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Perseguição

A noite nublada e gélida chegava rapidamente. Ana andava pela avenida principal, sozinha, com frio e pressa. As casas antigas cercavam-na e produziam sombras fantasmagóricas sob a luz dos postes. Ana caminhava, com passos largos e decididos. Não sabia ao certo para onde estava indo, apenas seguia, ainda assustada com os recentes acontecimentos. O som que seus passos produziam ao tocar as pedras geladas era o único ruído que podia ser escutado em toda a rua. O vapor que subia das bocas-de-lobo declarava que o frio era intenso. As mãos da garota estavam geladas, seus olhos vermelhos, sua respiração arfante e enfumaçada e por todo o lugar que andava um horrível cheiro de sangue parecia acompanhá-la. Ela andava sem rumo, abalada, seus pensamentos fervilhavam, lembrando-se a todo instante das vozes de pavor, dos gritos assustados e da nota de medo presente naquela voz feminina, naquela voz estranhamente conhecida, que há pouco havia escutado.
Ana vestia um grosso casaco de lã vermelho por sobre a roupa, e nos pés usava um par de sapatos pretos, velhos e surrados que lhe foram dados de presente por sua mãe, carregava nos braços uma pasta com o material da aula de pintura. Seguia caminhando, confusa, vencendo com esforço o frio que perpassava a longa avenida, tentando em vão lutar contra seus próprios pensamentos. Não sabia o que devia fazer nem para onde correr, sua única vontade era livrar-se do peso na consciência, do peso de, talvez, ter sido parte de um crime.
A noite caiu e Ana, ao virar a esquina, viu-se completamente solitária na ruela, como se fosse a única habitante da cidade que tivesse se atrevido a sair de casa numa noite gelada como aquela. Mas a garota, sentindo a culpa pesar-lhe sobre os ombros, não sentia vontade de ir para casa.  De repente, Ana escutou, e não apenas escutou, também sentiu, que seus pés já não eram os únicos que caminhavam sobre a rua.  Seguiu em frente, com a cabeça baixa e apressou o passo, com a certeza de que sua casa segura e quente, era o melhor lugar para dirigir-se agora.
No entanto, os passos pareciam mais próximos dela, na medida em que Ana caminhava também se deslocavam, em passos apressados, os pés do indivíduo que a seguia. Ou talvez fosse apenas o eco da movimentação de Ana, talvez fosse apenas impressão sua... Contudo, o barulho ia crescendo e parecia pertencer a sapatos de salto, de uma mulher, provavelmente. O medo começou a tomar conta da garota, ela sentia que suas pernas eram demasiado curtas para suportar tamanha caminhada, num ritmo tão acelerado.
Mas a situação a fez continuar naquela marcha apressada. Sem olhar para trás uma única vez, ela apenas continuou andando. O desconhecido agora a seguia de muito perto. O medo fez com que a garota começasse a imaginar situações improváveis. Já não sabia se realmente estava sendo seguida, ou se os passos eram, de fato, fruto de sua imaginação. Não sabia se o ser tinha forma humana, ou era um espírito, mutante, espectro. Não sabia, e o pavor de olhar para trás deixou-a sem saber. O pavor e a incerteza levaram-na a seguir caminhando, tensa e assustada. Ela passava agora em frente a uma grande livraria, mas tudo parecia fechado, não havia ninguém na rua, a cidade parecia morta. E o seguidor chegou perto, perto o suficiente para que Ana pudesse enxergar sua difusa sombra na calçada. Iluminado pelas luzes do poste o ser parecia ter uma aparência bestial, talvez não tivesse cabeça, talvez tivesse três braços. Ana pode sentir o calor do corpo do indivíduo, tamanha era a proximidade entre os dois corpos e o cheiro de sangue voltou a penetrar-lhe as narinas. O medo congelou-lhe as entranhas, mais do que o próprio frio, e agora o cérebro não mais coordenava as pernas. A garota, ao invés de correr, apenas caminhava, sem mais se lembrar para onde estava indo. Como se o ser ou coisa que a estava seguindo, tivesse-a hipnotizado, impedindo-a de encontrar o final da rua.
De súbito, lembrou-se de um beco, próximo a Igreja, aonde poderia esconder-se. Correu, correu como se estivesse libertada, deixando o suspeito indivíduo para trás. Percorreu uma quadra, esgueirando-se atrás de postes, sombras, latas de lixo. Finalmente, numa entrada a direita, encontrou o beco. Os passos agora pareciam distantes, perdidos em algum lugar da ruela. Ela adentrou o beco escuro, dirigiu-se a um canto abarrotado de caixas que fediam a peixe. Ali ficou, sentada, atenta a qualquer movimento na rua adiante. Mas nada aconteceu. O bicho, mutante ou espírito que a estava seguindo não apareceu, os passos cessaram, morreram na escuridão. Mas o medo ainda a possuía, impedindo-a de sair do beco. Lá ficou, aguardando a coragem chegar para poder, então, correr para casa. Encolheu-se com frio num canto, e começou a questionar-se sobre os estranhos acontecimentos daquela noite. Foi então encaixando as peças do quebra-cabeça, uma a uma. Primeiro as vozes de pavor na escuridão, vozes indecifráveis, o barulho de um objeto cortante e aquele cheiro de sangue que a perseguira durante a fuga e ainda continuava presente. Tentou com esforço lembrar-se de detalhes, mas não conseguia, sabia apenas que havia saído da escola de Artes, como se estivesse fugindo, como se algo a tivesse cegado, impedindo-a de agir da forma certa. Como se tivesse feito algo completamente errado.
E agora ela achava-se sozinha em um beco escuro, sem ter certeza de absolutamente nada. Com muito frio e sono. Um sono tão grande que até mesmo aquelas caixas nojentas serviram como cama e travesseiro. Ana adormeceu. Um sono sem sonhos, adormeceu profundamente, como se estivesse em sua casa, rodeada por seus quadros e pinturas e sentindo o doce aroma dos incensos queimados.
A luz do sol perfurou as nuvens e acabou acordando a garota, seus olhos abriram-se e, respirando profundamente, ela sentiu o cheiro de peixe e lembrou-se de onde estava. Olhou em direção a rua que passava em frente ao beco e viu que a movimentação era grande. Levantou e lentamente saiu do esconderijo. O relógio da Igreja anunciava que eram nove horas da manhã. Ana caminhou pela calçada, impressionada com a multidão que por ali andava. Agora que acordara, Ana não entendia como podia ter dormido tanto, tamanho era o barulho da rua.  Prestou atenção ao que as pessoas falavam e pode ouvir que o assunto que estava amedrontando a cidade naquela manhã era um assassinato que havia ocorrido na noite anterior, na escola de Artes. Uma professora fora brutalmente assassinada a facadas. O corpo jazia imóvel no saguão do antigo prédio, o assassino havia sumido misteriosamente. Foi então que, novamente, Ana sentiu um cheiro nojento e ao olhar suas vestes, percebeu que elas estavam sujas de um líquido vermelho, que diferenciava-se da cor do casaco. Estavam sujas de sangue. De repente, todos os transeuntes enxergaram-na, como se despertos de um transe. E ela deu-se conta do que havia ocorrido, lembrou-se da faca guardada eu sua pasta, lembrou-se do crime da noite anterior. Ana não pôde gritar, nem correr e, muito menos, teve tempo para defender-se. Fora condenada à forca, considerada uma assassina e os motivos pelo qual cometera tamanha crueldade jamais foram descobertos.
Mel Pê Mendes
Enviado por Mel Pê Mendes em 28/09/2007
Código do texto: T672369
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Sobre a autora
Mel Pê Mendes
Nova Prata - Rio Grande do Sul - Brasil, 28 anos
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Mel Pê Mendes