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A Cidade

 
  Andava por aquela cidade como se visse um filme na sua cabeça. A cada local que passava reconhecia alguma coisa que havia deixado para trás. Eram 4:03 da tarde enquanto ele chegava atrás do seu antigo colégio. Era domingo, não tinha aula. O local estava bastante deserto.
 
  Acendeu um cigarro e começou a andar em volta da escola que ficava na esquina de um quarteirão mais ao sul da cidade. Olhava cada centímetro daquele prédio e daquela área. A cada local que olhava lembrava-se de um acontecimento marcante.

  O contratado suspirou e olhou para o relógio que marcava 4:10 pm. Tinha um encontro dali a vinte minutos. Chegara bem antes propositalmente para olhar sua antiga escola. Já fazia mais de um ano que não voltara para sua cidade. Observava o rio que cortava a cidade e via o gelo derretendo, anúncio da chegada da primavera. A temperatura continuava fria, especialmente naquele dia. O termômetro marcava 5 graus.

  O relógio marcava 4:21 pm. O contratado ouviu os passos daquela que deveria se encontrar, mas não se virou. Ela chamou o seu nome. Ele sacou sua Magnum com silenciador do bolso esquerdo e com a arma em riste virou seu corpo para trás. Agora estava de costas para o rio e de frente com a velha.

  A velha era meio corcunda, loira, branca, bochechas rosadas e um olhar de tristeza, morbidade, estranheza... Ela o olhava com arrependimento, mas sentia também muito amor por aquele homem ali na sua frente. Ele a olhava com pena e um pouco de nojo também. Os olhares profundo se cruzavam como dois trens em colisão. O relógio já marcava 4:44 pm.

  De repente a velha sentiu uma vontade imensa de abraçá-lo. Deu dois passos para frente e quando ele levantou as sobrancelhas em sinal de advertência ela parou. Pela primeira vez o contratado sentia-se nervoso ao segurar sua Magnum. Colocou a mão direita no bolso direito e tirou sua caixinha de metal. Acendeu um cigarro de filtro escuro. Suspirou. A velha estava imóvel, apenas o olhava quando a primeira lágrima desceu dos seus olhos. O contratado deu um suspiro ainda mais longo e profundo, como se quisesse colocar as emoções de volta para dentro. Tragava seu delicioso fumo.

  Os lábios da velha tremiam, tentava falar, mas nada parecia sair. Já não se viam há quinze anos. Até que exatamente quando o relógio marcava 5:00 pm a velha conseguiu dizer:
“Desculpa... eu não quis... jamais... você sabe...”

  O contratado calou a velha disparando dois tiros exatamente no magro ventre dela. Ela caiu no chão vomitando sangue. Caiu de barriga para cima. O contratado ainda a olhou um tempo como se visse um tempo que jamais voltaria. E era o que desejava. Queria apagar aquilo tudo. Colocou a mão no bolso da velha e tirou um molho de chaves. Olhou como se tivesse examinando.
Deve ser esse, pensou ele.

  Colocou o molho no seu bolso esquerdo e depois colocou a Magnum por cima. Deveria aumentar o passo e sair logo. Jogou o corpo da velha no rio e ainda observou por algum tempo. Lá estava ela boiando no rio. E o que um dia fora sua casa durante nove meses estava agora perfurado. O relógio marcava 6:00 pm.

  O contratado saiu em passos largos e apressados.

Malluco Beleza
Enviado por Malluco Beleza em 21/10/2007
Código do texto: T703303

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Sobre o autor
Malluco Beleza
Salvador - Bahia - Brasil, 31 anos
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