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Essa estória não aconteceu com a flame eyes. Aconteceu com o Franz. Alto, caucasiano, cabeça raspada.

Chovia muito, como chovia! Apesar de ser verão chovia. Que merda! Queria ir à avenida comprar um Frankfurter (hot dog), mas chovia. E era sábado! Fritei um ovo, com algumas porcarias que tinham em casa. Estava com o meu velho pijama e meus boots surrados, esparramado no sofá, na frente da TV, entediado assistindo o "Quem não chora não mama", programinha de auditório escroto, cheio de gente burra e um apresentador que bem poderia ser peça de museu! O trem passava por cima do meu apartamento, fazendo um barulho insuportável, balançando a casa e tirando do ar a minha única fonte de diversão, era sempre assim. Não me divertia nada aquele tédio, eu só pensava em comer e dormir, como um bicho. Como meu cachorro Helmuth. Criatura estúpida, fábrica de pulgas deitada ao meu lado no sofá, cheirando mal e se coçando.

Eu não agüentava mais. Sentado com o pé no braço do sofá, tirava meleca do nariz e coçava meu saco, bocejava e babava na camiseta do Superlesmas (meu desenho animado favorito). Às vezes caía no sono, era inevitável e Helmuth farejava _ “snif, snif, snif” _ a minha cara, talvez porque eu estivesse roncando muito alto. Ele me lambia à boca e eu o empurrava com nojo:

_Argh! Hel, seu porco!


E ele me olhava com aquela fuça de coitado.


_Ok, seu puto! Volte para o sofá!


Mais lixo entupia a minha cabeça na TV, me fazendo ter mais diarréia mental. Até que ouço um barulho metálico, como latas se chocando. Eu grito, "quem está aí?" E o Eliot corre para a cozinha latindo desgovernado.


_Hel, seu veadinho! Me espera!_Grito, também correndo para o cômodo.

Quando chego esbaforido na cozinha e olho pela janela, tomo um susto com uma menina de uns dezesseis anos, camisetão do KISS, calça e tênis surrados.



_E aí? Posso entrar para fazer um xixi?

_Ah, não! De onde veio você, maluca?

_Qual é! Eu só quero dar uma mijada, deixa de ser bundão!

_Entra, garota! Mas vê se não fica me alugando! Se eu te pegar roubando alguma coisa daqui, corto a sua mão! Igualzinho a justiça árabe!

_Ih, credo!

_Vai lá, antes que eu mude de idéia!



A moça foi janela adentro. Eu dei as coordenadas para ela, mas sempre no encalço, observando o que a criatura estava fazendo.



_Ai, que quadro lindo. Foi você quem pintou?

_Foi minha mãe, agora anda!

_Puxa, aquelas bonecas russas que ficam uma dentro da outra!

_Tira a mão!



Ela entrou no banheiro. Fiquei atrás da porta esperando o que ela poderia fazer. Finalmente ouvi um barulhinho de água escorrendo pela louça. Ela se demorou mais um pouco, daí eu bati na porta. Ela não atendeu. Bati outra vez, nada. Bati quase tentando arrombar a porta. Ela abre e sai me dizendo "calma, calma!", logo respondo:



_Calma nada, ô maluca! Fica o maior tempão aí no meu banheiro e eu nem te conheço! Sai fora, já te deixei usar o banheiro!



Ela simplesmente ri com uma carinha de safada. Sua risadinha era tão charmosa que perdi o tino, nem sabia mais do quê estava reclamando. Por um segundo me senti até um pouco estúpido.

_Meu nome é Dana._Disse a mocinha.

_Dana? Que mãe em sua sã consciência dá o nome à filha de Dana?_Eu pergunto.

_É mais bonito que o seu, Franz!_Diz, com voz de deboche.

_Ei! Espere aí! Como sabe o meu nome? Eu não te disse, ô excomungada!

_Está escrito na sua carteira!_Ri-se de mim balançando a carteira na mão.

                     Dana saiu correndo como o carro de um piloto psicótico num "pega". Ria-se de mim o tempo todo até que, saiu pela janela novamente e disparou pelo meio da rua um pouco turvada pelo sereno, a noite ainda estava de ressaca pela chuva que havia acabado de desmoronar.
Eu corri em disparado atrás dela, xingava todos os palavrões, xingava até a sua mais antiga ancestral. Ela de bem longe, antes de sumir nas brumas, gritou: ·.
_Não se deve confiar em pessoas que entram pela janela!

E eu pensei ainda com muita raiva: "Ra, ra, ra! Que hilária!” ·O meu sarcasmo era famoso e quando eu a pegasse, eu pensei: "eu iria rir muito daquela palhaça!” ·
 Ainda vejo a sombra dela correndo, nem sei exatamente o caminho que fiz. Sei apenas que transpus (não sei como, não foi por cima, acredite) um muro e me encontrei no outro lado da cidade, totalmente escura, sem ninguém a perambular pelas ruas, pouquíssimos postes acesos, enormes tanques de guerra e uma estátua ostensiva davam um tom macabro àquele lugar. Vejo pequenos pontos de luz que dançam no chão, eles seguem em minha direção errantes. Não posso ficar ali parado esperando algo me acontecer. Corro para detrás de uns tonéis e me escondo tentando não fazer barulho, os policiais parecem passar sem me perceber, mas... _ “Cabrum, brululum!" Eu tinha que fazer alguma besteira._caio sobre uma sacola enorme de lixo e faço um enorme barulho, os policiais se assustam e vem em minha direção. Em um surto eu perco o medo das armas e de todo o resto e jogo os dois no chão com um empurrão (acho que o desespero nos dá coragem). Corro em disparado enquanto eles atiram irados contra mim, eles deveriam ser péssimos atiradores, pois o máximo que conseguiram foi furar a minha roupa. Sem a menor noção de para onde ir, entro em uma escada subterrânea de um galpão muito suspeito. Estou assustado e só pretendo me manter lá até "a poeira abaixar". Sinto uma vibração estranha no lugar onde estou sentado, uma vibração rítmica que me deixa intrigado. A minha curiosidade é maior que qualquer coisa e vou seguindo instintivamente aquilo que poderia ser o som de uma máquina trabalhando, ou coisa igual. Cada vez que me aproximo do som, mais estranho aquilo me parece. Seria música? Abro uma porta e lá está um outro galpão imenso, cheio de pessoas e luzes improváveis, num ambiente que me deixa com vertigem. O som agora era muito alto e sem nenhum nexo, com batidas que me deixavam atordoado.
Aquele som não fazia sentido, mas eu começava a me acostumar, meus dedos úmidos batiam na minha perna sem que eu percebesse e aos poucos aquele barulho ia me dando uma sensação legal. Um mundo de gente se esfregava, se retorcia, pulava e fazia caras e bocas naquele ambiente prazeroso e angustiante. Fui adentrando pelo imenso hall, esbarrando em todos, procurando não sei o quê. Uma mocinha esbarra em mim com força e pede desculpas. Eu olho para o rosto dela, não acredito. É Dana, aquela vagabundinha, aquela pilantra!

_Dana! Sua, sua puta! _ Grito eu seguindo com minhas mãos em direção ao pescoço dela.

_xixxxx! Não fala meu nome aqui, eles podem me encontrar! _ Disse ela tapando a minha boca.

_Dane-se! Para quem for eu te entrego agora mesmo! Que você apareça amanhã com a boca cheia de formiga! Eu mesmo estou querendo te porrar! _Respondi com todos os meus sentimentos.

_Ok, machão. Agora não dá para explicar. Venha comigo, eu vou te devolver o dinheiro. Aquela FORTUUUNAAA! Rá, rá, rá! _Respondeu ela com aquela carinha nojenta e debochada que sempre teve.

Corremos em direção à saída do lugar. Eu não fazia a mínima idéia do porquê estava correndo, mas Dana sabia muito bem. Não me dizia uma palavra, segurava a minha mão e me rebocava salão a fora. Eu podia ter escapado, soltado a mão dela, mas aquele clima de suspense e perseguição atiçava a minha curiosidade. Eu sentia um misto de medo e tesão, que subia por minhas pernas e gelava em minha barriga. Óbvio que aquilo não era uma brincadeira nem segura nem saudável, mas era uma brincadeira divertida, não sei até que ponto...
Na porta de saída do lugar, Dana olha além de mim com um olhar de pavor. Não sei o que há. Ela se joga contra a parede com uma rapidez incrível e, em seguida, me puxa para cima dela beijando a minha boca enfaticamente. MUUUIIITOOOO ENFÁTICA... Eu digo apenas "Uau!", ela me manda calar a boca e solta um palavrão que nem eu sabia que existia. A louca me puxa pela mão novamente, me carregando clube a fora. Pela rua corro novamente, mas agora sendo puxado por Dana pelas mãos. À mercê dela. Não sei que horas são, mas deve ser muito tarde. Não me importa, não há ninguém me esperando em casa, a não ser o Helmuth. Ele já comeu, deve estar dormindo agora...
Dana me dá um puxão no braço que quase caio na lama, nos viramos num beco e seguimos em direção a parte mais escura dele; não há nada, apenas uma gatinha que acaba de ter uma ninhada. No fim do beco há uma porta de ferro que dá para um outro galpão. Dana abre a porta e é lá mesmo que entramos. Ela acende um isqueiro para iluminar o lugar, há escadas à nossa frente. Descemos. Nos deparamos com um lugar que parecia um quarto, percebo que possivelmente é o quarto da moça, lá entramos. Então, Dana me diz o seguinte:

_Franz, está aqui a sua carteira. Eu tinha que fazer isso para que você viesse até aqui sem hesitar e sem lembrar por onde passou. Precisamos de sua ajuda.

_ “Precisamos", quem?

_Escute. Eu lhe apresento o pessoal depois. Precisamos que você leve uma pessoa a Rouen de forma discreta. Somente VOCÊ pode cumprir esta tarefa.

_Você está maluca, garota? Que levar pessoa para Rouen que nada! Vou receber uma graninha por isso?

_Sim, você vai ser beneficiado. Ganhará também de graça as passagens de trem e amanhã mesmo não se lembrará de nada. Eu lhe injetei um soro de amnésia, você tem exatamente 15 horas para completar essa tarefa antes de se esquecer de tudo. É importante que seja assim. Se se sentir acuado, tome estas pílulas. Vão te tranqüilizar tanto que você sentirá num piquenique de domingo.

_ “Pílula", "soro"? O quê mais você colocou em mim? Estou te entendendo direito ou já estou doidão? Você é louca!

_Não são drogas para te deixar alucinado, mas para te deixar consciente. Enquanto a ser louca... Bom, talvez eu seja mesmo, gatinho...

                     Ela me vira as costas e sai andando, quando está bem longe me pergunta se não vou atrás dela. Eu hesito, faço cara de desespero, mas a curiosidade me vence novamente. Descemos mais escadas e nos deparamos com uma sala de luz predominantemente verde. Há umas figuras mal-encaradas dentro que me olham de cima a baixo como um raio X. Me deixam um pouco acuado. Um sujeito baixinho cochicha no ouvido de Dana alguma coisa e faz gestos fortes como se estivesse irritado. Ela, com calma, conversa com o franzino e o convence a vir falar comigo. Dana se vira para mim e diz:

_Franz, este é Gustav. Ele é o mentor da RESISTÊNCIA BRITADEIRA. Precisamos que você o leve para Rouen.

_Por que logo EU, Dana?_Pergunto desesperado.

_É mesmo, Dana. Por que ELE?_Pergunta irônica uma voz fina infantil.

_Por que não VOCÊ, Franz? Você era o único acordado a essa hora, a ligação mais próxima que tínhamos do outro lado, um cara sem mulher nem filhos ou parentes distantes. Por que me deixou entrar na sua casa? Outra pessoa teria chamado a polícia. Por que me seguiu até aqui? Olhe só a marca em seu braço. Você, ingênuo Franz, você não é de lá...

_Babaquice, garota! Brincadeira de mal-gosto! Isso que dá, essa minha curiosidade, tenho que escutar viagem errada desses drogadinhos de merda! E você, garoto? Está fazendo o quê aqui? Não já é hora de você estar em casa? Cadê a sua mãe?_Atiro, com a minha metralhadora/língua atiradora de facas, para todos os lados.
_Eu não tenho mãe, Franz. Aliás, nenhum de nós têm. Nossos pais foram mortos pelo 1º regime, somos os rejeitados da sociedade. Pela lei, não temos o direito de existir.
_Interrompeu o garotinho, fazendo todos calarem.

...E Dana rompe o silêncio dizendo:

_Por isso precisamos que você leve Gustav para Rouen. Lá ele poderá denunciar O REGIME para todos os jornais do continente e conseqüentemente do mundo, buscando ajuda da Rosa Azul que nos libertará do REGIME. Ou, pelo menos, com Gustav exilado em um país neutro, temos a esperança de que a RESISTÊNCIA continuará.

_Onde está sua mãe, Franz?_Outro menino um pouco mais velho que Gustav me pergunta, dando um nó ainda maior em minha cabeça.

_Minha madrinha me disse que ela estava em um continente ocidental, eu não sei. Eu não sei..._Eu respondi qualquer coisa, mas realmente não sabia. Nunca havia recebido cartas dela, ou coisa parecida.

A única lembrança de minha mãe era a marca de cisão no braço esquerdo que ela também tinha. Mas, o que mais? Até então nada... Talvez eu tenha tido sorte. Seria eu um REJEITADO também? No momento tudo se embaralhava na minha cabeça e eu sentia uma vontade enorme de chorar, gritar e me rasgar todo, queria que Helmuth estivesse do meu lado agora, minha única família... A única coisa que consegui dizer para esboçar meu sentimento foi "merda", sentei-me no chão, abaixei a cabeça e repeti até cansar "merda, merda, merda, merda, merda, merda...".


"O que é mais importante para uma pessoa que o direito dela de nascer, viver e ser? O que é mais importante que a minha subjetividade e dignidade? Quem pode me tirar isso? O REGIME tenta transformar pessoas em números, fazer seres perfeitos. Mas se a imperfeição existe, quem disse que ela também não é perfeita? Somos os sem mãe, sem tetos, sem amor. Somos os mal-nascidos ou os Não-nascidos, filhos da margem da periferia e das classes inúmeras, e das tribos, etnias, opções, ou seja lá o que for. Quem somos?"

Li este texto escrito com Pilot vermelho na parede, de certo é uma dúvida minha também. Quem sou eu? Quem são eles? Quem é o REGIME? Deitei-me no chão gelado, ainda chorava. Babei toda a minha camiseta e por ali mesmo eu dormi. Depois de algum tempo, uma figura de uns dez anos de idade me cutuca dizendo que o café da manhã está pronto:


_Acorda, acorda, garoto, acorda! O café está pronto!

_Ahn? Ah, tá... Zja (sic.) vou... _Respondi ainda dormindo.


O garoto insistiu em me cutucar para que eu acordasse:


_Acorda, garoto!

_Cala a boca! Que saco! _Respondo de péssimo humor.

_Deixa ele, Max, Franz precisa descansar._Ordena a voz de Dana um pouco longe.


De birra com a minha "amiga", acordo no exato momento em que ela termina a frase, vou direto para a saleta do café dizendo que "já estou descansado e muito bem, obrigado!”.

_O que é isso?_Pergunto me referindo à bebida que está na mesa.

_É a bomba: Café, leite e uma colher de Vodka. Nos mantém quentes e bem acordados. Você quer?

_Não, obrigado. Prefiro água._Recuso horrorizado _As crianças também bebem isso aí?

_Sim. Vai por mim, você vai precisar muito disso lá fora e a água daqui não é muito aconselhável antes de tratar, não.

_Acho que vou me arriscar... Blarg! Essa água vem de onde? Da privada, é?

_Quase, vem do rio. Passou só por uma filtragem leve. Você é corajoso, heim! Vamos, tome um pouco disso aqui, vai te fazer vomitar até os rins, mas pelo menos não vai se revirar todo de dor de barriga e de cabeça à noite.

_Onde está o Franz?_Pergunta Gustav, recém chegado na sala.
Dana apenas aponta para o banheiro fazendo cara de nojo.

_Experimentou a especialidade da casa, garotão?_Gustav ri-se de mim.
Depois de recomposto do mal-estar, volta à sala do café. Max, o chatinho, me dá uma barra de cereais nutritiva que eles tinham guardado na dispensa e, ao que me parece, haviam esquecido por lá. Eu crio coragem e tomo um pouco daquela "bomba" suspeita. A maior parte dos meninos está na outra sala brincando. Estou apenas com Gustav e Dana naquela mesma sala:

_E então, o que devo fazer exatamente?_Pergunto a Gustav e a Dana.

_Dana, faça as honras._Diz Gustav com um ar de mestre ninja.

_Franz, é muito simples: vamos lhe dar um carro, duas passagens de trem, apenas de ida e uma conta bancária que você poderá usar apenas uma vez; documentos falsos, uma falsa certidão de nascimento para Gustav e uma autorização tutelar para que você o leve para fora do país; uma certidão de óbito falso da mãe de vocês e do pai também, uma reserva num hotel de bom nome e as senhas importantes para que você possa prosseguir nessa missão sem riscos.

Dana ia me explicando todo o procedimento e eu a ouvia atentamente, sabia que aquela estava para ser a coisa mais importante que eu iria fazer em toda a minha vida. Mas eu ainda estava temeroso de não conseguir completar a missão...

Final I

A minha história não tem final, tudo vai acontecendo, talvez não na ordem em que conto, mas de certo enquanto ainda respiro. Tudo mudou naquela noite chuvosa em que aquela garota aparentemente sem significância nenhuma entrou em minha casa e em minha vida, coisas que nunca imaginei. Talvez um dia eu compreenda melhor. Agora eu apenas busco por respostas, pois as perguntas foram todas lançadas no ar como um jogo de varetas igual ao que eu brinco com os meninos da RESISTÊNCIA... O que sou eu? Ninguém encontrará esta resposta para mim...

_Está frio aqui fora, não é?_Comento com a voz tremida, que quase não sai de minha boca.

_(...) A Dana me pediu para te dar esse gorro. Acho que ela gosta de você..._Me fala Gustav, mudando de assunto. _Está quase na hora, Franz. Está quase na hora... Não quer mesmo se despedir de Dana?

_Não. Prefiro assim: sem despedidas, sem choro. Tenho meus motivos.

_Eu entendo...

                 São quase meia noite. Me estremeço todo, agora não sei se de frio ou de receio de que alguma coisa não dê certo. Helmuth ficará aos cuidados de um dos resistentes, espero que o trate bem. A minha vida toda parece ter se resumido àquele momento. Parece que a minha vida começa nesse ponto, um marco inicial. O que haverá para mim depois de hoje?

                   Meia-noite. O trem chega na estação, a hora é essa. Minha barriga esfria tanto que o frio daquela noite não me faz mais efeito. Não há mais como retroceder. Minha nossa! Isso está acontecendo comigo realmente ou é só um sonho? É tão inacreditável! Logo eu, um cara comum, de um bairro comum, sozinho por natureza, que vive uma vida tão banal de comer, defecar, dormir e acordar.

_Vamos, Franz, Pegue os tickets.

_Não sei se posso fazer isso, Gustav. Não sei se vou conseguir.

_Agora você quer retroceder? Você podia não ter topado, Liandro, já está em sua casa, um sem-número de pessoas estão dependendo de sua boa vontade. Por favor, Franz! Não vai dar para trás agora, não é?

                     O trem solta os freios. O maquinista faz a última chamada para todos subirem a bordo. Ainda reluto para subir no vagão. Gustav pela primeira vez me olha emocionado pedindo para que eu suba. O trem começa a partir, Gustav me grita com sua vozinha de criança "VEM!". Por um momento eu penso em dar as costas. Ainda estou com medo.
Do nada me vem uma coragem, "eu não posso ser um covarde a minha vida toda", penso. Corro para alcançar a embarcação que vai ganhando mais velocidade. Pulo no primeiro vagão que consigo alcançar. Tudo fica preto. Minha vista não enxerga mais nada, não sei mais onde estou...

"Querida Martha,
Houve um pequeno grande problema comigo, espero que me compreenda um dia.
Todos esses dias foram emocionantes por demais para mim. Estou confuso até agora, qualquer um no meu lugar ficaria e sabe bem disso. Não vou lhe importunar muito, pois sei que já estará brava comigo ao término dessa carta. Sendo assim, serei breve.
Tive um mal-estar costumeiro antes de entrar no trem com Marco, estava muito nervoso, como disse e realmente hesitei em embarcar. Estou com uma luchação no braço direito e escoriações nas duas pernas, preciso de tratamentos. Se não for incômodo, providencie isso para mim.
A propósito, Rouen é uma cidade linda. Nunca vi igual. Queria que você estivesse aqui conosco.

P.S. : Marco está te mandando um enorme beijo. Mandou-me dizer também que as rosas que plantamos em Rouen estão crescendo bem rápido.

Com amor,
Dan"

Final II

Algo me parece estranho. No verão essa noite tão fria? A minha intuição me diz que essa noite não será nada boa, mas, com todos esses acontecimentos absurdos desses últimos dias, o que mais tenho a perde? Pelo menos poderei saber do paradeiro de minha mãe. Estúpido! Como nunca questionei o que a minha madrinha me dizia? Sempre me dizendo que mamãe iria voltar. Talvez esteja morta. Será que essa suposta madrinha é quem ela diz ser realmente? Será que tem algum grau de parentesco comigo? Quem eu sou? Será que sou mais um renegado dessa sociedade enganadora? Merda! Merda! Merda! Merda! Por que estou vivo até hoje? Eu não pedi para nascer em nenhum lugar...



_Está frio aqui fora, não é?_Comento com a voz tremida, que quase não sai de minha boca.

_(...) A Dana me pediu para te dar esse gorro. Acho que ela gosta de você..._Me fala Gustav, mudando de assunto. _Está quase na hora, Franz. Está quase na hora... Não quer mesmo se despedir de Dana?

_Não. Prefiro assim: sem despedidas, sem choro. Tenho meus motivos.

_Eu entendo...



                 São quase meia noite. Me estremeço todo, agora não sei se de frio ou de receio de que alguma coisa não dê certo. Helmuth ficará aos cuidados de um dos resistentes, espero que o trate bem. A minha vida toda parece ter se resumido àquele momento. Parece que a minha vida começa nesse ponto, um marco inicial. O que haverá para mim depois de hoje?

_Ok, Franz. Está pronto? Quando entrarmos naquele trem você será meu irmão mais velho me levando até a casa de nossa avó...

                    Meia-noite. O trem chega na estação, a hora é essa. Minha barriga esfria tanto que o frio daquela noite não me faz mais efeito. Não há mais como retroceder. Minha nossa! Isso está acontecendo comigo realmente ou é só um sonho? É tão inacreditável! Logo eu, um cara comum, de um bairro comum, sozinho por natureza, que vive uma vida tão banal de comer, defecar, dormir e acordar. Minha intuição continua me alertando e faz doer a minha barriga. Alguma coisa está muito errada. Tenho a estranha sensação de que alguém está nos vigiando.

_Vamos, Franz, Pegue os tickets.

_Não sei se posso fazer isso, Gustav. Não sei se vou conseguir.

_Agora você quer retroceder? Você podia não ter topado, Liandro, já está em sua casa, um sem-número de pessoas estão dependendo de sua boa vontade. Por favor, Franz! Não vai dar para trás agora, não é?

Uma voz vinda de trás de nós grita energicamente:

_Parados!

                    Gustav não diz nada, apenas levanta a mão tentando interpretar uma calma que não conseguiria ter. Eu estou desesperado, mas como Gustav, apenas levo as mãos na cabeça. Eu sabia que algo daria errado, aquilo tudo era muito estranho para um dia só.

_Vocês vieram nos buscar de novo? Podem me levar, mas existem vários outros à solta por aí. Vocês não conseguirão nos deter._Afirma Gustav, sem nenhuma expressão, mas deixando lágrimas escorrerem de seus olhos.

O policial, como enfadado responde a Gustav:

_Está bem, Gustav. Permaneça imóvel. Eu vou até aí buscar você e seu amigo Franz. É esse o nome dele? Franz, uma pessoa quer falar com você:

_Franz, você enlouqueceu? Hoje fui ao seu apartamento, está uma bagunça! Helmuth está sem comida há dois dias, pobre bichinho!

_Dinda?_Pergunto muito surpreso.

_Não, Franz! Não os deixe te enganar! Eles são a polícia do REGIME! Eles querem me matar e prender você em St. Luka também! Eles querem te levar para o inferno!_Agora Gustav, se expressa transtornado.

_Franz, o que você sabe sobre St. Luka?_Pergunta o policial com toda calma do mundo.

_Não é um sanatório famoso das redondezas?

_Sim, Franz. É o sanatório para crianças que sofreram traumas muito grandes. Mantemo-nas lá até se recuperarem ou até chegarem à maioridade, quando se tornam adultos encaminhamo-nas para outros sanatórios da cidade._Me explica o policial.

_Não!_Grita Gustav, chorando e se jogando no chão._Vocês vão me matar! Igualzinho fizeram com meu pai!

_O pai de Gustav era um sindicalista, uma espécie de revolucionário do país que aos poucos foi perdendo o senso de realidade. O homem foi pego pela polícia com bombas dentro de uma mala preta. Ele não quis se entregar e ameaçou explodi-las onde estava, no meio da rua. Tivemos que atirar para matar._Continua a explicar o policial._Gustav viu tudo. Agora pensa que é um revolucionário como o pai. Ele não acredita que o pai tenha sido um terrorista, acha que foi tudo armação do governo. Enfim, uma teoria da conspiração sem propósito.

_Não, Franz! Não acredita nele, por favor!_Gustav me implora se agarrando às minhas pernas.

_Gustav, você têm que ir para St. Luka. Eles vão te dar um lar. Você poderá ter uma vida normal um dia.

O policial pegou Gustav do chão e foi carregando-o até a ambulância. Gustav chorava inconformado. Minha madrinha colocou a mão sobre meus ombros, tinha um olhar de pena. Ela me disse:

_Eu entendo, não é fácil ser sozinho. Vamos para casa, Franz.

E eu apenas voltei, sem nada questionar. Para a minha realidade vazia, triste e banal.

Final III

Algo me parece estranho. No verão essa noite tão fria? A minha intuição me diz que essa noite não será nada boa, mas, com todos esses acontecimentos absurdos desses últimos dias, o que mais tenho a perde? Pelo menos poderei saber do paradeiro de minha mãe. Estúpido! Como nunca questionei o que a minha madrinha me dizia? Sempre me dizendo que mamãe iria voltar. Talvez esteja morta. Será que essa suposta madrinha é quem ela diz ser realmente? Será que tem algum grau de parentesco comigo? Quem eu sou? Será que sou mais um renegado dessa sociedade enganadora? Merda! Merda! Merda! Merda! Por que estou vivo até hoje? Eu não pedi para nascer em nenhum lugar...

_Está frio aqui fora, não é?_Comento com a voz tremida, que quase não sai de minha boca.

_(...) A Dana me pediu para te dar esse gorro. Acho que ela gosta de você..._Me fala Gustav, mudando de assunto. _Está quase na hora, Franz. Está quase na hora... Não quer mesmo se despedir de Dana?

_Não. Prefiro assim: sem despedidas, sem choro. Tenho meus motivos.

_Eu entendo...

São quase meia noite. Me estremeço todo, agora não sei se de frio ou de receio de que alguma coisa não dê certo. Helmuth ficará aos cuidados de um dos resistentes, espero que o trate bem. A minha vida toda parece ter se resumido àquele momento. Parece que a minha vida começa nesse ponto, um marco inicial. O que haverá para mim depois de hoje?

_Ok, Franz. Está pronto? Quando entrarmos naquele trem você será meu irmão mais velho me levando até a casa de nossa avó...

Meia-noite. O trem chega na estação, a hora é essa. Minha barriga esfria tanto que o frio daquela noite não me faz mais efeito. Não há mais como retroceder. Minha nossa! Isso está acontecendo comigo realmente ou é só um sonho? É tão inacreditável! Logo eu, um cara comum, de um bairro comum, sozinho por natureza, que vive uma vida tão banal de comer, defecar, dormir e acordar. Minha intuição continua me alertando e faz doer a minha barriga. Alguma coisa está muito errada. Tenho a estranha sensação de que alguém está nos vigiando.

_Vamos, Franz, Pegue os tickets.

_Não sei se posso fazer isso, Gustav. Não sei se vou conseguir.

_Agora você quer retroceder? Você podia não ter topado, Liandro, já está em sua casa, um sem-número de pessoas estão dependendo de sua boa vontade. Por favor, Franz! Não vai dar para trás agora, não é?

Uma voz vinda de trás de nós grita energicamente:

_Parados! Gustav não diz nada, apenas levanta a mão tentando interpretar uma calma que não conseguiria ter. Eu estou desesperado, mas como Gustav, apenas levo as mãos na cabeça. Eu sabia que algo daria errado, aquilo tudo era muito estranho para um dia só.

_Vocês vieram nos buscar de novo? Podem me levar, mas existem vários outros à solta por aí. Vocês não conseguirão nos deter._Afirma Gustav, sem nenhuma expressão, mas deixando lágrimas escorrerem de seus olhos.

O policial, como enfadado responde a Gustav:

_Está bem, Gustav. Permaneça imóvel. Eu vou até aí buscar você e seu amigo Franz. É esse o nome dele? Franz, uma pessoa quer falar com você:

_Franz, você enlouqueceu? Hoje fui ao seu apartamento, está uma bagunça! Helmuth está sem comida há dois dias, pobre bichinho!

_Dinda?_Pergunto muito surpreso.

_Não, Franz! Não os deixe te enganar! Eles são a polícia do REGIME! Eles querem me matar e prender você em St. Luka também! Eles querem te levar para o inferno!_Agora Gustav, se expressa transtornado.

_Franz, o que você sabe sobre St. Luka?_Pergunta o policial com toda calma do mundo.

_Não é um sanatório famoso das redondezas? _Sim, Franz. É o sanatório para crianças que sofreram traumas muito grandes. Mantemo-nas lá até se recuperarem ou até chegarem à maioridade, quando se tornam adultos encaminhamo-nas para outros sanatórios da cidade.

_Me explica o policial.

_Não!_Grita Gustav, chorando e se jogando no chão._Vocês vão me matar! Igualzinho fizeram com meu pai!

_O pai de Gustav era um sindicalista, uma espécie de revolucionário do país que aos poucos foi perdendo o senso de realidade. O homem foi pego pela polícia com bombas dentro de uma mala preta. Ele não quis se entregar e ameaçou explodi-las onde estava, no meio da rua. Tivemos que atirar para matar._Continua a explicar o policial._Gustav viu tudo. Agora pensa que é um revolucionário como o pai. Ele não acredita que o pai tenha sido um terrorista, acha que foi tudo armação do governo. Enfim, uma teoria da conspiração sem propósito.

_Não, Franz! Não acredita nele, por favor!_Gustav me implora se agarrando às minhas pernas. _Gustav, você têm que ir para St. Luka. Eles vão te dar um lar. Você poderá ter uma vida normal um dia.

O policial pegou Gustav do chão e foi carregando-o até a ambulância. Gustav chorava inconformado. Minha madrinha colocou a mão sobre meus ombros, tinha um olhar de pena. Ela me disse:
_Eu entendo, não é fácil ser sozinho. Vamos para casa, Franz.
Ponho a mão sobre a mão de minha madrinha que está sobre o meu ombro, algo ainda me parece estranho nessa história. Eu peço para a minha madrinha:

_Deixe eu me despedir do Gustav?

_Não, não, não! Estamos atrasados. Nosso trem parte daqui a pouco. O seu pai deve estar nos esperando.

_Meu pai morreu há anos, Gretchen!

_Ahn...Eu disse pai? Não, o Fridz, me atual noivo! Ele está nos esperando!

_Sei...

Faço um giro e consigo fugir das mãos de Gretchen, vou correndo em direção à ambulância. O policial batia em Gustav. Gretchen vinha em nossa direção, ela já havia pedido reforços pelo rádio. Tentou me agarrar à força, eu dava cotoveladas em sua barriga. Quando ela se distraiu tentando segurar meu braço, saquei a arma que estava no coldre presa em sua calça. Bum, bum, bum! Dou três tiros no policial. Gretchen tentou me agarrar novamente, mas eu acertei um tiro na barriga dela. Gustav sai chorando da Van.

_Gustav, se você é louco eu sou mais._Digo a ele, não acreditando no que eu mesmo tinha acabado de fazer.

            Avistamos o trem ainda na estação. Não há mais pessoa embarcando, o trem irá partir. O trem solta os freios. O maquinista faz a última chamada para todos subirem a bordo. Ainda reluto para subir no vagão. Gustav pela primeira vez me olha emocionado pedindo para que embarquemos. Ele é o primeiro a subir.O trem começa a partir, Gustav me grita com sua vozinha de criança "VEM!". Do nada me vem uma coragem, "eu não posso ser um covarde a minha vida toda", penso. Corro para alcançar a embarcação que vai ganhando mais velocidade. Pulo no primeiro vagão que consigo alcançar. Tudo fica preto. Minha vista não enxerga mais nada, não sei mais onde estou...

"Querida Martha,
Houve um pequeno grande problema comigo, espero que me compreenda um dia. Todos esses dias foram emocionantes por demais para mim. Estou confuso até agora, qualquer um no meu lugar ficaria e sabe bem disso. Não vou lhe importunar muito, pois sei que já estará brava comigo ao término dessa carta. Sendo assim, serei breve. Tive um mal-estar costumeiro antes de entrar no trem com Marco, estava muito nervoso, como disse e realmente hesitei em embarcar. Estou com uma luchação no braço direito e escoriações nas duas pernas, preciso de tratamentos. Se não for incômodo, providencie isso para mim. A propósito, Rouen é uma cidade linda. Nunca vi igual. Queria que você estivesse aqui conosco. P.S. : Marco está te mandando um enorme beijo. Mandou-me dizer também que as rosas que plantamos em Rouen estão crescendo bem rápido.

Com amor,
Dan"
Flame eyes
Enviado por Flame eyes em 09/10/2007
Código do texto: T687343

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Sobre a autora
Flame eyes
Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil, 31 anos
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