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O velho atirador

O vento uivava, parecendo gritos e lamentos de almas penadas, enquanto as cortinas balançavam suavemente. Apesar disso, nada mudava o estado de silêncio e solidão absolutos em que se encontrava o velho atirador.

De uma janela do sétimo andar de um alto edifício, ele observava as pessoas caminhando na calçada do outro lado da avenida. Através da lente de seu antigo, mas infalível rifle, o atirador analisava as feições de suas possíveis vítimas. Algumas conversavam tranquilamente entre si, outras andavam sozinhas e apressadas. Cada uma vivia aquele simples momento de caminhada como algo habitual e sem importância, mal sabendo que tinham suas vidas ameaçadas.

“Aqui em cima eu sou Deus. Sou invisível atrás dessas cortinas e em meio a tantos apartamentos iguais ao que estou. Tenho o poder de matar quem eu quiser com minha arma sem ser descoberto, e esses tolos passeiam lá embaixo tranquilamente sem ter a mínima idéia de que estou aqui sentado escolhendo quem vive e quem morre. Eles com certeza dariam mais valor às suas vidas se soubessem que podem morrer tão facilmente quanto uma formiguinha”, o matador pensava.

Depois desse rápido devaneio, não conseguiu conter uma risada.

– Ai, ai... Eu e minhas reflexões. Já estou muito velho para pensar essas coisas – falou baixo para si mesmo. – Mas bem que eu poderia escrever um livro sobre isso. Já teria até um título: “Reflexões de um velho atirador” – e riu novamente.

Mas esse momento de descontração foi repentinamente interrompido assim que ele notou a aproximação de seu alvo, o verdadeiro motivo para estar escondido naquele prédio. Fora contratado pelo maior chefe do crime da região, que ele considerava o mais genial de todos os criminosos, e tinha muito prazer em realizar os trabalhos que ele ordenava, pois sempre era algo “grande”. E dessa vez não era diferente, talvez até o mais importante serviço para o qual fora requisitado, já que o pagamento que lhe foi prometido era mais de 10 vezes maior que o normal.

“Acho que vou poder finalmente me aposentar depois de terminar esse trabalho. Estou ficando muito velho pra isso, minha vista já não é tão boa como antigamente. Sei que nunca falhei, mas não acho que isso esteja longe de acontecer. É melhor eu parar enquanto ainda estou no auge...”.

– Que coisa, hoje estou pensativo demais. Tenho que me concentrar no serviço senão minha primeira falha vai acontecer mesmo – falou enquanto se endireitava na cadeira e mirava o luxuoso caro que se aproximava da calçada oposta.

Era uma limusine preta com vidros tão escuros que não se podia ver nada dentro do carro. Assim que parou, à entrada do fino restaurante que ficava à frente do edifício no qual o atirador estava, o motorista saiu e foi abrir a porta para seu patrão, ao mesmo tempo que um segurança saía pela porta de passageiro e se postava em pé ao lado de onde seu chefe apareceria.

Assim que a porta foi aberta, um outro segurança veio apressado de dentro do restaurante juntamente com um funcionário para recepcionar o importante cliente. Era um homem elegantíssimo o que saía do carro, vestido em um terno preto e com o cabelo molhado cuidadosamente penteado para trás. Andou um passo e deu meia volta, como se esperando que alguém saísse. Abaixou-se então, o que fez apenas sua cabeça ficar visível ao atirador.

– O que será que ele está fazendo? – perguntou-se. – Bom, não importa. Essa é a minha melhor chance de terminar logo com isso. Já esperei tempo demais parado nesta janela.

Mirou então seu rifle exatamente na cabeça de seu alvo. Colocou o dedo no gatilho, prendeu a respiração por alguns segundos e atirou.

Mas algo imprevisível aconteceu, e o tiro não atingiu a pessoa ao qual era destinado.

No mesmo instante em que o velho matador atirou, o homem o qual tentara matar se levantou e ao seu lado surgiu uma criança, uma garotinha que aparentemente era sua filha.

A bala a atingiu na têmpora direita, fazendo seu sangue espirrar em todas as direções, inclusive na roupa de seu pai. Sua morte foi instantânea e indolor, e em poucos segundos seu corpo caiu, inerte, no chão.

O homem soltou um grito de horror e tristeza tão alto que pôde ser ouvido do apartamento do atirador. Ajoelhou-se ao lado da filha e acariciou seu rosto mutilado. Depois abaixou o rosto sobre o peito da garota e mergulhou num choro incontrolável. Um dos seguranças tentava, sem sucesso, retirá-lo do local, enquanto o outro empunhava uma arma e olhava para os lados incessantemente à procura do assassino. As pessoas que passavam começaram a se agrupar ao redor para ver a cena do crime, a curiosidade vencendo o medo de serem vítimas de novos tiros.

Assistindo a tudo isso, no alto de seu tranqüilo apartamento, o velho ainda tentava acreditar no que fizera.

– U-Uma criança... E-Eu matei uma criança? – ele gaguejou, ainda com o olho fixo na lente de seu rifle, observando o choro desesperado do homem que tentara matar.

Suas mãos tremiam. Tristeza, arrependimento, ódio de si mesmo; vários sentimentos começaram a aflorar e a se combater dentro de seu coração. Nunca em sua longa carreira assassina a velho atirador havia falhado. Sempre atingira suas vítimas, recebera as recompensas e voltara tranquilamente para sua casa onde aproveitava o dinheiro ganho até ser chamado novamente para realizar outro serviço.

Mas dessa vez foi diferente. Falhara, falhara em seu último trabalho. E como conseqüência de seu erro, a vida de uma inocente criança fora tirada.

– Uma criança... – repetiu, levantando-se lentamente e começando a andar sem rumo pelo quarto onde passara a tarde esperando seu alvo.

Então uma lembrança o invadiu. Uma lembrança que fez o frio e experiente assassino chorar.

Lembrou-se de sua filha, uma garotinha que estava prestes a completar 11 anos de idade. Nascera por descuido, fruto de um romance rápido e irrelevante, mas mesmo assim o velho atirador a amava mais profundamente que qualquer outra pessoa em sua vida. Apesar de não vê-la com freqüência, pois a mãe da menina o julgava como uma má influência para a filha, ele sempre cuidou para dar o melhor que podia para sua garotinha. Ela sempre fora seu ponto fraco, um dos poucos resquícios de humanidade em seu frio coração.

E agora ele havia se tornado o assassino de uma criança... Em sua mente não conseguia tirar da imagem da garota morta, e não conseguia ver outro rosto para a garotinha senão o da sua amada filha.

– Eu matei uma criança... E-eu matei minha princesinha... – e, dizendo isso, um choro incontrolável o invadiu, mais desesperado e louco que antes.

Jogou-se ao chão e gritou. Esmurrou o frio piso de madeira para expulsar sua dor e seu ódio, até ser vencido pelo desespero e se deixar cair imóvel.

Ficou alguns minutos assim, com o olhos marejados de lágrimas encarando o chão. Então olhou para o lado, e encontrou a solução para seu sofrimento.

Seu velho e querido rifle, que por tanto tempo o acompanhara, jazia ao lado da cadeira onde há pouco o atirador sentara. Muitas mortes haviam sido causadas por ele, mas agora restava apenas uma vítima para seu gatilho se aposentar.

E a vítima final era seu próprio dono, aquele que por vários anos o manuseara e o disparara em direção a vários homens ricos e importantes que tinham alguma desavença com os chefões do crime.

O velho atirador pegou seu rifle e sentou-se na cadeira. Mirou-o novamente na direção da garotinha morta e viu que vários paramédicos e policiais já estavam no local. Haviam coberto o cadáver com um lençol branco.

Abaixou o rifle e o observou por alguns segundos.

– Adeus companheiro. Parece que nossa hora finalmente chegou – disse tristemente, acariciando sua arma.

Apontou-o então para sua testa, fechou os olhos, puxou o gatilho.

E por dois dias o corpo do velho atirador ficou apodrecendo naquele pequeno quarto até a polícia encontrá-lo.
Guilherme Gurgel
Enviado por Guilherme Gurgel em 23/09/2007
Código do texto: T664642
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Sobre o autor
Guilherme Gurgel
São Luís - Maranhão - Brasil, 28 anos
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Guilherme Gurgel