser o mais natural possível na última palavra antes do tal adjetivo, assim não causaria suspeitas...
- Tão? - inquiriu Ágata, curiosa.
- Horrorosa! - brincou Alice.
- Simpática.
- Ih, doutor Júlio, isso é porque não conhesse a peça...
- Alice! seu pai vai pensar mal de mim!
- Imagina... jamais.
- Então vieram me rapitar?
- Isso mesmo: ordem de Alicinha!
- Ok, será uma honra... mas tem um probleminha!
- Ih, lá vem ela, a frescurenta!
- Olha só: - mostrou o pé engessado - terão que me levar no colo... além do mais, peguei horror a muletas!
O homem tremeu. Era Júlio César, sim, era. Todavia, estava ao lado de um ser quase nu, diante do seu nariz, ou melhor, dos olhos atentos - atentíssimos! Tudo o que tinha que fazer era pegá-la no colo e levá-la para dentro de casa e pronto! Mas toda ação gera uma reação, e a sua não seria tão simples assim. Analisou a situação, viu que corria perigo, que era de carne e osso, mais precisamente, era bicho homem. Suou profundamente.
- Para a sua sorte, não tô acima do peso! - brincou a colegial ( a gorda riu sem jeito ).
Ele respirou. Sorriu sem graça. Tremeu. "Mundo, mundo, vasto mundo!", dizia um verso de Carlos Drummond de Andrade, e que lhe veio na cabeça sem saber por que. Até que criou coragem, trouxe-a para o colo - "Grito imperioso de brancura em mim!", outro verso que lhe veio na cabeça, mas de quem era mesmo? não lembrava. Dava dó tocá-la, as suas mãos velhas deslizando naquela pele de colegial, delicada, era um camaleão devorando uma flor, um lobo prestes a dar o bote, a tirar um pedaço, sentiu a respiração ofegante da moça, sim , ela não respirava, ofegava, notou que podia arranhá-la, quebrar alguma coisa dela. O chão girava. Atrapalhou-se, não sabia qual caminho seguir...
- Por aqui, doutor. - ajudou a gorda, deixando-o ainda mais envergonhado.
Pôs-se a seguir novamente a empregada. Sorriu sem motivo outra vez. Sorria porque não sabia fugir - se pudesse, correria como um bicho, um filhote desgarrado da mãe, fugindo enlouquecidamente de algum predador feroz. Levava a moça, firme. Passos milimetricamente iguais. E - desesperos dos desesperos! - seus olhos continuavam lhe traindo, em direção aos dois seios logo ali abaixo, tão pertos, tão perfeitos, os dois apontando para ele, encarando-o, sacudindo ao menor passo, era só aumentar a passada e os seios oscilavam, num delirante movimento de vaivém. "Se você olhar para baixo Deus pode te castigar, te transformar numa estátua de sal", pensou. Sentia-se todo abrasado, subiu-lhe um rigoroso fogo, que o consumia; andava, mas parecia não se mover, se movia, mas não sabia que rumo tomar. Se não olhava para baixo, mais se atormentava, mais sentia necessidade de admirar... E andava perdido em si, como em deserto.
Diminuiu os passos. Aumentou. Voltou a diminuí-los. Ia comandando o ritmo. De súbito, medo, medo de alguém perceber a libidinosa intensão de seus passos. Notou que a gorda olhava meio de lado, como se quisesse ler seus pensamentos, seus inpudicos pensamentos. Sentiu medo dos seus próprios movimentos, até de seus pensamentos. "Covarde!", titulou-se. Era. Tremia com a visão.
Nessa tortuosa caminhada, passou-lhe um cruel pensamento: se tivesse num sonho, é, num desses sonhos malucos que nada faz sentido, que tudo acontece, não pensaria duas vezes, jogaria a pobre moça no gramado, arrancaria a sua pouca roupa violentamente, em seguida a beijaria com fúria, sede, fome, como um cavalo no cio, um bicho descontrolado. Sorriu por dentro, já surpreso com seus pensamentos. "Não és bom nem és mau...és maquiavélico!", concluiu.
Após deixá-la em casa, sã e salva, ela trocou-se e seguiu de muletas para o carro. Partiram.
Dirigia com cuidado. "É preciso perícia...", lembrou, ainda perturbado. Respirou profundamente várias vezes. Sorria sem motivo, às vezes para disfarçar o que sentia. E, enquanto dirigia, outro pensamento veio, muito real : não segurava o volante, podia jurar que não, em vez deles, segurava os dois seios de Ágata, um em cada mão, nus, ali, diante dos seus olhos regalados, entre seus dedos, como se fossem dele, somente dele...
- É preciso perícia... - balbuciou baixinho, para fugir desesperadamente da visão.
Ligou o som:
"Look into my eyes
You will see, what you mean to me"
Elas riram.
- Ninguém merece! - reclamou Alice.
- Ah, eu gosto!..."Look into my eyeeees...You will seeee, what you mean to meeee"_ a colegial passou a acompanhar a música, sempre de sorrizinho provocativo, para desespero do pobre homem.
                     *    *    *
Lá estava aquele ser repulsivo diante dele. Fizeram várias tentativas, mas não obtiveram nenhum êxito. Então ficaram ali, jogados na imensa cama, exaustivamente irritados. Ela já dormia, aos roncos - foi a primeira vez que notou que sua mulher roncava, aquilo passou a ser um suplício, um doloroso e aterrorizante castigo - ele quis desaparecer. Soltou o pensamento, relaxou o corpo, ficou de papo para o ar, observando o teto, quase mórbido, então pôs-se a imaginar Ágata no teto, era difícil criar tal pensamento, não conseguia fixar-se, porém esforçava-se: ela tirava a roupa vagarosamente, que caia sobre o rosto dele, a blusa, o short, o sutiã, a... e a colegial não parava de rir, a visão querendo evaporar-se, mas os seios rosados não se desconfiguravam como o restante, e ele ria, como um garoto que acabara de achar uma Play Boy... e a visão foi evaporando, aos poucos, fugindo dele, lentamente... Restou Marisa, ainda roncando como uma porca, nem lembrava a última vez que fizeram sexo, restaram os cacos, a resignação, sentia alguma coisa por ela?  não sabia, queria responder que sim, outrora foram tão apaixonados, amor intenso... não, bobagem, nunca fora intenso, gostavam-se e pronto. Era a mãe de seus filhos, custava lembrar disso? Era. Infelizmente. Sorriu de si mesmo, da sua própria desgraça - tinha essa mania estranha também, de sorrir da própria desgraça, não chorava, não se lamentava, apenas sorria por dentro, o pai que o ensinou, sentia saudade do velho... Mas no fundo sentia-se culpado, ele era o responsável por tudo aquilo, não se sacrificou pelo casamento, nunca fora um esposo, um pai perfeito, longe disso, sempre fora relapso, distante, ausente. "E agora Júlio, a festa acabou?... O que ficou?" indagou-se, resignado. Apenas os filhos - eis a razão por ainda sustentar aquele castelo de areia.
Decidiu, naquela mesma manhã, não ir para a clínica.
Sete da manhã, ou pouco menos que isso, início de um dia quente. Desceu do quarto, a casa ainda escura. Dirigiu-se até a cozinha, a empregada preparava o café-da-manhã. Bebia seu café ainda queimando. Era um sábado de sol como há muito tempo não presenciava. Abriu portas e janelas, a claridade tomou conta do ambiente, o céu estava estranho aquela manhã, tudo parecia tingido de um vermelho gritante, e a brisa sacudia quase sem força os galhos das arvores, e lá no alto, avistou alguns pássaros pontilhando o céu de carmesim, como numa tela à óleo. Na sala, sentou-se na poltrona coringa, segurando a chícara, esfumaçando, dando goles pequenos, pensamento solto. De repente, não tão de repente assim, aliás, nada de tão súbito, passara a noite pensando nisso, com loucura, lembrou-se que Ágata dormia no quarto de hóspedes, ela e Alice ficaram até tarde fazendo um trabalho da escola, a colegial acabou dormindo por lá mesmo. Como será que dormia? Com roupa ou sem... será que... Bebeu seu último gole de café e ergueu-se, com mil indagações na cabeça. Será que dormia... pelada? Queria, queria desesperada e enlouquecidamente ver com seus próprios olhos demoníacos... mas como dizem os tolos, querer não é poder, mas ele era uma exceção, sempre fora, queria e podia tudo! Todavia, não era louco, alguém podia supreendê-lo no quarto... e se... não... não era certo... mas... só um pouquinho, um instantezinho tolo, ele implorava para a sua consciência doentia. Não se conteve,  por todos os demônios do seu corpo, nao conseguiu, era bicho, bicho não se contém, bicho é bicho..."É preciso perícia...", hesitou, e se alguém o visse? era tão covarde, púdico, imbecil, que tinha de mais? era só uma olhadinha de nada, coisa à toa, curiosidade de homem, sim, só isso, nada mais... Tinha que vê-la, caso contrário, teria um treco ali mesmo; para o bem da sua saúde, não havia outra saída. Era preciso!
Certificou-se se todos dormiam ainda. Sim. A empregada fora para o jardim, a mulher roncava de certo, Alice no quarto, dormindo como um anjo, nem sinal de Julinho, já estaria na faculdade?... Subiu as escadas, coração batendo freneticamente, a pulsaçao a mil, passos apressados mas cautelosos, desvairados. Subia. Subia. Um, dois, três, quatro, podia contar os degraus, os passos iguais, firmes, na verdade tremia a cada degrau.Quarto de hóspedes, homem à porta, mão trêmula no trinco, porta abrindo-se. Precipitou-se em entrar, de vagarinho,  tudo lhe conspirava a favor naquela manhã vermelha-ardente, encontrara a porta apenas entreaberta! bem lentamente, sem esboçar nenhum ruído, silenciosamente, entrando na ponta dos pés, chinelos na mão, como um enorme rato tentando tirar um pedaço de queijo da ratoeira. Sim, podia sentir-se como um rato. E o roedor viu-se triunfante diante do cobiçado prêmio - Ágata lá, quase nua, os lençóis jogados de lado, a camiseta mal encobria a restante do corpo, provocantemente num profundo sono. Aproximou-se, curioso, curiosíssimo, desesperadamente curioso. E a moça de pernas à mostra, em forma de um z, numa posiçao que o deixou descomposto. Tremia, cada parte do corpo dele latejava, a carne explodindo, o sangue fervendo. Aproximou-se mais, e mais, bem próximo da visão, agora real, podia até sentir o cheiro dela, chiclete, creme, sorvete, morango... tudo isso o levava ainda mais à loucura. Ousou tocá-la. Mão trêmula, precipitada, em contato com a pele quente e macia da colegial, deliciosamente fresca.
Estava a ponto de explodir, uivar como um lobo, cada glândula de seu corpo em grande ebulição. Subitamente,ouviu um ruído vindo do corredor, acelerando ainda mais, se é que fosse possível, o seu coração. Não, não era nada, alívio, não vinha ninguém. Instintivamente, voltou a tocá-la - ela moveu-se, mudando de posição - Levemente, um crepúsculo que cortava uma brecha de uma das janelas, ia de encontro às costas da moça, como num pauco em que todas as luzes se apagam e apenas o artista é visto, numa luz ofuscante sobre sua cabeça, e devido a esse sagrado raio de sol, dava para notar pequeninos pêlos sobre as costas da moça, quase transparentes, ela estava especialmente bela naquela cama, aos poucos sua visão ficava mais aguçada, a pouca luz do quarto ia sendo dominada por seus olhos, estava dourada, lábios entreabertos, cabelos desalinhados, também dourados, era a visão do paraízo.
Ia subindo a mão, ou talvez descendo, quando percebeu que vinha alguém. Socou-se, no desespero, embaixo da cama. A filha à porta, mão no trinco, porta abrindo-se com grande impulso, entrou e passou a abrir as janelas, sorrindo, fazendo barulho propositadamente. A amiga, sonolenta, ergueu-se preguiçosamente da cama, despreguiçando-se, bocejando em seguida. E ele embaixo da cama, escondido, deprimente. Sim, agora era um rato.
Só saiu de lá quando as duas desceram. Adoraria ter visto quando a moça despiu-se. Muito.
 Em seguida, uma cena desprezível: passou a cheirar a mão com loucura, procurando o perfume de Ágata, entrou no seu quarto - a mulher ainda dormia, roncava levemente a porca -foi até o banheiro, olhou-se ao espelho, imaginou-se com músculos, sim, forte, jovem, atlético, em plena ebuliçao de hormônios, o cheiro ainda empreguinado em sua mao... E se ela não estivesse dormindo? Não, não, seria muita areia para o seu caminhão velho. Será? Há mais mistérios entre o céu e a terra que... não, ela estava dormindo sim - e se estivesse acordada e quando viu ele se aproximando fechou os longos cílios dourados para que ele a visse naquela manhã carmesim e a tocasse para ficar louco por ela e para que nada mais fizesse sentido, e seu pensamento, sua carne, seu cérebro, sua boca, seus olhos, tudo gritasse, berrasse, explodisse, exclamando freneticamente Ágata! Ágata! Ágata! Ágata!? Respirou. Sim, haviam trocado olhares, ele sempre a olhava desajeitado ela jogava um certo charminho? Agora se olhava sem roupas no espelho, dando uma piscadinha. Era um garotão de dezenove, vinte anos.
                                      *    *     *
Estavam num infindável campo de girassóis, quando o beijo calou-a de qualquer renúncia. Ele ergueu sua saia com ímpeto, abriu o zíper da calça, ajeitou-se, a deitou sobre as flores, pétalas voaram sobre eles, cobrindo seus corpos, afastou as coxas, arrancou o que ainda sobrava de roupa com brutalidade, beijou os seios com fome, mordeu os bicos róseos, atirou-se como uma flexa. O sol iluminava as flores, refletindo sobre Ágata, dourando sua pele, os cabelos, e em outro ângulo tudo era reflexo de ouro, que brilhava intensamente, e o cenário misturava-se numa só cor, ambos eram apenas mais um poto minúsculo e amarelo. Ela fechou os olhos, relachou, os seios eriçados, os pêlos arrepiados, contorcendo-se, mordendo o seu lábio inferior, o dele, toda trêmula, quase em transe, a mão sobre as costas, unhas cravadas, ferozes, desatinadas... até entrar em outro mundo, até o gozo profundo, desejado. Martírio de um sonho de uma longa noite de insônia.
                             *            *            *
Agora, lia diversos poetas, arriscava seus próprios poemas:
                           "Ágata, martírio da minha vida,
                            chama  da minha alma, grito do meu peito,
                             meu amor, meu clamor, minha perdição!
                             meu sofrimento, minha arrebatante alegria.

                              Tu, somente tu, minha deusa, meu flagelo,
                              minha perdição, meu pecado,
                              meu emaranhado de espinhos!
                              Ágata! Ágata! Ágata! Ágata! "
Sorriu da sua proesa. E vivia pelos cantos compondo poesias, arriscando sonetos, metáforas, vasculhando livros e mais livros do gênero, assim passou a desejar, amar, sonhar, delirar, suspirar com seus poemas.
                                    *      *      *
Estacionou o carro em frente à escola. Tirou a máquina fotográfica de uma bolsa, ajeitou-se confortavelmente, pôs-se a tirar fotos dela.
Era assim todos os dias. Incansável. Incontrolável. Compulsivamente. Doentio. Alugou um apartamento, aprendeu a revelar as fotos, criou o seu próprio espaço para isso, as paredes decoradas, centenas de fotos da moça por todos os lados, de todos os tipos, posições, lugares, sorrisos, bocejos, caretas, biquinhos... Ágata, Ágata, Ágata, Ágata...Centenas. Ele numa poltrona coringa nova, caríssima, e olhava, satisfeito, excitadísimo com a visão, sorrindo, vitorioso, crente de que ela era somente dele.
                       *              *                *
A piscina calma e azul de outrora agora era invadida por mergulhos e gritinhos naquela tarde de sol alto, tempo claro. Ágata, entre um mergulho e outro, tomava sol de biquí, sorria para o pobre diabo homem, que fingia interesse por um jornal, de calção e camiseta, chinelos e óculos escuros, desajeitado na cadeira, cenicamente idiota. Estavam estrategicamente próximos, Alice também - onde estaria o filho e a mulher? - não importava, nada mais importava. Os óculos, sagrados e bem aventurados óculos! dali, dava para observá-la sem receio, ninguém podia notar seus olhares maliciosos e febris para a visitante.
E lá ficava ele, imóvel na sua cadeira, olhando às escondidas a sua perdição de cabelos molhados, a pele de colegial brilhando. Arriscava esticar o pescoço para vê-la com mais precisão, vagar o olhar mais perto daquele reflexo adorável e enlouquecedor, mas com todo o cuidado do mundo para que ela não percebesse os suas cálidas intensões. Ela era sua, toda sua, ali tão próxima de seus olhos latentes, sob os óculos escuros, ela era sua. Nas evocações e elucubrações que havia sonhado tantas noites - dias e dias! - de insônia e desespero, a via toda nua, a pele bronzeada de sol, os cabelos soltos, os seios de botões róseos, na dourada claridade de uma tarde, a ainda adolescente moça sorrindo. Delirava. Exauria-se.
"Eu sou tão infeliz, eu sofro tanto!"
                      *                *                  *
 Um dia Marisa fragou  o pobre diabo nas suas loucas fantasias, exaurindo-se junto  à janela, enquanto observava Ágata de biquíni minúsculo na piscina.
- Júlio? Você... você está... meu Deus, você esta...! - ela mal conseguia concluir, tamanho espanto.
Ele correu para o banheiro, descontrolado.
                      *             *                 *
Chorava de paixão. Exauria-se noite e dia. Não sentia culpa depois, nada mais importava. Somente ela.
                      *             *                 *
A maior prova da sua loucura, da sua sandice: passou a ter nojo da sua própria mulher, isso mesmo, ela cheirava mal, tornara-se um ser terrivelmente repulsivo.Se havia algo de podre no seu reino, esse algo se chamava Marisa.
                        *             *                *
Comprou alguns instrumentos de musculação. Desocupou um cômodo para criar uma  verdadeira academia. Alice e a amiga também passaram a frequentar o lugar. Era mais uma oportunidade para  vê-la. Quando ela se aproximava, tocando sem querer nele, ele palpitava, delirava de prazer, tremia e contorcia-se levemente.
Ágata, ruiva de cabelos cor de fogo, dezesseis anos, olhar nada inocente da cor do mar. Júlio César, carmesim, brasa e fogo, quarenta e dois anos, olhar de um miserável pútrico.
Um dia, cochilando em sua poltrona, na mão o uísque com suas inseparáveis quatro pedras de gelo sinuosas, ouviu um sussurro...
"Júlio...Júlio, aqui Júlio!"
Acordou assustado, deixando o copo cair da sua mão, que tombou e permaneceu intácto, vomitando as pedras de gelo já quase em líquido.
"Júlio!"
Foi erguer-se de uma vez e acabou perdendo o equilíbrio, caindo sobre a poltrona novamente. Segunda tentativa, com muita luta, conseguiu ficar em pé.
"...  aqui Júlio!"
- Quem? Marisa? Alic...
"Não, sou eu, seu bobo, eu!"
- Ágata?!
Risos. Alguém corria escada acima. Risos estridentes, porém finos. Parecia ser ela... Descia e subia os degraus diabolicamente. Pôs-se a aproximar-se regalado, procurando aquele pequeno ser.
"Aqui!"
- Que faz aqui, menina? - a voz do pobre escravo era apenas um esboço.
"Quero você, meu amor!"
Agora ele podia vê-la, estava meio escuro - era noite - mas era ela, de sorrizinho, chamando-o com o dedo. Conteve-se, respirou sufocado, notou que podia estar delirando: exagerou no seu  Lowland Malt Whisky, era de se esperar que podia  ver coisas sobrenaturais, como diria o dramaturgo inglês Lord Dunsany - com uma frase bem arranjada, como compete aos dramaturgos: "A lógica, como o uísque, perde seu efeito benéfico quando tomada em quantidades exageradas". É isso, estava delirando. Porém, ao olhar um pouco mais de perto, viu que realmente era Ágata, ou um fantasma fiel dela.
- Júlio César, você está louco... - balbuciou, quase em pensamento - Louco!
Esfregou os olhos com as mãos, mas a moça continuava lá, chamando-o, dourada, o velho e provocante shortinho, a terrível blusinha quase transparentes, os pecaminosos seios rosados, o enlouquecedor sorrizinho, o olhar azul-fogo, brasa, chama, era ela, sim, era, Ágata! Esfregou novamente os olhos, com força, e a invasora de charminho e aceno. Correram escada acima, ela esgueirou-se rumo ao seu quarto, batendo a porta vigorosamente.O douror entrou atrás segundos depois, desatinado. Silêncio. Nunca em toda a sua vida presenciou um silêncio como aquele, um silêncio aterrorizante; tudo escuro, somente um abaju na difícil tarefa de iluminar o ambiente, aproximou-se da cama, lentamente, tropeçou em algo e caiu ao pé da cama, a mulher dormia, ele imediatamente pôs a mão no nariz - ela cheirava a carniça! - afastando-se, correu para o banheiro e vomitou na pia todo o seu sagrado uísque escocês.
- Meu Deus! Meu bom e misericordioso Deus!
Sim. Um homem em sua situação precisava apegar-se a Deus, já tinha a certeza de que a loucura o possuira.
- Louco!... Então a loucura é isso? - deu uma gargalhada estridente.
Olhou-se ao espelho - olhos joviais, não mais pálidos, sombrios, o peitoril de atleta, viril, forte como um touro. A loucura era tão magnífica! Louco. Sim. Mas ainda restava um pouco de sanidade em sua cabeça doente, afinal de contas era o primeiro louco da história que percebia que entrara para aquele mundo. Não, não estava louco não, bobagem sua. Sabia que era só se acalmar e tudo aquilo passaria.
"Júlio!"
Era a voz novamente, sussurrante, zumbindo em seus ouvidos, vibrante. Abriu a porta do banheiro, passos curtos, cheio de pavor. Percebeu que a voz vinha da sua cama, onde a mulher dormia, mas onde estaria ela?... avistou somente Ágata debruçada na meia luz do abajur, sorrindo - por que diabos ela ria tanto?!... - fechou os olhos... ela não podia estar ali, era uma alucinação, onde estaria Marisa?... não havia mais cheiro de podridão... mas de rosas, de rosas...
"Vem, seu bobinho!"
Fechou os olhos, quando abrisse, viria a sua mulherzinha - nunca imaginou querer isso.  Ora, ainda estava casado, não estava? ainda tinha dois filhos com ela, não tinha? pois então? Parou. Aspirou e respirou lentamente, olhos fechados, até resolver abrí-los, calmamente, pedindo a Deus por Marisa. Tremeu. Ágata estava lá, na sua cama, maliciosamente, muito dourada, olhos em chama, a mesma blusinha que vestia quando ele a carregou ao colo, desenhando os seios redondos. Ação: um, dois, três tapas secos na cara um atrás do outro. Reação: o rosto ficou vermelho com a marca dos seus dedos. Ela ergueu-se vagarosamente, tirando a blusa, jogando-a sobre o rosto do infeliz. O cheiro quente da colegial empreguinou-se em seu interior com tal força que ele mal conseguia raciocinar, discernir o real do irreal. O único escape era avançar, devorá-la, cometer uma barbaridade. Cresceu dentro de si o homo sapiens  que sempre fora, que o pai fora, o avô também, o bisavô... Apossou-se dela ferozmente, bruto, rude, bárbaro, tinha em seu corpo o fogo de um vulcão que despertava.
Quando caiu em si, viu a pobre mulher em lágrimas ao seu lado. Ofegante, percebeu o que tinha feito. Era Marisa, humilhada.
                          *                *                   *
Era o pior dos homens, pois se bicho não é homem, todo homem é um bicho. Ergueu-se rapidamente. O choro dela era um tormento, e logo um abominável odor dominou suas narinas. Vestiu qualquer roupa, pegou o carro. Nada disse antes de sair do quarto, a mulher lá, agonizando em choro. Passou a dirigir sem rumo.
- Sou um depravado!
Entraria em qualquer bar, buteco, bodega, qualquer troço que servisse alguma bebida, um uísque... Avistou um boteco, que ele nunca em sã consciência entraria. Estranharam quando aquele homem descomposto surgiu do nada.
- Uísque, quero um uísque! - exigiu.
O balconista olhou encabulado.
- Escocês! Só bebo do escocês!
- Não temos escocês, senhor. Temos, deixa eu olhar aqui... temos um, sei lá, tá em estrangeiro... Maria! Ô Maria, que nome é esse mesmo?
- Não importa, qualquer troço serve, passa logo para mim!
Era de se imaginar que uma espelunca como aquela não teria uísque.Os pobres cães ali presentes nunca beberiam em suas desgraçadas vidas um sagrado uísque escocês, tinha certeza disso, nem ali e nem em outro espaço-tempo, em outra vida, outra encarnação. Há homens que nasciam para rastejar, era a lei da natureza, dizia o seu pai. Sorriu, olhando-os com repugnância, e se estivesse normal - se é que algum dia já estivera - notaria que todos aqueles miseráveis fregueses também  riam dele.
- Que mal lhe pergunte, o senhor tem como pagar, esse aqui é importado, de qualidade... - perguntou o balconista.
Júlio gargalhou. Era podre de rico, podia assoar o nariz com notas de cem e depois descartá-las, podia comprar centenas de botecos como aquele. Importado! Faça mil favores! Outra gargalhada estridente, nunca, nem aqui e nem na China... Ridículos! Acéfalos! Antropóides! Pôs a mão no bolso... não encontrou a carteira... notou também que estava com apenas um dos sapatos... a calça com o zíper aberto... sem cueca... camisa avessa... encolheu-se... e os miseráveis riam incontrolavelmente do esdrúxulo pobre diabo homem.
- E então, tem ou não tem dinheiro? - insistiu o balconista.
Ele, desajeitado, olhou para o pulso, viu o relógio inglês, tirou do braço e pôs no balcão. O objeto valia, com ceteza, muito mais que aquele uísque de quinta. O bojudo balconista pegou, olhou, mordeu para ver se realmente era ouro, meticulosamente.
- Fique à vontade - centenciou.
Júlio agarrou o litro do uísque desprezível, trêmulo, sugando todo o copo de uma só vez. Fez careta, despejando mais em seu copo, com vontade. Dane-se o mundo! A vida, a vida era uma porcaria! Que morresse!
- Pro inferno! - berrou
Bebia até a alma - o copo secava, enchia. Logo secou o litro definivamente. Lembou, para grande vibração sua, que tinha um uísque guardado no carro, que ganhou de um paciente. Ergueu-se, foi até o carro, barafustou até achar o bendito uísque e algumas notas de dinheiro também,  um Bourbon, americano, mas pelo menos era tragável. De novo no bar, olhar altivo, sorriso no canto da boca, sentou-se na mesma mesa, uísque, copo. Um freguês cambaleante aproximou-se curioso.
- Americano, mas dá para o gasto, vai querer um gole?
O mesmo cambaleante içou abruptamente o copo ( já na mão), com água na boca, escorrendo por um dos cantos. Outros indivíduos aproximaram-se, sedentos pela bebida tão diferente.O uísque no meio da mesa, eles em volta, como num culto a algum deus. Júlio serviu a todos, um pouco para cada um, eles deliciavam-se, inebriados com aquele gosto importado. Erudito que achava que era, Júlio pôs-se a falar de uísque:
                                     - O Bourbon americano, por exemplo, é um destilado de milho; ele deve conter pelo menos 51% de milho, mais geralmente tem 60% a 80% deste cereal e o restante ...O Canadian Whisky, canadense, é semelhante ao americano, porém ... O Lowland Malt Whisky, um dos quatro estilos de malte escocês, tem como melhor representante o Rosebank, um uísque... O Islay Malt Whisky, produzido na ilha de Islay, é seco, tem um sabor muito forte, que segundo...
O Bourbon esvaziou-se em poucos minutos. Restou a cachaça.
- Atenção! Atenção! - pediu o médico, erguendo suas notas - A cachaça é por minha conta!
Ouviu-se gritos eufóricos de contentamento.
- "A cachaça é fogo que arde sem se ver
   é contentamento descontente! " - poetizou um dos indivíduos.
Júlio César gostou, ergueu o copo novamente.
- Viva a cachaça! Viva as mulheres!
- Viva! - gruniram em coro.
Estava um dia úmido, nem frio nem calor. No bar, um cheiro desagradável contaminava todo o ambiente. Bebiam. Contavam piadas. Falavam mal do presidente. Cantavam:
- "Quando o homem inventou a roda,
    logo Deus inventou o freio,
O outro completou:
-  um dia o feio inventou a moda
    e toda roda amou o feio!
Falavam das mulheres, das sogras, riam, gargalhavam, e o doutor recitou um de seus poemas:
    - Oh, protuberância carnuda e erétil!
   Situada na parte superior da vulva,
   De estrutura análoga ao nosso ócio,
   Bridaremos a tu, oh deusa, oh rosa do Éden!
E tudo era motivo para mais brindes, para mais cachaça, a velha e boa cachaça brasileira.
                        *               *                   *
Acordou. A cabeça doendo, explodindo. Estava sujo, cheirando mal, repugnante, miseravelmente descabelado, a roupa surrada, jogado numa calçada qualquer. Ergueu-se com dificuldade do piso frio e duro, macambúzio. Lembrou-se do ato que cometra com a mulher... Limpou-se, inutilmente.
- Senhora, que horas são? - indagou a uma senhora que passava, que aumentou os passos ao notar o maltrapilho aproximar-se.
Olhou para o céu, cambaleante, gritou:
- Eis aqui um miserável, meu Senhor!
Situou-se. O carro estava logo ali, próximo... Lembrou-se dos seios de Ágata.
                       *               *                 *
Voltou a trabalhar com afinco. Queria esquecer das mazelas da vida, do choro penoso de Marisa, dos rosados seios da colegial. Queria voltar a viver, reconstruir a sua desgraçada vida cheia de feridas.
A mulher pediu separação.
Mais um motivo para meter a cara de vez na clínica. Se o trabalho dignifica o homem, para ele, fazia esquecer da vida, muito melhor que suicídio.
Tentou. Sim. Realmente. Esforçou-se com afinco. Lutou. Lutou eróica e bravamente. Ah, como brigou vorazmente contra seus pensamentos! Tudo inútil. Tudo à toa. Retirou da gaveta uma das fotos de Ágata, dourada, dourada, dourada... exaurindo-se ali mesmo. Ia além, até a ultima gota, o último assopro... De repente alguém entrou. Ajeitou-se  rapidamente, desajeitado, aturdido, a criança pega na boca da butija.
Susto. Medo. Assombro. Pavor. Pânico.
- Meu Deus, quando isso vai acabar! - exclamou baixinho.
Era Ágata.
Encolheu-se na cadeira, como um animal frágil, que se arrasta, sem a menor força para fugir, expulsá-la, gritar.
Pobre diabo.
Ela sorriu vitoriosa, não encontraria reação, oposiçao.Tranquilamente foi desabotoando a blusa, botão por botão. Ele, recuando ao máximo, a única coisa que conseguia fazer, inutilmente também, caiu para trás com cadeira e tudo. Estava ao chão, derrotado, rastejando debilmente. Botão por botão. A janela expelia raios de sol frenéticos, que iam de encontro ao corpo da colegial, dourando-a ainda mais. Último botão, tirou a blusa com ímpedo, mostrando, para agonia do pobre cão, os inconfundíveis mamilos róseos, despindo-se do resto depois. A sua única chance agora seria correr, mas suas inúteis pernas não obedeciam ao seu atrofiado cérebro, permaneceu no chão, ainda rastejando. Ela agachou-se junto ao verme, com um beijo quente, um cheiro de flor delirante. Sentiu, levemente, porém com intenso ardor, os bicos dos seios da jovem no seu excitado corpo, como duas brasas ferozes, em chamas, em fogo, derretendo-o. Motivo mais que suficiente para jogá-la sobre a mesa ( já não rastejava, já não tremia ) com fúria. Papéis avulsos no ar, no chão. O bicho homem estava à solta.
Porta fechada, gritos abafados na sala do Dr. Júlio César, nada se ouvia. E a pobre secretária, no desespero, quebrou um vaso na cabeça do doutor, que caiu meio tonto, mas ainda lúcido. Ela, cobrindo os seios com o que sobrou da roupa, pôs-se a correr em desespero para fora da sala, toda em pânico, tentava gritar, mas a tentativa era só um ruído afônico, um pequeno esboço. Júlio, por sua vez,  pôs-se a correr atrás dela, a sua vítima. Ela pensou no elevador, mas não daria tempo, então desceu escada abaixo. Ele fez o mesmo, no encalce da pobre secretária. Ela corria loucamente, lagrimante. A escada parecia ser infinita. A perceguição não durou muito, logo o fatigante médico alcançou a desgrenhada mulher, agarrando-se a ela com todas as suas forças, ela não podia escapar. A pobre dava braçadas, tentava mordê-lo, conseguia, mas nada o fazia largá-la, esperniava, tentava gritar, mas ele tampava a sua boca com cólera. Isso durou alguns intermináveis minutos, como  uma dança tribal, uma coleografia teatral, qualquer coisa primitiva. Até que ela desistiu de lutar, de fugir, mórbida.
- Por favor, não... -  implorava, numa voz rala, fina e exausta.
Ambos derramavam suor, agarrados como duas estátuas, nada moviam. Respiravam fortemente, desajeitadamente, como se não houvesse ar suficiente. Atônitos. Não se ouvia nada. Não se pensava em nada. Até que, lentamente, ele desocupou uma das mãos - os dois cheios de marcas - e pegou sua carteira, abriu com dificuldade, tirou várias notas - depois da experiência no bar, agora andava sempre com dinheiro - todas que encontrou  entregou a ela.
- Depois te faço um cheque... - balbuciou para a pobre.
Largou-a, que, atordoada, saiu  escada abaixo, sem nenhuma palavra, gesto, suspiro, cobrindo os seios com o resto de roupa, descendo.
                           *               *                  *
Ó linhagem divina vestida com trajes de mortais!
                           *                *                  *
Seria o limite da sua insanidade? Nada sabia. Gritou. Deu socos em si. Bateu a cabeça no volante. A cabeça ainda sangrando do vaso, braços e lábios mordidos, rosto arranhado, vermelho. Não chegou a chorar, achava que choro era coisa de fraco, o pai sempre dizia isso. E o sangue descia em seu estremecido rosto, suas únicas lágrimas. Parou no sinal. De súbito, viu Marisa também de carro, o motorista à frente. Ainda dividiam a mesma casa, mas Júlio dormia sempre no escritório. Curioso, passou a seguí-la.Entraram num prédio. Logo lembrou que tinha um apartamento ali para alugar. Ele atrás. Ia pegar o elevador, mas lembrou que não tinha a chave do lugar. Desceu na portaria, o guarda ainda tirava um cochilo. Acordou-o, pedindo uma chave, ganhou a cópia. Pegou o elevador ( lembrou da pobre secretária ). Quinto andar. Apartamento vinte e dois. Girou a porta na fechadura com cuidado. Abriu lentamente e entrou, silencioso, um felino prestes a dar o bote. Nenhum ruído .Foi entrando, o rosto ardendo, o supercílio sangrando, a camisa já ensopada de sangue. Esteve ali há pouco tempo, o apartamento ainda cheirava a tinta nova. Ouviu um barulho vindo de um dos quartos, coração acelerou - era um gemido bem familiar.
Andou cuidadosamente até o quarto mais próximo. Entrou. Estava vazio.
Aguçou os ouvidos. Mataria Marisa, o motorista. Antes, providenciou uma faca, a casa já possuía muitos utensílios domésticos, prova de que  já estava sendo traído há um bom tempo. Lavaria a sua honra com sangue. Era Júlio César. Diante da porta entreaberta, foi entrando sorrateiramente, arma afiada na mão, idéia fixa na cabeça. Olhou. Viu os dois amantes engalfinhados como dois bichos do mato, a cama rangendo, e o som do rangido entrando em seu ouvido como uma lâmina afiada. Ficou alguns segundos parado, olhando, nada mais fazia sentido, tudo não passava de um abismo. Conclusão: não podia matar a mulher, não tinha esse direito, era pútrico de mais para isso.
Guardou a faca e saiu, fechando a porta com sua chave. Ainda olhou para o número do apartamento acima da porta, e retirou-se de vez.
                *                *                    *
Ágata comendo uma maçã. A boca suavemente cor de rosa abrindo, cravando os saudáveis dentes na fruta, triturando, engolindo.
                *                *                     *
A colegial chupando sorvete, deixando cair entre os dedos indóceis, escorrendo a calda de chocolate, ela com toda sua agilidade lambendo a mão, sugando um dos dedos...
                *                 *                    *
A garota sorrindo para ele, o cantinho da boca em forma de u, para logo em seguida exibir os belos dentes...
               *                  *                     *
A moça de biquíni na piscina, saindo completamente molhada, enchugando o rosto, as gotas d'água percorrendo cada curva do seu corpo, saltando sobre os seios, deslizando entre as coxas; ele arregala os olhos, intranquilo, trêmulo.
                *                 *                    *
Ela conversando com o doutor:
- Já se apaixonou por alguma paciente ao ponto de querer agarrá-la à força em plena sala de consulta?
- Jamais.
- Jura ? Nunca mesmo, jura?
- Juro.
                *                 *                   *
- Prefere loira ou morena?
- Quê? Ah, sei lá, acho que... mas por que a pergunta?
- Curiosidade! Vamos, responde!
- Acho que morena...
- E por que se casou com uma loira?
- ...
                *                 *                    *
- Teria coragem de cometer uma loucura por paixão?
- Que tipo?
- Ah, sei lá, tipo um assédio sexual, não, não, tipo um estupro! Você teria?
- ...
- Responde... Digamos que você é apaixonado, louco, até doente por ela, e ela te dá mole, coisa assim... Você faria uma loucura dessa?
- Acho que... Eu acho que... Que meu uísque acabou, vou lá dentro pegar mais!
                    *                   *                       *
Ágata cortou o dedo, um fio de sangue descia, doutor Júlio César corre, examina, prepara um curativo. Por pouco não resiste, por um triz não põe o dedo da visitante na boca e não o suga até a última gota...
                *                  *                   *
A estudante passa mal, é levada às presas para dentro do quarto.
- Também, bebe de tudo, bem feito, com certeza misturou bebida... - replica Alice, assustada.
O pai  aproveita que a filha desceu até a cozinha e, não resistindo - não seguindo as regras do pai, a de sempre pensar duas vezes - beijou a testa da colegial, atento a cada nova investida, a cada cheiro que notava do corpo dela, beijando o grande olho azul ainda úmido, beijando a boca entreaberta que exalava levemente alguma bebida servida com morango, beijando a boxexa, o queixo, um dos seios, tremia, contraia-se de prazer, até ouvir os passos de Alice, até sentí-los já a beira da porta, maravilhando-se de cada segundo.
               *                  *                   *
A menina de segredinho com Alice, o velhaco aguça os ouvidos:
- Foi muito bom, dessa vez eu deixei...
- Jura?
- Ele foi muito carinhoso, delicado, e sabe como ninguém...
Ambas de garagalhadas incontroláveis
- Eu amo ele... eu amo...
                   *                  *                   *
"Eu amo ele... eu amo..." Aquilo era uma navalha entrando em seus ouvidos, abrindo o seu peito, rasgando o seu coração, dilacerando a sua pobre alma. Era uma chaga, um precipício, um vulcão em erupção, uma grande onda a invadir o seu fogo, a sua paixão doentia ... E como ele era dramático!
                   *                 *                    *
MORRER - o único remédio, o único mal irremediável. "É preciso perícia..." Para o inferno o seu pai!
- Mi sangre, tu sangre! - disse, diante de um auto-retrato do carrasco paterno, que o observava severamente, olhar esbrugalhado, intolerante, expressão oca dentro do velho quadro.
Entrou no escritório. Pegou uma arma, calibre trinta e dois. Engatilhou. Apontou para a cabeça, mas lembrou que não tinha munição. Pôs quatro balas. Voltou a engatilhar. Apontou novamente para a cabeça.
Hesitou. Os filhos chegavam naquele momento.Guardou a arma, arfando, como um grande animal ferido. Aguardou no escritório. Os filhos foram para a piscina, junto com Ágata. Olhou pela janela, a sua colegial estava num biquíni enlouquecedor. Entrou no quarto, vestiu uma jaqueta negra. Saiu de arma na centura, morreria num lugar distante dali, não queria que eles presenciassem. Longe de tudo e de todos. Morrer, eis seu único pensamento, seu desgraçado escape.
Desceu com todo o cuidado do mundo, dos ratos, das cobras traiçoeiras, das raposas velhacas, das aves de rapina, atento a tudo.Quando abria a porta da sala, seu coração disparou agoniado quando se deparou com a amiga da filha. Tentou passar por ela, com passos firmes.
- Tudo bem, seu Júlio? - perguntou a moça.
Ilusão ou realidade? Ágata ou qualquer outra pessoa? Não sabia responder, era tão real, tão dourada... Latejo, pulsação, palpitação.
- O que houve com o seu rosto, você...
Anestesiado, ele virou-se para ela, olhos arregalados de espanto. A moça completamente molhada, os pingos d'água escorrendo pelo seu corpo queimado de sol, aventurando-se entre os seios eriçados, beijando seus lábios sensualmente entreabertos. Recuou, encolhido, gesto tantas vezes repetido.
- Vem cá, deixa eu fazer um curativo - ela pegou em sua mão trêmula e mordida - Vem, tem uma caixinha de primeiros socorros, outro dia eu vi na cozinha...
Seguiu-a obediente. Na cozinha, ela cuidou do animal ferido.
- Um cão me atacou, foi um sufoco... - foi a única explicaçao menos idiota que encontrou.
- Meu Deus!
Aqueles grandes olhos azuis logo ali, diante dele, a boca flamejante exclamando a cada explicação idiota do ataque feroz do cão, os seios desenhados, querendo libertar-se do biquíni escasso, a cor dourada da sua pele queimada, o cheiro de protetor solar, podia respirá-la, sugá-la até a ultima pétala, podia escrever centenas de poemas inspirados naquela visão, a sua insanável beleza de menina pubescente, uma leve penugem nos braços, sobre o lábio superior, uma mecha de cabelo sobre um dos olhos que ela varria inutilmente, a respiração grave, quase em transe, e os esmiuçados pelinhos do braço arrepiados do ultimo mergulho, uma gota d'água indo em direção ao umbigo, fraca, saliente, em zigue-zague, os dedos segurando o algodão, indóceis, limpando o seu supercílio. Morreria feliz depois daquela visão.
Ergueu-se incisivo.
- Presiso ir!
- Não, calma, eu ainda não terminei... Foi uma luta feia, esses ataques de cães estão cada vez mais comuns... Depois você vai me agradecer...
- Já estou agradecido...
- Eu prefiro que você me agradeça com um de seus uísques... Eu adoro uísque, mas meus pais não me deixam beber, falam que sou muito criança, que absurdo!
- Eles têm razão...
- Mas só um pouquinho não tira pedaço, juro que é só um golinho...por favor!
Ele ergueu-se novamente, tirou um dos seus favoritos, Island Malt Whiskey, trinta anos, suave e aromático, despejou no copo, pôs quatro pedras de gelo. Ela agarrou o copo com ímpedo e graça, e a gula fez algumas gotas escapar e molhar o seu colo, ela deu um gritinho.
- Tá frio! - exclamou, de sorrizinho.
Ele, a poucos centímetros, não pensou duas vezes - como o pai nunca o ensinara - agarrou-a e deu uma lambida sobre o colo da moça, sugando o uísque, o seu doce e sagrado uísque. Ela assustou-se levemente, mas não reagiu, apenas fechou os olhos num gesto de gozo, toda trêmula. Ele podia sentir o coração da colegial bater em agonia, o arrepio do seu corpo, as faces rosadas, a boca exalando uísque, estremecida sob seus braços. A língua passava sobre o umbigo quando notaram passos naquela direção... Para desespero de Júlio César, ela soltou-se dele e voltou à piscina.
                                  *                      *                           *
Não tinha mais motivo para se matar, uma porta que exalava rosa e uísque abria-se como num sonho mágico.
                                  *                      *                            *
Era noite, todos dormiam. A mulher não estava, cama vazia. Bebia uísque, quatro pedras, sempre essa quantidade. E quando vinha do corredor, ouviu gemidos, era mestre na arte de ouví-los, mesmo a quilômetros. Quarto de Julinho. O filho fazia uma festinha, o danado, pensou. Curioso, vendo a porta entreaberta, uma mania daquela casa, entrou para espionar. Namoradinha, tempos modernos, pensou. À meia luz, viu sobre a cama - desespero dos desesperos! - o filho sobre a sua Ágata. Os seios rosados, a boca flamejante, o cheiro do pecado, tudo agora pertencia ao seu filho, era o seu legado, legado que nunca possuíra.
"Até tu, Brutos!", pensou, ou talvez nada pensou. Não havia o que pensar. Fim da estrada. Grande desfecho. Clímax superado. Respirou profundamente, já na sala, com seu inseparável uísque escocês. As pedras de gelo boiando, derretendo. Como a sua maldita e arruinada vida.
                *                     *                             *
Sumiu de vez. Largou tudo, todos. Isolou-se numa ilha longínqua. Nunca mais o viram. Foi dado como desaparecido. Procuraram por ele inutilmente.
Passou a viver numa caverna. Jamais conseguiu acender o fogo para se aquecer, iluminar ou cozinhar. Caçava com demasiada dificuldade, conseguia apenas pequenos animais: ratos, morcegos, pássaros, coelhos, isso raramente. Concentrou-se em coletar frutos, sua salvação. Também tentou criar instrumentos, um machado inútil, uma espécie de faca que nada cortava, para isso usava galhos e pedras.Vestia-se com um resto de farrapos que trazia quando desembarcou na ilha nada quis do antigo mundo, a roupa fora uma excessão. Era mais vegetariano que carnívoro, não por escolha, mas por necessidade. Nada falava, grunhia qualquer coisa, sempre com um bastão à mão, cabelos desgrenhados, barga até o peito, calçando algo feito de pele de algum bicho.
Aos poucos, tornava-se quadrúpede.

 
         
   
       
   


                                       





 
Samuel Silva Teixeira
Enviado por Samuel Silva Teixeira em 17/09/2007
Reeditado em 01/10/2007
Código do texto: T656624

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Sobre o autor
Samuel Silva Teixeira
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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