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Ele abriu o livro de receitas e começou a procurar desesperadamente uma que fosse rápida e fácil de fazer. Ela já estava chegando. Ela nunca avisava quando vinha, mas por alguma razão ele sempre sabia a hora que ela ia aparecer.
Pegou a manteiga vegetal, o açúcar mascavo, o chocolate, os ovos e a baunilha. E enquanto se dirigia para a despensa parou por um momento no meio da cozinha, ficou escutando o vento. De súbito voltou sua atenção para a despensa e foi pegar o restante dos ingredientes que faltava: a farinha, o fermento e o açúcar. Não tinha tempo a perder, sabia que ela estava mais próxima a cada minuto que se passava.
Fez a massa e mexeu na mão mesmo, nunca havia comprado uma batedeira. Fez os biscoitos e os colocou para assar. Enquanto assava foi para a sala. Olhou pela janela entreaberta e viu uma rua vazia e escura. As suas costas uma porta aberta mostrava um senhor moribundo deitado numa cama de molas. As mãos torcidas e os cabelos brancos estavam evidentes. Estava próximo do fim. E o fim estava próximo.
O vento frio entrava pela janela e congelava sua pele. Sentiu um cheiro estranho. Os biscoitos! tinha esquecido completamente. Correu para a cozinha e tirou a assadeira, eles estavam mais pretos do que deveriam. Botou novos bolinhos de massa na assadeira e a repôs no forno. Fez isso repetidamente até terminar todos os bolinhos.
A porta abriu sozinha. E ele calmamente foi até a sala para fechá-la, aproveitou e fechou a janela, mas o ar frio continuava reinante na casa. Antes de ir para o quarto do pai, pegou alguns biscoitos na cozinha.
Entrou no quarto em silêncio. Deixou os biscoitos do lado da cama e enquanto apertava a mão do pai fechou os olhos. Não gostava disso, já tinha presenciado a mesma cena com mais dois entes queridos.
Sentiu a mão do seu pai enfraquecer. E ficou na mesma posição por um bom tempo. Sentado no chão de olhos fechados e segurando fortemente a mão sem força do pai.
Ao abrir os olhos viu já o corpo sem vida de seu progenitor. Deu um beijo na mão já gelado de seu pai. E por um momento enfraqueceu. Algumas lágrimas corriam pelo rosto. Tomou coragem e olhou para o rosto da mulher a sua frente, uma mão branca fechava os olhos dele nesse momento.
- Nos encontramos de novo. Já fazem cinco anos não é mesmo?
Cinco anos? Era mesmo. Já faziam cinco anos que viu sua mãe falecer naquela mesma cama. Naquele momento seu pai estava do seu lado, e muito mais biscoitos haviam dentro da vasilha. Mas seu pai não a viu. Seu vestido preto a camuflava na escuridão, mas seu colar de marfim a denunciava.
Nessa noite seu cabelo estava maior, mas o rosto alvo era o mesmo. Ela sorriu e continuou a falar:
- Seus Cookies estão melhores. – E saiu.
Portas e janelas continuavam fechadas, mas ela não precisava delas para sair, só para entrar. Seu perfume continuava no ar.
Ele continuava olhando para o canto em que ela estivera segundos antes. Não reparou que mais da metade de seus biscoitos não estavam mais no depósito. Ainda a imaginava sorrindo para ele, pensava na sua hora, quem faria os biscoitos quando estivesse na cama prestes para receber uma visita dela?
Tantos pensamentos que até esquecera de agradecer por ter acabado com o sofrimento do pai.
Bruno Edson
Enviado por Bruno Edson em 28/10/2007
Reeditado em 02/11/2007
Código do texto: T713307

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Sobre o autor
Bruno Edson
Fortaleza - Ceará - Brasil, 29 anos
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Bruno Edson